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Quando os meus filhos eram mais pequenos perdi muitos filmes. Não tinha tempo para ir ao cinema todas as vezes que queria e depois não podia compensar isso porque não tinha Tv-cines nem essa invenção maravilhosa que é a box da televisão que nos permite pôr para trás e ver aquilo que perdemos, além de que nem me passava pela cabeça piratear filmes a partir de sites manhosos. Outros tempos. Aprendi a viver com todos os filmes que não via como aprendi a lidar com os concertos a que não fui (e a que não vou) e com todos os convites que ainda recuso para programas que não se compadecem com treinos de futebol até às nove da noite e crianças que têm de estudar e acordar cedo para ir para a escola. De vez em quando encontro filmes perdidos na televisão e surpreendo-me. Como é que eu não vi este?

Aconteceu-me esta semana. Apareceu-me do nada num zapping tardio. Tive que o ver em duas noites porque ando estourada e adormeço no sofá muito antes da hora da Cinderela (mas isso dava outro post), mas lá consegui ver este filme de 2010: Blue Valentine ou, em português, Só Tu e Eu, realizado por Derek Cianfrance (que, depois desse, já fez Como um Trovão e A Luz Entre os Oceanos), com Ryan Gosling e Michelle Williams a fazerem de Dean e Cindy. A história de uma relação a caminho do fim. Ou de como a paixão é tantas vezes triturada pela vidinha. 

"I'm so out of love with you!", diz Cindy a Dean, no meio de uma discussão. "I've got nothing left for you, nothing." 

Se calhar sou eu que ando demasiado sensível e cansada e à procura de desculpas para lacrimejar, mas eu gostei muito e achei ao mesmo tempo tão triste e tão realista e tão doce e tão duro e depois tão triste outra vez. Nos filmes, como na vida, nem todos os finais são felizes.

publicado às 23:16

A parte pior de um dia em que te sentes a pior mãe do mundo é quando te sentas no sofá ao serão e não há ninguém que te diga que és fantástica, mesmo que seja mentira.

(eu odeio mentiras, mas há dias em que gostava mesmo de ouvir umas quantas)

publicado às 23:41

15
Mai18

Comprimidos

Estive a ver o documentário Take your pills: receita para a perfeição, de Alison Klayman, sobre o uso e abuso de Adderall e outras anfetaminas, uma realidade que me tinha passado completamente ao lado. Já tinha ouvido falar do excesso de medicação de Ritalina para o défice de atenção mas isto vai muito além. Aparentemente, há miúdos nas universidades e adultos com profissões variadas que tomam Adderall para se conseguirem focar melhor, melhorarem o seu desempenho e trabalharem durante mais horas seguidas. É muito impressionante. E depois há também aqueles que têm verdadeiros problemas de atenção e precisam de Adderall apenas para funcionarem normalmente (e podemos questionar o que é isto de ser normal e se é assim tão necessário sê-lo). 

 

São coisas que me põem a pensar. Eu, que sou aquela pessoa que nunca tomou um comprimido para dormir, um calmante, um anti-depressivo, que nunca experimentou qualquer tipo de droga nem sequer alguma vez deu uma passa num charro (podem rir-se à vontade que eu não me importo), e que a única substância que toma, de vez em quando, é um copo de vinho ao jantar ou um gin tónico numa noite com amigos, eu fico fascinada a tentar perceber estes fenómenos. Há uma das raparigas no filme que diz que como o Adderall não é uma droga recreativa, é algo que as ajuda a trabalhar, as pessoas tendem a achar que não há nada de errado em tomar aqueles comprimidos. E se pensarmos bem nisto é verdadeiramente assustador: estas pessoas drogam-se não para serem mais felizes ou para fugirem dos problemas da sua vidinha, como acontecia antes, mas, pelo contrário, para poderem trabalhar mais, para serem mais competitivos e ganharem mais dinheiro. E isto diz muito sobre os tempos em que vivemos.

publicado às 16:15

As notícias são alarmantes mas, de alguma forma, parece que não tocam a maioria das pessoas. O rio Tejo completamente poluído. A falta de água em países longínquos. A falta de água no nosso país. Os plásticos que se acumulam no mar. A destruição da Amazónia. E só estou a falar das notícias mais sonantes, há mais, muito mais. Como é possível que não estejamos todos preocupados?, é o que muitas vezes me pergunto. Na semana passada, falei com a Ana Pêgo, bióloga e educadora ambiental, responsável pelo projeto Plasticus Maritimus (é muito fixe, deviam seguir o link e ir lá ver) e ela dizia-me que, hoje em dia, aos três "R" da sustentatibilidade (Reduzir, Reutilizar, Reciclar) se deveria juntar um quarto "R", talvez ainda mais importante, para Recusar. Porque, diz ela, há coisas com as quais não devíamos mesmo ser condescendentes. São demasiado importantes. Fiquei a pensar nisso. O que faço eu para proteger o ambiente? Será suficiente? O que poderei mudar?

