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No fim-de-semana, apanhei num TVCine o filme Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, com música de Duke Ellington. James Stewart interpreta um advogado que aceita defender um homem (Ben Gazzara) que cometeu um assassínio: matou o violador da sua mulher (Lee Remick). O filme, de 1959, passa-se em grande parte no tribunal. E se é verdade que tem bastantes pormenores morais que nos fazem sorrir de tão antiquados (pode-se falar de cuecas em tribunal?), não deixa de ser triste perceber que ainda hoje, em 2020, poderíamos ouvir alguns daqueles comentários: afinal a mulher, lindíssima, não terá tido um pouco de culpa da violação uma vez que se veste de forma provocante e sai sozinha à noite?  Ah, pois.

Entretanto, descobri o trailer e vale a pena por si só:

E, já que estamos a falar de tribunais, também vi, na Netflix, The Trial of the Chicago 7, o filme de Aaron Sorkin que recorda o julgamento de sete líderes de protestos juvenis contra a guerra do Vietname que foram acusados de conspiração e de dar início aos motins que ocorreram nas ruas de Chicago durante a Convenção Democrática de 1968. Tem Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Frank Langella, Sacha Baron Cohen,  Michael Keaton e outros. Este é o típico de filme de tribunal, com pouca acção e mesmo essa acontece em flashback. Mas tem muito ritmo, os diálogos são óptimos e faz-nos rir, apesar de a situação não ser propriamente divertida. O juiz parece começar o julgamento com a decisão já tomada e a acusação (leia-se o governo) está disposta a tudo, incluindo cometer algumas ilegalidades, para garantir a condenação destes jovens esquerdalhos e incómodos.

É um belo retrato da justiça americana que, quer-me parecer, também não há de estar muito desactualizado (afinal, hoje é aquele "dia histórico" em que Amy Barrett chegou ao Supremo Tribunal para defender a ilegalização do aborto e do casamento homossexual...).

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publicado às 15:45

23
Out20

"Listen"

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É um aperto no coração, aviso já, sobretudo para quem tem filhos. E ainda mais porque, infelizmente, sabemos que histórias como esta, de portugueses a quem a Segurança Social britânica retira os filhos, acontecem realmente. Ali é tudo muito real. Aqueles pais imperfeitos, que amam os filhos e fazem o que lhes parece melhor, enfrentando problemas, claro, cometendo erros, claro, como todos nós, mas sempre a tentar fazer o melhor para a sua família. Aquela casa, aqueles espaços, aquelas roupas, aquelas pessoas, aquelas lágrimas, aqueles diálogos, aqueles silêncios, aquele sofrimento, sim, é tudo muito real. Eu gosto disso.

Listen, o filme premiado em Veneza de Ana Rocha de Sousa, com interpretações de Lúcia Moniz e Ruben Garcia, passa-se no Reino Unido e é falado em português, em inglês e em Língua Gestual mas é um filme português, não tenham dúvidas disso. E, se tiverem, vão vê-lo e tirem as vossas próprias conclusões. 

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publicado às 10:21

No domingo passado, o Papa Francisco citou um poema de Vinicius de Moraes na sua encíclica "Todos Irmãos", na qual denuncia as desigualdades e o "vírus do individualismo". O Papa apela ao diálogo e à fraternidade "com atos e não apenas com palavras" e, a certa altura, recorre a uma das linhas do Samba da Bênção:  

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"

É uma frase bem bonita. E certeira. A verdade é que apesar de todos os desencontros, no fim das contas, aquilo de que nos vamos lembrar vão ser os encontros, as pessoas bonitas que conhecemos, os amigos com quem partilhámos bons e maus momentos. Quando formos velhinhos e fizermos a nossa selecção de melhores momentos, de certeza que a maioria são momentos com outros. Porque é isso que realmente importa.

O Samba da Bênção é um tema de Vinicius de Moraes e Baden Powell, gravado em1967. E, além de muito bonito, está, como tantos outros poemas de Vinicius, cheio de outras frases que vale a pena guardar para citar. Eu escolho estas:

"É melhor ser alegre que ser triste"

"A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não"

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publicado às 18:58

07
Out20

Sempre o diabo

Vi, por estes dias, Sempre o Diabo, de Antonio Campos, um filme baseado no livro The Devil All the Time, de Donald Ray Pollock (que dá voz ao narrador), que nos transporta para a América profunda nos anos 1945-1965: sobre os perigos do fanatismo religioso e de como a violência está sempre latente e pode surgir a qualquer momento. 

Como não costumo ver filmes de super-heróis, acho que não conhecia este Tom Holland.

Gostei bastante deste filme. Foi uma boa surpresa.

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publicado às 13:52

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Esta ilustração linda é do André Carrilho e foi publicada no DN do sábado passado (espero que ele não se importe que eu a publique aqui).

