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I
Eu sei que os miúdos de hoje em dia são muito mais informados e espertos do que no meu tempo. Depois de (pelo menos) três anos de pré já ninguém chega à primeira classe sem saber pegar num lápis ou numa tesoura, os picotados já foram todos feitos e os professores já não têm necessidade de passar os primeiros tempos a fazer ondinhas e zigue-zagues antes de os por a desenhar letras. O mais certo é que eles até já saibam as letras. Eu sei. Eu sei que os miúdos, ao contrário do que acontecia, já não precisam da escola para aprenderem coisas sobre terras longínquas e animais estranhos. Já viram muita televisão, já foram ao cinema, conhecem os computadores, dominam os videojogos, quase todos já tiveram oportunidade de viajar com as famílias, já viram o mar e andaram de comboio e, quem sabe, até de avião. A escola já não é aquele sítio onde vão para aprender coisas maravilhosas porque, felizmente, hoje em dia, as famílias já têm possibilidade de ensinar muitas coisas maravilhosas às suas crianças. Mas quererá isso dizer que a escola terá de ser uma chatice? Será que a escola, especificamente a escola primária, tem de ser só matéria chata e exercícios chatos? Não me parece. Parece-me, claro, que será mais difícil captar a atenção destas crianças. Motivá-las. Dar-lhes motivos para sentirem que aquilo que estão a aprender é importante. É mais difícil mas é urgente que isso aconteça. É urgente que a escola descubra formas de mostrar a estas crianças que já sabem os nomes esquisitos dos dinossauros e dos futebolistas holandeses que é importante e divertido também estudar as fracções e os tempos verbais.
Isto precisaria de novos métodos. De professores motivados. De escolas com um orçamento simpático. De um sistema de ensino que se preocupasse acima de tudo com as crianças.
Mas a verdade é que estamos a fazer exatamente o contrário. Em vez de ajudarmos as nossas crianças a descobrirem como é bom ler livros ou como a matemática pode ser usada no nosso dia-a-dia, vamos antes ensiná-las a fazer testes. Porque é isso que eles fazem. Por esta altura do ano, os professores deixam de pensar em estratégias para ensinar e passam o tempo letivo a treinar para os testes. Treinar para os testes, foi esta a expressão usada pela professora. Porque os testes têm rasteiras, disse ela. Não é importante que o aluno saiba realmente a matéria. É importante que saiba responder ao teste. Que perceba a mecânica das perguntas e das respostas. Que tenha boa nota no teste porque das notas das crianças dependem as posições das escolas dos rankings (e a sua sobrevivência) e destas notas todas depende a posição de Portugal nos rankings (e o seu prestígio internacional).
E se este método já é discutível quando falamos de alunos universitários (é suposto nas universidades os alunos saberem pensar e não apenas responder aos testes), é completamente surreal quando aplicado a crianças da primária. Crianças de oito anos que deveriam estar na escola a descobrir o mundo, a perceber o mundo, a fazer perguntas em vez de passarem o dia a fazer fichas.
A culpa não é (só) da professora nem (só) da escola. A culpa não é (só) dos pais (minha culpa, sim, minha culpa) que aceitam isto tudo e ainda pressionam as crianças em casa para que tenham boas notas. A culpa é de todos nós e sobretudo dos senhores que mandam na educação e acham muito bem que as crianças da segunda classe façam testes nacionais (com rasteiras, claro, que é para os apanharmos, àqueles que estejam um bocadinho desatentos) e que na quarta classe façam exames, porque temos de acabar com esta rebaldaria de toda a gente ser doutor e para isso tem de se começar logo de pequenino a ver quem é que passa e quem é que chumba, porque no antigamente (no antigamente mais antigo do que o meu antigamente) é que era bom, com as crianças a dizerem todas de cor os nomes dos rios e dos mares e das estações dos comboios, o que interessava que a maior parte das pessoas não chegasse sequer à 3ª classe?, isso não importava nada, naquela altura é que era bom porque ninguém estava na escola para brincar, quem sabia sabia e quem não sabia ia à sua vidinha que havia muita terra para cavar.

