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Dias 37 e 38, sábado e domingo, 18 e 19 de abril
Fim-de-semana com o detox possível. Quase sem notícias, pouco WhatsApp, menos telemóvel.
Tentar não pensar.
Limpámos a casa, comemos crepes com nutella, os putos jogaram PlayStation, eu e o Pedro fomos dar o nosso já habitual passeio. Fizemos um trabalho de história sobre como era a vida no tempo dos avós que me deu imenso gozo. O que o Pedro mais gostou foi de ver as fotografias do avô em Angola, todo armado. E ficou surpreendido quando descobriu que quando era pequeno o avô brincava na rua. Na rua? Sem adultos? O dia inteiro? Que inveja. (Por estes dias, temos todos inveja disso, na verdade.)
Não tenho conseguido ler nem ver séries mas hoje fechei-me na cozinha com coxas de frango no forno, sopa de agrião na bimby, no fogão um tacho com arroz e outro com feijão preto, um copo de vinho na mão e o Dino no Spotify. E enquanto o feijão apurava eu dancei. Dancei sozinha como se não houvesse amanhã.
E, no entanto, amanhã cá estaremos outra vez. Na luta, como diz o meu amigo Vítor.
Qual é a opção?

Dia 39, segunda-feira, 20 de abril
Aulas online, trabalhos feitos em computador, trabalhos feitos no telemóvel, internet maluca. E pelo meio a mãe também tem que trabalhar, não é?
Mas sobrevivemos.
No final, eu e o Pedro estávamos mesmo a precisar de espairecer por isso fomos fazer o nosso passeio pelo campo e depois ficámos uma boa meia hora a lavar a bicicleta que ficou toda enlameada. Melhor do que qualquer sessão de mindfulness, posso garantir-vos.
Ainda não conseguimos convencer o António a vir passear connosco mas (Eureka!) hoje contamos com a sua atenção a ver uma espécie de velocidade furiosa.
E até temos bolo de chocolate.
Para ajudar a engolir sapos.

Dia 40, terça-feira, 21 de abril
"Procura no Google." É uma das frases que mais tenho repetido por estes dias. Não será a melhor pedagogia, concordo, mas é uma maneira de não ser tantas vezes interrompida e de, ao mesmo tempo, fazer com que ele não se habitue a ter sempre a reposta pronta dita pela mãe. Ele procura no google e está cada vez mais autónomo, já quase domina o "docs" e até descobriu sozinho como fazer trabalhos em "slides" com efeitos pirosos de letras que aparecem e desaparecem.
A mim dói-me o braço direito, desde o polegar até ao ombro, fruto das muitas horas a mexer no rato (e, estou em crer, também no telemóvel). A parte boa, como diz a Catarina, é que agora vamos precisar usar o braço menos 30%. Always look on the bright side of life.
Hoje também é o dia 1 do layoff mas essa é uma outra história.

Dia 41, quarta-feira, 22 de abril
Voltei a ter insónias.
Não saí de casa.
Não cozinhei (hoje foi dia de restos e porcarias).
Tive imensa dificuldade em acompanhar as conversas que decorriam no meu WhatsApp, no mail, no Facebook.
Tenho a sensação que o Pedro já está (outra vez) atrasado nos trabalhos.
Mas consegui terminar o meu trabalho para esta semana.
Já não é mau.

Dia 42, quinta-feira, 23 de abril
Comprámos uma máquina para cortar o cabelo dos rapazes. Tenho muita pena que eles não me deixem publicar fotos. Foi o melhor momento do dia. Um divertimento.
Estive a estudar o sistema reprodutor com o Pedro. Expliquei-lhe o ciclo menstrual e o período fértil e dei graças a deus por ele não me perguntar para que serve o clitóris. Não me interpretem mal. Sou toda a favor da educação sexual. Mas ele tem 11 anos e quando lhe tentei explicar o que era a ejaculação ficou a olhar para mim como boi a olhar para um palácio. Terminei dizendo: depois o mano explica-te.
Hoje não fomos passear mas aproveitei enquanto os rapazes estavam no terraço e fiz a minha primeira aula de ginástica online. Confirma-se que estou em péssimo estado (abdominais? quais abdominais?). A boa notícia é que só posso melhorar.
Os putos estão decididos a ficar acordados até à meia-noite por causa de um "evento" no Fortnite. Não sei se me aguento.
A meio da tarde, algures entre a aula de matemática e de inglês, o Pedro olhou para mim e:
- tu hoje não trabalhas?
- não.
- ah, por isso é que estás tão calma.
O rapaz pode não saber o que é o grande lábio mas entendeu perfeitamente que isto do layoff tem muitas coisas más, que tem, mas tem uma coisa boa.

publicado às 09:06


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