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No outro dia fomos ao cinema ver o 1917. Eu e os meus dois filhos.

É engraçado. Para o António ir ao cinema não é sequer uma hipótese de programa com os amigos. Os amigos servem para jogar à bola ou playstation ou para ficarem horas a fio na conversa, a dizer parvoíces e a deambular por aí. Ir ao cinema? Eles estão habituados a ver os filmes e as séries nos telemóveis (ou, na melhor das hipóteses, no computador), com phones nos ouvidos, sozinhos. É uma experiência completamente diferente da que eu tive, quando ir ao cinema ao sábado à noite era não só a única maneira de ver algum filme como era também a única coisa que havia para fazer com os meus amigos. Já para estes miúdos, ir ao cinema é um desperdício de tempo útil com os amigos (certamente porque ainda não descobriram as maravilhas do "escurinho do cinema") e um desperdício de dinheiro. Uma pessoa argumenta com a qualidade da imagem e do som mas não é fácil. Talvez tenham de crescer mais um pouco.

De maneiras que, por agora, parece que ir ao cinema é um programa com a mãe. Uma coisa de cota. Que seja. Não me parece mal se isto se tornar "a nossa coisa em conjunto". Apesar de cada vez ver mais filmes em casa (é inevitável) eu gosto muito de ir ao cinema. E mal posso esperar pelo momento em que poderei ir com eles ver todos os filmes. Neste momento estamos numa fase complicada. O António já poderia ver tudo mas o Pedro ainda só tem 11 anos -  ele é um valente e não protesta nem mesmo quando numa das nossas noites de cinema em casa vemos o Platoon e ele não percebe grande parte do que se passa. Mas, ainda assim, não convém exagerar. Gostou do 1917, não se queixou nem se aborreceu, mas pediu para da próxima vez irmos ver um filme "de acção". É justo.

Isto tudo é só um pretexto para dizer que o meu filho mais velho fez 16 anos. Ele não gosta de tirar fotografias e mesmo quando me deixa fotografá-lo não me deixa partilhar as fotos. E também não gosta muito que eu escreva sobre ele. Tenho que respeitar. Por isso só posso dizer-vos isto: o meu filho fez 16 anos e tem sido o maior desafio da minha vida. Em bom e em mau. Aliás, isto de ser mãe sozinha de dois rapazes tem sido uma aventura e pêras, uma daquelas coisas que só quem passa por elas é que pode entender. Um dia, quando isto tudo passar, talvez vos conte. 

Por agora fiquem a saber que fomos ao cinema os três ver um filme de adultos. Não foi a Velocidade Furiosa nem o Homem Aranha. Foi um filme de crescidos, escolhido por mim. E isso, parecendo tão pouco, deixa-me muito feliz. São assim, tontas, as mães.

publicado às 16:29

25
Fev20

Be a lady

Campanha da revista Girls Girls Girls com a atriz Cynthia Nixon (de O Sexo e a Cidade) e palavras escritas em 2017 pela blogger Camille Rainville sobre a dificuldade em ser mulher e cumprir todas as expectativas que têm para nós. Sobre todo o controlo que é exercido sobre o corpo e a vida das mulheres. Sobre a pressão e o escrutínio constantes a que as mulheres estão sujeitas. Sobre o modo como os homens dominam a nossa vontade. E a necessidade absoluta de as mulheres fazerem o que querem fazer sem pensarem no que fica bem ou no que os outros vão dizer. Tenho escrito muito sobre isto por aqui. E nunca é demais.