 

1. Limitar o consumo

Esta é uma coisa que faço naturalmente, não por motivos ecológicos ou filosóficos sequer, mas porque sou mesmo assim, desde sempre. Odeio comprar coisas. Roupas, sapatos, malas, brinquedos, móveis, cortinados, lençóis, o que for. Compro o mínimo possível. Em parte por questões financeiras, é óbvio, mas em grande parte porque é algo que não me dá prazer nenhum. Sim, gostava de ter uma casa toda em branco, com quadros nas paredes e objectos de design mas não tenho paciência. Digo sempre que vou comprar qualquer coisa mas acabo por ir adiando e por ir arranjando algo mais importante para fazer. Sim, gostava de abrir o armário e ter lá roupa gira para vestir. Mas não me lembro da última vez que comprei alguma peça de roupa para mim, acho mesmo que neste último inverno não comprei nada. Entretanto, percebi que esta aversão às compras é mais do que isso. É uma maneira de estar no mundo. De recusar o acessório e o superficial, de me centrar no que é importante. Na prevalência do ser sobre o ter. E também percebi que comprar só o que faz falta é uma atitude ecológica. Comprar menos para que se produza menos, para poupar os recursos, reduzir gastos energéticos, diminuir a poluição e evitar o desperdício.

2. Consumir com consciência

Aqui é mais difícil, confesso. Gostava de ser uma pessoa que sabe exactamente o que está a comprar - que boicota as marcas que usam mão de obra infantil e que não permitem tempos de descanso, as que destroem as florestas e poluem os rios. Não sou essa pessoa. Como consumo pouco desculpo-me dizendo que não hão de ser aqueles três pares de meias que vão mudar o mundo, mas sei que isto é só desculpa de mau pagador. Compenso evitando os sacos dos supermercados e escolhendo sempre que possível as embalagens maiores dos produtos, sejam detergentes ou iogurtes (já eliminei os pacotinhos individuais de leite ou de sumo da minha lista de compras). Estou muito mais atenta às embalagens desnecessárias. Evito palhinhas e talheres de plástico. Por outro lado, tento ter algum cuidado na alimentação - por uma questão de saúde mas também ambiental. Sou exigente na escolha dos ovos, preocupo-me com a origem da carne e do leite, por exemplo. Não sou fundamentalista com os legumes até porque a maior parte deles vão acabar na sopa e custa muito pagar caro por umas cenouras que vão acabar em puré. Falho muito, sei que tenho de melhorar mas vou me esforçando (e saber o que fazemos errado é meio caminho para mudar).

3. Reciclar

Cá em casa somos bons a reciclar. Todo o lixo é separado, todo, vidros, papéis e embalagens, sem distracções. Ainda levamos as tampas de plástico para a escola. E, claro, reciclamos tudo o que for possível, a começar pela roupa que vem do primo para o António, passa depois para o Pedro e ainda segue viagem para mais alguém (ou então transforma-se em esfregão). O mesmo para a minha roupa, os livros e os brinquedos. Verificamos sempre se há a quem sirva antes de pensar em pôr no lixo. Eu reciclo tanto que até os cortinados da sala ou os individuais da cozinha vieram reciclados da casa da minha irmã. 

4. Poupar

Ui. Ponto crítico. Luto todos os dias contra o desperdício. Seja na comida, guardando restos em tuperwares e comendo tudo antes que se estrague (nem sempre acontece). Seja na energia - apagar luzes, desligar electrodomésticos, evitar acender luzes, encurtar os banhos, fechar as torneiras. Tanto ainda por batalhar aqui... Uma vitória: há já uns meses, quando se começou a falar da seca, decidimos colocar um balde na banheira, para a água que corre enquanto esperamos que saia a água quente. E depois usamos a água do balde na sanita. Não dá muito - evitamos três descargas diárias, mais coisa menos coisa. Mas já é alguma coisa. Os miúdos aderiram imediatamente. A casa-de-banho tem andado um bocadinho mais badalhoca mas paciência. É a nossa pequena contribuição.

5. Agir

Ainda outro dia houve uma campanha muito gira para pôr os miúdos a plantar árvores em Lisboa e eu andei a ver o site e a fazer planos mas depois aconteceu qualquer coisa que nos trocou as voltas e não fomos. Isto acontece-nos muito e é contra isto que temos de lutar. Temos que nos envolver mais. Este é um problema cívico. É preciso alertar toda a gente para os problemas da falta de água, do excesso de detritos, da destruição da natureza, da poluição extrema, do excesso de plástico, do aquecimento global. São problemas nossos e dos nossos filhos e netos. Que nos afectam directa ou indirectamente. É preciso passar a palavra. E fazer o que está ao nosso alcance. Por exemplo, escrever um post sobre o asunto. 

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publicado às 21:12

"If you aren’t able to honestly, openly, constantly communicate with your partner, then nothing else matters. Your actions don’t matter, the sex you have doesn’t matter, the power struggles and the financial strains and the problems with this, that or the other thing don’t matter."

