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28
Jul20

Sem mas

Foi morto mas a verdade é que era uma pessoa difícil e estava sempre a arranjar chatices.

Foi espancada mas a verdade é que ela era muito respondona e tinha a mania.

Foi atacado mas a verdade é que tinha um passado violento e até já tinha estado preso.

Foi violada mas a verdade é que andava sempre com roupas provocantes e a pavonear-se por aí.

Não.

A verdade é que não há justificação para estes actos. Temos de perceber isto de uma vez por todas. Nada no passado ou na personalidade ou na vida de uma pessoa justifica a violência.

Vem isto a propósito da morte de Bruno Candé que parece que era boa pessoa mas até podia não ser. Não é isso que está em causa neste momento. 

Uma pessoa que toma a decisão de sair de casa com uma arma e, a sangue frio, atirar quatro vezes sobre um homem, no meio da rua, à vista de todos, sem medo e sem hesitações, não tem desculpa. Não há nenhum mas que se possa pôr nesta frase.

É um assassino.

E se está louco é um louco perigoso e não pode andar à solta.

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publicado às 10:06

23
Jul20

Onde vais?

Uma das coisas más que aconteceu connosco durante esta pandemia foi a perda de privacidade. Primeiro porque nunca ninguém consegue estar verdadeiramente sozinho em casa. Não é que a nossa casa seja muito pequena, não tenho motivos para me queixar. Mas também não é assim tão grande. Nem temos varandas nem jardins nem nada disso. E portanto vivemos todos aqui entre a sala e os quartos. E, sim, é possível cada um estar na sua divisão e fechar a porta e isolar-se e até ter conversas telefónicas sem ser incomodado mas estamos sempre todos à distância de um grito e quatro passos. Além disso, antes (no antigamente de há quatro meses), todos nós passávamos muito tempo fora de casa e tínhamos cada um a sua vida e a sua existência individual. Agora estamos em casa, sem muitos motivos para sair. Somos como uma unidade e todos sabem sempre o que os outros estão a fazer. Então, quando eu quero sair de casa, como é uma coisa tão rara, há sempre alguém que pergunta: onde vais?, fazer o quê?, com quem?, quando tempo demoras? E não é que eu me importe de dizer aos meus filhos onde vou, nada disso, é só esta constatação de que perdemos a nossa privacidade. E apesar de isso não ser um drama (há coisas muito piores, eu sei) também não é uma coisa boa - nem para mim nem para os miúdos que, sobretudo nesta idade, deveriam ter direito ao seu próprio mundo longe de mim, para se descobrirem e para asneirarem longe do olhar da mãe.

São pequenas coisas que se vão alterando na nossa vida por causa do vírus. Não são só as máscaras e o gel. São estas coisas, quase invisíveis, mas que, estou certa, nos estão a mudar e moldar por dentro de maneiras que talvez só mais tarde iremos compreender completamente.

publicado às 20:43

Tínhamos o covid-19, tínhamos restrições financeiras e tínhamos um adolescente em plena fase tudo-o-que-for-com-a-família-é-um-aborrecimento.

Mas, por outro lado, tínhamos uma semana de férias em julho que, com a ajuda do layoff e das folgas devidas por trabalho no fim-de-semana anterior, se transformaram em 12 dias de descanso.

Pesando prós e contras, decidi que desta vez não iríamos ao Algarve e ficaríamos por casa. Em agosto logo se vê.

Para mim, só o facto de não ter horários, nem trabalhos da escola, nem nenhuma obrigação já é um descanso enorme. Eliminamos os principais focos de stress da nossa vida e tudo fica mais fácil. Mesmo. Aproveitei, então, para tratar de algumas burocracias que estavam pendentes e para fazer umas arrumações em casa (e muito ainda ficou por fazer). Os putos aproveitaram para dormir até mais tarde e jogar muita playstation. E depois tentámos, apesar do calor abrasador, sair de casa, apanhar sol e estar com alguns amigos. O António só se juntou a nós por um dia (tanto que havia a dizer sobre isto...) mas eu e o Pedro fomos várias vezes à praia na Costa da Caparica ou em Carcavelos, ao final do dia (depois das 17.00, às vezes depois das 18.00), só os dois ou com amigos, até ao pôr-do-sol, e por três vezes até conseguimos jantar na praia, ainda com areia nos pés e muitas gargalhadas à mistura. O Pedro está numa fase óptima (é aproveitar que isto vai passar, já se percebeu) e entre a prancha de bodyboard, os óculos de mergulho e a prancha de skimboarding, entretém-se na boa durante umas três horas.

