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Voltei a São Miguel, Açores. Quando lá tinha estado, há dois anos, as low costs mal tinham começado a operar para o arquipélago e falava-se muito do impacto que isso iria ter. Agora, esse impacto é visível. Os voos vão cheios. Os hotéis estão lotados. Há novos hotéis e muitos alojamentos locais. Há trânsito em Ponta Delgada. Cafés à pinha, novos cafés, muitos novos negócios para turistas. Os restaurantes aonde há dois anos fomos comer têm agora lista de espera. Nos miradouros, é quase impossível estacionar e também é quase impossível ver a vista em silêncio. Mas já é possível comprar gelados e amendoins nas barraquinhas que pululam por todo o lado. Nas poças e lagos naturais, não há banhos tranquilos, há uma multidão dentro de água. Nas praias, escolas de surf. É o progresso. Não há como pará-lo. Já vimos isto acontecer no Algarve e na costa alentejana. As pessoas que ali moram têm direito ao progresso, como é óbvio. Mas para quem lá vai à procura de paz, de vida sem pressa e sem stress, de desfrutar da natureza no seu estado mais selvagem (é por isso que vamos aos Açores, não é? para fazer praia não vale a pena ir tão longe, parece-me) acaba por ser muito frustrante. Essas pessoas vão lá voltar?, pergunto-me. A gentrificação está a atravessar o oceano a uma grande velocidade.Talvez fosse bom pensar nisto, antes que seja tarde, para não permitir que durante a época alta a ilha se assemelhe a Vilamoura, mas com mais nevoeiro e chuva ocasional. Dizem-me que nas outras ilhas ainda não é assim. Ainda há esperança.

 

Voltei a São Miguel, Açores, e apesar de tudo foi muito bom. Por causa das pessoas, como sempre. E porque aquilo é verdadeiramente bonito. Tantos momentos para guardar. No sábado de manhã, fomos tomar um óptimo e demorado pequeno-almoço No Andar de Cima, da Catarina, a mesma mulher de garra que abriu o Louvre Michaelense e o restaurante vegetariano Rotas. E que é uma simpatia. Na Lagoa das Empadadas, um sítio lindo e onde ainda por cima não há rede de telemóvel e sentimo-nos mesmo longe de tudo, o Eric, que é sueco e já tinha apanhado um escaldão, pegou numa navalha e descascou um ananás que comemos aos pedaços, o sumo a escorrer-nos pelos dedos das mãos. Conheci uma pessoa que, como eu, não gosta de cerveja mas gosta de futebol e de tricot. Já era tarde mas conseguimos apanhar as últimas fatias do melhor bolo de ananás, que é o d'A Tasca. Nos Mosteiros, ficámos parados no meio da estrada, o carro rodeado de vacas. E elas passaram sem nos ligar nenhuma. A água quente a jorrar para as minhas costas, numa das fontes do Parque Terra Nostra. O azul, azulão, da água da Lagoa do Fogo e da Lagoa das Sete Cidades. A felicidade do Samuel e do Benjamim a dançar no palco do Teatro Micaelense. "No More Walls", a mensagem que o artista visual Spy deixou em Rabo de Peixe, para nos pôr a pensar. E o resto que está contado aqui e aqui.

 

Sou uma sortuda, eu sei.

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A fotografia é de Álvaro Miranda/ Walk&Talk.

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publicado às 23:19

23
Jul17

Nunca esquecer

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(o mundo seria tão melhor se as pessoas pensassem bem antes de criticarem os outros)

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publicado às 21:36

21
Jul17

A Gorda

Acabei, finalmente, de ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, um extraordinário livro sobre uma mulher que na verdade é sobre muitas mulheres. E sobre os seus corpos. Sobre a difícil relação que as mulheres têm com o seu corpo. Sobre a educação moralista e castradora a que as mulheres são submetidas. Sobre a pressão social para se ter um corpo perfeito. Sobre a pressão que o espelho exerce sobre cada uma de nós. Sobre o amor-próprio e o amor dos outros. Sobre o desamor. Sobre a vergonha. Sobre o envelhecimento. Sobre a solidão. Sobre ir ao tapete. E levantarmo-nos. Existe algo de Maria Luísa em mim. E a escrita de Isabela Figueiredo, a dizer o que tem de ser dito, sem rodriguinhos, consegue tocar-nos de uma maneira profunda. 

