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Foi o presidente que marcou as eleições para 4 de outubro, véspera de dia 5 de outubro, dia da república.

Foi o presidente que há dois dias veio dizer que sabia muito bem o que ia fazer no dia 5 de outubro, e que ia viver esse dia com muita "tranquilidade".

E foi o mesmo presidente que ontem disse que não poderia participar nas celebrações do dia da república porque tem de se "concentrar na reflexão sobre as decisões que terá de tomar nos próximos dias".

E, portanto, o presidente da república não vai estar presente na comemoração da implementação da república. Que é assim mais ou menos como uma pessoa faltar à sua festa de aniversário. Mas mais grave porque é o presidente de um país e além de estar a ser desagradável está também a não cumprir um dever.

Sou só eu a achar que isto não faz muito sentido?

publicado às 20:10

02
Out15

Eu voto (2)

Quando nos levantávamos o pai já não estava em casa, já estava a cumprir o seu dever cívico tomando conta de uma mesa de voto. Nas ruas havia desde cedo um movimento incomum para um domingo. Como a nossa casa ficava a caminho da escola, era um burburinho o dia todo, gente para lá e para cá, e nós passávamos o dia à janela a dizer olá e a fazer conversa. Havia pessoas que quase não saíam de casa mas que nesse dia faziam questão de ir, de braço dado com alguém ou com uma bengala, devarinho mas lá iam. Velhotes de chapéu. Gente composta, como a minha avó que se vestia como para um passeio, mesmo só tendo que atravessar uma rua. Punha uma saia nova e um colar e perfume para ir votar, porque uma pessoa não vai votar de qualquer maneira, não é? As pessoas sentiam-se verdadeiramente felizes por poderem participar, sentiam que o seu voto era importante pois tinham na memória, ainda muito frescos, os tempos antigos, da ditadura, do medo, da pobreza, os tempos em que ninguém queria saber a sua opinião, os tempos em que não podiam sequer ter opinião. Talvez por isso naquela altura, ali nos anos 80 da minha infância, a política não era dos políticos, uma coisa lá deles, era algo muito presente no dia a dia. Toda a gente tinha um partido e fazia campanha, perdiam tempo a colar cartazes e a distribuir folhetos e usavam-se autocolantes ao peito, com orgulho. Discutia-se política no café. Cortavam-se relações por causa de algumas discussões mais acaloradas. E no dia das eleições sentia-se um aperto na barriga até àquele momento em que o pai chegava a casa com os resultados apontados num papelinho a dizer quem tinha ganho na nossa terra, e depois apareciam os primeiros resultados oficiais na televisão, e, se a coisa corria bem, muito raramente, lá íamos para a sede do partido para festejar com bandeiras e apitos pelas ruas da vila.

publicado às 10:34


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