 

“Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk to loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.”

publicado às 17:07

Tenho lido pouco. O tempo não dá para tudo. Se vejo filmes não tenho tempo para ler, se aproveito o treino do Pedro para caminhar não fico essa hora sentada a ler, enfim, se adormeço todas as noites ainda no sofá é claro que já não consigo ler na cama antes de dormir. Tenho lido pouco. Demorei dois meses a ler A Luz de Pequim, de Francisco José Viegas. Mas isso não quer dizer nada. Gostei muito deste livro. Gosto muito dos livros do Francisco José Viegas, todos eles, e este é particularmente bom. Dizemos que é um policial, porque existem crimes e existe um investigador, o nosso velho amigo Jaime Ramos, mas não é um policial como os da Agatha Christie porque aqui a resolução do crime é apenas uma ínfima parte do que realmente importa. O que importa são as histórias daquelas pessoas e daqueles locais, o que importa é o que se passa na cabeça do Jaime Ramos, o que importa são os cozinhados e as comidas, são as memórias e as histórias que se contam e os olhares que se trocam e as frases que se dizem, poucas frases, é mais o que não é dito mas é pensado, o que importa é a vida que é feita de pequenos nadas e que o Francisco José Viegas tem a capacidade de transformar em palavras. É um prazer ler um livro assim. Dou por mim a voltar atrás, a ler de novo, a saborear as frases, a deliciar-me com as descrições. Com os mil pormenores. Tenho lido pouco, é verdade. Mas também é verdade que este livre exige tempo e atenção. E que deixa saudades quando o terminamos.

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publicado às 15:30

Esta é a minha música preferida do novo disco da Capicua. Adoro esta ideia de que mesmo quando tudo está partido aos bocados podemos pegar nesses caquinhos e transformá-los em algo bonito. Há que aceitar a imperfeição para sermos a melhor versão de nós, diz-nos ela. Para mim, este é um exercício diário.

"Eu sei que hoje está difícil e só queres sumir do mundo
Comer baldes de gelado e entrar em coma profundo.
Que estás farta das humilhações, do fracasso das relações
De conselhos e sugestões, bom senso e boas intenções.
Do corpo, do desporto, do teu saldo, do teu salto,
Porque o saldo é sempre baixo e o teu salto é muito alto!
Tu estás farta dos emails e dos grupos do WhatsApp,
Dos chatos do chat, do teu chefe e toda a internet!
Tu tás farta de segundas, e de terças e de quartas
E de quintas e de sextas, até das folgas te fartas!
Porque há brunch e sumos detox, laser e botox
Porque há secas e dietas e profetas e blogs.
E estás farta do bom gosto, do suposto, do imposto.
Tu estás farta do bom moço, e do desgosto bem disposto.
Tu estás farta, farta, farta até de ti
Mas bora colar os caquinhos e fazer um Gaudí!

Eu vou colar esses caquinhos e fazer um Gaudí
Fazer um Gaudí, bora fazer um Gaudí
Eu vou colar esses caquinhos e fazer um Gaudí
Fazer um Gaudí, bora fazer um Gaudí!

Eu sei que estás de TPM, com fome, mal dormida
Que estás farta da rotina e dizes mal da tua vida!
Sem pachorra para nada, para a nata, para a night
Para a make, para o date, para o face, para o hype.
Para o lifestyle, livestream, live fast, live the dream
Gente snob, pseudostar, do indie ao mainstream.
Farta do excesso, do processo e da prece
Do sexo dos anjos, dos anos de stress.
Da falta de tempo, de falar do tempo,
Tudo ao mesmo tempo sem tempo pra ti!
Da falta de jeito, de ficar sem jeito
E de não haver jeito de saíres daí!
Farta de clichês, de guichês, de porquês
Farta de tirar a senha e esperar pelo fim do mês!
Estás de coração partido, ego ferido, já vi
Mas bora colar os caquinhos e fazer um Gaudí!

Sei que estás pelos cabelos, da DR, do divã
De falar de problemas e dos planos para amanhã.
Farta de ser pró ou contra, anti ou semi
Bora aceitar a idecisão e escolher o melhor pra ti.
Sem pena, nem dilema, ter orgulho no BI
Há que aceitar a imperfeição pra ser melhor versão de si.
Iguana cada escama é drama que passou por ti
E se este mundo é surreal, bora fazer um Dalí!