Eu sei que não sou velhinha de bengala mas já tantas vezes, ao passear pela rua, olhei para os pares de namorados aos beijos nos bancos de jardim, aquela urgência que só tem quem está perdidamente apaixonado, como se os beijos não pudessem esperar, como se tivéssemos que estar juntos, juntos, pele com pele, o máximo possível, como se nada mais à volta importasse, como se nada mais existisse, e eu, passando, olhando para eles e a pensar para mim: lembras-te como era?

Lembro-me bem.

E agora? Irá acontecer-me outra vez?

A acompanhar aquela ilustração, a Fernanda Câncio escreveu um texto muito bonito sobre isto do amor depois de uma certa idade. Ela escolheu os 60 anos. Ainda me falta um bocadinho, é verdade. Mas não consigo evitar sentir-me um pouco retratada. Um dos seus entrevistados diz, a certa altura: "Para mim o desejo está na paixão, e o amor tem sempre de resultar da paixão. Levei a vida a perceber essa coisa que vinha já de Platão e que só a partir do século XX desaparece - que não há um lado animal e racional, e que as coisas estão misturadas em nós. Que a pessoa amada é real, a pessoa que amamos por coisas tão pequeninas como um cheiro ou uma forma de andar. O que é sentir esse amor - não sei responder muito bem, não. É como se os corpos se equivalessem. É um amor de pequeninas coisas quotidianas, de vontade de anichar, de andar de mão dada, de dormir abraçada". 

Outro diz: "Nos últimos dez anos não tive nenhuma paixão. Tive sexo ocasional, tive enfatuações - que é uma palavra que vem do inglês infatuation [neste caso podendo traduzir-se por arroubo, encantamento], que não existe em português mas faz falta, porque não foram paixões." E acrescenta: "A paixão é uma coisa que ocupa muito espaço e tem um potencial de sofrimento imenso. Não sei se quero passar por isso outra vez."

Mas eu ainda acho que quero passar por isso outra vez.

Gostava muito, confesso, gostava muito de encontrar alguém com quem envelhecer. Tranquilamente. Mas feliz e acompanhada.

Quando José Saramago conheceu Pilar, ela tinha 36 anos, ele 64. Ao ver o filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, e vendo-os tão apaixonados, fiquei animada: é possível, ainda há esperança. 

Admito que à medida que o tempo passa essa esperança vai perdendo fôlego. Parece cada vez mais difícil voltar a apaixonar-me e ainda mais difícil que, apaixonando-me, consiga ter uma relação feliz com alguém (porque uma coisa não leva necessariamente à outra, infelizmente). 

Ainda não desisti. Não é que ande por aí à procura, não é isso que me move, mas não desisti. E sempre que vejo uma hipótese - por muito vaga que seja - não consigo virar-lhe as costas. É assim que sou. Hei de acreditar e tentar e entregar-me e aproveitar todos os momentos bons que houver para aproveitar e depois desiludir-me, espalhar-me ao comprido e sofrer. E hei de repetir tudo de novo se acreditar que vale a pena. E acredito algumas vezes. Sim, o potencial de sofrimento é enorme. Mas...e se? 

Em Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino, o pai diz a Elio que a vida é para ser sentida, que de outra maneira não faz sentido: "Os nossos corações e os nossos corpos são-nos dados só uma vez. E antes que dês conta disso, o teu coração está gasto. Quanto ao teu corpo, chega um dia em que ninguém olha para ele, quanto mais chegar-lhe perto".

Quanto ao corpo, é o que é. Mas haverá alguma maneira de evitar que o nosso coração fique gasto?

Mistery of Love, de Sufjan Stevens

 

(uma coincidência de que só me apercebi agora: hoje é 6 de outubro.)

publicado às 11:05

A liberdade é uma luta constante é o título do livro da Angela Davis que ando a ler agora. São entrevistas e pequenos ensaios sobre o feminismo, a democracia, as desigualdades e como combatê-las. Nada de muito profundo, mas bom para nos lembrarmos do muito que ainda nos falta lutar. Às vezes, estamos tão entretidos nas nossas vidinhas que nos esquecemos.

Nem de propósito:

Esta semana tive o privilégio de conversar com uma pessoa muito bonita: a Teresa Coutinho, que é uma mulher corajosa e talentosa.

E, no fim-de-semana, por entre a limpeza da casa (desta vez, incluiu janelas e frigorífico), duas pilhas de roupa para passar (ainda não acabei) e uma incursão ao supermercado, consegui ver o documentário Women, de Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova, que passou na RTP2 (foi na quinta-feira, ainda o apanham na box), com testemunhos de mulheres do mundo inteiro sobre o que é isto de ser mulher. Muito bonito às vezes, muito triste noutras.

E, para além disto tudo, deu para estar com algumas das minhas amigas. Sim, sim, temos que aprender a estar sozinhos e blá blá blá mas nada se compara à felicidade de estar com aqueles de quem gostamos.

E rir.

Rir da vida para que a vida não se fique a rir de nós. 

publicado às 16:46

03
Out20

O verão acabou

People are strange, The Doors

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publicado às 08:31


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