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Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois  espectadores  de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis. 

Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?

Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.

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publicado às 11:03


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