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Afinal, parece que ainda havia coisas por dizer sobre os livros de actividades da Porto Editora. 

Antes de mais, convém dizer (mais uma vez) que eu acho essa coisa de fazer livros para meninos e livros para meninas uma parvoíce. Não me parece que haja qualquer justificação para isso, em qualquer idade mas muito menos tratando-se de crianças abaixo dos 6 anos (existe neste blog uma tag igualdade, está lá tudo o que penso sobre o assunto). Mas, bom, lá porque eu acho esses livros uma tolice não quer dizer que devam ser proibidos. Se fossem proibir todos os livros que eu acho parvos, desadequados ou até nocivos para as pessoas iria sobrar pouca coisa nas prateleiras. Enfim. Publique-se. Não sendo nada de ilegal, sou sempre pela liberdade.

Também convém dizer que os livros em causa nunca foram proibidos. Houve um parecer da Comissão para a Igualdade de Género que os desaconselhava. E uma houve recomendação (a meu ver excessiva e demasiado casuística) do Governo para a sua retirada do mercado.

Posto isto, a Porto Editora retirou os livros de mercado e agora, um mês depois, volta a pô-los à venda, ao mesmo tempo que emite um comunicado que remete para o relatório do conselho editorial, no qual se desdobra em justificações patéticas. E até infantis. Querem ver?

1) começa por dizer que estes livros respondem "a uma necessidade do mercado, já então muito preenchido com diferentes produtos para rapazes/meninos e raparigas/meninas", a que se segue uma lista de títulos de outras editoras que também fazem a distinção de género. Um pouco como as crianças fazem quando são apanhadas em falta e, para se desculparem, dizem: "mas ele também fez". Farto-me de dizer aos meus filhos: os erros dos outros não desculpam nem justificam os nossos erros. Lá porquem os outros mentem ou roubam ou lá o que seja, não vamos nós fazer o mesmo, não é? 

2) mais adiante, lê-se: "A compra destes produtos é livre: os blocos dos rapazes estão também disponíveis para serem comprados pelas meninas e vice-versa. A igualdade de oportunidades não está comprometida porque todos podem ter acesso à obra que entenderem." A sério? Um menino pode mesmo comprar um livro para menina? E pode comprar uma boneca no corredor dos brinquedos das meninas? E não vai preso por isso? Respiremos fundo. É óbvio que a compra é livre. Não é isso que está em causa. Nem vou aprofundar esta questão (vão lá à tal tag, pode ser que ajude). Quem não percebe isto não percebe nada do que é que estamos a falar. E os senhores da Porto Editora sabem perfeitamente do que é que estamos a falar, só que não lhes dá jeito.

3) diz ainda a editora: "parece-nos muito exagerado considerar que a realização deste tipo de blocos de atividades de alguma forma condicione, no futuro, as opções pessoais e profissionais das crianças." Respiremos fundo, outra vez. Primeiro, não é a realização das actividades, é o discurso sobre as mesmas. Brincar com bonecas não condiciona o futuro de ninguém. Dizer que brincar com bonecas é coisa de meninas sim (mas não é dizê-lo uma vez, é que isto seja dito por toda a gente, de muitas maneiras, ao longo do crescimento das crianças). E, segundo, é mesmo preciso explicar que nada, nenhuma actividade, nenhuma conversa, nenhum livro, nada, visto isoladamente pode ser responsável por condicionar o futuro de uma pessoa? A educação, a socialização, a vida e as próprias pessoas são demasiado complexas para se poder identificar uma causa e um efeito desta forma simplista. E é claro que os vários especialistas altamente qualificados que trabalham na Porto Editora sabem isto. Este é um argumento verdadeiramente populista.

O que eu concluo disto tudo? A Porto Editora retirou os livros do mercado por sua vontade. No calor dos acontecimentos. Amendrontada pelos comentários nas redes sociais. Para tentar acabar com a polémica o mais rapidamente possível. Entretanto, outras vozes se levantaram e a editora percebeu que, se calhar, poderia capitalizar a polémica. E que, havendo quem apoiasse a editora, talvez a decisão inicial tenha sido precipitada. Isto não tem nada a ver com os livros. Nem com discutir o que está certo e o que está errado. Tem a ver com uma empresa que tem um negócio. É perfeitamente legítimo. Mas depois dispensamos todo o discurso pseudo-pedagógico, ok? Vendam lá os livros, aguentem as críticas (a crítica, tal como a venda, também é livre) mas por favor não digam mais parvoíces.

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publicado às 21:54


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