Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Dia 13, quarta-feira, 25 de março
Ficar em casa, trabalhar na sala, abraçar amigos à distância.
Quando isto tudo começa a ser normal... é porque algo está mesmo errado.

Dia 14, quinta-feira, 26 de março
Não temos febre nem tosse nem nada. Hoje acordei toda entupida mas acho que era o meu nariz a lembrar-me que tenho de limpar e aspirar a casa toda outra vez.
Para celebrar o facto de aparentemente não estarmos doentes lanchei uma pratada de Nestum mel.
Felizmente não temos balança.

Dia 15, sexta-feira, 27 de março
É sexta-feira.
Último dia de aulas antes da páscoa.
Não estão felizes?

Dia 16, sábado, 28 de março
Ah, sábado, aquele dia fixe em que temos toda uma pilha de roupa para passar e toda uma casa para limpar. E dois adolescentes, tresloucados por estarem há duas semanas fechados (e também por terem o cérebro empapado em Fortnite e FIFA e mais não sei o quê), a discutirem por tudo e por nada e a dizerem "eu já aspirei a sala, agora é ele a aspirar o quarto". Gritou-se muito por aqui hoje. E foram ditas palavras menos bonitas. Estamos todos realmente a perder a sanidade. Tentei melhorar a coisa com um lanche de panquecas e um jantar de arroz de pato e eles comeram tudo com alegria mas a malta só acalmou um bocadinho a ver a última Missão Impossível (a qualidade cinematográfica nesta casa está ao mesmo nível da nossa paciência).
Infelizmente esta quarentena não se autodestruirá dentro cinco segundos. Mas que está cada dia mais difícil, lá isso está.

Dia 17, domingo, 29 de março
A hora mudou.
Fizemos um almoço-brunch com ovos mexidos e cenas.
Acabei de ver The Crown.
Passei quase duas horas a estudar história com o Pedro - do fim da monarquia à ditadura militar. Ele tem tantos trabalhos atrasados, das duas últimas semanas, que acho que vamos passar as férias nisto, a fazer uma coisa por dia.
Os putos foram jogar à bola no terraço.
Fui fazer o meu passeio higiénico.
Hoje ninguém gritou com ninguém.
Eu e o Pedro estamos a ver Zootropolis e, guess what, a coelha protagonista mora nos "apartamentos pangolim", isso mesmo, aquele animal que ninguém sabia o que era.
Quase que podia ser um domingo como outro qualquer.

Dia 18, segunda-feira, 30 de março
À meia noite estávamos pregados à televisão a ver a final do Euro 2016, torcendo por Portugal e gritando feitos loucos com o golo do Éder. Os vizinhos não devem ter gostado mas paciência. Estávamos mesmo a precisar destas gargalhadas.
Depois disto o dia só podia correr bem.
Com frio e chuva ninguém saiu de casa.
O Pedro fez um trabalho de educação visual (isto vai devagarinho, mas vai).
Eu trabalhei.
A internet pifou umas quantas vezes (também vos está a acontecer?).
E para mantermos o nível cinematográfico lá em baixo, onde ele deve estar, hoje estamos a ver um Godzilla qualquer.
Já estivemos melhor mas também já estivemos pior.

Já estivemos melhor mas também já estivemos pior, esta é a frase a reter. Continuamos nesta montanha-russa de emoções, os três juntos, um dia a desesperar, noutro a acreditar que vai ficar tudo bem, como diz a música de Cristóvam:

publicado às 11:10

Dia 6, quarta-feira, 18 de março
Tornei-me uma pessoa que faz ginástica quando está na fila da farmácia ou do supermercado. Visto de fora devo parecer bastante ridícula, eu para ali a rodar os braços e as levantar as pernas. Estou-me nas tintas. Estes pequenos passeios matinais têm sido o meu momento zen. Procuro não ouvir as conversas. Concentro me em aproveitar o sol, mexer o corpo, manter a distância e ser simpática para toda a gente.
Assim vamos.
Um dia de cada vez.
(Obrigado a quem tem "estado" comigo nestes dias, vocês sabem quem são.)

