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Não é nada de grave, é só o mês de setembro a revelar-se complicado em tantos níveis diferentes que seria difícil estar para aqui a explicar. Nada de novo - ora vejam aqui e aqui. É este embate do regresso das férias. Outra vez o despertador a tocar cedo. Outra vez mudanças nos horários dos miúdos. E nas rotinas. E as preocupações a voltarem. E os trabalhos de casa. Outra vez mudanças no trabalho. Tanto trabalho que às vezes me sinto numa linha de montagem de notícias. Nem sequer há tempo para escrever os caracteres pagos como deve ser quanto mais os caracteres de lazer. É a vidinha a atrapalhar-nos a vida boa.

A circulação encontra-se com perturbações mas há de ser retomada em breve, esperemos.

modern times.jpgA imagem é de Tempos Modernos, o filme de Charlie Chaplin (1936).

publicado às 00:49

morrerdeamor.jpgEncontrei esta imagem aqui e não resisti. Eu acho que todas nós merecemos um príncipe encantado, só que também acho que não devemos ficar sentadinhas à espera dele. É continuar vivendo e lutando e fazendo. Sem depender de ninguém. 

publicado às 16:44

21
Set16

I got life

 Nina Simone, "Ain't Got No, I Got Life"

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publicado às 12:53

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Leituras boas das férias:

 

Gostei mesmo muito de ler Índice Médio de Felicidade, de David Machado, e já estou a pensar em ler outros livros deste autor. Um homem fica desempregado e vê a sua vida a desmoronar-se - a mulher afasta-se, vê-se obrigado a entregar a casa ao banco e passa a viver no carro, tudo lhe acontece, e, no meio deste caos, ao mesmo tempo que tenta centrar os seus esforços em arranjar um emprego e voltar à sua vida normal, passa o tempo a ajudar amigos - um amigo está preso, outro vive há anos sem sair de casa -, os filhos dos amigos e até desconhecidos, numa série de aventuras que têm tanto de improvável quanto de tocante. Apesar de todas terem a sua dose de loucura, é impossível não nos envolvermos com aquelas personagens. 

 

O livro de Manuel Jorge Marmelo, Macaco Infinito, é bastante perturbador, desde logo pela comparação entre o macaco e o escravo (o negro, para dizer as coisas como elas são). Trata-se de uma viagem ao submundo - um prédio numa cidade contemporânea, portuguesa, que funciona como bar e hotel de prostituição, ali vivem as prostitutas e os empregados do estabelecimento, todos sob o controlo de um patrão obsessivo e que trata o seu principal escravo, um refugiado africano, com requintes de malvadez, obrigando-o, por exemplo, a escrever à máquina, aleatoriamente, para tentar comprovar o Teorema do Macaco Infinito. Até ao dia em que. Marmelo explicou numa entrevista que se trata de uma reflexão sobre o processo de escrita, mas para mim este é mais um livro sobre a submissão. E sobre a Europa. E sobre estes dias terríveis que vivemos. E lê-se com um constante nó no estômago.

 

Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, não é um mau livro mas deixa-nos com um certo sabor a desilusão. A história promete muito mas, apesar de haver passagens muito boas, parece-me que o autor fica enredado na sua própria escrita e na miríade de personagens que vão aparecendo e desaparecendo - tantas personagens mas com uma voz única, a voz do narrador, que se sobrepõe a todas. É um livro onde a carpintaria da escrita está demasiado visível, é quase possível sentir como cada parágrafo foi trabalho e retrabalhado (as repetições, as enumerações, as descrições exaustivas, os encadeamentos). Falta agora ao autor aprender a fazer o percurso inverso e a, depois de todo esse trabalho de construção, conseguir desaparecer por entre as páginas (que é o que, por exemplo, David Machado faz tão bem).

 

Deixem-me agora ser um bocadinho vaidosa. De António Prata falei em 2009 - aqui e aqui. Tanto tempo depois, são finalmente editadas em Portugal algumas das suas crónicas. O livro chama-se Meio Intelectual, Meio de Esquerda, expressão retirada da sua crónica mais conhecida. Há uns textos melhores, outros piores, que é difícil ser brilhante todos os dias, mas de uma maneira geral este é um livro para ler com um sorriso no rosto e, aqui e ali, uma ou outra gargalhada. Até porque ele tem uma grande capacidade para brincar com os preconceitos e os clichés de uma certa classe média culta e com pretensões - a sua classe.

