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A Mónica Calle é uma das "minhas" artistas. Alguns dos espectáculos que mais me remexeram por dentro e tiraram o chão são dela. Algumas das conversas mais bonitas que tive com artistas foram com ela. Nem sempre adoro os seus espectáculos mas percebo sempre a sua ideia e reconheço toda a entrega que coloca no seu trabalho. E admiro a sua imensa liberdade. Cada obra é resultado de uma procura íntima e real. É, por isso, de uma integridade absoluta. Ela faz o que sente que tem de fazer, sem concessões às modas ou às receitas de bilheteira. Os espectáculos saem-lhe da pele e das entranhas. E mesmo quando falham ou mesmo quando são apenas tentativas ou mesmo quando não chegam onde ela queria que chegassem, ali está ela, expondo-se perante nós, na sua fragilidade, na sua imperfeição. Nesse aspecto, é curioso como as artes visuais acolhem muito melhor o erro do que as artes cénicas, onde se espera sempre que o trabalho apresentado esteja pronto e perfeito. A Mónica contraria isso, e não é raro vir falar com o público antes de uma apresentação para lhe explicar isso mesmo, sim, isto é um espectáculo, mas é também um processo. E estarmos ali, performers e espectadores, naquele local, faz parte do processo. Os espectáculos dela são, portanto, ao mesmo tempo, vindos de um lugar muito dela mas sempre uma procura de ligação com o outro. Ela estende-nos a mão e pede-nos: venham comigo nesta viagem. Porque o teatro, como a vida, só faz sentido assim, em comunhão, em partilha, neste dar e receber. Com amor.

Ontem à noite fui ver (finalmente) o Ensaio para uma Cartografia
 
Estava uma bela noite de calor e a Claúdia estava feliz a contar-me como vai começar mais uma nova etapa na sua vida (estou a torcer por ti, amiga) enquanto esperávamos na fila para entrar no Lux (há quantos anos é que eu não ia ao Lux?). Aconteceu tudo no terraço. O rio Tejo ao fundo. A lua cheia no céu. Os barcos a passarem. Os ruídos da cidade. E aquelas mulheres colocaram-se perante nós. Nuas. 
 
Tentar, falhar, conseguir, ou não. São isso os ensaios dos artistas. Repetir as vezes necessárias, dar o nosso melhor de cada vez. É assim a vida. Superando-nos a cada momento. Não vos quero contar o que é o espectáculo - ainda há mais duas apresentações (hoje e amanhã) no Lux e depois há de voltar ao Teatro Nacional D. Maria II - mas quero que saibam que é muito bonito. Que fala de esforço, de resistência e de superação. Que fala de nós, mulheres. E de nós, pessoas. Que fala de diversidade. E de máscaras (ou da ausências delas). Que fala de perfeição (e de como ela é desnecessária). Que fala de união e de trabalho de equipa. Que fala disto sem que elas digam nada. 
 

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publicado às 10:43


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