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Estava a apagar rascunhos. Eu tenho sempre imensos rascunhos aqui no blogue. Ideias que não vão a lado nenhum. Desabafos que entretanto perdem o sentido. Textos que ficam ali em banho-maria, à espera do momento certo para serem publicados. Pode não parecer mas quase tudo o que eu publico neste blogue é bastante pensado. Às vezes passo dias a escrever na minha cabeça antes de finalmente, quando me parece que a ideia já tem alguma consistência, começar a teclar. Outras vezes, quando tenho tempo, abro um rascunho e vou escrevendo, pausando, reescrevendo. A maior parte das vezes em que sou mais instintiva e escrevo e publico com grande rapidez acabo por me arrepender ou por ter de voltar ao post para emendar alguma coisa. Adiante. Estava a apagar rascunhos e encontrei um, de 2014, que se intitulava "moderação" e tinha apenas um link:

"Nas estradas avisam: "Modere a velocidade". Podia haver o mesmo aviso no início dos namoros."

É tão engraçado este carrossel da vida. Ainda ontem falava disto com uma amiga.

publicado às 10:25

My favourite things por You Sun Nah.

 

Podia queixar-me do trabalho e dos meus chefes, podia queixar-me dos meus filhos, das contas para pagar, da falta de tempo, da falta de paciência, da falta de perspectivas. Teria bons motivos para me lamentar, não duvidem. Mas hoje não me apetece. Hoje apetece-me fingir que está tudo bem e continuar a empurrar a vida com a barriga como se não fosse nada. Ouvir esta música. E o que tiver de ser, será.

publicado às 16:07

De vez em quando estou a conversar com alguém ou a ler um livro ou a ver um filme ou o que seja e dou por mim a surpreender-me: uma ideia nova, um conceito estranho, uma descoberta. Como é que eu nunca tinha pensado nisto? Aconteceu-me recentemente ao ler Não serei eu mulher?, de Bell Hooks, e agora mesmo com Memórias da Plantação: Episódios do Racismo Quotidiano, de Grada Kilomba. E se eu, que me interesso por estes assuntos, do feminismo e do racismo, nunca tinha pensado em algumas das coisas que elas ali escrevem, imaginem todas aquelas pessoas que vivem felizes e contentes a achar que vivemos numa sociedade muito igualitária e justa, onde todos são tratados de forma igual e têm as mesmas oportunidades, aqueles que dizem que o colonialismo português foi suave e que não há racismo em Portugal, entre outras narrativas apaziguadoras. Memórias da Plantação pôs-me a pensar nos nossos pequenos actos e também nas palavras que usamos. As palavras são importantes, isso eu já sabia. As palavras são ideologia e são poder, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha pensado verdadeiramente em como as palavras podem ser violentas para muitas pessoas. Não tinha considerado como deve ser a dimensão desta violência.

Agora que já sei o que posso fazer com este conhecimento? Mudar algumas das minhas atitudes e das minhas palavras, obviamente. E, além disso, tenciono fazer aquilo que sei fazer melhor: não ficar calada. O que me faz ter muitas discussões com as pessoas que estão à minha volta e que insistem em dizer barbaridades, mas, pronto, assim como assim já tenho a fama de ter mau feitio mais vale usá-la para algo importante como fazer com que este mundo seja um bocadinho melhor.

A propósito:

Aproveitem para ir ver Três Rostos, o filme de Jafar Panahi, sobre a condição das mulheres no Irão. Só para nos lembrarmos que, apesar deste país imperfeito que temos, vivemos num local muito privilegiado a todos os níveis.

E votar.  Já foram votar? 

publicado às 13:08

 

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O novo disco dos The National, I am Easy to Find, vem acompanhado de um filme de 26 minutos que o realizador Mike Mills* fez com a Alicia Vikander, e que é uma espécie de enorme e belo videoclipe que nos põe a pensar nos caminhos por onde a vida nos leva, daquilo que somos, passando por aquilo que sonhamos até chegarmos àquilo em que nos tornamos.

Eu vi primeiro o filme e agora estou a trabalhar e a ouvir o disco, sem conseguir dar-lhe a atenção necessária mas a achar tudo muito bonito. 

