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A pressão era enorme, imagino eu. Depois do sucesso de A Amiga Genial e de toda a conversa em volta da identidade da autora, Elena Ferrante andou uns tempos afastada da ribalta, publicou umas crónicas no The Guardian, foi tema de um filme documental, viu a sua tetralogia transformada em série da HBO e, entretanto, escreveu mais um romance. A pressão era enorme, imagino eu, mas A Vida Mentirosa dos Adultos (publicado em Portugal pela Relógio D'Água) está aí.

Os leitores de A Amiga Genial vão reconhecer facilmente o estilo e o universo de Ferrante. Temos novamente uma narradora-mulher na primeira pessoa em viagem pelo passado, a recordar a sua adolescência e entrada na idade adulta. Estamos novamente em Nápoles, embora desta vez numa família culta e de classe média alta. E, tal como na tetralogia, e aqui até talvez de forma ainda mais visível, a educação é nos apresentada como o passaporte para uma vida melhor: a escola e os livros permitem a ascensão social, a língua (o italiano vs. o dialecto) como característica distintiva entre classes, o meio universitário (primeiro como aluno e depois como professor) como o ponto mais alto a alcançar. E, finalmente, aquilo que Ferrante tão bem nos sabe dar: o mundo interior de uma jovem rapariga, com os seus dramas, as suas inseguranças, os seus sonhos, as suas vontades. 

Quando conhecemos Giannina ela tem 13 anos. Acompanhamo-la durante dois anos. Estamos com ela precisamente naquela idade em que os pais deixam de ser os heróis, em que descobrimos que não somos os nossos pais nem somos como eles, os pais são afinal outros diferentes, outros de quem queremos ser necessariamente diferentes. É um período de grande crescimento. De descoberta dos rapazes e do desejo. De muitas dúvidas: quem sou?, quem quero ser? É também, para ela, o momento em que descobre que os adultos mentem, que os adultos nem sempre são aquilo que dizem, que as ações e as palavras não têm que coincidir. E também ela começa a mentir, a ocultar-se, a aprender a arte da dissimulação. E é assim que deixa de ser uma criança ingénua e entra na vida adulta.

Elena Ferrante conta tudo isto de forma soberba. Ela sabe colocar-nos na cabeça de uma miúda, com todas as suas dúvidas e hesitações e incongruências. E sabe que é preciso rodeá-la de personagens igualmente ricas e complexas, das quais não sabemos tudo (porque não estamos na cabeça delas) mas também não precisamos saber, porque a vida é mesmo assim, nem sempre sabemos o que motiva os outros, nem sempre compreendemos o que se passa à nossa volta. E é essa perplexidade também que dá uma enorme verosimilhança a Giannina.

A Vida Mentirosa dos Adultos não tem o fôlego dos quatro volumes de A Amiga Genial, o que é uma vantagem, pois não precisa oferecer-nos resoluções nem conclusões. É apenas um momento na vida de Giannina. Um excerto, digamos assim. A partir dali, a vida segue.

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publicado às 09:44

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Quando entrei em layoff, despedi a empregada, que vinha cá a casa fazer magia uma vez por semana. Desde então, sou eu (com alguma - pouca - ajuda dos rapazes) que trato de tudo, da roupa para passar à limpeza das casas-de-banho. Entretanto, o layoff acabou mas por causa das coisas que se sabe (e sobretudo das coisas que ainda não se sabe) continuo sem empregada. O layoff acabou e voltei a trabalhar todos os dias, em casa mas também muito na rua e num ritmo por vezes frenético. Os miúdos também estão de volta à escola. O Pedro no horário da manhã, o António no horário da tarde. Almoçam ambos em casa mas não se cruzam. Já há treinos de parkour e de futebol. Estamos naquela fase de ajustar rotinas. De nos custar acordar com o despertador. De experimentar lanches diferentes. De forrar livros e pôr etiquetas em cadernos. De descobrir que é preciso ir comprar calças e camisolas. 

