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Tenho uma vaga ideia de ter aprendido a tricotar em miúda, com a vovó Ana ou com a avó Celeste ou com ambas. Depois disso, tirando uma tarde em frente à lareira, nunca mais peguei nas agulhas. Lembrava-me pouco mas acho que as minhas mãos lembravam-se mais. Assim que comecei, foi como se nunca tivesse parado. Desde as 21.30 de sábado que sou uma pessoa que tricota. Que leva o seu tricot na mala para se entreter enquanto o puto joga à bola. Que diz para si própria só mais uma volta e páro e depois não pára, é só mais uma e mais outra. Estou a fazer (estou quase a acabar) um cachecol para os miúdos, que é a coisa mais básica entre as básicas, e só sei fazer um ponto (que é liga), mas já tenho na cabeça a minha próxima obra, maior e já com ponto meia, não há de ser assim tão difícil, pois não?

E agora podia fazer aqui todo um discurso sobre objetivos a cumprir e o prazer da superação, mas na verdade isto é só tricot. E tenho-me divertido. Acho que é isso.

publicado às 23:35

Love will tear us apart, Joy Division

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publicado às 22:06

Foi no domingo. A Sónia correu a sua primeira maratona e foi fantástica. A Lina bateu o seu recorde na meia. São um orgulho estas minhas amigas. Foi bom vê-las felizes e também é bom saber que, de alguma forma, mesmo pequenina, eu e a Inês contribuímos para esses sorrisos. Que seja sempre assim. 

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 (Foto: Hug)

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publicado às 10:41

17
Out15

Luaty

Há dias em que o mundo parece um lugar demasiado estranho. São os refugiados que atravessam muros de arame farpado com uma mochila às costas e os filhos pela mão à procura de um país onde possam viver e sonhar. São os vídeos que me caem no facebook - ando sempre a evitá-los mas, de vez em quando, cedo à tentação e depois nunca consigo chegar ao fim de tão agoniada que fico - vindos de algum lugar entre a áfrica e o médio oriente onde há pessoas a morrerem queimadas por outras pessoas, apedrejadas, esfaqueadas, no meio da rua, rodeadas por pessoas (podíamos ser nós) que olham e não fazem nada. É Israel e a Palestina numa guerra onde é impossível dizer quem tem razão. São as atrocidades do Estado Islâmico. É um puto americano ou de outro país qualquer (outro país como o nosso ia eu a dizer) que pega numa arma e desata a dar tiros na sua escola. E ainda nem falei dos muitos sem-abrigo que vivem nas ruas de Lisboa, com as camas feitas por baixo de arcadas, em recantos de lojas, enrolados em cobertores um dia inteiro. A sério. Há dias em que me pergunto o que é que andamos aqui todos a fazer. O que é que eu ando aqui a fazer, entretida com a minha vidinha. Eu a ignorar os vídeos no facebook. A virar a cara para o outro lado na rua. A fingir que não sei. Ou a fazer uns likes num manifestos. A assinar umas petições virtuais para apaziguar a consciência.

E depois há Luaty Beirão. Tem 33 anos e está em greve de fome que é a única forma que, neste momento, tem de lutar contra a ditadura do regime angolano e contra as prisões injustas de um grupo de jovens que sonha com a democracia.

Vejam-no e ouçam-no na entrevista que deu ao Público.

A história está contada magnificamente por José Eduardo Agualusa na edição de hoje do Expresso (quem não comprou o jornal pode ler o texto aqui).

luaty.jpg

O que é que nós podemos fazer por ele? Falar. A minha voz não interessa para nada, é verdade. Mas uma voz é como um voto. Sozinho é inútil. Mas todos juntos somos mais fortes.

Eu não conheço o Luaty mas ele faz-me acreditar. Enquanto houver luatys por aí ainda há esperança de que este mundo ainda possa vir a ser um sitío melhor. 

publicado às 20:50

babylues0.JPGA maneira como as pessoas olham para mim na praia ou nos parques ou mesmo na rua por eu não andar sempre atrás dos meus filhos e deixá-los estar à vontade nas suas brincadeiras às vezes perigosas... (do Baby Blues)

publicado às 10:11

14
Out15

Caracóis

Para quem, como eu, gosta tanto de memórias e de álbuns de fotografias, o livro da Djaimilia Pereira de Almeida, Esse Cabelo, é uma pequena pérola. Hoje, escrevo sobre ele na Máquina de Escrever.