 

Finalmente, M Train, de Patti Smith. Tentei lê-lo em inglês e fui quase até meio, estava a gostar mas achei que não estava a compreender tudo o que lia e que, sendo assim, mais valia parar. Depois de ter gostado tanto do Apenas Miúdos, seria uma pena não dedicar toda a atenção possível a este livro. Interrompi, passei a outro, mas vou tentar arranjar a edição portuguesa. Ela merece que a gente a leia por inteiro.

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publicado às 22:53

15
Set16

Desligar

Foi o nosso luxo das férias. Fomos passar duas noites à Offline House, uma casa que a Bárbara e a Rita abriram na primavera no Vale da Telha, entre Aljezur e a Arrifana*, e que é um convite a estarmos desligados das teconologias. Nos cacifos, à entrada, podemos deixar os computadores, telemóveis, i-pads. Lá dentro, só raramente se vê alguém com um destes aparelhos. Há telefone fixo e um relógio de ponteiros na parede da sala (e despertadores à moda antiga nos quartos) e é comum ouvir alguém a perguntar "que dia é hoje?". E é assim mesmo que deve ser. A ideia é que as pessoas desliguem das suas vidas, das rotinas e das preocupações sem importância que nos costumam atafulhar a cabeça, e se concentrem nesta vida boa - uma piscina, as praias ali ao lado, a sombra dos pinheiros, aulas de yoga e de surf, caminhadas, conversar com quem partilha connosco estes dias, pessoas vindas de vários cantos do mundo e que não conhecemos de lado nenhum. Há uma cozinha comunitária, uma sala e um terraço. Há silêncio a maior parte das vezes ou música boa que alguém vai pondo a tocar. Não há pressa.

Foi uma experiência muito engraçada para nós, que nunca tínhamos estado num sítio assim. Os miúdos adoraram. Tivemos sorte por haver três portugueses, muito simpáticos, com quem eles logo fizeram amizade. Digo sorte porque para eles seria mais difícil estabelecer comunicação com a espanhola ou a neo-zelandeza ou os alemães que também lá estavam. "Porque é que vocês estão sempre a falar inglês?, não é justo", queixou-se o Pedro. Não éramos muitos, era quase como quando juntamos a família para o natal. E, há que dizê-lo, a Rita e a Bárbara são óptimas profissionais, e têm esse dom de conseguir pôr-nos em casa, respeitando aqueles que querem manter a sua privacidade mas criando laços entre os que querem participar na vida da casa - nas longas conversas ao pequeno-almoço, com pão alentejano e café; nos jantares que a Bárbara cozinha avisando que não é nada de especial, mas é; nos serões que podem ter piano e jogos divertidos no sofá, mas também podem ser à volta de uma fogueira no jardim, com violas, djambés e cantorias (a meio da noite, os putos foram para a piscina, ficaram gelados mas foi uma aventura inesquecível). 

O tempo estica quando não se tem relógio. Deu para irmos ver o pôr-do-sol ao Monte Clérigo. Deu para ter uma sessão de reiki e tentar alinhar as energias (não resultou muito, mas pronto). Deu para passar um dia inteiro na piscina com um livro e, no final do dia, os miúdos foram com os amigos novos jogar à bola na praia da Arrifana enquanto eu pude desfrutar de uma fabulosa aula de yoga. Uma hora e meia a ouvir os passarinhos e a sentir o vento a passar por entre as árvores e tocar a minha pele, enquanto eu me esticava e relaxava.

Apetecia-nos ficar mais tempo, mas não havia orçamento para tal. Foi o nosso luxo das férias. Dois dias tão perto mas tão longe daqui.

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* há cinco anos que não ia para este sítio onde passei tantos mas tantos dias de felicidade ao longo de doze anos. foi bom matar saudades daquelas praias, daquele mar, daquele cheiro a pinheiros pela manhã, ir ao minimercado Roque & Filhos comprar pão, cumprimentar o dinossauro abandonado no regresso da praia, percorrer aquelas curvas agora no lugar no condutor. e sentir-me em casa. é bom voltar aos lugares onde fomos felizes quando estamos em paz connosco.