Eu vou colar esses caquinhos e fazer um Gaudí
Fazer um Gaudí, bora fazer um Gaudí
E se este mundo é surreal bora fazer um Dalí
Fazer um Dalí, bora fazer um Dalí!"

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publicado às 16:56

18
Fev20

Refugiados

Debaixo do Céu é um documentário de Nicholas Oulman sobre judeus que, por causa das políticas nazis, fugiram da Alemanha (ou da Bélgica ou da França ou da Holanda) e se tornaram refugiados. Todos eles acabam por, em algum momento, passar por Portugal. É engraçado saber o que eles acharam do nosso país, mas isso não é de todo o mais importante aqui. O mais importante é ouvir os seus testemunhos sobre a guerra e sobre o holocausto. Eram crianças e jovens, viviam a sua vida tranquilamente, iam à escola, tinham amigos. E de repente passaram a ser o inimigo. Tiveram que fugir, uns com os pais, outros com os irmãos. Tão novos e já a lutar por sobreviver. E a tentar entender o mundo.

É um filme contado pelos sobreviventes, agora já idosos, e por isso cheio de memórias imprecisas, de pequenos detalhes, de perguntas sem resposta.

E é também um filme que nos faz pensar no mundo de hoje. Nos refugiados que todos os dias tentam atravessar o mar e chegar à Europa. No que os faz correr o risco de uma viagem que tantas vezes acaba em morte, sem saberem o que vão encontrar. 

Debaixo do Céu está a passar por estes dias no canais Tv Cine. 

 

Já agora, também vi, nesta última semana:

- um documentário sobre Eduardo Prado Coelho, que passou na RTP2. Vale a pena porque EPC era, de facto, uma figura fascinante. Mas soube-me a pouco. Falta-lhe ali aquele rasgo que fazia de EPC um intelectual muito diferente dos aborrecidos professores universitários seus contemporâneos. Formalmente, também é um documentário muito certinho, muito by the book.

- e os dois episódios de Nós, Portugueses: nascer para não morrer (Fundação Francisco Manuel dos Santos/ RTP1), que são um bom ponto de partida para reflectirmos nos problemas demográficos (e, consequentemente, sociais, económicos, ambientais) que enfrentamos. É um trabalho muito bem feito, que ouve muitos especialistas mas nunca é demasiado especializado. Fiquei com vontade de mais, gostaria que tivesse talvez ido mais longe. Mas é de facto um documentário para o prime time e para o grande público - e nesse sentido cumpre os seus objectivos. Na minha opinião abusa um pouco dos drones, mas, pronto, não é grave.

publicado às 12:04

Frida Mom é uma marca de produtos de higiene íntima feminina. O seu último anúncio publicitário foi censurado pela ABC e proibido de passar na televisão no intervalo da cerimónia dos Óscares. Demasiado gráfico, disseram. Não porque seja violento ou porque revele qualquer nudez, mas porque mostra algo que nunca é mostrado e de que ninguém fala: o sofrimento de uma mulher, depois de dar à luz, com algo tão básico como fazer chichi.

É um daqueles tabus que ainda existem em volta do corpo (sobretudo do corpo da mulher). O parto parece que já é um assunto mais ou menos normal mas a menstruação e as necessidades fisiológicas são temas proibidos. Sobre o pós-parto, então, ninguém fala. Nem às grávidas. É como se não existisse. Dizem-nos: "o corpo está preparado para cicatrizar e voltar ao lugar". Ninguém nos diz quão doloroso vai ser. Porquê? 