E, a propósito, lembrei-me desta música:

Astrud Gilberto canta Nega do cabelo duro (há outras versões, mas este é o disco que tenho em casa e de que gosto bastante)

publicado às 14:46

Às vezes as pessoas ficam a olhar para mim, muito surpreendidas, a achar que eu devo ser tolinha por não passar a vida a queixar-me - parece que toda a gente passa a vida a queixar-se de tudo e mais alguma coisa, como é que eu posso parecer (quase) sempre feliz e dizer que está tudo bem? A verdade é que quando vivemos situações extremas percebemos como a maioria das lamentações que ouvimos à nossa volta não fazem sentido e isso, ao mesmo tempo, faz-nos ter mais consciência de como tantas vezes também nos queixamos de coisas sem importância. Aprendemos a relativizar. Eu já tinha percebido isso mas nunca tinha encontrado ninguém que o dissesse assim com esta clareza até ler este texto de Sophie Heawood, no The Guardian, onde ela explica algumas coisas sobre isto de se ser mãe sozinha: 

"(..) Living outside the nuclear narrative will create so many jarring moments with others that soon you won’t speak, only nod. You will do The Nod when the nursery sends your kid home with a Happy Father’s Day card that she’s been made to copy her name on to. You will employ The Nod when other mums say they know exactly what it’s like being a single parent because their lovely husband works abroad for up to two weeks at a time. You will employ The Nod when 20 of your friends offer to babysit – three will actually do it and the rest, when they see you at a party, will ask what you have done with the baby, to which you must always reply with these exact words: “I thought I left it at your house?”

Gradually, you will realise that you, too, have made other people do The Nod all your life. That you moaned about your mum to a friend whose mum was dead, that you complained about being skint to friends who’ll never earn what you do, that you phoned in sick with hangovers when a colleague who lives with a chronic pain condition wouldn’t dream of missing work. A lifetime of selfishness will open up before you like a seam. You will watch a friend lose her two-year-old, who dies for no reason in the night, and clutch your own child very, very tightly and thank God that she is here, and that the smell of her hair is such sweetness that even your nostrils are in love with her. She will become your levity and your gravity. You will be more than able to cope."

publicado às 23:29

Descobri, ao ler a Briefing, que o meu filho mais novo quer ser nadador salvador. Aqui está ele com os seus amigos no recreio da escola a posarem para a edição especial de 7º aniversário da revista: 7 crianças de 7 anos a dizerem o que acham da publicidade.

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publicado às 23:28

Uma criada interna, a excelente Regina Casé. Chama-se Val, veio do nordeste para São Paulo para trabalhar e ganhar dinheiro para mandar para a filha, lá longe. Mora no quarto dos fundos, não come o gelado dos patrões e nunca entrou na piscina. E é ela que faz a vida daquela família funcionar. Foi ela que tomou conta de Fabinho quando ele era criança, é ela que leva o cão a passear, é ela que acorda o rapaz, agora já crescido, para ele ir para a escola, que põe a comida na mesa, que tira os pratos, que serve os aperitivos, que faz o que tem de ser feito. É no colo dela que Fabinho continua a procurar consolo quando algo lhe corre mal. Um dia a filha de Val aparece e instala-se ali. Jessica recusa-se a ser tratada como a mãe, pois não é criada da família. Mas também não pode ser tratada como uma visita dos patrões, que não é. Qual é o seu lugar? E como é que a presença dela vai alterar a vida naquela casa? Pode a filha da criada sentar-se à mesa com os patrões e ficar tudo na mesma?

Que hora ela volta? é o filme de Anna Muylaert que está a fazer furor no Brasil. Estreou em Sundance, foi premiado em Berlim e é o candidato brasileiro aos Óscares. É um filme que fala de classes e de consciência de classe. Mas é também um filme sobre o trabalho doméstico. E sobre mães e filhos (o título em inglês é The Second Mother). Parece que vai estrear em Portugal. Eu já vi e digo(-te) que vale a pena.

publicado às 00:32

08
Out15

Palhaços

Ontem à noite fomos ver o Slava Snowshow. Tinha-o visto há já alguns anos (ainda com o Slava original) e achei que os miúdos iam gostar. Não me enganei. É um espetáculo muito bonito, feito de pormenores, como as roupas coloridas e os chapéus dos palhaços, o modo como andam, os pequenos gestos, um arquear de sobrancelhas, momentos quase tocantes de tão belos, mas é também um espetáculo de grandes efeitos, e surpresas, como a teia que se desenrola sobre as nossas cabeças, os palhaços a molharem toda a gente, as bolas gigantes que saltam pela plateia e os milhares de papelinhos à solta, a caírem sobre nós, a fazerem o delírio da pequenada, e que trouxemos enfiados nos sítios mais estranhos entre as roupas. Sim, deitámo-nos um bocado tarde num dia de escola, e lá andámos nós a correr de um lado para o outro no único dia da semana em que até poderíamos jantar com mais calma, mas vê-los de boca aberta, muito atentos, como que encantados, ou a rirem às gargalhadas, tão felizes, vale por isso tudo. 

slava2.jpg

publicado às 19:31

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