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publicado às 21:58

Ri, cantei, emocionei-me. Saí do cinema feliz, como quando se reencontram velhos amigos. 

The Beatles: Eight Days a Week, de Ron Howard. Estreia amanhã. 

publicado às 11:52

Mãe, podemos ir ver estalactites?, pediu o Pedro, há uns tempos, depois de ver umas imagens na escola. Pareceu-me uma boa ideia. Num dos primeiros dias das férias fomos até às Grutas de Mira de Aire. Chovia a cântaros quando saímos de Lisboa e nós de sandálias nos pés. Mas cheios de determinação.

Eu tinha visitado as grutas em miúda, com os meus pais, mas só guardava uma vaga ideia daquilo, de modo que ia tão entusiasmada quanto eles. As grutas são uma pequena maravilha da natureza. Porém, um pouco estragadas pelo homem, há que convir. O empreendimento turístico é feiozito e a museografia é bastante antiquada - as grutas abriram ao público em 1974 e fizeram-se coisas naquela altura que hoje nos parecem completamente desaquadas, como por exemplo aquele excesso de iluminação colorida, ou instalar repuxos lá dentro (porquê?, a beleza natural do espaço não era suficiente?), ou tentar construir um bar no meio das grutas e depois perceber que logisticamente não era viável e por isso lá estão o balcão e os bancos de cimento, como vestígios da desastrosa intervenção humana. Aliás, foi isso que mais me chocou ali: o excesso de intervenção humana. Algo que nos anos 70 devia fazer todo o sentido e que hoje felizmente já não se faz. Apesar disso, a visita causa um impacto enorme. Pela grandeza das grutas. Pela sua beleza. Por saber que estamos debaixo da terra. E lá vimos as estalactites.

No entanto, se lhes perguntarem eles dirão que o melhor da nossa ida às Grutas de Mira de Aire não foram as grutas mas o parque aquático. Assim que vi no site que o empreendimento turístico das grutas tinha um parque aquático soube que não havia como escapar. Marquei uma noite num dos bungalows - bastante simpático, por sinal - e os miúdos puderam aproveitar uma tarde e uma manhã de piscina, mergulhos e escorregadelas. O parque é pequeno e tem apenas três escorregas, o que significa que é perfeito. Eu fiquei sentada no meu cantinho a controlar tudo sem sair do lugar e eles podiam escorregar e depois subir as escadas a correr e voltar a escorregar sem filas nem confusões, num divertimento louco. 

No regresso, ainda aproveitámos para ir ver as salinas de Rio Maior, que eu não conhecia. No caminho para lá, enquanto o co-piloto António acompanhava o percurso no Google Maps, surgiu a questão: como é que é possível haver salinas tão longe do mar? E essa foi uma das coisas que aprendemos nesta visita. Estou à espera de uma ocasião especial para experimentar um pouco do sal que a simpática senhora do posto de turismo nos ofereceu depois de nos ter oferecido várias explicações.

publicado às 22:07

Os miúdos tiveram três meses inteirinhos de brincadeiras e liberdade. Eu juntei-me a eles nos últimos 24 dias (ena, ena, tantos). Foi tão bom que fica difícil escolher o que foi melhor. Os dias passados no Douro com os avós, diz o Pedro. O dia a escorregar no Aquashow com a Sónia e o resto dos amigos, diz o António. Os dias de praia com os primos, dizem os dois. As aventuras com os amigos novos da praia-campo da junta de freguesia (e crescer todos os dias um bocadinho). As brincadeiras com os vizinhos no terraço ou no condomínio da avó. Os passeios, os mergulhos em piscinas e praias várias (este ano ninguém se pode queixar da temperatura da água do mar, nem mesmo eu que sou a maior friorenta do mundo), os jogos de futebol na areia, os jogos de cartas ao serão. Foi mesmo bom, mas acabou-se. A semana que amanhã começa é uma das semanas mais complicadas de todo o ano, com o regresso ao trabalho, à escola, às actividades, com novos horários, novas exigências, ainda à procura de novas rotinas. Que estejamos sempre assim, como nesta foto, felizes e unidos. Já que o bronze, já se sabe, esse vai desaparecer aos poucos.

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publicado às 19:34

09
Set16

70

76-77.jpgParabéns, pai. 

publicado às 22:28


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