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Dois livros que me passaram pelas mãos nestes últimos dias e que são muito bons:

lx.jpg

 

Lx80 - Lisboa entra numa nova era, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes - está tudo explicado aqui.

e

sattouf.jpgO Árabe do Futuro 2, de Riad Sattouf - de que eu falo aqui

 

(também ando a ler a Ferrante, nos tempos livres, e vou já para o segundo volume, mas só me pronunciarei quando acaber os quatro livros ou se, entretanto, desistir a meio)

publicado às 22:33

22
Out16

Uma estreia

Já perdi a conta a todos os concertos que gostaria de ter visto e não vi ao longo do último ano. Bruce Springsteen, Marisa Monte, Caetano Veloso (com Gil e sem Gil), Kendrick Lamar, Radiohead, Arcade Fire e mais uma série de nomes no Alive, Moreno Veloso, Brian Wilson, Pj Harvey, Massive Attack, o último dos Buraka (e aos que não vou ver nos próximos meses, como Arnaldo Antunes ou Elza Soares ou outra vez PJ). Tantos mais. Para quase todos arranjaria bilhete à borla na boa. Mas não deu. Paciência.

Ontem fui a um concerto. Levei os miúdos a ver os D.A.M.A. Comprei três bilhetes, comemos empadas na fila para entrar no Meo Arena, chegámos cedo para conseguir um lugar perto do palco. Deitámo-nos à uma da manhã. Mas, uns mais ensonados do que outros, divertimo-nos bastante. Foi o primeiro concerto "a sério" deles.

dama.jpg

Fazemos destas coisas pelos filhos. E é bom. Acreditem.

publicado às 12:33

No liceu, fiz parte de uma lista para a associação de estudantes. Havia duas listas, tal como havia dois lados do pátio - o lado dos betinhos, que usavam sapatos de vela e casacos ensebados, e o lado dos vanguardas, uma mancha negra e enfumarada de pessoas que calçavam botas doc martens. Eu não pertencia a nenhum dos lados, costumava parar à frente da escola, com uma data gente sem estilo definido, mas se eu pudesse (se eu tivesse coragem) também iria pintar o cabelo de azul e furar o nariz. Aquelas pessoas que ouviam Cure e Smiths eram as minhas pessoas. Havia duas listas, uma da direita e outra da esquerda. E eu, mesmo sem doc martens, sabia exactamente qual era o meu lado. Passámos horas a discutir o programa eleitoral, os intervalos a pintar cartazes, as tardes livres a distribuir folhetos e autocolantes. Havia aquela ideia ingénua de que poderíamos mesmo contribuir para que a nossa escola fosse melhor. Discuti muito com algumas pessoas. Queria convencê-las da importância de ter uma rádio dos alunos. Do grupo de teatro que não havia. Do campo de jogos que era preciso melhorar. Da estupidez das praxes (no meu liceu havia praxes). Da estupidez da PGA (lembram-se?). De pouco valeu. Os outros tinham o apoio da JSD, davam balões cor-de-laranja e tinham folhetos impressos a cores. Foi em 1991/92, o Cavaco Silva era primeiro-ministro e havia uma série de boys no liceu a sonharem com carreiras políticas. Perdemos as eleições. 

Nunca mais fiz campanhas por coisa nenhuma mas continuo a discutir apaixonadamente (às vezes com paixão em demasia) quando acredito em alguma coisa.

docs.JPG(estas não são docs, são uma versão light. mas ando novamente tentada)

publicado às 12:56

13
Out16

Bob Dylan

bob.jpg

Eu gostei do prémio Nobel para o Bob Dylan. Porque nos surpreendeu e nos pôs a pensar, a discutir, a tomar uma posição. Porque nos obriga a desempoeirar as ideias. Porque é um prémio que derruba muros, e isso, nos dias que correm, é muito importante. Porque gosto do (pouco) que conheço do Bob Dylan. Porque a literatura das canções de Bob Dylan é mil vezes melhor do que muita da literatura encadernada em capa dura que se vende nas livrarias, disso não tenho qualquer dúvida (leiam aqui uma opinião que vale a pena e outra aqui).