Pelo meio, deixei o adolescente ir passar uns dias ao campo com os amigos, à sua vontade, e cometi duas extravagâncias:

Fomos os três por duas noites a um turismo rural perto de Santarém. Marquei isto há já algum tempo, aproveitando uma promoção, e ficou francamente acessível. Não era nada luxuoso mas tinha uma piscina e internet (foram as duas exigências dos miúdos), uma cozinha para preparar as refeições, muito silêncio e ar puro - tudo o que eu precisava para desintoxicar destes últimos meses fechada em casa.

E, neste último fim-de-semana, quando os miúdos estavam com o pai, fui passar uma noite a Tróia com um grupo de amigas. Éramos seis, todas a deixar maridos e/ou filhos, para conseguirmos pôr a conversa em dia, espairecer a cabeça e desfrutarmos deste tempo juntas, depois de tanto afastamento. Fomos no sábado logo de manhã, aproveitámos a piscina e a praia e voltámos a casa no domingo já à noite, todas bastante queimadas e muito felizes. Não me lembro da última vez que tinha feito uma coisa deste género mas já combinámos que havemos de fazer isto mais vezes. Porque foi mesmo muito bom.

Resumindo e concluindo: esta espécie de férias acabou por correr muito bem, muito melhor do que eu estava à espera, dentro do contexto. Descansei verdadeiramente a cabeça, estive com os miúdos sem zangas nem stresses, estive com alguns amigos de quem ainda estou a matar saudades e acabámos por nos divertirmos todos, eu e os putos, cada um à sua maneira.

Posso repeti-lo todos os anos e todos os anos será verdade: somos sempre mais felizes nas férias. Mesmo com uma pandemia e um baixo orçamento.

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publicado às 07:47

Estive a ver o documentário sobre a Joan Didion, na Netflix. Jornalista e escritora, Didion é a autora de O Ano do Pensamento Mágico, monólogo brutal sobre a morte e a perda que Eunice Muñoz interpretou há uns anos no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Diogo Infante. Não conhecia mais nada dela e fiquei com muita vontade de ler as suas reportagens e ensaios e livros e tudo. Pareceu-me uma mulher do caraças.

[Também me fez pensar em mim e perguntar-me porque é que escrevo, aqui e não só. Não, não me estou a comparar à Joan Didion, não me interpretem mal. Mas gostava de ser suficientemente corajosa - e talentosa, para dizer a verdade - para escrever algumas coisas que gostaria de escrever. Talvez um dia. Talvez nunca. Who knows.]

Angústias existencialistas à parte, tenho aproveitado estes dias para ver outros documentários, também na Netflix. Não tenho visto nenhuma ficção. Estou numa fase "vidas reais". Gostei destes:

Frank Sinatra: All or Nothing - visão muito soft sobre o cantor, sem grandes escândalos nem Marilyn por perto, mas, ainda assim, como eu não sabia muito sobre a vida dele, gostei bastante.

Miles Davis: Birth of the Cool - o trompetista da voz rouca teve uma vida cheia de altos e baixos, eu não conheço nada de jazz mas, mais uma vez, gostei de ficar a saber montes coisas que não sabia.

Mucho, mucho amor: The legend of Walter Mercado - não fazia ideia quem era esta pessoa, nunca tinha ouvido falar dele, mas fiquei completamente fascinada por este artista e astrólogo de Porto Rico, figura andrógina e grande estrela da televisão hispânica nos anos 70, 80 e 90. 

publicado às 15:57

Em que sonhamos com as férias e temos a sensação de que tudo é possível.

Parcels, Tieduprightnow

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publicado às 10:25


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