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Dia 31, domingo, 12 de abril
Domingo de Páscoa - de limpezas e de estudar matemática mas também de falar com amigos e de apanhar sol e de descansar.
Hoje vimos o Yesterday. Escolha minha. Não é grande coisa mas ao menos tem a música dos Beatles.

Dia 32, segunda-feira, 13 de abril
Passou um mês.
Já não estranhamos tanto os dias fechados em casa. As horas passadas ao computador. As conversas que não temos junto à máquina do café. Estar sempre de pijama. Trabalhar de pantufas. Os sapatos deixados do lado de fora da porta. Os banhos que costumávamos tomar antes de sair de casa e que agora tomamos quando voltamos da rua. As filas para entrar nas lojas. O "pode chegar-se para trás, por favor". As prateleiras vazias de esparguete e enlatados. Os cumprimentos à distância quando encontramos amigos no bairro. Os sorrisos escondidos por trás das máscaras.
Passou um mês e temos um novo vencedor do prémio de pior filme da quarentena: Solomon Kane. O Pedro já tinha visto mas quis repetir: "Tens de ver, mãe, é mesmo fixe." Só que não.
Às vezes pergunto-me o que vamos guardar nós destes tempos. E temo que não haja grandes lições de vida a tirar daqui. Nenhuma reflexão profunda. Nenhuma frase inspiradora.
Só uma série de filmes péssimos. E uns quantos quilos a mais.

Dia 33, terça-feira, 14 de abril
O António ainda tem mais uma semana de férias. O Pedro já está cheio de tarefas. Isto promete. Estou a tentar levar tudo com calma mas já deu para perceber que não vai ser fácil. Entre o meu trabalho e orientar o estudo dele, comidas e compras e a chuva que não permitiu escapadelas higiénicas, não foi um dia muito animador. Nem sequer há cinema. Hoje ficámo-nos pelos polícias do Hawai e o objectivo é começar a ir para a cama mais cedo.
Cumprindo as ordens do primeiro ministro, ao jantar começámos a falar das férias do verão. Temos imensos planos. Porque sonhar não custa nada.

Dia 34, quarta-feira, 15 de abril
Ao fim do dia saí com o Pedro. Fomos buscar a bicicleta que tinha ficado na oficina para arranjar os travões, passámos no talho para comprar hambúrgueres para o jantar e depois demos a nossa volta habitual. De repente, começou a chover torrencialmente. Abrigámo-nos na entrada de um prédio e ali ficámos um bocadinho, a conversar, e, quando a chuva amainou, voltámos para casa, todos molhados. E ele ria e pedalava por entre as pingas da chuva como se não fosse nada.
O Pedro, que tem 11 anos e teve hoje o seu segundo dia de aulas à distância, tem sido o meu grande companheiro nesta quarentena. Está-lhe a custar imenso tudo isto, a falta dos amigos, a falta do exercício, esta prisão em que vivemos. Ele gosta de saltar muros e de desafiar a gravidade, todo ele é aventura, sem limites. Mas tem se esforçado imenso. Por entender. Por aceitar. Quase que consigo vê lo a crescer todos os dias um bocadinho.
Aquele nosso passeio à chuva foi o melhor momento do dia de hoje.
(E do resto haveremos de falar depois)

Dia 35, quinta-feira, 16 de abril
Saltamos este dia, pode ser?
Esgotei as palavras por hoje.
Talvez volte amanhã (ou talvez não).

Dia 36, sexta-feira, 17 de abril
O Pedro completou todas as tarefas da escola para esta semana praticamente sem ajuda. A minha ajuda principal é organizar-lhe o horário, mantê-lo sentado e concentrado (o que não é nada fácil) e de vez em quando decifrar a linguagem dos manuais - sobretudo na matemática. Para a semana, começa o António e o grande desafio da partilha do computador.
Como hoje é sexta-feira voltámos às nossas sessões de cinema com O Atirador.
A vida segue.
Um dia de cada vez.

[Tenho estado muito triste esta semana, por motivos vários, uns públicos, outros privados. A vida não está toda no Facebook. Algumas coisas hão de vir parar aqui, mais tarde, outras nem por isso, como sempre. De qualquer forma, obrigado por todas as palavras. Quando estamos longe as palavras são os abraços possíveis.]

publicado às 09:37


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