 

A propósito:

 

- uma visão muito interessante deste livro, pelo Henrique Raposo.

 

- é muito raro encontrar o universo feminino retratado com tanta honestidade na literatura. Lembrei-me de Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso, e lembrei-me muito da Elena Ferrante, por exemplo.

 

- Isabela Figueiredo organiza o livro em capítulos que correspondem às várias divisões da casa. Bruno Vieira Amaral reflete neste texto sobre a casa-corpo, a propósito do também belíssimo filme Aquarius.

 

- esta semana fui ver o concerto dos Pretenders e, antes deles, Rita Redshoes, que me surpreendeu com uma versão de I Got Life, de Nina Simone. A lembrar-nos isto: o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo somos nós, e mesmo quando tudo falha existe este corpo, que amamos ou odiamos, mas ao qual não podemos escapar. 

 

"Ain't Got No (I Got Life)"

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

And what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

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publicado às 19:51

20
Jul17

Detox (2)

De uma maneira geral, nas férias a regra é não ter regras. Deixarmo-nos ir com a onda, sem horários para comer ou para dormir, a não ser aqueles que nos determinam o corpo e o bom senso. Mas uma regra fiz questão de manter nestes dias: não havia telemóveis durante as refeições nem na praia (e isto serviu também para mim) nem no quarto. Em casa, o António deixa sempre o telefone na sala à noite, mas aqui pareceu-me que eram necessárias medidas mais drásticas. Sobretudo para impedir determinadas pessoas de acordarem a horas impróprias e correrem para o telefone. Assim, antes de irem dormir, os adolescentes desligavam os telemóveis (o mais pequeno não tem telemóvel e não levou o tablet para as férias por isso não tinha nada para desligar) e entregavam-mos. De manhã, eu devolvia-lhes os telefones em troca de bons dias sorridentes. E foi a melhor decisão que tomei. Toda a gente dormiu bem e, na verdade, eles tiveram mais do que tempo para estarem agarrados aos ecrãs. De tal forma, que nunca houve discussões sobre este assunto. Só isso já é uma vitória.

Confirma-se: sou uma chata. Com muito orgulho.

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publicado às 01:48

19
Jul17

Detox

Foram oito dias inteiros de férias: um dia no Alentejo para ver a família e apanhar o primo, seis dias no Algarve com os três rapazes, e mais um dia no Alentejo no regresso. Naqueles seis dias, tirando alguns (poucos) telefonemas, não conversei com nenhum adulto. Não levei computador, não vi televisão (só tínhamos os canais abertos e não havia nada que me interessasse) e tentei controlar os acessos no telemóvel (embora não tenha conseguido fazer o detox completo...). Fazia-me falta. Fazia-me muita falta desligar. E como os miúdos andavam lá na sua vida, felizes e contentes (basicamente só conversavam comigo quando estávamos todos no carro ou à mesa), passei bastante tempo calada. Também me fazia falta isto. Nada de conversas desnecessárias, de blá blá blá sem interesse. Li bastante. Pensei na vida. Vi os putos a brincar nas ondas. Fiz planos para o futuro que nunca se irão concretizar. Dormi. Esqueci-me de levar a máquina fotográfica e por isso nem fotografias tenho destes dias. 

Na verdade, acho que poderia republicar o post do ano passado e estaria tudo certo. 

E o bom que isto é.

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publicado às 15:54

14
Jul17

Protector solar

"Se apenas vos pudesse dar um conselho para o futuro, diria: usem protector solar. As suas vantagens a longo prazo já foram provadas cientificamente, ao passo que o resto dos meus conselhos não têm outra base mais segura do que a minha atribulada experiência.

Agora, vou dar-vos os meus conselhos para o futuro.

Gozem a força e a beleza da vossa juventude. Mas deixem lá, que só compreenderão a força e a beleza da vossa juventude quando a tiverem perdido.

Mas, acreditem, daqui a 20 anos hão-de olhar para os vossos retratos e ver que registaram coisas que vocês agora não conseguem entender: as possibilidades que se vos abriam e o aspecto fabuloso que tinham. É que vocês não são tão gordos como imaginam.

Deixem de se preocupar com o futuro, ou então preocupem-se mas saibam que isso vale tanto a pena como tentar resolver uma equação de álgebra a mascar pastilha elástica.

Os verdadeiros problemas da vossa vida serão coisas que nem sequer passaram pelas vossas cabeças preocupadas. Do tipo daquelas que surgem às 4 da tarde numa terça-feira qualquer.

Façam todos os dias uma daquelas coisas que vos mete medo.

Cantem.

Não sejam levianos com o coração dos outros nem aceitem que o sejam com o vosso.

Usem o fio dental.

Não sejam invejosos: às vezes vamos à frente, outras vamos atrás. A corrida é longa, mas a verdade é que é uma corrida contra vós próprios.

Lembrem-se dos elogios que vos fizeram, esqueçam os insultos. (Se conseguirem, digam-me como é que fizeram.)

Guardem as vossas velhas cartas de amor, queimem antes os extractos do banco.

Façam alongamentos.

Não tenham remorsos se não souberem o que querem fazer da vida. As pessoas mais extraordinárias que conheci, não sabiam, aos 22 anos, o que queriam fazer dela. Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço, ainda não sabem...

Tomem bastante cálcio.

Cuidem dos vossos joelhos. Que vos vão fazer muita falta.

Talvez se casem, talvez não. Talvez tenham filhos, talvez não. Talvez se divorciem aos 40 anos, talvez dancem sem parar no vosso 75º aniversário de casamento.

Façam o que fizerem, não se entusiasmem demais, nem se censurem. As vossas escolhas são meio caminho andado, tal como acontece com toda a gente.

Gozem o vosso corpo, usem-no de todas as maneiras que puderem. Não tenham medo dele, nem do que os outros pensam dele: o vosso corpo é o instrumento mais fantástico que jamais terão.

Dancem, ainda que não tenham onde dançar, a não ser na vossa sala de estar.

Leiam todas as instruções, mesmo que não as sigam.

Não leiam revistas de beleza, elas só irão fazer-vos sentir mais feios.

Dêem-se ao trabalho de conhecer os vossos pais, nunca se sabe quando eles vos irão deixar para sempre.

Sejam simpáticos com os vosso irmãos, eles são a melhor ligação que têm com o passado e os que, mais provavelmente, se manterão ao vosso lado no futuro.

Compreendam que os amigos vêm e vão. Aguentem-se com os poucos e os melhores que têm.

Trabalhem muito para preencher as lacunas em geografia e no estilo de vida.

À medida que forem envelhecendo, mais vão precisar das pessoas que conheciam quando eram novos.

Vivam uma vez na cidade de Nova Iorque, mas partam antes que ela vos torne duros.

Vivam uma vez na Carolina do Norte, mas partam antes que ela vos torne moles demais.

Viajem.

Aceitem certas verdades inalienáveis.

Haveis de passar por crises, os políticos não deixarão de vos endrominar, vocês também vão envelhecer. Quando isso acontecer, vocês também vão dizer que quando eram novos os preços eram razoáveis, que os políticos eram mais sérios e que as crianças respeitavam os mais velhos.

Respeitem os que são mais velhos que vocês.

Não fiquem à espera que alguém vos sustente. Talvez venham a ter bens ou casem com alguém rico, mas nunca se sabe se tudo isso desaparecerá.

Não se preocupem demais com o cabelo, se não, quando tiverem 40 anos, ficarão com o ar de quem tem 85.

Tenham cuidado com os conselhos que ouvem, mas sejam pacientes com aqueles que os dão. Os conselhos são uma espécie de nostalgia. Dá-los é uma maneira de trazer o passado, de o limpar, de pintar por cima dos pedaços feios e de reciclá-lo por mais do que vale.

Mas não deixem de acreditar em mim quanto à protecção solar."

Baz Luhrmann, Everybody’s free (to wear sunscreen)

 (Roubado ao Facebook do Vitor Belanciano porque é lindo e é isto. Acreditem: para quem está de ferias sem computador nem tv, só com um telemóvel e dados controlados, para quem vê o mundo num ecrã pequeno à hora da sesta enquanto pensa em amêijoas para o jantar, isto é a única coisa que vale a pena partilhar. E, sim, temos posto bastante protector solar.)

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publicado às 16:46

06
Jul17

Dez anos

Há dez anos, os blogs não eram como agora. Pelo menos que me lembre. Ainda não havia gente que vivia disto, nem posts patrocinados nem agências de comunicação a mandar mails que começam com "cara blogger", os bloggers não era convidados para eventos nem recebiam sapatos pelo correio nem tinham férias pagas. Há dez anos, os blogs eram espaços para escrever e para debater ideias, havia ainda muitos blogs colectivos e havia realmente discussões políticas que passavam por aqui. Os que sonhavam ser escritores publicavam em blogs os seus primeiros contos, os que sonhavam ser opinadores estreavam-se nas crónicas, os que sonhavam ser políticos tiravam o maior partido deste fórum público. Havia alguns blogs mais pessoais, que falavam do quotidiano.

Este começou assim. Em julho. O primeiro texto foi publicado no dia 18 mas andou a ser escrito durante semanas se bem me lembro, não era uma coisa qualquer. O que é que eu esperava disto? Não muito, quer-me parecer. Tal como agora. 2007 foi um desses anos em que sentimos a vida a mudar. Apeteceu-me ter um blog para escrever sem regras, sem editores, sem agenda - sempre soube que não tenho grande veia literária, deus me livre de escrever ficção, mas talvez me descobrisse uma cronista de mão cheia. Não aconteceu. Rapidamente o blog se tornou um diário, um espaço de desabafos, de apontamentos sem a mínima importância, outros que só são importantes para mim. O meu sítio.

No início só disse a meia dúzia de amigos para virem ler isto. Depois uns foram dizendo a outros, começaram a aparecer por aqui amigos mais distantes, a família, os conhecidos e até os desconhecidos, de vez em quando há um texto que é mais partilhado e vem muita gente cá espreitar. Nesses dias fico um bocadinho aflita, é como se de repente uma cambada de estranhos me entrasse pelo porta dentro e eu a pensar que não limpei bem a casa e o que é que eles vão ficar a achar de mim. Hoje já não tenho problemas em que saibam que a Gata sou eu mas achei que seria mais divertido continuar a não assinar. Quem ler com atenção facilmente percebe. Quem sabe sabe, quem não sabe paciência. E também não é como se tivesse assim muitos leitores.

Houve alturas em que, vendo outros blogs a ganharem notoriedade, pensei que poderia esforçar-me para também ser uma blogger como deve ser, mas logo percebi que não tenho feitio para tal. Que não me iria dar prazer e, sinceramente, para fazer coisas de que não gosto já tenho o resto da vida. Só escrevo quando me apetece e sobre o que me apetece. Quando isto for um esforço, será algo completamente diferente.

E por aqui estou há dez anos. Confortavelmente. No meu cantinho. Mesmo que ninguém leia, mesmo que ninguém goste, este sítio tornou-se uma parte da minha vida. Não só porque gosto realmente de escrever aqui - pode não parecer, mas perco mesmo muito tempo a pensar no que vou escrever e na maneira como quero escrever, a escolher as fotos, os links, as frases, posso passar horas nisto até acertar no post tal como o quero publicar (e passo horas a fazer posts que depois acabam por não ser publicados) - mas também porque também gosto muito de vir aqui ler os posts mais antigos. Eu sei que isto é capaz de ser um pouco narcísico, mas este blog é como os meus álbuns de fotografias, uma maneira de eu fixar momentos, pensamentos, sensações, de não me esquecer de algumas coisas e de me organizar por dentro. Escrevo sobre a minha vida, os meus filhos, os livros que leio, os filmes que vejo, aquilo que me preocupa, as coisas boas da vida, algumas coisas menos boas. Escrever para os outros é muito diferente de escrever num caderno, ajuda-me a elaborar melhor as minhas ideias, obriga-me a fundamentar opiniões, a focar-me naquilo que interessa. Também por isso é tão importante escolher bem o que publico. Olhando para trás, há textos que eu hoje escreveria de maneira diferente mas são poucos aqueles que me arrependo de ter escrito ou que sinto como desnecessários. Dentro da futilidade que é ter um diário público, tento encontrar aqui o equilíbrio (o meu equilíbrio) entre o que guardo e o que mostro.

Assim vamos. Enquanto valer a pena.

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publicado às 09:34

05
Jul17

Ovelha negra

"Quando dizem que a idade está na cabeça, meu fígado e minha coluna dão uma risadinha sarcástica."

Rita Lee, quase 70 anos e muito "rockenrou", conta as suas memórias numa autobiografia sincera e divertida que é agora editada em Portugal.

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publicado às 08:39


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