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As alterações climáticas, o plástico, a carne de vaca e a Greta Thunberg, o Valete, a violência doméstica, o poder da música e a liberdade artística, os homens e as mulheres, as casas de banho mistas e os brinquedos para meninos e para meninas (ainda? sim, ainda), a campanha, as eleições, uma candidata gaga, ser de esquerda ou direita, o Tarantino e o Almodóvar, os putos, a escola, os horários, os trabalhos de casa, os testes (a rotina toda de volta), os homens, ai, os homens, o sexo (qual sexo?), envelhecer, adoecer, os medos, dizer a palavra cancro muitas vezes, celebrar a vida, sempre, as notícias, as notícias falsas, os cliques, o jornalismo em decadência, os jornais em agonia (e tanto que havia a dizer sobre isto), as mudanças que desejamos, as mudanças a que a vida nos obriga, as pessoas de que gostamos e as pessoas de que não gostamos. Gargalhadas. Muitas. E abraços.

Nunca subestimem o poder terapêutico das boas conversas e das boas amizades. 

E ainda isto, por causa de angústias várias:

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publicado às 14:25

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Existe em Dor e Glória, o novo filme de Pedro Almodóvar, a ideia bonita de que o universo encontra sempre um sentido para isto que nós andamos aqui a fazer e que as nossas acções e sentimentos, mais tarde ou mais cedo, hão de ser reconhecidos. Gosto desta ideia embora por vezes (muitas vezes) me custe acreditar nela. Também gostei muito do filme. Só podia. É um filme sobre o envelhecimento e sobre o modo como nos encontramos, a dado momento das nossas vidas, a olhar com olhos de ver para o passado e a querer perceber, afinal, o que nos trouxe até este momento em que estamos. É por isso, inevitavelmente, um filme sobre sonhos que nunca se concretizam. E outros que sim. Também é sobre a solidão. E sobre as mães e os filhos. Sobre o amor incondicional. E o outro amor.

Emocionei-me várias vezes ao longo do filme, com coisas pequenas, algumas palavras, algumas cenas. Nada de lágrimas arrebatadoras, apenas aquela emoção que nos faz mexer na cadeira e engolir em seco enquanto sentimos os olhos húmidos. Depois, quando vinha no carro para casa, umas breves lágrimas escorreram-me pela cara. Nem sei bem porquê. 

O Tarantino (de quem vi há exactamente uma semana, no mesmo cinema, Era uma vez em Hollywood) pode ser muito inteligente e saber muito de cinema e fazer filmes muito bem feitos e bonitos e cheios de referências e de ironia, mas não sabe nada sobre aquilo que nos mexe por dentro. Essa é que é essa.

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publicado às 16:54

18
Set19

Ilusões

Setembro também é isto: aquele momento em que me delicio por vê-los tão crescidos, cada um à sua maneira, em que ainda não há testes nem muitos trabalhos, em que eles todos os dias têm novidades para contar e parecem entusiasmados e em que ainda acredito (acreditamos todos, acho) que isto tem tudo para correr bem. Pode ser que este ano os putos estejam mais concentrados e eu não tenha que me chatear tanto, penso, porque não?, pode ser...

E depois acordamos.

publicado às 23:41

A Mónica Calle é uma das "minhas" artistas. Alguns dos espectáculos que mais me remexeram por dentro e tiraram o chão são dela. Algumas das conversas mais bonitas que tive com artistas foram com ela. Nem sempre adoro os seus espectáculos mas percebo sempre a sua ideia e reconheço toda a entrega que coloca no seu trabalho. E admiro a sua imensa liberdade. Cada obra é resultado de uma procura íntima e real. É, por isso, de uma integridade absoluta. Ela faz o que sente que tem de fazer, sem concessões às modas ou às receitas de bilheteira. Os espectáculos saem-lhe da pele e das entranhas. E mesmo quando falham ou mesmo quando são apenas tentativas ou mesmo quando não chegam onde ela queria que chegassem, ali está ela, expondo-se perante nós, na sua fragilidade, na sua imperfeição. Nesse aspecto, é curioso como as artes visuais acolhem muito melhor o erro do que as artes cénicas, onde se espera sempre que o trabalho apresentado esteja pronto e perfeito. A Mónica contraria isso, e não é raro vir falar com o público antes de uma apresentação para lhe explicar isso mesmo, sim, isto é um espectáculo, mas é também um processo. E estarmos ali, performers e espectadores, naquele local, faz parte do processo. Os espectáculos dela são, portanto, ao mesmo tempo, vindos de um lugar muito dela mas sempre uma procura de ligação com o outro. Ela estende-nos a mão e pede-nos: venham comigo nesta viagem. Porque o teatro, como a vida, só faz sentido assim, em comunhão, em partilha, neste dar e receber. Com amor.

