Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



24
Fev16

O quarto

Ao fim de meia hora estava tão angustiada que achei que não ia conseguir ver o resto do filme. Só continuei porque sabia que eles iam sair dali. Ainda assim, chorei durante quase todo o tempo. Não porque o filme seja lamechas, nada disso. Só porque é impossível não nos comovermos com esta história. Uma mãe e um filho, fechados num quarto, uma daquelas coisas que achamos que não podem acontecer até que, de vez em quando, aparecem umas notícias nos jornais com mais uma "natascha kampusch" qualquer (e lembro-me sempre de O Coleccionador, de John Fowles, um livro que li muito nova e que me impressionou tanto que passei uns tempos a olhar para o lado com medo de ser raptada). Angustiante, sim, mas muito bom filme.

Room, realizado por Lenny Abrahamson, com Brie Larson e um extraordinário Jacob Tremblay. 

publicado às 10:00

Os pés quentes. Panquecas de banana. Uma caminhada de uma hora por trilhos improváveis em Monsanto numa manhã de sol. Tostas com abacate e ovo escalfado. Dois bons filmes - Spotlight e A Queda de Wall Street - para me porem a pensar no mundo. As pessoas com quem posso sempre contar. Os meus filhos que parecem mais crescidos quando ficam dois dias longe de mim.

(esquecer que estive nove dias seguidos a trabalhar e que a maior parte desse trabalho foi treta e que este mês não tenho empregada e que estou muito cansada.)

publicado às 22:19

juntos.jpg

O amor está nas pequenas coisas, diz a ilustradora coreana Puuung. Já sabíamos.

publicado às 16:23

Eu não gosto de me mascarar. Já gostei, quando era mais miúda, há muito, muito tempo, mas depois passou-me. Há muito que não me mascaro. Tenho uma vaga ideia de uma festa de passagem de ano cujo tema era Hollywood, há alguns anos, ainda antes de ter filhos, e eu apareci de estrela do quotidiano. Há menos tempo, outra festa de passagem de ano, o tema era o pimba, e eu fui pirosa como sou no dia-a-dia. Sem stresses. Eu, que sou menina para dançar a noite inteira em qualquer festa, para ir para a pista quando ainda não está lá ninguém, para ficar na pista até mesmo até ao fim, para animar festas de todos os amigos quando sinto que é preciso alguém que anime as festas, eu que consigo fechar os olhos e dançar como se ninguém estivesse a olhar para mim, que me estou nas tintas se os outros acham que sou tresloucada da cabeça apenas por me estar divertir, eu não gosto de me mascarar. Não me sinto bem mascarada. Não me sinto eu. E, sentindo-me desconfortável, não me divirto. Pronto, são coisas minhas. Eu não gosto de me mascarar mas gosto da Inês. E por ela, só por ela, pus uns óculos brilhantes e um chapéu na cabeça, só para fingir que estava mascarada e poder ir à festa sem fazer má figura. Não fui de farda nem de galdéria, que era o tema da festa, não me armei em sexy nem andei a fazer poses marotas, porque isso já seria pedir de mais. Nada contra. Simplesmente not my cup of tea. Mas dei o meu melhor. Juro. E depois, às tantas, tirei os óculos e o chapéu e diverti-me ainda mais. E é para isso que as festas dos amigos servem, não é?

festa3.JPGParabéns, minha querida. Bem vinda aos maravilhosos 40.

Tags:

publicado às 17:10

15
Fev16

Um lema

live.jpg

Tags:

publicado às 17:06

09
Fev16

Aranhas

Lembro-me das aranhas. Foi em 1998, era eu caloira da secção de artes, com uma cultura geral fraquita e sem acesso à internet (ainda se lembram como era preparar entrevistas antes de haver internet?), e dei por mim em frente das aranhas de Louise Bourgeois. Lembro-me de ficar fascinada. De como tinha vontade de conhecer melhor aquela mulher. De perceber o que se passava naquela cabeça, o que costuravam aquelas mãos.

aranhas.JPGSe eu pudesse, era aqui que eu ia nas próximas férias de verão. Ao atelier dela. Folhear os seus livros. Sentar-me na sua cadeira. Ficar ali.