Quando o António nasceu eu fui cortada e cosida, como quase todas as mulheres que vão parir aos hospitais públicos. A episiotomia é (ou pelo menos era) um procedimento de rotina, feito por princípio, sem se avaliar da sua real necessidade e sem que a mulher seja consultada. O pós-parto é terrível. As dores são imensas. No hospital, deram-me gelo para ajudar o inchaço a diminuir. Como sabem, mesmo depois do nascimento do bebé, o corpo continua a libertar muito sangue. E mesmo com dores e com pontos na vagina, é preciso ir à casa-de-banho, fazer chichi e cocó (e por mais que nos digam que está tudo bem, é inevitável ter medo de fazer força). Não é uma fase muito agradável. A cicatrização pode correr às mil maravilhas ou podem surgir complicações. No meu caso, talvez porque eu estava imbuída do espírito da super-mulher, típico de quem é mãe pela primeira vez, e me tenha esforçado mais do que era aconselhável, correu mal. Os pontos caíram mas a costura não cicatrizou, avisou-me a médica na primeira consulta do puerpério, daí o facto de as dores persistirem. Eu quase não me conseguia mexer, nem andar nem sentar-me normalmente. Foi preciso ter cuidados redobrados. De cada vez que ia à casa-de-banho lavava-me com água fria (que arrepio) e com um sabão especial e limpava-me com uma toalha com muito cuidado. Depois, usava o secador, com vento frio, para ter a certeza que a zona ficava bem seca. Tenho ideia que também punha uma pomada qualquer. O processo demorou quase um mês. Aquele mês em que estava a aprender a ser mãe, a lidar com hormonas aos saltos, com noites sem dormir e com essas coisas todas, boas e más, que nos acontecem no corpo e na vida quando temos um filho. Entretando, as dores passaram e a médica confirmou a cicatrização. Mas a minha (nossa) vida sexual continuou arruinada ainda por bastante tempo. Por medo, sim, mas também porque a cabeça é lixada e não é fácil ter vontade de procurar o prazer numa zona do corpo que tanto sofrimento me tinha causado. Com o segundo filho as coisas correram bastante melhor. Voltei a ser cortada e cosida mas já sabia o que tinha de fazer e não fazer, desde o primeiro dia, para evitar complicações. Doeu mas foi tudo mais fácil e rápido.

Disto ninguém fala, não é?

Ah, não é bonito, é uma coisa íntima, que necessidade há de contar? 

Pois eu acho que é muito importante. Quanto mais preparadas estivermos para o que vai acontecer mais hipóteses temos de que tudo corra bem. Quanto mais avisadas estivermos de que isto é normal, menos probabilidades haverá de nos sentirmos miseráveis e ainda mais deprimidas (porque este é um momento muito propenso a depressões). Quanto mais informados estiverem os que estão à nossa volta (incluindo os companheiros) melhor compreenderão o nosso sofrimento.

Não é bonito, pois não, mas existe, é o que é, portanto, mais vale aprendermos a lidar com isto como gente grande. 

publicado às 11:10

A amizade é também uma forma de amor. É até, se excluirmos o amor que temos pelos nossos (pais, filhos, irmãos), a forma de amor mais especial. Porque não existe qualquer outro tipo de amor se não houver, na base de tudo, a amizade. Aquele gostar das pequenas coisas. A partilha do bom e do mau. O silêncio quando necessário. O respeito pela individualidade do outro. A amizade é um amor sem arrebatamentos. Mais tranquilo. Mais perene. Às vezes invisível. Mas incondicional. Tenho a felicidade de ter alguns desses amigos verdadeiros. Este post é para eles, que me salvam tantas vezes, de maneiras que nem sempre sei explicar. Feliz dia do amor. E um imenso obrigado.

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Imagens do livro I Like You, de Sandol Stoddard e Jacqueline Chwast, publicado em 1965 e bem lembrado hoje pelas Senhoras da Nossa Idade.

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publicado às 11:50

Parece que não vou conseguir ver O Irlandês a tempo dos Óscares. Talvez conseguisse se me esforçasse muito mas tenho outras coisas para fazer este fim-de-semana e não me apetece esforçar-me. Verei depois. Portanto, tendo visto os outros oito filmes nomeados para o Óscar de Melhor Filme, acho que posso dizer com alguma certeza que o meu filme preferido este ano é... Jojo Rabbit.