Ontem à noite fui ver (finalmente) o Ensaio para uma Cartografia
 
Estava uma bela noite de calor e a Claúdia estava feliz a contar-me como vai começar mais uma nova etapa na sua vida (estou a torcer por ti, amiga) enquanto esperávamos na fila para entrar no Lux (há quantos anos é que eu não ia ao Lux?). Aconteceu tudo no terraço. O rio Tejo ao fundo. A lua cheia no céu. Os barcos a passarem. Os ruídos da cidade. E aquelas mulheres colocaram-se perante nós. Nuas. 
 
Tentar, falhar, conseguir, ou não. São isso os ensaios dos artistas. Repetir as vezes necessárias, dar o nosso melhor de cada vez. É assim a vida. Superando-nos a cada momento. Não vos quero contar o que é o espectáculo - ainda há mais duas apresentações (hoje e amanhã) no Lux e depois há de voltar ao Teatro Nacional D. Maria II - mas quero que saibam que é muito bonito. Que fala de esforço, de resistência e de superação. Que fala de nós, mulheres. E de nós, pessoas. Que fala de diversidade. E de máscaras (ou da ausências delas). Que fala de perfeição (e de como ela é desnecessária). Que fala de união e de trabalho de equipa. Que fala disto sem que elas digam nada. 
 

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publicado às 10:43

Praia Fluvial da Aldeia Ruiva

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Praia Fluvial do Malhadal

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Um dos desafios das férias dos pobres é tentar visitar lugares novos ou ter alguma experiência diferente gastando pouco dinheiro. Eu tento sempre fazer alguma coisa, aquilo a que chamo o nosso pequeno luxo anual, mesmo que seja algo muito simples. Desta vez, fomos espreitar as praias fluviais na zona de Proença-a-Nova. Reservei dois dias bem no fim das férias, marquei um bungalow no parque de campismo e lá fomos.

Nas malas levámos pouquíssima roupa mas muita comida. Eu sou aquela mãe que anda sempre com comida, sempre fui assim, desde que eles eram pequenos. Não se trata só de poupar dinheiro ou de evitar que eles comam muitas porcarias, é sobretudo uma maneira de não me preocupar quando andamos em viagem. Até porque os putos estão nesta fase em que parece que estão sempre esfomeados. Acredito que outras pessoas achem que dá muito trabalho preparar comidas e levar lancheiras mas para mim é tranquilo. Neste caso, além das sandes e petiscos para a viagem, como íamos ficar num parque de campismo no meio do nada e como não me apetecia andar perdida à noite por estradas cheias de curvas, optámos por cozinhar o jantar no bungalow. Aproveitei que tinha um fogão e para o segundo dia fiz umas deliciosas sandes de ovo mexido. Portanto, sim, levámos muita comida mas resultou muito bem.

Para mim, que sou do sul e da planície, é sempre um pouco esquisito quando me meto por serras e caminhos tortuosos. Para os putos este também é um Portugal a que não estão muito habituados. Por isso estas viagens, por estradas nacionais, são sempre uma aventura. Vamos vendo as tabuletas e comentando a paisagem. Os cheiros, as pessoas, as cores, os sotaques, tudo é diferente. E ficámos muito impressionados com toda a área ardida perto de Vila do Rei (dá um bocadinho de medo mas pronto, se uma pessoa se põe a pensar nessas coisas nunca sai de casa).

Os miúdos lembravam-se do bungalow em que tínhamos ficado perto das Grutas de Mira D'Aire. Em comparação, este bungalow da Aldeia Ruiva ficou claramente a perder porque era mais antigo, não tinha aquele cheiro a novo, e não tinha ar condicionado. Porém, a tragédia maior foi o facto de não haver wifi, o que foi um grande desafio à capacidade deles para ficarem sem fazer nada durante um serão inteiro. Nem sequer podíamos ler ou jogar as à cartas porque, por causa do calor e dos mosquitos, tínhamos as janelas abertas e as luzes apagadas. Conseguem imaginar? O António acabou de ver os episódios de uma série que tinha no telefone e depois andámos a explorar o parque e ficámos às escuras no alpendre a conversar e a cuscar o que se passava nas outras tendas. Os rapazes resignaram-se e acabámos a dar umas boas gargalhadas. Se eu tivesse planeado uma "operação desligar" não teria sido tão eficaz. 

A parte melhor para eles foram, obviamente, os mergulhos nos rios. A zona de banhos é delimitada e as praias são vigiadas, portanto aquilo é bastante seguro. Depois há aquela aventura de ser um rio, de haver peixes, de não se ver o fundo. Acho que é preciso alguma coragem, coisa que eu obviamente não tenho. Já os putos divertiram-se à grande. 

