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31
Jul19

Julho a acabar

Sair cedo do trabalho. Fazer o jantar enquanto bebo uma cidra e ouço a bola a bater no terraço e os putos a brincar com os vizinhos. Não pensar.

Voltar a esta música da Nina Simone as vezes que forem necessárias: I got life.

publicado às 20:37

26
Jul19

Reabraços

Depois de meses a trocar mensagens dizendo "temos que nos encontrar" e "quando é que nos vemos?", uma das coisas boas das férias da escola é que como tenho mais tempo livre consigo estar com os meus amigos. Ou, pelo menos, com alguns deles. Tinha tantas saudades. Ando a pôr conversas em dia, a recolher conselhos e a dar muitos abraços. Estava outra vez a precisar de abraços. Sou como a formiga que no verão acumula calor humano para me aquecer pelo menos até ao natal.

Sobre abraços. E mais abraços. E ainda mais. E há mais. Parece que é um assunto recorrente por aqui.

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publicado às 09:22

21
Jul19

Privilégios

O vídeo aparece de vez em quando partilhado nas redes sociais. A primeira vez que o vi (há uns dois anos?) doeu-me a alma mas ainda estava na fase do não querer acreditar que isto ia ser mesmo assim. Da última vez que o vi (na semana passada) já não consegui evitar emocionar-me. A "corrida do privilégio" começa com todos os jovens alinhados mas, antes de ser dada a partida, o juiz faz algumas perguntas a que cada um deve responder. Se a resposta for positiva, dão dois passos em frente. Se a resposta for negativa, ficam no mesmo lugar. São perguntas sobre privilégios (do tipo: se estudaram em escolas privadas, se estão sempre seguros sobre a próxima refeição, etc.). No final, há uns que estão mais à frente, outros que ficaram lá para trás. E esta corrida - que é a vida - ainda nem começou. Há um grupo de jovens que ainda nem teve que fazer nada e já está em vantagem. É isso o privilégio. Isto já seria coisa para mexer com o meu coração de esquerda mas o que me doeu mais foi que as perguntas começam assim:

Dêem dois passos em frente se...

1) os vossos pais ainda são casados

2) cresceram com uma figura paterna em casa

Portanto, à segunda pergunta os meus filhos já ficaram bem para trás.

(momento para engolir em seco e ter aquele sentimento de culpa)

(seguido de momento para acordar para a vida e dizer culpa de quê? quem tem de sentir culpa não és tu, tu estás aqui todos os dias)

(seguido de momento para arregaçar as mangas e continuar em frente)

Cá em casa corremos atrás do prejuízo. Permanentemente. Já há uns tempos que tenho plena consciência disso. Não é fácil. As coisas nem sempre são como eu gostaria. Às vezes temos assim uns tropeções e uns trambolhões. Mas damos o nosso melhor. E não desistimos nunca.

publicado às 22:11

I

No sábado passado, o Expresso publicou um longo artigo da Cristina Margato sobre a infidelidade a propósito de um livro da psicoterapeuta Esther Perel. O tema é fascinante e não é a primeira vez que penso nele. Se perguntarem aos vossos amigos o que é para eles a infidelidade, que tipo de fidelidade esperam de um companheiro, que tipo de infidelidade estariam dispostos a perdoar, verão como cada um dará uma resposta diferente. Tenho falado disto com algumas pessoas - até porque conheço pessoas que já traíram, outras que já foram traídas, conheço casais que estão juntos e felizes na sua monogamia há muitos anos e outros que têm "relações abertas" e também estão contentes, tenho amigos que se divorciaram por causa de traições e outros cujas relações superaram infidelidades. Este é um assunto em que não há respostas certas ou erradas, cabe a cada pessoa (ou a cada casal) encontrar a solução que mais o (s) satisfaz. Seja como for, é um tema sobre o qual gosto de pensar. Até porque pensar estas questões é também pensar como é que uma relação pode durar para além do desejo inicial e do que é que se alimentam as relações longas.

Se quiserem um resumo do pensamento de Perel sobre o assunto podem ver este vídeo:

Do artigo, retirei este excerto, porque faz todo o sentido para mim neste momento:

Algumas pessoas minimizam o envolvimento sexual ou emocional. "Traí, mas foi só sexo", ou "Sim, saímos, mas nunca fomos para a cama". Normalmente os especialistas concordam que, para a maioria dos seres humanos, é difícil separar as relações sexuais das emocionais. Perel garante: "Os casos extraconjugais são menos sobre sexo e mais sobre desejo: o desejo de se sentir desejado, de se sentir especial, de ser visto e de estar em sintonia, de chamar a atenção. Tudo isto carrega uma excitação erótica que nos faz sentir vivos, renovados, revitalizados. É mais energia do que acção, mais encanto do que coito."

