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17
Ago17

O boss

Perdi a conta aos meses que demorei a ler a autobiografia de Bruce Springsteen. Acontece que deixei de andar de transportes públicos e era aí, nas viagens de metro ou enquanto esperava pelo autocarro, que eu mais lia. E, o que é pior, eu não deixei de andar de transportes para andar de carro, não, eu passei a andar a pé. Ora o livro do Bruce é um belo calhamaço, não é um daqueles livros que se carregue facilmente numa mochila um dia inteiro, por isso ficava sempre em casa. Para ler à noitzzzzzzzzz. Enfim. Só agora, nestes meses de "férias" (dos putos), quando a nossa rotina abrandou, é que consegui ter realmente tempo para ler sentada no sofá. E lá acabei as 570 páginas.

Maluquinha por biografias como sou, é claro que gostei. Sabia muito pouco da vida do Bruce Springsteen, como aliás sei muito pouco da sua música. Nunca foi um dos meus músicos preferidos, é um daqueles que tenho vindo a descobrir nos últimos anos e que me foi conquistando mais até pelas suas atitudes, pelas suas palavras, pela sua energia, e daí para a música. Neste livro, ele conta com muitos pormenores toda a sua infância, as memórias da família, as primeiras experiências na música. E depois vai intercalando a vida pessoal com a música e os discos. A casa no campo, os filhos, aprender a andar a cavalo, a alegria de estar em cima do palco, o dia em que entrou no estúdio dos Rolling Stones para cantar ao lado de Mick Jagger. E fala muito da depressão - de como a doença o tem afectado ao longo da vida, algo que eu nem sequer imaginava. É muito bom quando se lê uma uma autobiografia e se sente que a pessoa está a ser honesta, não é preciso que nos conte tudo, tudo da sua vida, basta que seja honesta e que se perceba que aquela é a sua voz (e não de um ghostwriter qualquer).

springsteen.jpg

 Ainda assim, duas notas:

1) um bocadinho de edição não faria mal nenhum neste livro (não sei se é defeito profissional, mas acho sempre que a maioria dos livros só teria a ganhar se houvesse alguém que cortasse todas as repetições e tornasse tudo mais conciso);

2) ainda não foi desta que consegui ler um livro traduzido como deve ser. É inacreditável a quantidade de más traduções que existem por aí, a quantidade de frases mal construídas, de coisas sem sentido que se lêem em livros de todas as editoras (até mesmo das boas editoras). Complica-me muito com os nervos e tenho a certeza que este é o principal motivo porque leio pouquíssimos livros traduzidos. Uma pessoa está a ler um Paul Auster ou um Hemingway e não dá para acreditar que eles tenham escrito assim. Às vezes basta uma palavra errada no meio de uma frase para ter vontade de pôr o livro de lado. Como, por exemplo, aqui, a palavra "letras":

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Eu sei que parece uma coisa de nada mas isto repetido ao longo de um livro pode mesmo afastar um leitor. E seria uma pena, porque aqui ele está a falar de uma música lindíssima e que, já agora, fala desta América racista que não pára de nos surpreender:

"American Skin"

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publicado às 08:59

Sábado. Saí de casa com notícias sobre a possibilidade de uma guerra nuclear. Vi no facebook do telemóvel imagens da manifestação racista  nos EUA. Olhei para o céu a escurecer com fumo por causa dos incêndios. À noite, quando cheguei ao quarto de hotel, descobri que Bolt se tinha lesionado na sua última corrida. Sábado passei o dia longe de tudo, em Cem Soldos, uma aldeia a poucos quilómetros de Tomar, um sítio que nos faz acreditar. E olhem que isso não é nada fácil nos dias que correm.

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Esta é a Surma e a foto foi tirada por Carlos Manuel Martins/Bons Sons.

Para saberem mais leiam AQUI e AQUI.

Como escrevi no ano passado: a ver se não se estraga.

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publicado às 15:18

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Ontem, numa espécie de homenagem ao grande Usain Bolt, vi o documentário I am Bolt - que foi feito para assinalar a despedida da competição e a participação do atleta nos seus últimos jogos olímpicos, no Rio de Janeiro em 2016. É uma "biografia autorizada", portanto não há ali espaço para polémicas ou questionamentos, mas, ainda assim, é um filme muito interessante, até por usar as filmagens feitas com o telemóvel pelo próprio Bolt ou por aqueles que o rodeiam. Também é engraçado acompanhar toda a rivalidade com americano Gatlin, que já dura há anos - e tê-lo visto agora que Gatlin finamente conseguiu ganhar uma corrida a Bolt tem ainda mais graça. Dá para perceber que já há algum tempo que o homem mais rápido de sempre queria deixar de competir e dedicar-se apenas a aproveitar a vida, poder estar com os amigos, comer junk food, divertir-se. Sobretudo porque é claro que já não não está no seu pico de forma e ele, melhor do que ninguém, sabe isso. De qualquer forma, não deixa de ser uma pena. Vê-lo a correr foi sempre um momento de felicidade. Além dos recordes, Bolt ganhou por três vezes o ouro olímpico em 100 metros, mais três vezes em 200 metros e duas vezes nas estafetas, e tem mais onze medalhas de ouro em campeonatos do mundo. É absolutamente inacreditável.