Diz a cantora e activista Amanda Palmer, entre outras coisas fixes, no The Guardian

E já agora fiquem-se com esta dela, The Messy Inside:

publicado às 22:41

10
Mai18

Seis anos

Não chorei. Desliguei o telefone e não chorei. Passei a noite em claro. Não dormi um minuto que fosse e, depois, às sete da manhã fui tomar banho e acordar os miúdos e levá-los à escola como se não se passasse nada. O pai ficou a trabalhar, disse-lhes, ou outra coisa do género, e eles acharam normal porque já era normal o pai não estar. Lembro-me que caía uma chuvinha parva e eu andei muito a pé. E depois de ter a certeza que as coisas eram como eram e de perceber como as coisas seriam daí para a frente, só depois disso, fui para casa e chorei. O telefone entupido de chamadas perdidas e mensagens de amigos a falarem-me do Bernardo Sassetti. Também eles choravam. Há pessoas que morrem mas que na verdade continuam vivas em nós. E também há pessoas que continuam vivas mas que na verdade morrem para nós. Limpei os olhos e fui buscar os miúdos à escola. Estava estranhamente tranquila naquele momento, enquanto caminhávamos pela estrada de benfica e falávamos da escola, da festa do amigo do Pedro no dia seguinte e das coisas do costume.

Como nos espectáculos, a vida tem sempre de continuar.

E continuou.

Somos capazes de até ter dado umas gargalhadas.

publicado às 09:58

05
Mai18

Maternidade

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Chama-se The Letdown, ou em português da netflix Maternidade e Desapontamento, e são apenas sete episódios que todas as mães deviam ver. Para não se sentirem sozinhas. Para se sentirem menos falhadas. Melhor do que qualquer palestra de um guru qualquer que vos diga o que é que vocês deviam estar a fazer para serem melhores mães. Mesmo. 

Esta é uma série australiana, protagonizada por uma fantástica Alison Bell mas que nos mostra não só a a experiência desta mãe de uma bebé como também outras experiências de outras mães que ela vai conhecendo. E está lá tudo. Qualquer pessoa que tenha sido mãe vai encontrar algum ponto de contacto. Seja a falta de dormir seja a falta de apetite sexual (ou o medo de voltar a fazê-lo). As dores do parto. O cansaço. A insegurança (bolas, a insegurança, quando é que nos livramos disto?). A incompreensão dos amigos que não têm filhos. A solidão, aquela grande solidão que se sente naqueles meses que passamos em casa com um bebé. A amamentação. As críticas dos outros. Os olhares reprovadores. As noites sem dormir. A total inaptidão de um marido que até aí era perfeito. As discussões. A casa desarrumada. O desejo de fazer tudo bem. O falhanço. O cansaço outra vez. As hormonas. A sogra. A nossa mãe. A culpa. Sentir que estamos a crescer. A enorme responsabilidade de ter um bebé ao nosso cuidado. Aquela sensação de que isto não é a nossa vida, é como se estivéssemos a ver um filme. Só que não.

É bom para rir. Se bem que às vezes também fiquei aqui com um nó na garganta.

The world created by The Letdown, largely with a light touch, is very real: small, chaotic, sometimes lonely, and very, very sleep-deprived. Inevitably however, as a new parent, the more absurd jokes often feel less comedy, more cinéma vérité.

 

Ser mãe de um bebé é isto tudo e é também absolutamente maravilhoso. Pode não ser exactamente como nós imaginávamos (e, sobretudo, nós não somos exactamente como imaginámos que seríamos) mas (lá vem o tal cliché) a verdade é que não há nada que se compare a este amor que sentimos por estas pessoas pequenas que nos fazem sentir tão miseráveis e felizes ao mesmo tempo. Acho que esse é um dos grandes mistérios da humanidade.

(depois melhora. numas coisas. e também piora. noutras. enfim.)

publicado às 22:55

03
Mai18

Bonecos

No sábado, fomos a uma sessão do festival Indie Junior: dois filmes mudos (um filme russo e outro de Buster Keaton) acompanhados por duas baterias. Preparei-me para o pior. Expliquei-lhes que eram filmes do início do cinema, a preto e branco e sem falas. E para os animar garanti-lhes que não demoraria uma hora sequer. Eles suspiraram daquele jeito como quem diz "as coisas que temos que aturar a esta mãe", mas não protestaram nem amuaram, portaram-se bem, estiveram atentos, riram-se e, no final, até disseram que tinha sido fixe e comentaram (e imitaram) as partes mais engraçadas. 

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Na segunda-feira, o Pedro foi com a escola a uma outra sessão do Indie Junior. Ao fim do dia queixou-se: "Eram filmes infantis, mãe, não teve graça nenhuma."

O puto ainda não tem 10 anos mas já não gosta de ver bonecos. 

Confirma-se: os segundos crescem muito mais depressa.

publicado às 21:24


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