Dia 7, quinta-feira, 19 de março
Resisti durante anos e bastaram uns dias de quarentena para ceder: fui comprar um reprodutor de sinal para a Internet chegar ao quarto dos miúdos. Assim já não temos que passar o dia os três enfiados na sala e de vez em quando há um deles que se isola para fazer uma videochamada ou para ver netflix.
Para combater o tédio, o Pedro tenta reproduzir as experiências que encontra na Internet e que geralmente metem balões com água ou fósforos com papel ou outra coisa qualquer potencialmente desastrosa. Até agora não aconteceu nenhum acidente. Mas também nenhuma experiência resultou...
Fiz um bolo para aproveitar umas bananas muito maduras e uns ovos-pré-corona cujo prazo estava a terminar. Ficou bem bom.
Ainda não comemos atum mas de amanhã não passa.

Dia 8, sexta-feira, 20 de março
Chuviscava de manhã cedo.
Fui ao talho e à padaria. Comprei o jornal no quiosque (há quanto tempo é que eu não comprava um jornal?).
Estreei-me nas vídeo chamadas e ri-me com elas ao telefone (há quanto tempo é que eu não ria?).
Ao jantar, abri uma garrafa de vinho. Porque é sexta-feira. E amanhã é dia de limpezas e trabalhos da escola.

Dia 9, sábado, 21 de março
Os rapazes fizeram trabalhos da escola.
Eu passei a ferro e depois tomei um anti-histaminico, liguei o spotify e dediquei-me a limpar a casa. Mudámos os lençóis, aspirámos e limpámos o pó, lavei toda a cozinha e as casas de banho. Troquei a areia do gato e deitei o lixo fora. Lavei o chão. Adoro o cheiro do chão lavado.
Tomei um banho um bocadinho mais longo do que o habitual.
Jantámos restos.
Comi chocolate.
Não vi notícias.
Ontem adormeci a ver as tartarugas ninja com os miúdos. Mal posso esperar para ver com que filme vou adormecer esta noite.

Dia 10, domingo, 22 de março
De manhã escrevi para o jornal, à tarde escrevi para o blogue. Escrever ajuda-me a organizar as ideias.
Os putos foram ao terraço - têm ido quase todos dias, uma hora pelo menos. Não é muito mas é o que temos.
Fui fazer o meu "passeio higiénico". Hoje não estava com muita energia mas obriguei-me a sair de casa.
Chocolate e vinho. Este fim de semana foi péssimo ao nível das calorias.
Acabei um livro e vi dois episódios de The Crown.
Quase podia ser um domingo como outro qualquer.
Quase.

Dia 11, segunda-feira, 23 de março
Hoje o resumo do dia é fácil: trabalhei. E não foi pouco.
Trabalhei e mandei mails aos professores do Pedro a dizer mal desta porcaria toda e só não os mandei para o raio que os parta mais os seus trabalhinhos porque me contive (mas não prometo nada para amanhã).
Os rapazes foram ao terraço.
Eu não saí de casa.
Quando eu terminei de trabalhar, o Pedro fez um teste de português.
Jantámos pizzas do Auchan.
Estou oficialmente farta da quarentena.

Dia 12, terça-feira, 24 de março
Sabem quando temos uma insónia e ficamos três horas acordados a meio da noite a enfiar-nos num buraco escuro e profundo de onde, julgamos, será impossível sair? A boa notícia é que depois acordamos de manhã e, surpresa, a vida segue e não é assim tão negra e, aos poucos, até nos parece ser possível que as coisas melhorem.
Hoje foi assim.
Com calma.
Com muita calma.
O António fez trabalhos de matemática e de português.
O Pedro teve a sua primeira vídeo chamada com a turma e isso deixou-o mais animado. E fez os trabalhos de inglês sozinho (mas com mil distracções pelo meio).
Terminado o trabalho, eu fui passear e apanhar sol e pensar nisto tudo. Recebi um telefonema salvador de uma amiga. Cozinhei sem pressas. Fiz uma feijoada só para mim.
Não me zanguei o dia todo nem mesmo quando o Pedro entornou - com uma bola! - o meu último copo de vinho.
Acho que até dissemos umas piadas ao jantar.
Estou de quarentena mas as coisas que me fazem bem são exactamente as mesmas de antes.