 

(* que fez, por exemplo, Mulheres do Século XX - e o tanto que eu tinha a dizer sobre este post que escrevi há dois anos e parece que foi há uma década e agora já penso de maneira tão diferente, mas fica para outra ocasião)

publicado às 10:59

Já há muito tempo que não venho aqui partilhar coisas bonitas, o que é uma injustiça porque até quando tudo parece correr mal na nossa vida há coisas bonitas a acontecerem.

Por exemplo, ainda vão a tempo de ir ver o espectáculo Xtròrdinário do Teatro Praga para os 125 anos do Teatro São Luiz. Se gostaram da Tropa Fandanga vão gostar ainda mais deste "musicól" que é muito divertido e "não binário". E tem os Fado Bicha, que são maravilhosos.

Já estreou na Netflix a terceira temporada da série Easy e continua a ser muito a vida como ela é, histórias de pessoas comuns com desejos comuns e problemas comuns. Sem batalhas sangrentas. Tal e qual como que gosto.

A Lena D'Água tem um disco novo, que se chama Desalmadamente. Eu ainda não o ouvi todo mas gostei muito daquilo que ouvi. Espero mesmo que lhe corra bem este come back. Esta é a Grande Festa e faz-nos abanar o corpinho com leveza:

E, já agora, o Manel Cruz também tem Vida Nova, que é como quem diz um novo álbum. E esta canção, O Navio Dela, é qualquer coisa. Prestem atenção à letra.

"A minha mulher não é minha
É da cabeça dela
Mesmo achando que sim
Não precisa de mim
Isso é o que me agrada nela"

As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar. Mas há meses (anos?) que ando sem paciência para discotecas e noitadas. Tenho de encontrar um sítio com bom ambiente para dançar antes, muito antes, da meia-noite. Alguma sugestão?

publicado às 08:29

Quando vejo os vídeos das festas dos estudantes universitários, estejam eles alcoolizados e a fazer figuras tristes, ou mascarados de veteranos e a mandarem os mais novos rastejar no chão, não sinto qualquer tipo de empatia por aquelas pessoas. Pelo contrário. Sinto repulsa. E até alguma vergonha. Porém, antes de produzir algum discurso sobre aquilo, é preciso lembrar duas verdades:

- aqueles jovens não são todos os jovens. aqueles estudantes universitários não representam todos os estudantes universitários. há quem consiga tirar um curso e nunca tenha mostrado as mamas para beber um shot à borla nem qualquer coisa do género.

- as bebedeiras e as figuras tristes dos estudantes nas semanas académicas não são uma novidade do novo milénio. o que é novidade é que agora há lives no facebook e no instagram que mostram a todo o mundo (incluindo aos paizinhos que juravam que o meu filho nunca) o que sempre aconteceu.

Eu também já fui estudante universitária. Tenho ideia que houve uma aula de praxe e que depois de nos terem enganado os veteranos pintaram-nos a cara em grande galhofa. Mas o que mais recordo daquela primeira semana de aulas na faculdade é que fizemos um piqueninque no parque Eduardo VII em que partilhámos croquetes e pastéis de bacalhau e que depois houve um jantar de curso, que éramos muitos na sala dos fundos de um restaurante de segunda ao pé da universidade, que nos levaram a beber ginjinha e ao Intendente que nessa altura ainda não era uma zona recomendável e ao Bairro Alto para dançarmos ao som dos Cure e dos Violent Femmes e que para aqueles que, como eu, vinham de fora, foi a primeira vez que saímos à noite em Lisboa. E também me lembro que nessa semana - que terminou com um grupo de malta a cantar-me os parabéns numa das "famosíssimas" festas de Comunicação Social da Nova - conheci pessoas do 2º, do 3º e até do 4º ano, colegas com quem passei a almoçar na cantina, amigos com quem passei horas a conversar ao sol na esplanada, alunos mais velhos que nos passaram apontamentos e fotocópias e que, alguns deles, se juntaram aos caloiros tardes inteiras a estudar lógica nas mesas do Continental. 

