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31
Jan19

Shalom shalom

No dia em que fiquei em casa doente, depois de despachar um texto de trabalho, pus-me a navegar na Netflix à procura de algo que me apetecesse ver e descobri isto:

Shtisel é uma série israelita, de 2013, sobre uma família judia ortodoxa que mora no bairro Geula, em Jerusalém. A série é falada é hebraico (li que as personagens mais velhas falam yiddish) e é fascinante pelo modo como retrata o dia-a-dia destes judeus haredi -  tudo é tão diferente, das roupas, chapéus e penteados, passando pelas comidas e bebidas, até aos namoros e casamentos. Por exemplo: homens e mulheres não se podem tocar antes de casar, existe um rabino casamenteiro que arranja os encontros (que acontecem sempre em locais públicos), os casamentos são decididos pela família e, mesmo depois, os casais dormem em camas separadas. As mulheres têm de cobrir o seu cabelo verdadeiro com turbantes ou perucas, na escola as crianças praticamente só estudam temas religiosos, no bairro não há internet e até a televisão é inexistente (e depois há a avó que vai para um lar não-ortodoxo e aos 88 anos fica fã das séries americanas). Tanto quanto consegui perceber, a série retrata a vida destes judeus com grande realismo, mostrando as coisas boas e menos boas - afinal, por mais religiosas que sejam e por mais que tentem controlar os seus ímpetos, estas personagens são humanas, têm medos e desejos que nem sempre se acalmam com uma oração. Mas ao mesmo tempo a série tem um grande sentido de humor.

Ainda só vi meia dúzia de episódios mas já posso dizer que Shtisel foi uma boa e inesperada descoberta. Aqui fica a sugestão para quem, como eu, não tem paciência para a outra maluca das arrumações em degradê.

publicado às 19:53

Bia Ferreira, Cota não é esmola

Estas últimas semanas não têm sido fáceis. Muito trabalho (bom trabalho, mas muito). O Pedro esteve doente. Depois eu estive doente. E nem me atrevo a queixar-me muito porque nos dias que correm, com tanta coisa má que acontece à nossa volta, uma gripe nem sequer é doença que valha a pena mencionar. Estas últimas semanas não têm sido fáceis. Também porque o mundo está um lugar cada vez mais perigoso.

Mas depois ouvimos esta Bia brasileira e maravilhosa e, nem que seja por uns instantes, acreditamos que coisas boas ainda vão acontecer.

Coisas boas vão acontecer. (repetir quantas vezes forem necessárias)

publicado às 16:44

23
Jan19

Malabarismo

Viver é como fazer malabarismo. Vamos ver quantas bolas conseguimos pôr a girar ao mesmo tempo. O trabalho, os miúdos, a casa limpa e arrumada, a família, os amigos, as contas para pagar, o amor, a despensa cheia, a saúde, os livros que queremos ler... Só que, ao contrário do malabarismo, na vida, quantas mais bolas estiverem a girar mais fácil a coisa fica. Mesmo. Até porque, assim, se, por algum motivo, deixarmos cair uma destas bolas, ou seja, se alguma coisa correr mal, teremos sempre outras bolas com que brincar.

Pensei isto no domingo à tarde enquanto via um grupo de rapazes de 14, 16, 18 anos, por aí, a brincar aos circos numa tenda montada no pátio de uma prisão. E também pensei (mais uma vez) como é tão fácil esquecermo-nos da sorte que temos.

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A fotografia é do Álvaro Isidoro/ Global Imagens.

E a reportagem que escrevi pode ser lida AQUI.

publicado às 21:32

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(isto apareceu-me hoje nas memórias do Facebook. de há três anos. e continua a fazer todo o sentido)

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publicado às 09:13

21
Jan19

Da empatia

"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor."