Ai, setembro, setembro, todos os anos a mesma coisa. A vidinha toda a cair-me em cima, outra vez. Mil conversas para tentar enfiar algum juízo na cabeça dos putos. Exausta de discussões e de argumentações e de desilusões e de ter que pensar em tudo, sempre a pensar em tudo, a minha cabeça não pára, é o dentista, é a explicação, são as sapatilhas da ginástica que não servem e o chapéu-de-chuva que desapareceu, acabou-se o leite, é preciso comprar iogurtes, as reuniões de pais, os papéis para assinar, um filho que está na fase em que tomar banho é um martírio e outro que está na fase em que toma dois e três banhos por dia, e se calhar desligavam os telefones para irmos para a mesa e, então, já é tardíssimo, porque é que ainda não estão a dormir?

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Tirando as máscaras, umas descartáveis, outras reutilizáveis (máscaras a toda a hora de molho e penduradas na corda da roupa, mais uma coisa com que me preocupar), e o gel desinfectante que cada um de nós tem na sua mochila para usar quando fôr necessário, cá em casa estamos a tentar viver o mais normalmente possível. Estou farta da covid-19. Só de imaginar que nos podem fechar a todos em casa outra vez começo a sentir suores frios. Estou farta da covid-19 e das regras estúpidas que inventam em todo o lado, seja na escola ou nos correios, quando vamos comprar sapatos e nos obrigam a calçar uma meia de plástico ou quando queremos renovar o cartão de cidadão e o site nos informa que não, que ainda não é possível fazer agendamentos. A covid-19 como justificação para todas as incompetências e todas as burocracias e todos os abusos de autoridade. Estou tão farta que já não leio notícias e não quero saber dos números de mortos e infectados e internados, juro-vos. 

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19 e ainda bem porque se uma pessoa se põe a pensar a sério nisto ainda acaba dando em maluca. 

Também não tenho tido muito tempo para mais nada. 

Mas isso é outra história.

Wake me up when september ends, dos Green Day
(com beijinhos para a Raquel)

publicado às 09:38

13
Set20

Tempos modernos

A Modern Man, de George Carlin

“I’m a modern man, a man for the millennium. Digital and smoke free. A diversified multi-cultural, post-modern deconstruction that is anatomically and ecologically incorrect. I’ve been up linked and downloaded, I’ve been inputted and outsourced, I know the upside of downsizing, I know the downside of upgrading. I’m a high-tech low-life. A cutting edge, state-of-the-art bi-coastal multi-tasker and I can give you a gigabyte in a nanosecond!
I’m new wave, but I’m old school and my inner child is outward bound. I’m a hot-wired, heat seeking, warm-hearted cool customer, voice activated and bio-degradable. I interface with my database, my database is in cyberspace, so I’m interactive, I’m hyperactive and from time to time I’m radioactive.
 
Behind the eight ball, ahead of the curve, ridin the wave, dodgin the bullet and pushin the envelope. I’m on-point, on-task, on-message and off drugs. I’ve got no need for coke and speed. I've got no urge to binge and purge. I’m in-the-moment, on-the-edge, over-the-top and under-the-radar. A high-concept, low-profile, medium-range ballistic missionary. A street-wise smart bomb. A top-gun bottom feeder. I wear power ties, I tell power lies, I take power naps and run victory laps. I’m a totally ongoing big-foot, slam-dunk, rainmaker with a pro-active outreach. A raging workaholic. A working rageaholic. Out of rehab and in denial!
 
I’ve got a personal trainer, a personal shopper, a personal assistant and a personal agenda. You can’t shut me up. You can’t dumb me down because I’m tireless and I’m wireless, I’m an alpha male on beta-blockers.
 
I’m a non-believer and an over-achiever, laid-back but fashion-forward. Up-front, down-home, low-rent, high-maintenance. Super-sized, long-lasting, high-definition, fast-acting, oven-ready and built-to-last! I’m a hands-on, foot-loose, knee-jerk head case pretty maturely post-traumatic and I’ve got a love-child that sends me hate mail.
 
But, I’m feeling, I’m caring, I’m healing, I’m sharing-- a supportive, bonding, nurturing primary care-giver. My output is down, but my income is up. I took a short position on the long bond and my revenue stream has its own cash-flow. I read junk mail, I eat junk food, I buy junk bonds and I watch trash sports! I’m gender specific, capital intensive, user-friendly and lactose intolerant.
 