II
Eu não sou especialista, não sou professora, não sei essas coisas de pedagogia. Mas eu fui aluna. E fui boa aluna. Das melhores. Daquelas que estudam e tiram boas notas. E sei que hoje lembro-me muito pouco das matérias que estudei para os testes. Não estou a falar de contas de dividir, estou a falar daquelas matérias que uma pessoa tem que estudar num determinado momento mas que depois nos servem muito pouco na nossa vida. A física-química, por exemplo. Não me lembro de nada. Nicles. Ou a introdução à economia. Ou a introdução ao direito. Ou a semiologia. Ou outras coisas assim que eu estudei muito bem estudado, teorias sociológicas, Habermas e Schleiermacher, Wittgenstein e Saussure, nomes que ecoam na minha memória mas que na verdade me dizem muito pouco. E eu sabia, sabia tudo muito bem sabido e escrevi nos exames, e não copiei, e com certeza que tive uma notazinha jeitosa. E o que é que ficou cá nesta cabeça?
Mas, curiosamente, lembro-me que quando estávamos a aprender os metros e os quilómetros o meu professor da primária nos levou a pé até à quinta, para vermos os marcos na estrada e termos uma noção das distâncias. Lembro-me que quando aprendemos as regras do trânsito também fomos para a rua ver os sinais. Lembro-me que plantámos feijões e arroz e várias árvores. Lembro-me que no ciclo fiz um herbário, e tive de encontrar plantas de todos os tipos e caules e raízes e folhas e foi uma trabalheira mas ficou bem giro. Lembro-me que no segundo ano do ciclo, quando a nossa escola  se passou a chamar José Gomes Ferreira, tivemos que ler as aventuras de joão sem medo e fazer um trabalho sobre isso e eu adorei e ainda hoje sei a história do livro. Lembro-me de ter um microscópio e andar obcecada a ver tudo o que havia para ver. Lembro-me de picar o dedo para ver o sangue. Lembro-me que no nono ano apresentei à turma um trabalho sobre os trovadores medievais e ainda hoje, se puxar pela cabeça, e oh ei, ainda sei algumas cantigas de amigo de cor. Lembro-me que no oitavo ano fiz um trabalho sobre o 25 de abril e levei para a sala as cassetes do meu pai com músicas do Zeca Afonso e do José Mário Branco. Lembro-me de participar numa escavação arqueológica e encontrar vestígios dos romanos. Lembro-me de ter sido o fidalgo no auto da barca de Gil Vicente. Lembro-me de ter feito para geografia um trabalho sobre a população mundial e ficar assustada porque somos cada vez mais e cada vez mais velhos. Lembro-me que no 10º ano fiz um trabalho sobre Descartes e foi o primeiro trabalho grande que fiz com a máquina de escrever. Que no 11º fiz, em filosofia, um trabalho sobre ídolos onde colei fotografias do James Dean e do Elvis. E li Mircea Eliade e tudo. Que apresentei na aula de inglês um trabalho sobre o "generation gap" e levei uma música do Bob Dylan e posso dizer, como se fosse hoje, que "generation gap is the difference in ideas, feelings and atittude between old people and young people" (a memória é uma coisa fantástica). Que no 12º ano fiz um trabalho sobre judeus e que li o antigo testamento todo. Lembro-me de quase todos os trabalhos que fiz na faculdade, na licenciatura e a seguir, dos livros que li para fazer esses trabalhos, do tanto que pesquisei, das coisas que aprendi. Porque, vá-se lá saber porquê, quanto trabalhamos um tema que nos interessa e quando o fazemos de forma que nos interessa, sem ser a decorar por decorar e a responder a fichas, parece que as coisas ficam mais facilmente na nossa memória.
Não é preciso ser um grande especialista para saber isto.

III
Nas manhãs do domingo, o meu filho tem de acabar os trabalho de casa. E é absurdo. Tudo isto é absurdo. As fichas todas que ele tem que fazer. A mediocridade do nosso sistema de ensino escarrapachada nas fichas com problemas de quilos e litros e os textos sobre gotinhas de água seguidos de perguntas estupidificantes. É claro que ele tem de fazer as fichas. É claro que ele tem de saber o que são verbos e adjetivos, o plural e o singular. Mas irrita-me saber que é só isto que ele faz, dia após dia, naquela sala de aula. E que é só isto que ele faz, depois, em casa. Porque é isto e só isto que ele tem de saber fazer.
Treinar para os testes.

publicado às 14:07


1 comentário

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Nini 23.04.2012

Nunca se lembrou de intervir na quantidade de trabalhos de casa? Eu,nós, fizemo-lo, já há anos, pois os nossos filhos, muito bons alunos, traziam carradas de trabalhos repetitivos. Nós responsabilizámos-nos pelos trabalhos: eles faziam-nos, mas muuuuuito doseados por nós. E resultou! Ficaram com mais tempo livre para brincar e nós para eles. Eu não sou a favor dos trabalhos de casa, especialmente no 1º ciclo (há quem me condene e não comprerenda!). Os miúdos estão demasiado tempo na escola. Intervenha!

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