Para mim, não há futebol que se compare com os jogos olímpicos ou sequer com os mundiais de atletismo. Só por isso, esta semana já tem sido boa. Ainda por cima, quando os campeonatos são em horário GMT e consigo acompanhar quase tudo sem grandes malabarismos. Sábado, Bolt corre a estafeta 4x100 (as eliminatórias são de manhã, a final é as 21.30). Será, ao que tudo indica, a sua última corrida. 

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publicado às 18:01

05
Ago17

Na guerra

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Aconteceu estar a ler A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich, na mesma altura em que fui ao cinema ver Dunkirk, de Christopher Nolan.

Eu sou um bocadinho obcecada com a Segunda Guerra Mundial (nada de grave, não passo o tempo a pensar nisto, é só um assunto que me interessa e que vai estando presente, de forma mais ou menos constante, nas coisas que vou lendo e vendo por aí). Aliás, a guerra, de uma maneira geral, é um assunto que me interessa. Porque me parece incompreensível. Andamos há milhares de anos nisto e é como se a humanidade não tivesse aprendido nada. Continuamos a matar-nos uns aos outros por causa de vaidades e ambições de uns quantos senhores que mandam, por uns quilómetros de terra, por petróleo, por deus, por um poder passageiro. E, para além desta incompreensão geral, há algo mais que me intriga: o que leva uma pessoa a matar outra? o que sente? como é essa raiva ou instinto de sobrevivência ou sentido de dever que conduz os militares? como resistem? o que fica neles dessa experiência?

Mas estou a desviar-me do meu assunto.

O livro de Svetlana não é propriamente grande literatura, tal como geralmente a definimos, mas é um documento incrível. Uma colectânea de testemunhos, recolhidos ao longo de anos, de várias mulheres que combateram pela Rússia na Segunda Guerra Mundial. Descrições impressionantes. E pessoais. Quase que dá para visualizar. E sentir o cansaço dos soldados, o frio, a fome, o desespero de quem só quer continuar a viver, o medo. Sabia muito pouco sobre a frente russa da guerra, sabia o básico, dos filmes sobre o cerco de Leninegrado, mas, apesar de tudo, existe uma diferença enorme (pelo menos, para mim) entre ver um filme que é ficção e ler um testemunho real. Confesso que (como estava de férias li muito nesses dias) houve noites em que mal conseguia dormir e mesmo quando adormecia continuava com aquelas imagens na cabeça.

Dunkirk é um filme de uma beleza rara. Muito bem feito, muito bem filmado. Recusando a estética algo gore que se banalizou nos filmes de guerra desde o desembarque no Resgate do Soldado de Ryan, de Spielberg. Aconselho a leitura do texto do Eurico de Barros para terem uma crítica como deve ser. Eu não sou crítica e o que senti é que este era um filme falhado. A proposta de Christopher Nolan passava por não ter personagens muito definidas, porventura para acentuar o carácter universal daquelas pessoas que ali estão e que podiam ser qualquer outra pessoa. Isso funciona muito bem na parte dos soldados em terra - aqueles milhares de homens em espera, na praia, tentando por todos os meios sair dali (a cena do naufrágio do barco é muito boa, mesmo). Mas funciona muito mal no resto. Com o comandante da marinha interpretado por Kenneth Branagh, os pilotos dos aviões (um deles é Tom Hardy) e os tripulantes do pequeno barco de pesca (com Mark Rylance) ficamos ali a meio caminho - o realizador não teve coragem para levar a sua ideia de não ter personagens ao limite, não resiste a dar-nos esboços de heróis mas que não chegam a ser verdadeiras personagens (a mim até me parece que os actores terão tido dificuldade em construí-las; Rylance, por exemplo, parece uma fotocópia do que fez em A Ponte dos Espiões mas aqui vazio de conteúdo), sabemos alguma coisa sobre as suas motivações (ah, o velhote já perdeu o filho na guerra, é por isso que) mas não o suficiente para criarmos empatia ou para perceber realmente as suas acções e as suas palavras. E, na verdade, aquilo fica com um ar um bocado falso: o discurso de Branagh, a determinação do velhote, aquele voo para a morte do piloto (e para os que dizem que este é um filme que não procura a emoção, querem maior lamechice do que essa cena, com as palavras de Churchill, o avião a despenhar-se, um pôr-do-sol na praia e aquela música?). Aliás, a música de Hans Zimmer parece estar sempre a mais, como se Nolan se socorresse da música para procurar o dramatismo que não consegue obter com a narrativa. Dito assim, até parece que não gostei de Dunkirk, e é mentira. Até gostei. Mas acho que ficou muito aquém daquilo que eu esperava e daquilo que seria a proposta do seu autor, por isso digo que é um filme falhado.

Curiosidade: o filme conta com a participação de Harry Styles (ex-One Direction).

A imagem lá em cima é da praia de Dunkirk, em maio de 1940, de onde 330 mil soldados foram evacuados. Para saber mais vejam aqui (números e factos, na BBC) e aqui (os relatos de quem lá esteve, no The Guardian).

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publicado às 15:08


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