Eu sei, eu sei. Os críticos sérios não gostaram de Jojo Rabbit. Os críticos sérios geralmente não gostam de comédias, é verdade. E depois ainda há o problema de este ser um filme sobre o fascismo, que é um tema difícil, sobretudo nos dias que correm. Como é que um filme que não se leva muito a sério e que não tem pretensão a ser uma obra-prima pode ousar falar do pior dos fascismos com esta leveza? Pois. A verdade é que eu própria não sabia bem o que esperar. E se calhar isso foi o melhor que me aconteceu, pois não tinha qualquer expectativa em relação a este Jojo Rabbit. Não sei se já repararam mas não se falou muito sobre este filme. De todos os que estão nomeados aos Óscares, este é talvez aquele de que se tem falado menos. Anda toda a gente a discutir se o Óscar vai para o 1917 ou para os Parasitas e parece que não há mais nada para além disso. Mas há.

O filme começa com uma versão do I Want to Hold Your Hand, dos Beatles, em alemão, ao mesmo tempo que passam imagens antigas de comícios com gente de braço estendido saudando o Hitler. E só com isso eu já estava conquistada. Jojo Rabbit é uma comédia. Também podemos dizer que é uma fábula. Seja como for, não há ali qualquer intenção documental, de fazer uma reconstituição histórica ou sequer de nos levar a acreditar que alguma daquelas personagens pudesse realmente existir ou que aquelas situações seriam possíveis. É preciso entrar naquele III Reich colorido e estilizado, onde as personagens falam inglês mas com "pequenos apontamentos" de alemão, como se estivéssemos dentro de uma banda-desenhada onde tudo é possível. 

Esta é a história de um menino de 10 anos, Jojo, na Alemanha, na fase final da Segunda Guerra Mundial. Ele é um pequeno fanático nazi, membro da Juventude Hitleriana, que vive só com a mãe (Scarlett Johannsson), pois o pai está na guerra, e tem Adolf Hitler como seu amigo imaginário (papel interpretado pelo próprio realizador neo-zelandês, Taika Waititi).

Jojo Rabbit tem tantas coisas fixes. Temos os miúdos (e os dois pequenos atores, que interpretam Jojo e o seu amigo Yorki, são maravilhosos) e aquela necessidade que os miúdos têm de se sentirem integrados no grupo e de por isso terem de provar que são os maiores e de fazerem coisas que na verdade não queriam fazer. Os miúdos que inventam histórias na sua cabeça para justificarem e darem sentido ao mundo (e às vezes, já crescidos, continuamos a fazer isso).

Temos a mãe. A mãe que nunca critica ou corrige o filho, apesar de não concordar com os seus ideais. A mãe que brinca, que ama, que ensina, que protege Jojo, sempre com um sorriso no rosto, ainda que passe o dia, muito provavelmente, em arriscadas actividades anti-fascistas e, à noite, depois de pôr o filho na cama, tire a maquilhagem da cara e beba uns copos de vinho enquanto pensa na vida e se sente sozinha.

Temos a guerra. Os bons e os maus. Os judeus. A perseguição. O medo. Os nazis. O ódio. Está lá tudo. Mas depois os elementos das SS e da Gestapo parecem todos saídos de Alô Alô. São ridículos. Se as suas ideias são irracionais, então a melhor maneira de as criticar é ridicularizá-las.

O filme faz lembrar um pouco o A Vida é Bela, de Benigni, embora visto do lado oposto do campo de batalha. E talvez por isso, por nos pôr a gostar de um dos maus, seja menos demagógico. Embora em ambos o amor seja a salvação, aqui o amor não é um dado à partida, é algo que Jojo tem de encontrar por si próprio. Ainda há tempos eu falava aqui que para evitarmos o ódio temos de ver o outro como um igual - e este filme também é sobre isso. Jojo vai descobrir que o verdadeiro inimigo é, afinal, a ignorância. 