I like rough sex. I like tough love. I use the “F” word in my emails and the software on my hard-drive is hardcore--no soft porn.
 
I bought a microwave at a mini-mall; I bought a mini-van at a mega-store. I eat fast-food in the slow lane. I’m toll-free, bite-sized, ready-to-wear and I come in all sizes. A fully-equipped, factory-authorized, hospital-tested, clinically-proven, scientifically- formulated medical miracle. I’ve been pre-wash, pre-cooked, pre-heated, pre-screened, pre-approved, pre-packaged, post-dated, freeze-dried, double-wrapped, vacuum-packed and, I have an unlimited broadband capacity.
 
I’m a rude dude, but I’m the real deal. Lean and mean! Cocked, locked and ready-to-rock. Rough, tough and hard to bluff. I take it slow, I go with the flow, I ride with the tide. I’ve got glide in my stride. Drivin and movin, sailin and spinin, jiving and groovin, wailin and winnin. I don’t snooze, so I don’t lose. I keep the pedal to the metal and the rubber on the road. I party hearty and lunch time is crunch time. I’m hangin in, there ain’t no doubt and I’m hangin tough, over and out!”
 
 
Descobri este texto através de um vídeo no Instagram do Ivo Canelas. Não conhecia o George Carlin, humorista que morreu em 2008, e ainda perdi algum tempo ver alguns dos seus sketches no YouTube. Tem algumas coisas muitos boas, outras nem por isso. Mas este Modern Man é qualquer coisa.
A propósito, fiquem a saber que Ivo Canelas está de volta com o espectáculo Todas as Coisas Maravilhosas. E já há sessões esgotadas. Eu já vi, mas gostei tanto que já comprei bilhetes para ir ver outra vez. 

publicado às 16:57

Eu já sabia. No primeiro dia do confinamento, quando me vi aqui enfiada em casa com os meus dois filhos e me apercebi da loucura que ia a ser a nossa vida, lembrei-me imediatamente: e as pessoas que estão sozinhas?

Eu já sabia. Porque por muito que me queixe da minha vida, eu sei que são os meus filhos - com os seus gritos e discussões e preocupações e brincadeiras e tudo e tudo - que são o meu chão. Eu já sabia mas não há nada como ter a experiência da coisa para poder falar com conhecimento de causa: estou há seis dias a trabalhar em casa e não tenho cá os meus filhos. Eles estão de férias com o pai e estão muito bem. E eu precisava muito de estar de férias deles, admito. Mesmo. Precisava de descansar a cabeça e o corpo e sair desta rotina infernal de comidas e compras e nós todos juntos o tempo todo.  Mas uma coisa é estar sozinha quando se está de folgas e se anda a laurear a pevide (faço isso de vez em quando e é óptimo). Uma coisa é estar sozinha quando se tem uma vida normal de trabalho, num escritório, e se passa o tempo a falar com outras pessoas e depois até se vai jantar fora ou ao cinema ou beber um copo (tenho sempre alguns dias por ano assim). Outra coisa, completamente diferente é estar sozinha, a trabalhar em casa, sem ter ninguém com quem falar o dia inteiro, sem ter grandes opções ao final do dia, porque ainda está tudo com medo e não há filmes que interessem no cinema e os bares estão fechados e estamos todos em modo recolhimento. E ficamos assim só nós e o computador e o silêncio, um dia depois do outro. Não é bom, posso dizer-vos. Nada bom. É até bastante deprimente. Dá vontade de comer chocapic e gelado a todas as refeições, dá vontade de deixar a louça na pia e de nem fazer a cama, dá vontade de não fazer nada, na verdade.

Claro que não foi isso que eu fiz, porque eu sou teimosa (e, pelo menos até ver, sã) e se me deprimo um dia, no dia seguinte já estou a arranjar maneira de arrebitar. Não me fiquei. Fui à feira do livro e ao teatro, falei com amigos, combinei encontros. Saí de casa só porque sim. Resisti. Mas foram só seis dias. Como seria se fossem seis meses? Teria eu conseguido não enlouquecer? 