Tive sorte, é verdade. Porque aquele curso e aquela faculdade eram especiais. Mas depois fiz as minhas escolhas porque sou dona do meu nariz. Nunca fui veterana nem veneranda, nunca praxei nem humilhei nenhum caloiro. Ignorei ostensivamente todas as semanas académicas. Estava demasiado ocupada com outras coisas que me interessavam mais do que ir a um concerto do Quim Barreiros ou participar no rally das tascas. Não me vesti de preto nem arranjei uma capa quentíssima para me pavonear pelas ruas da cidade em pleno calor de maio, as meninas de saia, pois claro, que as meninas têm de usar saias e sapatos, não se podia usar ténis com o traje, não era permitido. E eu sempre odiei uniformes e carneiradas. Não cantei nunca que a mulher gorda a mim não me convém. Não fui à bênção das fitas porque nunca percebi para que é que precisava de uma missa para terminar o curso em beleza. Nem sequer tive fitas - mas tenho álbuns com fotografias das pessoas que me acompanharam nesses quatro anos. Não tenho anel de curso e nunca ninguém me tratou por senhora doutora. Não faço ideia onde tenho (ou sequer se tenho) um canudo que comprova a minha passagem pela faculdade. 

E no entanto foram belos os tempos. De grandes aprendizagens (nas aulas e fora delas), de grandes divertimentos, de grandes amizades. De boas memórias.

A tradição académica é o que nós fizermos dela. Como todas as tradições, aliás. Estão sempre a tempo de se renovarem.

publicado às 19:49

Em 2013 escrevi isto.

Agora já não poderia escrevê-lo. Os momentos de felicidade no trabalho são cada vez mais escassos. Os momentos de frustração são cada vez mais comuns. 

Para mim cada vez vale menos a pena.

publicado às 13:39

10
Mai19

Sete anos

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publicado às 18:46

09
Mai19

Recomeços

"Vladimir: We could start all over again perhaps.
Estragon: That should be easy.
Vladimir: It's the start that's difficult.
Estragon: You can start from anything.
Vladmir: Yes, but you have to decide."

Waiting for Godot (1952), Samuel Beckett

 

No fim-de-semana fui ao Teatro Nacional D. Maria II ver o espetáculo Conversations Out Of Place, uma criação de Ivana Müller, e lembrei-me muito de Godot - e não foi só porque, tal como na peça de Beckett, também aqui o palco está praticamente vazio, apenas com uma árvore. Quatro personagens caminham perdidas numa floresta, não sabemos muito bem quem são nem de onde vêm, imaginamos que procuram o caminho de regresso a casa mas sem nunca alcançá-lo. Passam-se dias, semanas, meses. E nada mais lhes resta se não continuar a mexer-se (em câmara lenta) e a falar, pois enquanto se mexerem e enquanto falarem continuarão vivos. Mesmo que a deteterminada altura já não consigam lembrar-se para onde se dirigem nem porque continuam a caminhar. As conversas repetem-se mas já não interessa nada do que digam. É só preciso continuar. Tal como Estragon e Vladmir estão presos naquela encruzilhada, passam a vida a dizer "vamos" mas nunca vão, também estas personagens estão presas neste movimento permanente. A mensagem acaba por não ser tão desesperante quanto a de Godot mas não deixa de nos pôr a pensar. Estamos perdidos nesta floresta, e isso tem tanto de assustador como de desafiante. Iremos alguma vez encontrar o caminho para casa? Ou, como disse a minha amiga Cláudia, colocando o foco no livre arbítrio, teremos coragem para romper com o rame-rame da vida e fazer um verdadeiro esforço para encontrar o outro (para nos encontrarmos) ou seguimos a nossa vidinha fazendo aquilo que é esperado de nós, sem qualquer entusiasmo, sem objectivo?

Podemos sempre começar. Ou começar de novo. Mas para isso temos que decidir fazê-lo. Essa é a parte verdadeiramente difícil.

publicado às 08:08

Domingo às oito da manhã estava na cozinha a fazer massa com atum, antes de ir trabalhar. À hora do almoço liguei ao António, que estava sozinho em casa. "Está óptima, mãe, mesmo boa", disse-me, com a boca cheia, enquanto tirava garfadas de massa directamente do tacho, sem sequer a aquecer. Senti-me feliz. Acho que foi o melhor momento do meu dia da mãe.

Cozinhar para os outros, ainda que seja cozinhar uma coisa banal como massa com atum, é um ato de amor tão importante como dar braços. 

publicado às 16:07

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