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A atriz e encenadora Raquel Castro andava a pensar na morte. Na sua própria morte. Acontece-nos a todos, a determinada altura, suponho. Para se distrair da morte, decidiu colocar todas as suas angústias num espectáculo, intitulado A Morte de Raquel, no qual se imagina a morrer aos 99 anos, em 2080, e imagina também o que terá sido a sua vida até então, numa mistura entre realidade e ficção que torna o exercício mais arriscado e, por isso, mais interessante. No momento de morrer, que balanço faremos disto tudo? Que memórias vão ser relevantes? Que imagem guardarão os outros de nós? O resultado é, portanto, muito mais do que um espectáculo sobre a morte. É um espectáculo sobre a vida. Sobre aquilo que faz a vida valer a pena. Sobre os beijos que demos. Sobre as vezes em que fomos corajosos. Sobre aquilo que deixamos para trás (as pessoas, as obras, o lixo). Sobre as cicatrizes que temos no coração. Sobre aquilo que não fizemos, também. Montado como se fosse um velório, como se nós, público, fôssemos lá para nos despedirmos de Raquel, o espectáculo tem alguns momentos mais tristes, porque a morte de alguém é sempre triste, mas tem partes bastante divertidas - porque é melhor se levarmos isto tudo a rir. E também porque os momentos felizes são para serem celebrados.

Na verdade, andamos aqui todos a distrair-nos da morte da melhor maneira que sabemos.

E, no final, dançamos, claro. 

Modern Love, David Bowie

 

O espectáculo A Morte de Raquel está no Teatro São Luiz até 15 de março. Depois não digam que não avisei.

publicado às 18:29


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