Mas, bom, isto sou eu a pensar no filme depois de o ter visto. Na altura eu não pensei nada disto. Só me deliciei com os diálogos fabulosos e aquele miúdo traquinas e as suas borboletas na barriga e os pormenores das roupas e a música (a música é muito boa - o filme começa com Beatles e acaba com David Bowie, ainda que em alemão, e lá pelo meio também ouvimos uma versão de Everybody's gotta live e faz todo o sentido). Ri e chorei, porque o filme é para rir mas também é para chorar (e se forem lamechas como eu vão chorar muito).

E, no final, ainda com as lágrimas nos olhos, voltamos a sorrir e trazemos connosco a grande lição: dancem. Dançar é bom. Dançar é liberdade. Dançar é felicidade. Dançar faz bem.

E, pronto, foi assim que, para grande surpresa minha, na recta final da corrida, Jojo Rabbit chegou ao primeiro lugar da minha tabela de preferências. Este ano não foi fácil organizar esta lista. Para dizer a verdade, não tenho muita certeza sobre esta ordenação. Talvez o 4 pudesse ser o 3. Talvez o 3 pudesse ser o 2. Isto tem muito a ver com o prazer que cada filme me deu e o prazer, como se sabe, não é uma coisa muito fácil de medir. Talvez noutro dia isto estivesse ordenado de outra maneira. Mas é dia de fechar as votações. E ao dia de hoje a coisa vai mais ou menos assim:

1. Jojo Rabbit
2. Marriage Story
3. Mulherzinhas
4. Parasitas
5. 1917
6. Joker
7. Era uma vez... em Hollywood
8. Le Mans'66: O Duelo
9. (não vi O Irlandês)

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publicado às 17:27

05
Fev20

Mulherzinhas

Li o livro há muito tempo. Li-o mais do que uma vez. Depois das Gémeas de Enid Blyton, as Mulherzinhas de Louisa May Alcott foram as miúdas que nós queríamos ser. É claro que vi o filme de George Cukor (1933) com a Katharine Hepburn, e depois o filme de Gillian Armstrong (1994) com a Winona Ryder, todas as vezes que os apanhei na televisão. E é claro que de todas as vezes me desfiz em lágrimas. Aconteceu de novo. Este Mulherzinhas, da Greta Gerwig com Saoirse Ronan (que já nos tinham dado Lady Bird), é uma pequena delícia. E o que é realmente extraordinário é como uma história de raparigas do século XIX continua a falar-nos tão directamente. É impossível não adorar aquela indomável Jo March, cheia de sonhos e vontades, ao mesmo tempo tão determinada e tão frágil, tão independente mas a querer muito ser amada (não queremos todos?), tão contraditória e complexa como qualquer pessoa. E, sim, é só a vida de um grupo de miúdas que brincam e crescem e apaixonam-se e sofrem juntas. Mas isso já é tanto. 

Leiam AQUI uma crítica ao filme que diz tudo o que eu gostaria de dizer.

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publicado às 10:42

03
Fev20

Le Mans'66

Este fim-de-semana vi Le Mans'66: O Duelo, realizado por James Mangold, com os atores Matt Damon e Christian Bale.

Este é aquele filme que ninguém esperava ver entre os candidatos ao Óscar de Melhor Filme e que à partida não tem grandes hipóteses de ganhar, digo eu. Mas Le Mans'66: O Duelo não é um mau filme. Sobretudo para quem gosta de filmes de carros. O que não é de todo o meu caso. As cenas das corridas aborrecem-me de morte. Mas tem uma coisa boa (spoiler alert): é que como se baseia em factos verídicos, o final não é exactamente como seria de esperar. 

Faltam poucos dias para os Óscares e ainda me faltam alguns filmes, portanto, tenho uma semana muito ocupada pela frente...

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publicado às 19:04


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