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31
Dez18

De 2018

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publicado às 18:20

De dançar e não pensar em absolutamente mais nada.

Magnetic Fields, Nothing matters when we're dancing

publicado às 11:35

Relaxar é a palavra de ordem até 2019.

Bob Marley, Everything's Gonna Be Alright

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publicado às 18:30

23
Dez18

Roma

(spoiler alert)

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Vi, finalmente, Roma, o filme de Alfonso Cuarón que tem ganho vários prémios, está em quase todas as listas de melhores do ano e irá, tudo o indica, ser um dos vencedores nos Óscares.

Antes de vê-lo já tinha visto comentários maravilhados e críticas tremendas. Na maior parte dos casos, fiquei-me só pelos títulos, porque não gosto de ler muita coisa sobre um filme antes de ter oportunidade de desfrutá-lo plenamente. Tenho esta convicção de que uma obra de arte deve valer por si mesma, antes de mais. E pela relação que estabelecemos com ela, sem intermediários. Só preciso saber o básico, seja de um filme ou de um quadro. E, depois, então sim, vou à procura de informação, de contexto, de outras opiniões. Na maioria dos casos, sobretudo quando a obra é boa, essas pesquisas e o debate com outras pessoas trazem-me novos pontos de vista, ajudam-me a perceber ou, pelo contrário, criam-me perplexidades, levam-me a fazer interrogações, mas sempre enriquecem a minha experiência. Vi, então, o Roma, e fui depois ler o que se tinha escrito por aí. 

Eu gostei muito do filme.

A história passa-se em 1971, na casa de uma família de classe média alta que mora num bairro de elite na Cidade do México. Um casal desavindo, quatro filhos, uma avó, duas empregadas internas, um motorista. A câmara anda em volta de Cléo, uma das empregadas. São duas raparigas novas e indígenas, que deixaram a sua terra, a sua família, a sua cultura, para viverem em função das vidas e dos desejos dos patrões. Trabalham imenso, a toda a hora, cumprindo tarefas grandes e pequenas, desde limpar o cocó do cão no quintal a distribuir miminhos e aconchegar os lençóis das crianças. Facilmente reconhecemos esta dinâmica. Cléo não é muito diferente das criadas que também existiam nessa altura em Portugal, adolescentes vindas da província e de quem se esperava dedicação total. Aliás, a presença de uma criada-ama que cuida dos filhos da família e acompanha o seu crescimento, criando com eles uma ligação afectuosa, não foi, de todo, um exclusivo mexicano nem português.

Cuarón explicou, entretanto, que o filme se baseia na sua própria experiência, na sua família e na empregada que tinham lá em casa, chamada Libo. Para fazer este filme, além de recorrer às suas memórias, entrevistou Libo, com quem ainda hoje mantém uma relação de amizade. O realizador explicou ainda que este filme é uma homenagem e uma agradecimento a Libo (e, através dela, às muitas outras criadas que abdicaram de si para cuidar de uma família que não é sua).

No entanto, o filme nunca assume o ponto de vista de Cléo. Nunca penetra nos seus sentimentos. Nunca nos dá a sua visão da história. Nós conseguimos perceber o que ela sente, o que deseja, o que cala, o que a magoa. Mas ela nunca o exprime. Embora o filme seja sobre Cléo, o ponto de vista é de Cuarón (não o Cuarón criança, mas o Cuarón realizador mexicano instalado em Hollywood que olha para traz e se enternece com aquela mulher).

Esta é a crítica mais recorrente a Roma. Leiam AQUI e AQUI, por exemplo. Os que não gostaram do filme acusam-no de justificar e prolongar a exploração daquela mulher, mostrando-a submissa e dedicada perante uma família, como se houvesse entre eles uma espécie de amor, um laço afectivo, ignorando as queixas que Cléo certamente teria e o seu desejo de ter uma vida muito diferente daquela. Onde está a sua revolta perante tamanha injustiça?, perguntam.

Tenho uma perspectiva um pouco diferente.

Tenho algumas questões sobre a estética da pobreza, este embelezamento da miséria, que se deve muito ao preto e branco (e não tenho qualquer dúvida de que se tivesse sido filmado a cores Roma seria um filme muito mais cru e realista e perderia grande parte do seu lirismo e também da sua capacidade de encantamento), mas estas questões não são suficientes para me fazer não gostar. Gostaria, talvez, de ver mais aprofundado o contexto político da época mas percebo que o filme não é sobre isso. Há que fazer escolhas para que a história não se perca.