II

Também sublinhei uma frase do antropólogo José Gabriel Pereira Bastos, que defende que há dois tipos de pessoas:

As que se focam, e que querem reconstituir o casal parental; e as que nunca se focam, e estas não saíram da idade do jogo. Ou seja, da adolescência. Não querem o compromisso. As que se focam, quando ficam sozinhas, sentem-se mal. Querem um companheiro ou uma companheira. Já as pessoas que permanecem inconscientemente na idade do jogo ficam mal quando arranjam alguém. Começam a ter saudades do tempo em que tinham cinco amigas ou amigos, e em que para ter sexo bastava telefonar. Se não fosse com uma pessoa era com outra.

Nunca o colocaria com estes termos, como é óbvio, mas eu também já tinha percebido mais ou menos isto - porque o sinto na pele. Há pessoas que vivem bem sozinhas. Eu nem por isso. Gosto de ter os meus momentos a sós, claro. Não digo que não aprecie um dia de completo silêncio. E sobrevivo aos dias de folga e aos dias sem filhos porque tenho as minhas estratégias e amigos que me dão colo, e quando tudo o resto falha enfio-me numa sala escura de cinema ou de teatro e espero que o tempo passe. Mas o que mais custa, verdade seja dita, é a solidão que se sente quando não estamos sozinhos. Ou seja. Mesmo quando tenho os putos (o que é quase sempre), eles fazem-me companhia mas não é com eles que converso sobre os meus dramas e os meus sonhos. Não é com eles que desabafo sobre os problemas no trabalho. Não é com eles que me posso sentar a beber um copo e a deitar conversa fora. E mesmo que eles me ajudem no dia-a-dia, não posso contar com eles para me apoiarem nos momentos realmente difíceis. E mesmo que faça com eles os planos para as férias e decida com eles o que vai ser o jantar, não é a mesma coisa do que fazer planos com um companheiro. E mesmo que eles sejam uns queridos e me dêem muitos beijinhos, não é o mesmo de ser abraçada por alguém que me deseja. Portanto, ainda que eu não esteja efectivamente muito tempo sozinha, a verdade é que me sinto muitas vezes só. Não é o fim do mundo, pois não, mas é algo que mexe comigo. E quando a vida nos corre mal de outras maneiras essa falta sente-se mais.

Eu sou mais feliz quando tenho um amor. E gosto de todas as pequenas coisas e cumplicidades e rotinas e lamechices de ter um parceiro. Dos beijinhos antes de adormecer e de lavarmos a louça juntos, de não conseguirmos decidir onde é que vamos jantar e de ficarmos os dois a ler livros numa esplanada sem sequer falarmos um com o outro. Gosto de me imaginar velhinha e ter alguém a quem dar a mão, mesmo que a tremer.

III

Amar e ser amada. Acho que era isso que eu queria. Há quem lhe chame romantismo. Ou apenas estupidez. Mas mesmo que nunca o tenhamos, podemos desejá-lo, não é?

"All I know is that you're so nice
You're the nicest thing I've seen
I wish that we could give it a go
See if we could be something
 
I wish I was your favourite girl
I wish you thought I was the reason you are in the world
I wish my smile was your favourite kind of smile
I wish the way that I dress was your favourite kind of style
 
I wish you couldn't figure me out
But you'd always wanna know what I was about
I wish you'd hold my hand when I was upset
I wish you'd never forget the look on my face when we first met
 
I wish you had a favourite beauty spot that you loved secretly
'Cause it was on a hidden bit that nobody else could see
Basically, I wish that you loved me
I wish that you needed me
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three
 
I wish that without me your heart would break
Yeah, I wish that without me you'd be
Spending the rest of your nights awake
I wish that without me you couldn't eat
Yeah, I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep
 
Look, all I know is that
You're the nicest thing I've ever seen
And I wish we could see if we could be something
Yeah, I wish we could see if we could be something"
 

Nicest Thing, de Kate Nash

publicado às 20:11

Todos os anos, chego a esta altura do ano com aquela sensação de que não sei se irei aguentar mais um ano disto. Que atingi o limite das minhas forças. Todos os anos é mais difícil. Todos os anos há problemas novos. E discussões. E dores de cabeça. Todos os anos me sinto a pior mãe do mundo ao longo de nove longos meses. Todos os anos suspiro de alívio quando, finalmente, isto acaba - e acaba cada vez mais tarde. Desta vez só acabou esta semana com a publicação das notas dos exames do 9º ano e a confirmação de que o rapaz lá conseguiu ser "aprovado", porque ele quando se esforça até consegue, o problema é que na maior parte do tempo não lhe apetece esforçar-se muito. Portanto, prova superada. 