Se havia outros que podiam ter ganho? Claro. 

Mas é preciso não levar isto tão a sério. O Nobel é só um prémio como tantos outros prémios. Está bem que é um prémio com muito dinheiro e por isso foi ganhando tanta importância ao longo dos anos mas, na verdade, é só um prémio atribuído por um júri (os senhores da academia sueca) num determinado momento (outubro de 2016) dentro de um certo contexto (os condicionalismos políticos, económicos, geográficos, linguísticos, de género, etc. a que o júri se propõe obedecer). Esperar que o Nobel eleja o melhor escritor vivo do momento, sem margem para objecções ou desacordos, é ainda mais absurdo do que esperar que o Óscar eleja o melhor filme americano do ano. É ridículo. Este é um premiado entre tantos possíveis. 

Assim como esta é apenas uma canção entre tantas possíveis:

Just Like a Woman, Bob Dylan

"She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman
But she breaks just like a little girl"

E se isto não é poesia, é o quê?

publicado às 22:53

"Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar"

Caetano Veloso e Lulu Santos cantam Como uma Onda

publicado às 00:04

Estava a organizar as fotografias do verão e de repente...

20160704_202218.jpgNão bastavam as rugas, as peles caídas, os sinais, os milhentos sinais que me nascem todos os dias no rosto e nas mãos e por todo o lado. Nesta fotografia, tirada em julho, nota-se, como nunca, a cicatriz que fiz, acima dos lábios, quando tinha dois anos. Eu já tinha reparado que a cicatriz estava cada vez mais visível, como se a pele, à medida que envelhece, estivesse a perder a capacidade para ocultar os pequenos defeitos que temos. E, agora, aqui está a prova. Envelhecer também é andar para trás. 

publicado às 22:40

04
Out16

Ferrante

Não li nenhum livro da Elena Ferrante. Vou ler, está na minha lista, já os tenho reservados na prateleira de uma amiga para ler a seguir. Como nunca li, não tenho nenhuma relação afectiva com a obra nem com a sua autora. O que me permite olhar para esta história toda da revelação da sua identidade apenas como uma história extraordinária.

Primeiro, porque é claro que o assunto tem interesse público - Ferrante é a escritora do momento, vende livros em todo o mundo, tem sido aclamada por críticos e leitores, nomeada para prémios. A identidade da escritora é um dos assuntos mais comentados pelos leitores e tem sido tema de várias investigações (análises sérias de críticos literários e outros) e de artigos de jornais - mas como, até aqui, nenhum tinha acertado na identidade ainda ninguém tinha questionado se essa investigação seria ou não legítima. Antes pelo contrário, a especulação provocava ainda mais curiosidade nos leitores. E foi aproveitada pela editora, claro, para vender ainda mais livros. Além disso, nas entrevistas que foi dando, parece que Ferrante revelou alguns pormenores sobre a sua vida que, a serem verdade as informações de Claudio Gatti, afinal são falsos. Também já sei que ela nunca garantiu que dissesse a verdade, deixando sempre no ar a hipótese de estar a inventar algumas coisas. Mas a mim o que me parece é: se ela não queria dizer quem é, não dizia, ficava calada, agora, se se põe a dizer mentiras corre o risco de ser desmentida. Ou seja: ela estava a jogar um jogo. A não-identidade da Elena Ferrante tornou-se parte da sua identidade enquanto escritora. Ela era aquela-que-não-sabemos-quem-é. Esse jogo foi alimentado pela própria. Era um jogo arriscado. E ela sabia que poderia perder. 