#keepsafe #lifegoeson

publicado às 09:15

Foi logo na segunda-feira. O ministro da educação avisou os professores de que as escolas fechavam mas eles não estavam de férias (deus nos livre de antecipar as férias da páscoa duas semanas, os calões dos alunos e dos professores iam-se ficar a rir de nós, não podemos deixar que isso aconteça), e os professores, obedientes, desataram a mandar mails para os pais, trabalhos para os alunos, fichas disto e daquilo, indicações para irmos à escola virtual e à google classroom e até, claro, a marcar avaliações, porque o país pode estar a entrar em estado de emergência mas ai jesus se não se fazem as avaliações que, como toda a gente sabe, é o grande objectivo do ensino em Portugal.

Antes de mais, quero deixar claro: eu não sou contra o ensino à distância nem o uso das novas tecnologias no ensino. Nada disso. Se é assim que tem de ser, vamos fazê-lo.

Mas vamos fazê-lo como deve ser. Não podemos ter num dia uma escola do século XIX, com turmas de 30 meninos obedientes, sentados a ouvir o mestre e a decorar matérias para fazerem exames e, no dia seguinte, uma escola moderna, com miúdos muito autónomos em suas casas a terem aulas virtuais e a estudarem sozinhos, felizes e contentes. Não é possível. Ou melhor, será possível para meia dúzia, mas não para a grande maioria.

A escola pública à distância precisa de condições - tecnológicas, mas não só. Precisa de novos métodos de ensino e novos materiais. Precisa que as famílias percebam como é que vai acontecer e como podem colaborar. Que se estabeleçam regras, orientações, metas. E que os alunos aprendam a ser alunos de uma maneira diferente. E isto leva tempo. Exige uma orientação superior e uma uniformização, ou corremos o risco de aprofundar ainda mais as diferenças sócio-económicas que já existiam antes.

Mas vamos por partes.

Os computadores.
Não estou a ver como será possível ter um ensino à distância sem computadores. Há os tablets e os telemóveis, certo. Todos podem assistir a aulas virtuais num telemóvel. Mas para fazer pesquisas e trabalhos, para escrever é preciso um computador. Nem todas as casas têm computador e, mesmo que tenham, é preciso ter em conta que há pais que precisam do computador para teletrabalhar e há famílias com vários filhos. Podemos estabelecer horários (como eu estou a fazer) mas se isto for para continuar não vai ser fácil. E não temos impressora, por exemplo. Quantas pessoas têm impressora em casa?

O básico: comunicação e orientação.
Ora bem, há os alunos que se interessam e os que não se interessam, há os pais que acompanham geralmente a escola dos filhos e o que não sabem quando é que eles têm testes. Sempre foi assim. A obrigatoriedade de ir à escola atenua (em parte) estas diferenças. Mas se mandam os miúdos para casa e, de um dia para o outro, sem qualquer informação prévia, os professores começam a fazer exigências aleatórias, sem se perceber bem o que está a acontecer, ora mandando mails aos pais, ora falando diretamente com os alunos, oram mandando fichas, ora pedindo vídeos, como garantir que a informação chega ao seu destino, que todos sabem o que está a ser feito, que estamos todos a remar para o mesmo lado? Se nem sequer os professores da mesma escola (nem sequer os da mesma turma) estão a trabalhar em conjunto, como garantir que todas as escolas estão a fazer o mesmo? E como garantir que se chega a todos os alunos? Há pais quem nem falam português, há pais que não têm mail, há casas onde não há internet. Há miúdos que recebem o trabalho e vão fazê-lo a correr, há outros que vão pura e simplesmente ignorar os trabalhos, outros que vão fazê-los contrariados depois de um raspanete dos pais. A gente zanga-se e insiste, temos que cumprir as nossas responsabilidades, explicamos. Mas afinal estes trabalhos servem para quê?, perguntam eles, e muito bem. Alguém explica? Vai ser assim o resto do ano? Os trabalhos são obrigatórios ou só para matar o tempo? Isto conta para a nota? É óbvio que não estando acautelado o princípio de igualdade não pode contar para a nota, mas se não conta para a nota como é que se convence os alunos mais preguiçosos a trabalhar? Ajudem-nos aqui, professores, há pais que até querem colaborar mas assim fica complicado.