Para o ano logo se vê.

Até lá, respiramos.

A vida não fica perfeita só porque já não temos que pensar na escola mas fica mais leve, com menos obrigações, com menos stress, com menos motivos para nos zangarmos. É aproveitar. É aproveitar mesmo, o máximo possível, ainda que este ano a cabeça continue cheia de milhentas outras preocupações e a respiração se faça com dificuldade. Não temos muitos motivos para sorrir nos dias que correm, mas temos este: os rapazes estão de férias. 

publicado às 19:59

Começou assim em conversa de circunstância: o que fazes amanhã? nada e tu? eu também. eu estou sozinha. eu também. podemos encontrar-nos, se calhar.

Começou assim, por vamos tomar um café ou petiscar qualquer coisa ao fim do dia, só para ver se me esquecia daquela sexta-feira negra e de como é triste isto de estar sozinha apesar de estar feliz por uma vez (uma vez em meses) ter uma noite de sábado sem filhos. Então, enquanto fazia tempo, durante a tarde, fui ao Teatro São Luiz ouvir a Joacine Katar Moreira, que é uma mulher que me faz acreditar no mundo mesmo quando o mundo insiste em me desiludir, e quando saí de lá e olhei para o whatsapp já éramos três e o café já era jantar e se as miúdas diziam que tinham de ir para casa cedo que estavam cansadas e velhas, o rapaz apostava que a noite ia ser comprida. É claro que ele tinha razão. Entre as sete da tarde e as três da manhã, as conversas encadearam-se umas nas outras, rimo-nos como perdidos, dissemos coisas muitos sérias, abraçámo-nos, partilhámos segredos, brindámos à nossa e ao futuro e à amizade, lamentámos as tristezas do mundo em geral e do jornalismo em particular, e alegrámo-nos por nos termos encontrado naquele fim de tarde de sábado e por não termos cedido ao cansaço, à velhice e às merdinhas todas que nos moem o juízo (e os sonhos). É tão bom quando um encontro assim acontece.

Às vezes é só isto. Quando menos estamos à espera, aparece alguém que transforma uma noite de solidão num daqueles momentos que temos de fotografar e registar em palavras para que, mesmo que a vida nos afaste e o alzheimer nos ataque, a gente nunca se esqueça como foi bonito.

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Com a Paula e o Ricardo.

publicado às 22:45

"Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
 
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
 
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
 
Muita atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés."
 
O Mundo é um Moinho, de Cartola, é uma música infinitamente triste que eu nunca tinha ouvido até ao fim-de-semana passado. A minha amiga queria falar-me do perigo de "de cada amor só herdar cinismo" mas eu fiquei presa na imagem do moinho que tritura os sonhos até reduzi-los a pó. 

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publicado às 16:24

"Apesar dos conselhos da filha, que defendia o amor livre, para ela a intimidade era impossível com alguém que se distraísse com outras mulheres. "O que é que queres, mãe? Casar?", gozou Daniela quando soube que a mãe tinha acabado com Julián. Não, mas queria fazer amor amando, pelo prazer do corpo e a tranquilidade do espírito. Queria fazer amor com alguém que sentisse o mesmo que ela. Queria ser aceite sem ocultar nem fingir nada, conhecer o outro profundamente e aceitá-lo assim mesmo. Queria alguém com quem passar a manhã de domingo na cama a ler o jornal, a quem dar a mão no cinema, com quem pudesse rir-se de disparates e discutir ideias. Tinha ultrapassado o entusiasmo pelas aventuras fugazes."

Acabei de conhecer Lucía, 62 anos, no livro Para Lá do Inverno, de Isabel Allende, e já somos amigas.

publicado às 08:32

10
Jul19

Sem palavras

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Da página 72 kilos

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publicado às 22:37

Morreu João Gilberto. E não há muito mais a dizer. 

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Está tudo aqui .

publicado às 23:22

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