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publicado às 12:20

ci·da·da·ni·a
Qualidade de cidadão.
 
ci·da·dão
1. Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado livre.
2. Habitante de cidade. = CITADINO
3. Que é relativo aos indivíduos de um estado livre no gozo de direitos civis e políticos = CÍVICO
 
i·de·o·lo·gi·a
1. Ciência da formação das ideias.
2. Tratado sobre as faculdades intelectuais.
3. Conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam  o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade (ex.: ideologia política).

(do Dicionário Priberam)

Diz a famosa petição que "a disciplina de cidadania e desenvolvimento aborda assuntos que abusivamente se podem substituir aos pais na educação dos filhos, o que é inconstitucional". De acordo com as explicações que li por aí, a escola deve limitar-se a ensinar os factos, a ciência, sem transmitir qualquer ideologia.

Sobre isto tenho três coisas a dizer:

1. Eu gostava que me explicassem como é possível educar (ou sequer viver) sem ideologia.

A escola pública, como todas as escolas, está impregnada de ideologia. E ainda bem. Ensina-se ali a ideologia que está explícita na nossa Constituição e em toda a legislação (nada do que é ensinado na escola, seja sobre ecologia, regras de trânsito, igualdade ou casamento contraria as leis em vigor). Assim como a ideologia que está expressa na Declaração dos Direitos Humanos. Ensina-se a ideologia que é dominante ou aceite no momento. E que vai mudando, com o tempo. Porque as sociedades e os pensamentos vão evoluindo (nem sempre para melhor, mas pronto, isso já é outra conversa). A ideologia está presente nas aulas de História, de Ciências, de Português, de Cidadania e provavelmente até nas aulas de Educação Física e de Educação Visual. 

2. Não sei se já viram o programa de cidadania - deviam ir ver antes de falar. Eu, que acompanho de perto as aulas dos meus filhos, posso garantir-vos que a disciplina tem servido para eles tomarem contacto com ideias radicais e subversivas, como por exemplo perceber porque é que não se deve fazer bullying, como usar a internet em segurança, porque é que temos de lavar bem as mãos para nos protegermos do coronavírus, e outras coisas assim altamente controversas. 

3. Embora não o digam explicitamente, o problema dos senhores da petição não é com a cidadania nem sequer com a ideologia. O problema é com o sexo. É sempre. O sexo, esse grande papão.Tenho uma certa pena destas pessoas. Coitadas. São pessoas que acham que vestir um bebé de cor-de-rosa pode influenciar a sua orientação sexual. Ou que explicar aos adolescentes como se usa um preservativo pode fazer deles uns prevertidos. Deve ser muito triste viver assim, no pânico de ser contagiado por uma ideia mais arejada apenas com uma aula de 45 minutos por semana que lhes vá estragar todo o investimento no bolor com que estão a encafuar a cabeça dos filhos.

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publicado às 13:55

01
Set20

A vida acontece

Somos uma família muito pouco instagramável. Não fomos às grutas de Benagil nem ao glamping da Nazaré nem a nenhuma das magníficas praias fluviais do nosso país. Para dizer a verdade, e com muita tristeza minha, este ano não consegui tirar uma fotografia (uma que fosse) com os meus filhos. Ainda assim, apesar de não haver fotos que o provem nem possa sequer adiantar muito mais do que isto, quero deixar aqui escrito que as nossas férias-covid foram bem boas. A vida nem sempre cabe nas redes sociais e isso não é mau.

E, no último dia, quando eu menos esperava, uma amiga acenou-me com um bilhete para o concerto dos 75 anos de Sérgio Godinho. Fomos dar-lhe os parabéns e celebrar a amizade. Fiquei rouca de tanto cantar por trás da máscara, com os olhos húmidos e a garganta seca. Não me ocorre melhor maneira de acabar o verão e de voltar ao rame-rame do que a cantar isto:

"Só há liberdade a sério
Quando houver
A paz, o pão
Habitação
Saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir"

publicado às 10:09


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