Cada casa é diferente.
Além das habituais diferenças sócio-económicas, esta situação cria novas desigualdades. Há famílias onde só há uma criança, há famílias com três ou quatro ou mais crianças. Há famílias em que só há um adulto. Há pais que estão em casa sem trabalhar e que têm como principal tarefa nesta quarentena cuidar da sua família e da casa e da sanidade mental de todos. Já não é pouco, diria eu. Há pais que estão em tele-trabalho e que, a juntar ao anterior, ainda têm o stress de trabalhar a partir de casa. E depois há pais que continuam a trabalhar na rua, a sair todos os dias. Enquanto isso, os miúdos ficam sozinhos em casa ou estão com familiares. Conseguem imaginar o grau de ansiedade destas famílias? O caos que é a sua vida por estes dias? Mesmo que sejam miúdos atinados, mesmo que sejam pais dedicados. 

Os miúdos precisam dos pais para estudar?
Os miúdos têm idades e necessidades diferentes. Os mais pequenos precisam de acompanhamento e de ajuda, agora e depois - até mesmo no tempo da tele-escola, se bem se lembram, havia um professor que, depois de desligada a televisão, acompanhava o trabalho na sala de aula. Mas não só nem todos os pais têm disponibilidade para o fazer como nem todos têm a capacidade. Uma coisa é ensino à distância, outra é ensino doméstico. Não temos de ser todos professores dos nosso filhos (digo-o convictamente, apesar de eu até ser uma daquelas mães que ajuda os filhos a estudar quando é preciso e, se tivesse tempo, juro que seria mais presente). E os mais crescidos também precisam de ajuda, pelo menos numa primeira fase. Porque nem todos são assim tão autónomos nem tão responsáveis e porque é preciso aprender a trabalhar de maneira diferente. Mesmo. Ter método. Ter um horário. Ter um espaço de trabalho. Isto não é só juntar água e está pronto.

Os professores estão preparados?
Uns estarão, a maioria não. As aulas virtuais não podem ser iguais às aulas presenciais. Não podem ter a mesma duração nem podemos exigir que eles fiquem uma manhã inteira a olhar para o computador. E os materiais terão de ser diferentes (aconselho-vos a pegarem nos manuais dos vossos filhos e a lerem aquilo com atenção, são na sua maioria incompreensíveis). Se isto é para durar, tudo terá de ser diferente. As exigências terão de ser diferentes. Provavelmente os alunos nem conseguirão estudar tantas disciplinas nem irão cumprir as metas curriculares (e agora? será o caos e o horror e a tragédia. lol)

E o mais importante de tudo: é preciso ser razoável.
O país está parado, o mundo está parado. Estamos todos à espera de ver o que vai acontecer. Estamos a viver uma crise de saúde pública sem precedentes. Isto nunca aconteceu antes. E mais. Há famílias que estão a passar por enormes dificuldades nesta altura - e vai piorar. Pessoas que estão sem ordenado, que não sabem como vão sobreviver no próximo mês. As famílias estão fechadas em casa, sem sair à rua, os miúdos não podem brincar com os seus amigos, os pais estão a ficar deprimidos. Isto não é uma situação normal. Porque é que é assim tão importante que, nestas semanas de absoluto caos, os miúdos continuem a fazer fichas sobre verbos e a estudar as equações? 
Sou completamente a favor de ir dando alguns trabalhos aos alunos que os possam e queiram fazer. Ok, não conseguimos ir todos mas vamos tentar que o máximo de miúdos se junte a isto. Já sabemos que as elites estão mais bem preparadas para fazer face a este novo desafio mas vamos tentar que o fosso para com o resto da malta não seja ainda maior. Vamos tentar levar isto com alguma leveza, sim? Gostava que os professores se organizassem entre si e que pedissem trabalhos diferentes, talvez juntando matérias de várias disciplinas. Sejam imaginativos. Seria mais divertido para todos. Gostava que estes trabalhos servissem mais para estimular os alunos. Para os manter em contacto com a escola e com os colegas. Neste momento de tensão, isso seria uma ajuda aos pais.
E, por favor, parem de se preocupar com a avaliação. Estamos proibidos de sair de casa para ir ao café, e todos sabemos que a normalidade não vai voltar tão cedo. Acham mesmo que é agora o momento de marcar testes?

