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17
Ago16

Dos nossos dias

ferias.jpgCalvin & Hobbes (ou António e Pedro)

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publicado às 22:45

As transmissões dos campeonatos de atletismo sempre foram assim. Há várias provas a acontecer ao mesmo tempo e o realizador escolhe aquilo que vai dando em directo e depois vai recuperando (em diferido) algumas das provas que perdeu e há outras que se perdem para sempre, é a vida. É impossível agradar a todos os espectadores, haverá uns que gostam mais de saltos e outros de corridas, há uns que querem ver todos portugueses e outros para quem isso não é importante.

Se sempre foi assim, então porque é que este ano parece que há tanta gente descontente com a transmissão da RTP?

Tenho uma ideia: porque o mundo mudou e porque a maneira como vemos o mundo e a maneira como vemos televisão mudou. Mas as transmissões continuam iguaizinhas ao que eram há 20 anos.

Por um lado, existem outros canais que estão a transmitir as mesmas provas - muitas vezes sem cortes nem anúncios pelo meio. Já me aconteceu ter vários canais ligados (no trabalho, que eu em casa só tenho uma televisão) e constatar as diferenças.

Por outro lado, existe a internet. Através da internet nós podemos acompanhar os resultados das provas quase ao segundo. Não precisamos de esperar pela RTP. E por isso nos irrita tanto quando eles dão anúncios e nós sabemos que estão a acontecer coisas importantes. E por isso nos irrita ainda mais quando eles dão provas em diferido fazendo de conta que é em directo, como se o mundo todo estivesse à espera da RTP para saber, como se não houvesse outros canais nem internet nem liveblogs nem pessoas a conversar no facebook sobre coisas que já aconteceram mas que só vão passar na RTP daqui a uns minutos.

Tenho sido muito crítica em relação a isto e tenho recebido algumas respostas e explicações. Agradeço. As explicações podem fazer com que eu seja mais compreensiva mas não fazem com que eu seja uma espectadora mais satisfeita. Se calhar já é tempo de repensar estas transmissões. Não podemos continuar a fazer as coisas sempre da mesma forma quando o mundo à nossa volta está a mudar.

Por exemplo, explicaram-me que vem tudo decidido do Brasil. Acredito. Mas vem tudo decidido depois de ter sido contratualizado entre as duas partes - não vamos achar que as pessoas da Bielorrússia não viram os seus saltadores mas estiveram a ver o Nelson Évora, não é? Há um acordo com cada país. Então, se calhar, também deverá ser possível decidir quando é que se quer pôr anúncios e quanto tempo duram. Porque falhar os saltos da Patrícia Mamona (recorde nacional) e do Nelson Évora para dar publicidade (e nem sequer era a Nike a pagar para estar no meio dos jogos olímpicos, eram mesmo televendas parvas, foi uma coisa despropositada) é inadmissível. Podia acontecer há 20 anos e ninguém dava por isso. Agora, não pode acontecer.

É verdade, não se consegue satisfazer toda a gente. Haverá sempre quem queira ver o hipismo e quem não queira. Haverá sempre quem prefira a vela ao andebol. Mas há mínimos. Os tais mínimos olímpicos.

publicado às 00:39

15
Ago16

Sons bons

sons.jpg

Já tinha ido a Cem Soldos, na apresentação de uma das edições do festival. Já tinha falado com algumas pessoas a propósito do festival. Mas nunca tinha ido ao Bons Sons. Aconteceu este fim-de-semana e foi bem bom. Não só porque é bom conhecer pessoas que se empenham verdadeiramente num projeto (sem ganharem nada com isso) mas também porque é um bom sítio para trabalhar, com tantas histórias para contar que o difícil é escolher as que vão para o jornal e as que ficam de foram (contei aqui algumas e mais esta e esta). E ainda porque encontrei a Ana, conversámos, dançámos juntas no concerto dos Kumpania Algazarra e encantámo-nos com as canções novas da Cristina Branco. Fiquei, no entanto, com a impressão de que o festival estava a atingir o seu limite - de autenticidade e de multidão. A ver se não se estraga.

A foto lá em cima é do concerto dos Alentejo Cantado, com Pedro Mestre, que foi uma pequena maravilha. E aqui está uma descoberta do palco do coreto: os Lavoisier.

publicado às 17:59

Emocionei-me, o que querem? Emocionei-me várias vezes. Muito por causa da música. Aquele abraço, construção, o samba do avião, momento lindo e tão simples aquele de Giselle desfilando feita garota de Ipanema em direção a Tom Jobim (era o neto dele, Daniel, que estava ao piano). Paulinho da Viola cantando o hino que não me é estranho. Elza Soares, velhinha e maravilhosa, Zeca Pagodinho e Marcelo D2, Jorge Ben no país tropical, Wilson das Neves evocando os mestres do samba, Caetano e Gil, o batuque infernal das escolas de samba. Tanta alegria. Fernanda Montenegro disse um poema de Drummond de Andrade. Emocionei-me, pois. Com o Guga a levar a tocha olímpica. E Vanderlei Cordeiro de Lima - o tal que foi abalroado por um irlandês maluco enquanto corria a maratona nos jogos de Atenas. O Temer vaiado. Imaginar aquele estádio cheio, uma multidão a cantar. Não sei se repararam mas naquela cerimónia, como nos desfiles de carnaval, não havia geometrias, coreografias feitas a régua e esquadro, nada disso, eram muitos e dançavam por ali, tudo mais ou menos assim e tudo a bater certo no fim.

Wilson+das+Neves+Opening+Ceremony+2016+Olympic+FdIWilson das Neves, sambando aos 80 anos, com Thawan Lucas da Trindade, de 8 anos

Fiquei com a sensação que a maior parte do mundo não ia perceber todas estas subtilezas, era preciso ter as referências - e confirmei um pouco isso ao ler alguma imprensa (aqui ou aqui, por exemplo), paciência, azar o deles que não conheciam o "remelexo" do Brasil. Isto aqui, o que é? é um samba de Ary Barroso, de 1942.

por João Gilberto

pelos Novos Baianos

por Caetano Veloso 

 

PS - e entretanto li a Alexandra, que deve ter sentido mais ou menos o mesmo que eu mas consegue escrevê-lo muito melhor. Ora leiam.

publicado às 21:37

05
Ago16

Dar ao pé

Adoro dançar. Mas não sei dançar. Dêem-me música e eu danço, completamente livre, à minha maneira. Mas se me pedirem coreografias, mesmo as mais simples, fico parada. Não consigo fazer passinhos coordenados, sou incapaz de dançar agarrada a outra pessoa. Adoraria saber dançar. Mesmo.

Ontem fui ao Andanças e achei piada àquilo. Tanta gente a dançar ou a tentar dançar, sem medo do ridículo, só a deixar ir o corpo. É preciso ter o espírito certo para lá ir com crianças e ficar uns dias a viver sem um banho quente nem um colchão decente para dormir (já para não falar das casas-de-banho), mas, pronto, se ultrapassarmos isso, parece-me uma experiência muito gira.

andanças.JPGEsta foto e as outras do artigo são do Pedro Rocha/ Global Imagens 

publicado às 14:13


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