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A coisa começou nem sei muito bem como. Um dia falou-me do Miguel "Guloso". Noutro dia era o João Moutinho. Uma noite, em frente da televisão, desatou aos gritos porque tinha visto o Aimar. Quem, meu filho? Nunca imaginei que ele fosse assim tão fanático da bola, afinal, estamos a falar de um puto de quatro anos que ainda não percebeu muito bem o que quer dizer "ser" de um clube e que fala com a mesma paixão do Benfica, do Trofense, da Académica e até do "Guima", diminutivo carinhoso com que se refere ao Vitória de Guimarães. Até que um dia, a completo despropósito, ele diz-me que tem de escrever a carta ao pai natal porque tem de pedir como prenda uma caderneta de cromos de futebol. Foi nessa altura que comecei a pensar que talvez isto dos cromos fosse mais importante do que eu tinha imaginado. Seja. Vamos lá perguntar no quiosque o que é que se passa. A alegria do miúdo quando recebeu os primeiros pacotinhos de cromos é algo indescritível. Aquele sorriso de espanto, a ansiedade a rasgar o papel, os olhos esbugalhados - olha o Dí Maria e o Tiago e o Maxi Pereira. Mais uma vez: quem, meu filho? Pois esta criança que parece que engoliu uma embalagem inteira de pilhas duracel (quem o conhece sabe que eu não estou a exagerar), que não pára quieto mais do que dois minutos, que corre e salta de manhã à noite que até às vezes desconfio que isto é hiperactividade (o pediatra ri-se mas eu ando tão estafada que já não acho muita graça), de repente, esta criança arranjou uma verdadeira entretenga: todos os dias, quando recebe a sua dose diária de cromos, fica quieto e calado durante pelo menos uma meia hora, compenetrado perante a seriedade do momento, a abrir os pacotes, a ver e rever os cromos todos, a procurar os números, a atrapalhar-se com aqueles dedos pequeninos até conseguir abrir os autocolantes (eu faço sozinho, mãe, eu faço) e colar todos os jogadores no sítio e, finalmente, a passar as páginas uma e outra vez. Quem é este, mãe? E este? E este? Obrigando-me a repetir até ele decorar aqueles nomes todos. O Tiago e o Pereirinha e o Luisão e o Liedson e o Lucho González. Quem? Com os cromos da bola tenho aprendido coisas fantásticas. Por exemplo, que o Quim é um craque. E que as brincadeiras mais simples são mesmo as melhores.

publicado às 21:54


7 comentários

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Mary of Cold 16.12.2008

Este post é absolutamente delicioso... transborda carinho e ternura!
Parabéns!

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