publicado às 15:21

20
Mar20

Primavera

unknown_1.jpeg

"Do remember they can't cancel spring", 
uma mensagem de David Hockney para estes dias estranhos.

publicado às 10:37

DSC_0149.JPG

Coisas que tenho em casa para devolver ao meu pai: uma caixa que trouxe cheia de sopa de grão, livros que ele me emprestou nestes últimos meses (anos?) e que me tenho esquecido de levar de volta para o Alentejo, um marcador que veio com algum dos livros e onde se lê: "Nada no mundo é mais doce que o amor".

Na nossa família nunca demos grande importância aos dias disto e daquilo. Mas isto de nos sabermos forçadamente à distância, de repente, deixa-nos um bocadinho mais lamechas. Hoje é dia do pai e acho que esta imagem diz muito sobre nós.

publicado às 18:24

Comecei a fazer um diário da quarentena no facebook. Porque no primeiro dia não tinha computador e, no telemóvel, é mais fácil ir ao facebook do que vir ao blog. E porque escrever é a minha maneira de me organizar. Ou pelo menos tentar. E porque sinto que, de alguma forma, isto que estamos a viver agora nos vai mudar e quero que fique documentado. Para mais tarde poder perceber o modo como vamos mudando de opinião e de estado de espírito, como o tempo ou o isolamento ou a doença nos afecta. No facebook escrevo menos. Não sei se gosto. Não sei se continuarei por lá ou por aqui, se o farei todos os dias ou se manterei o diário por muito tempo. Para já, tem sido assim:

Dia 1, sexta-feira, 13 de março
O António foi à escola porque teve um teste.
Eu e o Pedro não saímos de casa.
O computador teve um peripaque... tenho até segunda para resolver e garantir o teletrabalho.
Os putos querem internet no quarto e mais uma televisão.
Também nos dava jeito ter um quintal (ou uma varanda, vá).
Ouviram se frases como: já estou farto, agora é a minha vez na playstation, ooohhhhh maaaaaae, e agora o que é que eu faço?, quem me dera ser filho único, podem calar se um bocadinho?, acho que temos de comprar mais bolachas, eu não vou estudar era o que faltava.
Não fiz nada e estou exausta.
Mais vai correr bem.
Vai, pois.
Não temos outra hipótese, pois não?

Dia 2, sábado, 14 de março
Podia ser um sábado como qualquer outro.
Abrimos janelas para arejar a casa e a cabeça.
Aproveitámos o sol que inunda a cozinha durante a manhã.
À tarde, os miúdos foram ao terraço jogar a bola.
Tomámos todos banho.
Isto sem ter que trabalhar até seria suportável.

Dia 3, domingo, 15 de março
Saí de manhã para apanhar sol e mexer as pernas. Foi muito bom.
Os rapazes não saíram de casa.
Fiz crepes para o lanche e preparei o jantar ao som de Devendra.
Agora estamos a ver o Dr. Pol.
So far so good.

Dia 4, segunda-feira, 16 de março
Fui buscar o computador que passou o fim-de-semana no "hospital" e pude, finalmente, começar a trabalhar à uma da tarde.
A partir daí é tudo muito desfocado.
Acho que os putos jogaram playstation, que foram ao terraço jogar à bola, que lancharam e tomaram banho.
O António tirou a louça da máquina e o Pedro fez o sumo de laranja para o jantar.
Jantámos já depois das 21.00.
Estou muito cansada.
Amanhã vai ser melhor.

Dia 5, terça-feira, 17 de março
Antes das 8 da manhã estava à porta do talho.
Depois, fui a primeira na fila do supermercado.
Quando cheguei a casa, o António estava a fazer os trabalhos de português.
Despacha-te, puto, que às 10 começa o meu turno no computador.
A essa hora ainda estava animada, tinha apanhado sol e mexido as pernas.
Este ia ser um dia bom.
Afinal, não.
Foi um dia demasiado comprido, em que estive demasiadas horas sentada, a olhar para o ecrã, a ver números de mortos e infectados, sempre ligada e sempre com a sensação de que estava a perder alguma informação importante. Trabalhar em casa, sem nos mexermos nem falarmos com ninguém, tem se revelado muito pior do que poderia imaginar.
Desliguei às 19.00, não porque não tivesse mais coisas para fazer mas porque, simplesmente, não conseguia continuar.
Adormeci, exausta, no sofá depois do jantar e estou agora a mudar-me para a cama.
Ainda não foi hoje que inscrevi o Pedro na plataforma da escola.
Sobrevivemos. Não está mal.

