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Provisional Figures quer dizer números provisórios, que é como no Reino Unido são designados os imigrantes ilegais ou em situação indefinida. É também o nome do espectáculo que Marco Martins criou em Yarmouth, na Inglaterra. Começou por ser um projecto de trabalho com a grande comunidade portuguesa de Yarmouth mas tornou-se, mais do que isso, um espectáculo sobre a decadência de uma cidade e a decadência das pessoas, sobre um grupo de pessoas mal tratadas pela vida e que acabam, quase todas, a trabalhar nas fábricas de carnes da região, esventrando, cortando e embalando perús. Em palco estão nove pessoas, de origem portuguesa e não só, que nos contam bocados das suas histórias, das suas memórias, das suas vidas. É impossível não nos sentirmos tocados por aquelas presenças. É desarmante o modo como Sérgio exibe as cicatrizes no seu corpo. Como Carmo se sentiu uma máquina na linha de montagem da fábrica. Como Richard nos conta o amor da sua vida e nos mostra a tatuagem que fez e desfez por causa desse amor. Como Victoria dança e canta como a Spice Girl que não chegou a ser. Psycho Spice. Old Spice. Pressentimos a verdade nas suas vozes. Nos gestos. Nos olhos. No modo como se exibem em palco. Às vezes é preciso ir ao teatro para podermos enfrentar a realidade. Para vermos aquilo que está à nossa volta mas que no dia-a-dia não conseguimos ou não queremos ver.

Marco Martins sabe fazer isto como ninguém. O longo trabalho de pesquisa, o casting perfeito, a precisão com que tira de cada um apenas aquela história que vale a pena contar, a gestão das emoções daquelas pessoas que não estão habituadas a estar num palco, a seleção das músicas, a dramaturgia que nos vai tirando o chão.

E ali estamos nós, sentados na plateia do teatro, espectadores da miséria dos outros. Aplaudindo as vidas desgraçadas daquelas pessoas e a coragem que tiveram para se apresentar perante nós. Independentemente do que aquela experiência significa para nós (experiência estética, intelectual, emocional - e eu emocionei-me mesmo), não consigo evitar um certo desconforto. Pelo voyeurismo. Por transformarmos a vida de outras pessoas em espectáculo. Por pagarmos bilhetes não para vermos actores a representar mas para vermos pessoas a exibirem as suas lágrimas verdadeiras.

E, depois, temos obrigação de parar para pensar o que é que lhes acontece depois de saírem do palco. Pessoas que (neste caso, quase todas) nunca tinham sequer visto um espectáculo de teatro. E que agora são expostas desta maneira. Como num reality show, só que mais bonito e trabalhado, com falas decoradas e marcações.

Não é a primeira vez que penso nisto. Nem sequer posso dizer, com toda a certeza, que isto esteja errado. Mas tenho esta dúvida. Porque se é verdade que grande parte da força deste espetáculo (tal como já acontecia em Todo o Mundo é um Palco) vem da genuinidade daquelas pessoas, também é verdade que o teatro não tem que ser genuíno - se os actores forem bons, se o espectáculo for bom, não precisamos de genuinidade para nada. É esse o jogo do teatro.

Da noite de ontem, para além das histórias da Victoria, do Richard, da Carmo e dos outros, trouxe mais isto para pensar. 

Podem ver Provisional Figures, até 4 de julho, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

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publicado às 09:33

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publicado às 22:10

A Céu, do blogue Senhoras da Nossa Idade, fez me umas perguntas sobre livros e eu diverti-me imenso a responder, como podem ver AQUI

Uma coisa engraçada que eu descobri ultimamente é que quando me pedem uma breve nota biográfica eu nunca ponho as minhas habilitações literárias nem elaboro muito sobre o que faço no meu trabalho. O essencial de mim é isto: sou alentejana, sou mãe do António e do Pedro e sou jornalista. O resto são derivações. 

E, a propósito (se lerem o inquérito vão perceber porquê), fica aqui a música Desde que o samba é samba, de Caetano Veloso:

publicado às 22:44

03
Jun18

Junho

Fui comer sardinhas com duas amigas do trabalho. Estávamos a terminar o dia e de repente estás livre? eu também, que coisa rara, bora. Fomos. Esta espontaneidade. É uma das coisas de que tenho saudades da minha vida pré-filhos. Não que eu tivesse uma vida assim tão preenchida e fizesse assim tantas coisas, mas poderia fazê-las, se quisesse, e isso faz toda a diferença na minha cabeça. Agora há sempre que ter atenção aos horários, os horários da escola, do futebol, de estudar, de dormir, de acordar. Os horários e as vontades deles. Se quero fazer alguma coisa fora da rotina tenho que tomar tantas diligências que acabo por desistir.

Fui comer sardinhas a Alfama com duas amigas, só isso, uma coisa tranquila, beber sangria, conversar, comer pimentos assados, ficar com as mãos a cheirar mal, rir com gosto. Nem era meia-noite quando apanhámos o metro de volta para casa. E foi tão bom como se tivesse ido desbundar para uma praia paradísiaca longe daqui.

E isso lembra-me que já falta pouco para os putos estarem de férias e para entrarmos nos melhores três meses do ano. São só mais duas semanas. E estamos em contagem decrescente.

publicado às 20:13


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