Dito isto, para mim, a infelicidade de Cléo está toda lá para quem a quiser ver. Uma tristeza permanente naquele olhar, nos gestos, na voz. Sim, ela conforma-se à vida que tem, como milhares de outras mulheres o fizeram. Pensando: do mal o menos. Talvez até agradecendo que a levem ao médico e que lhe ofereçam o berço para o bebé. Talvez até sentindo profunda ternura por aqueles miúdos e verdadeira alegria quando a abraçam. Aquela felicidade que se sente no meio de toda a infelicidade da vida. Mas claro que ela não é feliz. Eu acho que o filme não nos leva a acreditar que ela seja feliz, e que nem quer que pensemos isso. 

Há momentos, é verdade, em que sentimos que por parte da família e especificamente da sua patroa há uma tentativa de criar uma narrativa de felicidade, com aquela ideia de "gostamos tanto dela como se fosse da família" e que era uma coisa também bastante comum. Já ouvi pessoas a dizerem isto das suas amas dos tempos coloniais e a sentirem-se muito generosos por pensarem tal coisa (ah, ela até gostava de ser nossa criada porque nós a tratávamos muito bem, para mim era da família). Mais uma vez: vejo-o como o retrato de uma situação verosímil. Não sinto que o filme tome esse partido ou que nos tente convencer que a Cléo era, de facto, feliz assim.

Aliás, a tristeza (o abandono, a solidão, a desesperança) daquela mulher parece-me tão pungente e tão incontornável que se dissermos que Cuarón tinha outro objectivo que não mostrar-nos isso (e o absurdo e a injustiça de se viver assim, quase como uma escrava) então teremos que admitir que este é um filme completamente falhado. E no meu ponto de vista não é. Ele mostra exactamente aquilo que lá está: uma mulher que é forçada a deixar a sua vida anterior e que se entrega à sua função com todo o sentido de dever (disposta até a pôr em perigo a sua vida para salvar as crianças, não porque as ame mas porque esse é o seu dever - ou então sou eu que estou influenciada pela releitura recente do conto A Aia, de Eça de Queiroz), uma mulher que vai progressivamente perdendo a sua vida própria, que se apaga, que perde o seu bebé provavelmente porque trabalhou de mais durante a gravidez, que sofre (nós vemos que sofre, querem sofrimento maior do que aquela cena do parto?) mas é ensinada a esconder o seu sofrimento, e que neste processo todo se conforma perante a incapacidade de mudar a situação e porventura até se ilude com uma certa ideia de felicidade.

Como fazemos tantas vezes, para tornar tudo isto suportável.

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publicado às 14:31

22
Dez18

Nearness

Ontem à noite, no CCB, a Gisela João cantou isto. À sua maneira, como fez com o Silent Night ou com o Nature Boy, como se fossem fados acompanhados por uma orquestra e por um trio de jazz. E eu até me emocionei em alguns momentos. Porque é tão bonito. E porque é isto o importante da vida. 

"I need no soft lights to enchant me
If you will only grant me
The right to hold you ever so tight
And to feel in the night
The nearness of you"

The nearness of you, aqui por Ella Fitzgerald & Louis Armstrong

 

Não vale a pena guardar por escrito as coisas más que nos acontecem. Não vale mesmo. Não quero guardar as discussões, as injustiças, as idiotices, as pessoas que me magoam, o tempo mal gasto, os tropeções, as tristezas, as lágrimas, a solidão. De tudo isso não quero guardar se não uma vaga memória. Um sinal, apenas, para me recordar dos erros que não quero repetir. Quero guardar, isso sim, os abraços apertados, as gargalhadas partilhadas com quem importa, aquele dia em que fomos todos ver o Bohemian Rhapsody e saímos de lá a cantar We will rock you como se todos os dias fossem felizes (e depois tive que explicar aos putos o que é a Sida), quero guardar os nossos fins de tarde na praia, as férias (as férias, as férias), o sol quente na pele, a felicidade no rosto deles, os momentos que passamos com os nossos amigos, as palavras bonitas, a cara dos miúdos, de boca aberta de espanto a verem a magia Impossível do Luís de Matos, as borboletas na barriga quando damos um beijo e nada mais interessa. Por estes dias quero que seja assim. Que a vida desabe à nossa volta, não quero saber. Vou fechar os olhos, ouvir a Ella ou a Gisela, e só vou pensar em coisas boas.

Feliz natal.

publicado às 09:45


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