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Uma das coisas que eu descobri acerca dos homens através das aplicações de encontros é que são todos muito aventureiros. Não fazia ideia. Tenho andado distraída, certamente. A mim a maioria dos homens que encontro no meu dia-a-dia parece-me extremamente cinzenta e acomodada. Mas a verdade, está lá escrita no perfil, é que os homens, além do cliché clássico "uma boa conversa acompanhada de um bom vinho" (momento para revirar os olhos), também gostam de aventura. Quase todos fazem surf e outros desportos aquáticos, fotografam-se a saltar de paraquedas e a pilotar barcos, em trilhos de bicicleta, com motos potentes. E melhor ainda se isto acontecer em lugares exóticos e distantes, como desertos, montanhas, selvas, praias de água muito azul. Porque a aventura também é isso. Viagens. Toda a gente gosta de viajar e está à procura de companhia para descobrir o mundo, querem alguém disponível para fazer as malas e ir por aí. Dizer que se gosta de viajar é uma maneira de dizer que se é uma pessoa muito interessante. Vejam, eu sou muito interessante, já fui à Tailândia e a Marraquexe (este ano, é Marraquexe que está na moda, não sei se já repararam), já mergulhei entre peixinhos e já dormi no deserto. As pessoas que viajam são melhores pessoas do que as outras, porque têm "a cabeça aberta", são "espíritos livres", são "pessoas do mundo". Não queremos cá matches com pessoas tacanhas.
Claro que viajar é bom. Como não? Tirando a Fran Lebowitz, acho que todos concordamos com isso. Não é assim uma coisa muito original para se dizer. Para já porque se está de férias e só isso já é maravilhoso. Depois porque temos oportunidade de descansar e sair da rotina e, muitas das vezes, de ir a sítios bonitos ou de fazermos coisas de que gostamos, de estarmos sozinhos se nos apetecer estar sozinhos ou estarmos com pessoas com quem queremos estar, sem horários, sem constrangimentos. Eu gosto de viajar. Ou gostaria, se tivesse mais condições para fazê-lo. Eu também tento viajar, sempre que possível. Adoro ir a sítios diferentes, descobrir novas culturas, falar com as pessoas, provar as comidas, aprender coisas que não sabia. Eu também sou essa pessoa, acreditem. Mas a minha vida não é isto. Não é isto que me define. Não é isso que quero pôr no meu perfil. E fico sempre a pensar para quantas daquelas pessoas (e são muitas) que ali se declaram amantes de aventura e de viagens isso é realmente uma coisa assim tão importante na sua vida de todos os dias, naquilo que eles são.
"Vamos?", pergunta o rapaz da fotografia, piscando-me o olho. Fico na dúvida. Esquerda ou direita? Por muito que queira um companheiro de aventuras (sobretudo se me pudesse pagar viagens às Maldivas ou ao Grand Canyon, isso é que era), queria mesmo era um companheiro para ir ao teatro, para ir jantar a um restaurante indiano ou só para ficar encostado a mim no sofá.
Está visto, nunca serei uma pessoa interessante.
A propósito de viagens, um texto para nos fazer pensar da próxima vez que apanharmos o avião. De Agnes Callard, na New Yorker: