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04
Mar09

Pronto-a-vestir

Há um ano e meio que não entrava numa loja para comprar roupa para mim. Leram bem: um ano e meio. A última vez tinha sido quando engravidei e, com a barriga a crescer, pareceu-me que precisava de umas calças. De então para cá, a gravidez e depois o parto, os quilos e a recuperação, no Verão qualquer trapinho serve e no Inverno, com aniversário e natal, os meus mais próximos, sabendo deste meu feitio, oferecem-me sempre blusas e casacos que me sabem que nem ginjas. Recuperei a roupa de há dois anos, que na verdade já tem quatro, cinco ou mais anos, e vesti-a sentindo uma alegria profunda por ela ainda me servir. Que bom, quer dizer que não engordei assim tanto. Que bom, quer dizer que não tenho que ir à loja. É que eu, ao contrário das outras mulheres, não vim equipada com o chip das compras. Não me divirto a ver montras, angustiam-me os centros comerciais, não tenho a mais pequena paciência para procurar roupa, acho sempre tudo horroroso e demasiado caro, nunca encontro nada do que quero e detesto, detesto mesmo, ter de experimentar. Despir, vestir, despir, vestir. Ali, naquele cubículo, naquele metro quadrado de sofrimento, não tenho escapatória e sou forçada a confrontar-me com o meu corpo rechonchudo que não se adequa, por mais que eu puxe, por mais que estique, não se adequa aos modelitos da estação. A culpa é do espelho, a culpa é das luzes, a culpa é dos designers que fazem roupa que não se consegue vestir, roupa que só fica bem aos bonecos de madeira que eles têm nas lojas com as camisas presas por alfinetes. Mera ilusão. A mim quando as calças me servem no rabo ficam largas na cintura, quando as blusas me cabem nos braços ficam a baloiçar nas mamas. Mas que raio, não hei de comprar XL porque não quero, recuso-me sequer a experimentar algo como um 44. Mudo de loja, mudo de marca, posso até nem comprar a roupa da moda mas hei de encontrar qualquer coisa que não me faça parecer um saco de batatas. Ou então, não. Ou então, como quase sempre, desisto. Não compro. (...) Há um ano e meio que não entrava numa loja para comprar roupa para mim mas hoje lá fui. Teve que ser. Depois de duas horas de sacrifício voltei para casa com uma dor de cabeça e um saquinho com a roupa para a festa. O que a gente não faz pelos amigos que se amam e decidem casar.

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publicado às 13:09


13 comentários

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Maria Ribeiro 06.03.2009

Afinal, já somos 6! Não gosto de ir às compras e surpreendem-me sempre as afirmações de que "todas as mulheres gostam de sapatos (e tem dezenas) e de malas". Eu ando sempre com a mesma mala (uma no Verão, outra para o Inverno) e tenho 2 pares de sapatos por estação (uns pretos e outros castanhos). Não gosto sequer de comprar roupa aos miúdos. O que vale é que têm uma avó que dirige a sua voragem consumista para os netos (o que eu agradeço). Gosto imenso do seu blog e da sua sinceridade. Revejo-me inúmeras vezes nas suas palavras e vivências (a vida na província, os estudos em Lisboa, o início da vida adulta entre teatros e cinemas, a avó tão importante, mas de certo modo desvalorizada, o impacto do livro "A instrução dos Amantes", da Inês Pedrosa, lido no final da adolescência, and so on...). Parabéns e obrigada.

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