#keepsafe 

publicado às 18:41

14
Mar20

Quarentenados

Estamos em casa. Eu e os putos.

Não me queixo.

Lembro-me, primeiro, das pessoas que não podem ficar em casa. Os profissionais de saúde, claro. Mas também todos os outros que mantêm a máquina a funcionar. Os que trazem os legumes e as massas para os supermercados. Os que trabalham nos supermercados. Os padeiros. Os que recolhem o lixo. Os motoristas dos autocarros. Os polícias. Todos os outros. 

Lembro-me, depois, das pessoas que ficam em casa mas que não podem trabalhar e que, por isso, não vão ganhar dinheiro. Os actores e músicos cujos espectáculos foram cancelados, por exemplo. Os técnicos e todas as outras pessoam que iam trabalhar nesses espectáculos. Os miúdos que trabalham nos quiosques de comida. Os condutores de tuk-tuk. Os donos de pequenos e médios negócios, sejam eles cafés, restaurantes, lojas de roupa ou de outra coisa qualquer, agências de turismo, táxis, tudo o resto. Quase todos os trabalhadores independentes e pequenos empresários vão passar por muitas dificuldades nos próximos tempos.

Leio por aí que este é um vírus democrático, atinge todas as pessoas sem distinção de classe social. É verdade. Mas também é mentira. Como sempre, os mais ricos estão em melhores condições de se defenderem. Os que têm contratos decentes e protecção social também. E os que têm profissões "limpas", os que trabalham com um computador e um telefone. Estamos de quarentena mas não somos todos iguais.

Somos privilegiados. Há que ter consciência disso.

E, no entanto, queixo-me.

Vou estar a trabalhar em casa, oito horas por dia, uns dias mais, uns dias menos, ainda não sei, mas vou estar a trabalhar. E só isso já seria complicado, na minha profissão, porque estou habituada a ir aonde as coisas acontecem e agora ou não acontecem coisas ou eu não posso ir lá. Vai ser bastante exigente. Mas há mais. Eu vou estar a trabalhar em casa com os dois putos. Que já não são crianças, já não se entretêm a fazer desenhos nem a brincar com bonecos. São adolescentes que vão discutir por causa da playstation. Que vão passar horas a ver youtube. Que vão ficar insuportáveis porque não terão como gastar a sua energia. Que vão ser uns queridos e ajudar-me muito, algumas vezes, mas também vão fazer-me a cabeça em água, isso é certo, outras tantas. Enquanto eu vou estar a trabalhar. Por isso, poupem-me, ok? Não quero saber da escola virtual nem das actividades muito bonitas que todos vocês me estão a aconselhar para eu fazer com os meus filhos. Li artigos em que me sugeriam tirar um curso qualquer online ou aprender a fazer origamis. Diziam-me para aproveitar para ler e para fazer arrumações em casa. Para fazer tiktoks com as crianças ou fazermos um filme familiar. Como se isto fosse uma espécie de férias e agora temos que nos divertir todos. Não. Se vocês vão ficar em casa e não têm que trabalhar, óptimo, aproveitem, sejam felizes. Mas eu vou estar a trabalhar e a cozinhar e a tentar manter a minha sanidade mental e no pouco tempo livre que me resta vou sentar-me no sofá e ver um filme ou então adormecer. Não tenho tempo para estudar com eles nem tenho cabeça para os obrigar a estudar sozinhos. E não sei se terei paciência para muito mais do que tentarmos sobreviver, mantendo a calma e sem nos zangarmos. Se conseguirmos isso já me darei por muito feliz. Tudo o que vier depois é lucro.

