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Aconselharam-me o filme Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a Anette Benning a fazer de mãe solteira de um rapaz de 15 anos, sem saber muito bem como é que se educa um homem bom. Está bom de ver porque é que toda a gente achou que o filme tinha a ver comigo. E tem. É engraçado porque as questões que ela se coloca eu também as coloco, de tempos a tempos. Será que é necessário um homem para educar um rapaz? Será que eu vou conseguir fazê-lo sozinha? Será que vou conseguir entender as suas necessidades e as suas angústias masculinas? Ou, para sermos mais práticos, como raio é que o vou ensinar a fazer a barba? Enfim, esse tipo de coisas. Mas a mim parece-me que o filme vai muito além disto. É sobre todas as mães e todos os filhos e sobre aquele momento em que os filhos nos fogem das mãos e começam a ter uma vida só sua, e que, por melhores mães que sejamos, não nos inclui. Há um momento em que ela diz que tem inveja das amigas do filho, porque elas têm oportunidade de vê-lo como ele realmente é, como ele se comporta quando não está com a mãe. Acho que todos sentimos um bocadinho isso e vai-se adensando à medida que eles crescem.

O filme é de facto muito engraçado e tocante. Além da Annete Benning, naquela mãe cheia de dúvidas mas sempre com uma tranquilidade desarmante (quem me dera), a Elle Fanning e a Greta Gerwig também estão muito, muito bem. O puto é muito giro. E, depois, passa-se no final dos anos 70 e há aquele ambiente todo do pós-mundo-hippie, pós-guerra do vietname, da guerra fria e do punk. As músicas e as imagens da época completam o retrato. A voz que se ouve no trailer é do presidente Jimmy Carter no seu discurso da "crise de confiança", em 1979. E tem tudo a ver.

 

Mas, por algum motivo, não consegui identificar-me tanto com aquela mãe como estava à espera. Talvez porque eu tenha dois filhos e ela só um, talvez porque os meus sejam ainda muito novos. Ou talvez porque senti ali falta da vida como ela é. Claro que temos dúvidas e que andamos sempre a tentar fazer o melhor para eles e educá-los para que sejam homens bons, mas isso acontece com todos os pais, sozinhos ou acompanhados. O mais complicado nisto de ser mãe sozinha, digo eu, é, acima de tudo, a logística. O facto de uma pessoa ter de trabalhar oito horas por dia, de os putos terem de ir para a escola, de ser preciso ir às compras e cozinhar e limpar a casa e lavar a roupa e fazer o irs e ajudar nos trabalhos de casa e ir ao médico e tratar das merdinhas todas. Na vida-que-não-é-dos-filmes uma pessoa fica tão assoberbada com isto tudo que, admitamos, não resta muito tempo para questionamentos metafísicos. Ou quando temos esse tipo de pensamentos não nos resta outra alternativa a não ser dizermos a nós próprias: estou a fazer o melhor que posso. Caso contrário corremos o risco de nos sentirmos umas falhadas e termos um esgotamente nervoso.

 

Numa coisa, no entanto, aquela mãe tem razão. É muito mais fácil quando se tem ajuda. Veja-se o que aconteceu connosco no fim-de-semana passado. Eu tinha que trabalhar e tinha horários esquisitos e tudo se avizinhava bastante complicado. E, afinal, tudo se resolveu. Ter amigos é, de facto, uma das coisas mais preciosas do mundo. Eu tenho a sorte de ter pessoas mesmo especiais à minha volta, cada uma de sua maneira. Amigos que acolhem os meus filhos em sua casa e lhes dão colinho bom. Amigos que me ajudam na logística do leva e traz e com quem ainda posso ficar um bom bocado a conversar e a comer sushi ou pizza. Amigos com quem posso contar.

 

E, ainda por cima, como bónus, acho que os meus filhos só ficam a ganhar com o facto de estas pessoas (estas e outras pessoas) estarem nas suas vidas. É mesmo um daqueles casos em que uma falha se transforma num benefício.

Como forma de dizer obrigado, este é o Randy Newman a cantar You've got a friend in me, a música que ficou conhecida no filme Toy Story. 

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publicado às 14:52

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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publicado às 09:33


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