More than five years after her death, the house still feels inhabited by the woman who called it home. Dresses and coats hang in the closet. Magazines and diaries fill the bookshelves, which display the breadth of Bourgeois’s interests, including the “Joy of Cooking,” the Bhagavad Gita and J.D. Salinger’s “Nine Stories.” (...) “Louise never threw anything out,” Mr. Gorovoy said. At the time of her death, she retained gas receipts from her first apartment in Paris. (Aside from the personal hoarding, she kept an artist’s proof of every piece she made, from the 1940s on.) Mr. Gorovoy argues that the same spirit is visibly present in the art and the home. “The more you know the work, you can see that the way she lived is very close to what she created,” he said. It is not that behind the scenes you will discover an unknown woman, but rather, you will see your impressions corroborated.

publicado às 21:18

07
Fev16

Bastidores

Gosto muito de bastidores. Existe algo de mágico nisso de criar um espectáculo. De imaginar um espectáculo e depois dar-lhe vida. E eu gosto de saber como se faz. Do trabalho que dá. Da quantidade de pessoas que estão envolvidas. Dos pequenos gestos que são necessários. De tudo o que acontece à revelia do espectador. Gosto muito de bastidores. Na última semana voltei aos bastidores do Teatro Nacional D. Maria II. Andei por corredores e armazéns, subi ao telhado e assisti a um ensaio atrás do palco. Foi uma semana cansativa mas boa (sim, estou outra vez a dizer que gosto muito do meu trabalho, pelo menos na maior parte dos dias). O resultado pode ser lido AQUI.

teatro.JPGA fotografia é de Jorge Amaral/ Global Imagens 

publicado às 23:14

Jorge Silva Melo, ator, encenador, realizador, diretor dos Artistas Unidos, fez um filme que é uma carta, que é um poema, que é um desenho. O Jorge, posso chamar-lhe assim pois já o conheço há algum tempo, é um conversador de mão cheia e o filme que ele fez é como uma conversa. Sentamo-nos com ele num sofá e o Jorge fala-nos do Teatro Avenida e da visita da Rainha Isabel II, dos cowboys, dos estudantes que foram presos e do sonho do teatro, das ruas de Paris e da guerra colonial, dos amigos, da beleza dos actores e de como um prédio a cair no Bairro Alto foi, durante algum tempo, um espaço de liberdade total. Ver este filme, Ainda Não Acabámos, que me emocionou de uma maneira estranha, ver este filme e poder depois ir conversar com ele - esta é uma daquelas coisas que me faz adorar o meu trabalho.

O filme passa esta segunda-feira no Teatro São Luiz, em Lisboa, às 19.00. A entrada é livre.

publicado às 10:52

Nunca gostei de revistas femininas. Essas revistas muito activas e maximas e assim existem desde que me lembro e já existiam antes de eu me lembrar, mesmo que com outros nomes, e todas elas se dirigem às mulheres modernas. Ah, as mulheres modernas! Nos anos 60 eram as que usavam aspirador e tinham máquina de lavar roupa. Hoje em dia usam telemóveis com a kitty e cozinham com a bimby. Seja como for, as revistas são sempre para as mulheres modernas, as mulheres do futuro, essas que vão mandar no mundo (essa eterna promessa por concretizar), que não se acomodam, que são tudo e mais alguma coisa. E também são sempre revistas sobre moda e cremes para a pele, que têm fofocas e sapatos, que falam da família e da casa, esses assuntos de mulheres. Já se sabe. Mesmo quando, como agora, as revistas já não querem ser femininas, querem ser feministas. Mas são exactamente iguais às outras só que em vez de guisados têm receitas com aveia e em vez de aeróbica falam de corridas mas na verdade continuam a falar de "assuntos de mulheres". E depois, porque a mulher moderna já não se contenta em ser só mãe e dona-de-casa (há quanto tempo ouvimos isto?), a mulher moderna também se interessa por economia e política e outros temas ditos sérios, essas revistas fazem uma selecção de notícias da actualidade para as mulheres, para que elas não tenham muito trabalho a ler os jornais que os homens lêem, que são uma maçada, ou para que olhem para o mundo como só as mulheres sabem fazer, com aquele olhar sensível, enquanto sonham com os filhos que vão ter e fazem depilação definitiva.

Não gosto de revistas femininas mas não tenho nada nada contra quem gosta. Se querem ler revistas femininas, leiam. Por mim, pode haver revistas femininas e outras de bricolage e outras só sobre musculação e outras só sobre peixes, não me interessam mas não me chateiam nada. Só não lhes chamem feministas. Nem digam que são publicações que defendem as mulheres ou que contribuem para o fim das discriminações.

Não gosto de revistas femininas - tal como não gosto de exposições só com mulheres nem de outras coisas do género -  e acredito que a única maneira de acabar com a discriminação é não discriminar. É integrar. É não fazer coisas de mulheres. É não fazer cantinhos para as mulheres. É pôr as mulheres em pé de igualdade com os homens. É tratar as mulheres exactamente da mesma maneira que se tratam os homens, com o mesmo grau de exigência, sem paternalismo, sem dizer isto são coisas delas (ah, que engraçadinhas que elas são). É que tirando o período, a gravidez, o parto e a amamentação não me estou a lembrar assim de mais nenhum assunto que seja só de mulheres (e mesmo esses já não o são, ou pelo menos seria desejável que não o fossem).

É assim como dizer que as pessoas votaram na Marisa Matias só por ela ser mulher. Mas, pronto, esse debate fica para outro dia.

publicado às 10:43


Mais sobre mim

foto do autor