Na viagem de regresso a casa tivemos um furo no pneu e viemos a ouvir o agonizante relato do jogo do sporting. Tirando isso, correu tudo lindamente.

publicado às 20:21

Na primeira vez em que fomos de férias a três eu estava um bocadinho ansiosa. O António tinha 9 anos, o Pedro 5. Eu já estava há mais de um ano sozinha com eles mas nunca tínhamos estado assim, umas três semanas por nossa conta, longe de casa, a inventar programas e a aturar-nos 24 horas por dia. Acabou por correr tudo surpreendentemente bem. Muito melhor do que eu poderia imaginar. De então para cá, já tivemos muitas férias diferentes. Umas vezes juntando-nos com amigos. Outras vezes só nós. Umas vezes indo mais longe, outras ficando mais perto, umas vezes por muito tempo, outras só uns dias. Mas sempre com um lema: no stress. Como o nosso dia-a-dia é geralmente feito de horários e pressões, as férias tornaram-se uma oportunidade única para estarmos sem grandes compromissos e para desfrutarmos ao máximo da companhia uns dos outros com o mínimo de discussões e muita leveza. É mesmo só isso que procuro. E tem sido muito bom. 

Entretanto os putos foram crescendo, o que facilita muito a parte logística mas levanta outro tipo de questões. Este ano, pela primeira vez, temi que as coisas não corressem tão bem. Afinal, o adolescente está numa fase complicada, naquela fase em que tudo é um aborrecimento, sobretudo tudo o que envolva a mãe (seca) e o irmão mais novo (mais seca). Além disso, tinha que se afastar da sua querida playstation e (oh, o horror) passar a maior parte do tempo sem wifi. Respirei fundo e lá fomos. E não digo que foram as melhores férias de sempre nem que não houve ali uns momentos de tensão. Mas foi muito melhor do que eu estava à espera. Sem grandes dramas a assinalar. E houve até momentos em que deu para sentir aquela emoçãozinha por ainda conseguirmos fazer isto de estarmos juntos e sermos felizes os três com coisas simples como jogar às cartas ou ficarmos deitados todos numa cama a conversar ou até só numa ida ao supermercado para comprar o jantar. Foi talvez o ano em que passámos mais tempo sem fazer nada. Foi o ano em que estivemos mais tempo no Alentejo com a família. Foi o ano em que os putos dormiram quase sempre até ao meio-dia. Foi definitivamente o ano em que passámos menos tempo na praia (e em que cheguei ao fim menos bronzeada do que é habitual). E no entanto, parece-me, não poderia ter sido melhor. Era exactamente isto que eu precisava. Até porque, sinceramente, acho que cada vez preciso de menos. Basta-me ficar a olhar para eles a dar mergulhos, felizes. Posso ficar assim durante horas. E eles também.

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(Porque nem tudo é perfeito: o António está na fase "no photos". No ano passado, já tinha sido uma selfie tirada a ferros, este ano não sei sequer se tenho alguma foto decente dele na máquina. Mas tenho esta, que é muito representativa dos meus putos,)

Gosto muito de nós nas férias. Estes são os momentos e os sentimentos que temos de guardar. É a esta felicidade que viremos beber ao longo dos próximos meses quando estivermos cansados e zangados, quando nos odiarmos, quando tudo estiver a correr mal e quando sentirmos vontade fugir.

Só temos que nos lembrar que não tarda nada é verão outra vez. 

publicado às 22:13

04
Set19

Regresso

Ao segundo dia de trabalho, a tendinite voltou a dar um ar da sua graça. A minha agenda parece um jogo de tetris, mas na fase final, em que já estamos desesperados sem saber onde encaixar as peças. Ontem almocei em frente do computador e, só ao fim do dia, com a cabeça a latejar, me apercebi que tinha passado nove horas ali enfiada, sem sequer sair para apanhar ar. Hoje saí de casa antes do sol nascer para mais um turno na fábrica. E, cereja no topo do bolo, irei trabalhar no fim-de-semana.

Houve uma altura, há muito tempo, em que gostava de setembro. Da sensação de recomeço, depois das férias. Do cheiro dos livros novos, dos cadernos em branco, daquela incógnita antes de conhecer os professores e os colegas e as matérias que iria estudar, de regressar às rotinas e do conforto de vestir um casaco nas noites que ficavam mais frescas. Depois comecei a trabalhar. E setembro não só perdeu o seu encanto como passou a ter o sabor de uma falsa partida: aquele novo começo que na verdade não é mais do que um regresso ao rame-rame do costume (e temos que nos dar por contentes, ao menos há um rame-rame a que voltar, não é?).

Sei que envelheço por causa da pele enrugada nas mãos e das manchas na cara ("tens pano", anunciou-me a minha mãe outro dia, e eu fui olhar-me no espelho com atenção para ver este nevoeiro que me cobre a pele), dos quilos que se acumulam nas ancas e da ferrugem nas articulações. Também sei que envelheço por causa disto: cada vez morrem mais pessoas à minha volta, não tenho paciência para me chatear com merdices e não gosto de setembro. 

E ainda nem começaram as aulas.

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publicado às 09:59


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