O jornalista, na verdade, fez aquilo que os jornalistas devem fazer: havia um mistério, ele investigou e descobriu a verdade (digo que descobriu porque, até agora, nem a editora nem Anita Raja desmentiram os factos). E não cometeu nenhum crime: investigou resgistos de propriedade, que são públicos. E teve acesso às listas de pagamentos da editora, que não são públicos mas foram fornecidos por alguma fonte. Mas não revela quais são esses pagamentos, atenção. Não diz quanto ganha a tradutora, diz apenas que ela ganha muito mais do que é costume para quem faz traduções. Bruno Vieira do Amaral considera que ele talvez não precisasse revelar quantas assoalhadas têm as casas novas de Elena Ferrante, que isso já é mesmo só cusquice. Talvez. Mas, por exemplo, eu adorei ler a história da mãe dela e essas são informações bem mais pessoais e bem menos relevantes para a investigação em causa. Aí, sim, senti-me a entrar na intimidade alheia.

Vamos, então, à parte mais complicada: e é legítimo? Isto é: Se uma pessoa quer manter a sua privacidade, se quer apenas escrever livros e não ser conhecida por isso, se não cometeu nenhum crime nem há qualquer motivo obscuro que leve alguém a revelar a sua identidade a não ser a pura curiosidade, é legítimo que alguém o faça?

Geralmente, sou contra a revelação de informações da vida privada de alguém sem o seu consentimento. É por isso que desprezo sobremaneira todas as revistas ditas cor-de-rosa, o trabalho dos paparazzi e de todas as pessoas que contribuem para que a fofoca se torne notícia. E é por isso, por respeitar o direito à privacidade de cada um, que me parece claro que houve aqui uma invasão da privacidade. 

(há uma corrente de críticos que vê esta revelação quase como uma verdadeira violação, uma tomada de posição de um homem contra uma mulher que disse claramente que não queria isto, o  resultado de um ódio não declarado dos homens contra uma mulher que conseguiu ter sucesso - confesso que não tenho grande paciência para este tipo de análises. Mudaria alguma coisa se o artigo fosse assinado por uma mulher?)

Além disso, é preciso perguntar: e agora? Agora que sabemos quem é Elena Ferrante, isso muda o modo como lemos os livros? Isso muda a forma como olhamos para a obra? Era importante saber quem é Elena Ferrante para perceber os livros? Ou os livros, afinal, como ela sempre disse, valem por si mesmos e esta informação é irrelevante? Nós precisávamos saber quem ela é? Não. Nós gostaríamos de saber, mas não era isso que fazia as pessoas lerem os livros e gostarem deles.

E ainda: o que vai a acontecer a Elena Ferrante? E a Anita Raja? Conseguirá ela escrever mais livros? Ou conseguirá escrever da mesma forma? Vai dar alguma explicação? Vai começar a dar entrevistas ou vai fugir para a sua casa de campo na Toscânia e nunca mais ninguém a vê? Quais serão os custos desta interferência na vida desta pessoa real?

É muito complicado dizer claramente o que está certo e o que está errado. Pelo menos para mim. Há sempre um lado meu (o lado do jornalista) que pensa caramba, este tipo conseguiu aquilo que toda a gente queria mas ninguém foi capaz. E depois há o outro lado (o meu lado bonzinho) que pensa que se calhar a senhora estava a ser sincera quando dizia que só queria que a deixassem em paz e que nós (todos) devíamos ter respeitado mais isso em vez de estarmos sempre a perguntar quem é a Ferrante. Vamos ter que esperar para ver o que vai acontecer daqui para a frente.

Para já, estou fascinada com esta história. Entretanto, espero começar a ler os livros.

 

Para ler mais:

porque é que os escritores usam pseudónimos

- a visão feminista de Deborah Orr no The Guardian

- um bom artigo sobre os escritores-super-estrelas (até mesmo quando não querem sê-lo) na The Atlantic

- e mais uma opinião, de Noreene Malone, na New York Magazine 

publicado às 23:56

25.jpg

Esta fotografia é do Mário Cruz. O Mário é excelente fotojornalista. E faz-nos acreditar no jornalismo. Faz-nos acreditar no futuro do jornalismo. Já conhecia algumas das imagens, mas gostei ainda mais de falar com ele.

publicado às 18:00


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