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Dia 19, terça-feira, 31 de março
Muito trabalho.
Muitas preocupações.
O Pedro está a ver o 300, eu finjo que acompanho. Não sei quantos mais maus filmes consigo aguentar. Quando isto terminar vou enfiar me na cinemateca a ver filmes do Godard para ver se o meu cérebro volta a funcionar como deve ser.

Dia 20, quarta-feira, 1 de abril
Mais um dia.
Só isso.

Dia 21, quinta-feira, 2 de abril
Continuo com insónias. Noites terríveis. Tenho acordado mais tarde do que gostaria e sento-me ao computador ainda de pijama.
O resto do dia tem sido tranquilo.
Trabalho. Almoço. Os putos dividem o tempo da PlayStation. O Pedro vai fazendo os trabalhos da escola. Terminado o trabalho, se tudo correr bem, vou fazer o meu passeio higiénico (hoje consegui convencer o Pedro a ir comigo e ele levou a bicicleta). Às vezes passo no talho, no supermercado. Tudo demora imenso tempo por causa das filas. Volto para casa, tomo banho. Jantar. Sofá. Vemos filmes estúpidos ou o Havai Força Especial. Cama.
Não é propriamente mau, não me posso queixar. Temos o que precisamos. Vou falando com os meus amigos. Os miúdos enfardam bolachas. Está tudo bem.
É só chato.
É muito chato.

Dia 22, sexta-feira, 3 de abril
Um disco de Dino D'Santiago (vontade de dançar), uma tarte de maçã, miúdos a jogarem à bola no terraço, telefonemas e mensagens de amigos, saber que a família do Alentejo está bem.
Encontrar a felicidade nas coisas pequenas.
Não pensar.
Hoje foi assim, amanhã logo se vê.

Dia 23, sábado, 4 de abril
Já vi que estiveram todos a fazer pão este sábado, muito bem, mas eu estive a trabalhar e hoje nem sequer escrevi sobre coisas divertidas, só deu pandemia mesmo.
Para desanuviar ajudei o Pedro a fazer um dos seus trabalhos de educação visual, um mobile com cinco peças inspirado em Alexander Calder (também não sabia quem era mas agora já sei).
Agora, estamos a ver o Max que, sendo um cão, é um bocadinho mais humano do que o Robocop de ontem.
Um dia de cada vez.

Dia 24, domingo, 5 de abril
Foi um fim de semana inteiro de chuva.
Ninguém saiu de casa.
Os putos estão um pouco enlouquecidos e eu já lacrimejei um bocadinho enquanto fazia o jantar, confesso, mas podem ser só as hormonas, afinal se isto de ter as hormonas aos saltos nunca é fácil, imagine-se depois de 24 dias em clausura e sete dias de trabalho.
Fiz batatas fritas mas não ficaram lá muito bem.
A sessão desta noite tem A vida secreta dos nossos bichos (2), mas na versão portuguesa que é para ser um niquinho mais enervante.
Ainda bem que hoje é sexta-feira.

publicado às 10:53

Leio por aí vários posts e comentários de pessoas que encontram alguma satisfação nisto tudo por, finalmente, terem tempo para estar com a família ou (o que é ainda mais triste) estarem agora a descobrir como é bom passarem tempo juntos. Tenho uma certa pena dessas pessoas que precisaram de uma pandemia para percerceber isso (mas, bom, mais vale tarde do que nunca).

Eu não tenho tido esse tipo de revelações porque há muito tempo que sei exactamente quais são as minhas prioridades e que dou valor às minhas pessoas (os meus filhos, a minha família, os meus amigos) - talvez por isso agora me façam tanta falta aqueles que tenho que manter à distância. Eu gosto muito de estar com os meus filhos e não imagino sequer como seria ter de passar por isto sozinha. Mas, sinceramente, gostaria mais de estar com eles de férias, a passear por aí, mesmo que não fosse muito longe, do que assim.

É que, como continuo a trabalhar (e muito) e como tenho de fazer todas as tarefas da casa, incluindo perder horas nas filas sempre que é preciso comprar um iogurte, não me sobra assim muito tempo nem muita energia (nem muita cabeça) para jogar às cartas ou para fazer trabalhos manuais ou até para ver séries na Netflix ou ler livros. Além disso, não sei se já vos disse que tenho dois adolescentes cheios de energia (e de hormonas) que há várias semanas não saem de casa, não praticam os seus desportos nem estão com os amigos. Portanto, estamos aqui os três enfiados e, sim, gostamos muito uns dos outros e damos muitos abraços e beijinhos, mas isto não é propriamente o paraíso familiar.

Fazemos o nosso melhor. 

O nosso melhor, às vezes, é gritarmos e batermos com as portas e dizermos que estamos fartos.

O meu melhor, às vezes, é esperar que eles adormeçam, fechar-me no quarto escuro e chorar um bocadinho de desespero por não saber muito bem o que ando aqui a fazer e que raio de pessoas vamos ser quando isto tudo acabar, se os putos alguma vez vão recuperar destas semanas passadas a jogar playstation e a ver vídeos estúpidos no youtube, se voltaremos a abraçar as pessoas de que gostamos, se continuarei a ter um emprego, se conseguiremos dar a volta ao vírus e à crise que virá.

Depois passa.

Uma das coisas que me fez bem na semana que passou foi ouvir o disco novo do Dino D'Santiago. Fez-me ter vontade de dançar.

E dançar é bom.

publicado às 09:52


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