E, já agora, uma palavra de conforto e solidariedade a todos os pais e mães sozinhos que vão ficar quarentenados com os seus filhos e não vão ter nenhum adulto com quem se possam revezar nas tarefas domésticas e na atenção que vão dar aos filhos. Que não têm com quem conversar e desabafar,  com quem palhaçar e gargalhar, quem lhes dê abraços e diga que vai ficar tudo bem. Quem os faça sentir menos sozinhos.

Estamos em casa. Eu e os putos.

Vamos ficar assim duas semanas, um mês, o tempo que for necessário. Se tudo correr bem, vamos safar-nos. Mas vamos chegar ao fim desta quarentena diferentes daquilo que somos hoje. Não sei se melhores, se piores, se mais enlouquecidos ou mais conscientes, se a odiar-nos ou mais próximos, se a dar importância só às coisas realmente importantes ou a cagar-nos para o mundo, não consigo imaginar. Mas sei que vai ser um desafio enorme.

publicado às 14:03

O Pedro viu o anúncio na televisão e pediu: podemos ir, mãe? Eu nem tinha sugerido nada porque já tínhamos visto os Stomp há seis anos (já seis anos? o tempo passa depressa), mas a verdade é que ele era ainda pequeno e por isso tinha memórias um pouco difusas. Além disso, uma pessoa não se cansa de ver os Stomp, não é? Eu já os vi três vezes e continuo a adorar. Então, em vez de estudar a fotossíntese, como planeado, deixámos um jogador de futebol lesionado em casa a estudar (ou a jogar playstation, nunca o saberemos) e lá fomos os dois. 

Sorrimos durante uma hora e quarenta minutos. Que alegria. Que alegria a dele. Que alegria a minha, com o espectáculo mas também por vê-lo assim feliz.

Ao longo do espectáculo, apercebi-me de outra coisa: os intérpretes, além de extraordinários e também eles felizes por estarem ali, são um grupo diverso, composto por gente de todas as cores, homens e mulheres, altos e baixos, gordos e magros, com muitas tatuagens e penteados divertidos. É bom ver a diversidade no palco. A mensagem que isto transmite aos miúdos é que qualquer um deles poderá um dia também estar no palco (ou onde quiser estar). Não é preciso corresponder a um esteoreótipo qualquer para fazer algo belo e ouvir aplausos. Podemos dizê-lo muitas vezes mas nada como vê-lo para que a lição fique bem sabida.

stomp-1.jpg

Os Stomp estão no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 29 de março. Se ainda não os viram, aproveitem que é mesmo fixe.

publicado às 16:40

20200301_115312.jpg

A atriz e encenadora Raquel Castro andava a pensar na morte. Na sua própria morte. Acontece-nos a todos, a determinada altura, suponho. Para se distrair da morte, decidiu colocar todas as suas angústias num espectáculo, intitulado A Morte de Raquel, no qual se imagina a morrer aos 99 anos, em 2080, e imagina também o que terá sido a sua vida até então, numa mistura entre realidade e ficção que torna o exercício mais arriscado e, por isso, mais interessante. No momento de morrer, que balanço faremos disto tudo? Que memórias vão ser relevantes? Que imagem guardarão os outros de nós? O resultado é, portanto, muito mais do que um espectáculo sobre a morte. É um espectáculo sobre a vida. Sobre aquilo que faz a vida valer a pena. Sobre os beijos que demos. Sobre as vezes em que fomos corajosos. Sobre aquilo que deixamos para trás (as pessoas, as obras, o lixo). Sobre as cicatrizes que temos no coração. Sobre aquilo que não fizemos, também. Montado como se fosse um velório, como se nós, público, fôssemos lá para nos despedirmos de Raquel, o espectáculo tem alguns momentos mais tristes, porque a morte de alguém é sempre triste, mas tem partes bastante divertidas - porque é melhor se levarmos isto tudo a rir. E também porque os momentos felizes são para serem celebrados.

Na verdade, andamos aqui todos a distrair-nos da morte da melhor maneira que sabemos.

E, no final, dançamos, claro. 

Modern Love, David Bowie

 

O espectáculo A Morte de Raquel está no Teatro São Luiz até 15 de março. Depois não digam que não avisei.

publicado às 18:29


Mais sobre mim

foto do autor