(excerto de 1 Coríntios 13 )

 

Encontrei esta citação num texto da Ana Rute e achei interessante porque este é um daqueles excertos que são muitos usados nos casamentos mas ela usou-o num contexto bastante diferente e continua a fazer todo o sentido. Falava ela dos fardos que cada um tem de carregar e de como é  complicado saber quem é que tem o fardo mais pesado, questionando se temos mesmo que fazer esse tipo de comparações. Eu não gosto muito de me lamentar mas aprendi nos últimos anos que um queixume feito com a pessoa certa (uma pessoa que não nos julga e que não compara fardos, que é como quem diz: um amigo) pode ter realmente a capacidade de nos aliviar. 

Saber ouvir o outro é também um acto de amor. 

Às vezes só precisamos de um colo. E mais nada.

publicado às 22:45

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publicado às 08:28

06
Jan19

Eliete

A Dulce Maria Cardoso tem a capacidade incrível de escrever sobre o mundo, o nosso mundinho, aquelas pequenas coisas do dia-a-dia em que nós quase nem reparamos mas que fazem parte da nossa vida. Os likes no facebook. A pastelaria da esquina. O quintal da avó. Os ciúmes da tableforone. As casas à venda. Os sapatos que magoam os pés. O frango assado para o jantar. A cave onde guardamos o passado encaixotado. Os betos do liceu. A lingerie barata. Os turistas na praia. O inglês macarrónico com que cantamos as canções da rádio. A final do europeu. O cheiro a desinfectante nos lares da terceira idade. Além disso, a Dulce Maria Cardoso tem a capacidade muito rara de escrever sobre o que se passa na cabeça das mulheres - sem preconceitos. Lemos Eliete e sentimos que ela está a falar de nós. Não porque eu seja como ela ou faça o que ela faz. Mas porque sabemos exactamente como é que ela é e tudo o que sente. Está lá tudo. A relação de amor-ódio com a mãe. As saudades do pai. A melhor amiga. Os miúdos da escola. As memórias da infância. O príncipe sonhado. O sexo sonhado. O futuro sonhado. O presente mal-amanhado. As rugas na cara. A celulite. A dieta. Os filhos que crescem. A avó com alzheimer. O envelhecimento.  O querer sentir-se desejada. Estão lá os desejos e as frustrações de uma mulher de 40 anos, que podia ser alguma de nós, que de certa forma é uma de nós. A solidão. A insegurança. A busca por algo que dê sentido a isto tudo. 

De Dulce Maria Cardoso já li O Retorno (o meu preferido) e Os Meus Sentimentos. O mais recente, Eliete, é um daqueles livros que nos agarra e nos leva sofregamente por ali afora com aquelas palavras simples encadeadas como se encadeia a vida. Só é pena aquele final. O Salazar. Que despropósito. Mas pronto. 

publicado às 23:17

03
Jan19

Descomplicar

Fui ver as Conversas Sérias da Marta Gautier e trouxe de lá algumas coisas para pensar e esta música dos Titãs que se chama Epitáfio e que fala de como tantas vezes perdemos tempo com coisas que não valem a pena em vez de nos concentrarmos naquilo que é realmente importante. Esse tem sido um caminho que me tenho esforçado por fazer nos últimos anos. Ainda não consigo completamente, como é óbvio. Ainda há muita coisa que me ocupa a cabeça e me tira noites de sono (quase sempre coisas relacionadas com os putos ou com trabalho). Ainda me irrito muito e desatino e perco o controlo (tantas vezes) e digo coisas absolutamente desnecessárias. Ainda desespero por vezes quando as coisas não são exactamente como eu gostaria e percebo que não consigo controlar tudo o que acontece na minha vida ou à minha volta. Mas, acreditem, já consegui livrar-me de muita tralha. Mesmo muita. Cada vez mais me afasto de conversas e de situações irrelevantes. Cada vez mais sei aquilo que (e quem) me interessa. Aceitar as imperfeições, minhas e dos outros. Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Dar o meu melhor a quem o merece. Escolher muito bem as minhas batalhas. Ignorar tudo o resto. É um caminho. Quero que seja o meu caminho, mesmo sabendo como é difícil.

Vamos lá, 2019.

"Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr"

publicado às 09:47


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