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Dia 43, sexta-feira, 24 de abril
Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o hall de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro.
Já faltou mais para me pôr a fazer pão.
De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar).
Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas.
Amanhã experimento o pilates.

Dia 44, sábado, 25 de abril
De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido.
À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o Grândola a tocar.
Voltei ao meu trabalho.
O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho.
O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar.
Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o Capitães de Abril. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho.
Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.

Dia 45, domingo, 26 de abril
De manhã acabei de ver a série Unebelievable na Netflix e agora à noite vimos o Hotel Mumbai - digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura.
Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana.
Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.

Dia 46, segunda-feira, 27 de abril
Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprodutor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete.
Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal.
Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.

Dia 47, terça-feira, 28 de abril
O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã.
E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite.
Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.

Dia 48, quarta-feira, 29 de abril
Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada.
E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama.
Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.

Dia 49, quinta-feira, 30 de abril
Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear.
Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal.
Ao serão vimos O Impossível. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.

Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios:

Blister in the Sun, Violent Femmes

publicado às 10:45

Dias 37 e 38, sábado e domingo, 18 e 19 de abril
Fim-de-semana com o detox possível. Quase sem notícias, pouco WhatsApp, menos telemóvel.
Tentar não pensar.
Limpámos a casa, comemos crepes com nutella, os putos jogaram PlayStation, eu e o Pedro fomos dar o nosso já habitual passeio. Fizemos um trabalho de história sobre como era a vida no tempo dos avós que me deu imenso gozo. O que o Pedro mais gostou foi de ver as fotografias do avô em Angola, todo armado. E ficou surpreendido quando descobriu que quando era pequeno o avô brincava na rua. Na rua? Sem adultos? O dia inteiro? Que inveja. (Por estes dias, temos todos inveja disso, na verdade.)
Não tenho conseguido ler nem ver séries mas hoje fechei-me na cozinha com coxas de frango no forno, sopa de agrião na bimby, no fogão um tacho com arroz e outro com feijão preto, um copo de vinho na mão e o Dino no Spotify. E enquanto o feijão apurava eu dancei. Dancei sozinha como se não houvesse amanhã.
E, no entanto, amanhã cá estaremos outra vez. Na luta, como diz o meu amigo Vítor.
Qual é a opção?

Dia 39, segunda-feira, 20 de abril
Aulas online, trabalhos feitos em computador, trabalhos feitos no telemóvel, internet maluca. E pelo meio a mãe também tem que trabalhar, não é?
Mas sobrevivemos.
No final, eu e o Pedro estávamos mesmo a precisar de espairecer por isso fomos fazer o nosso passeio pelo campo e depois ficámos uma boa meia hora a lavar a bicicleta que ficou toda enlameada. Melhor do que qualquer sessão de mindfulness, posso garantir-vos.
Ainda não conseguimos convencer o António a vir passear connosco mas (Eureka!) hoje contamos com a sua atenção a ver uma espécie de velocidade furiosa.
E até temos bolo de chocolate.
Para ajudar a engolir sapos.

Dia 40, terça-feira, 21 de abril
"Procura no Google." É uma das frases que mais tenho repetido por estes dias. Não será a melhor pedagogia, concordo, mas é uma maneira de não ser tantas vezes interrompida e de, ao mesmo tempo, fazer com que ele não se habitue a ter sempre a reposta pronta dita pela mãe. Ele procura no google e está cada vez mais autónomo, já quase domina o "docs" e até descobriu sozinho como fazer trabalhos em "slides" com efeitos pirosos de letras que aparecem e desaparecem.
A mim dói-me o braço direito, desde o polegar até ao ombro, fruto das muitas horas a mexer no rato (e, estou em crer, também no telemóvel). A parte boa, como diz a Catarina, é que agora vamos precisar usar o braço menos 30%. Always look on the bright side of life.
Hoje também é o dia 1 do layoff mas essa é uma outra história.

Dia 41, quarta-feira, 22 de abril
Voltei a ter insónias.
Não saí de casa.
Não cozinhei (hoje foi dia de restos e porcarias).
Tive imensa dificuldade em acompanhar as conversas que decorriam no meu WhatsApp, no mail, no Facebook.
Tenho a sensação que o Pedro já está (outra vez) atrasado nos trabalhos.
Mas consegui terminar o meu trabalho para esta semana.
Já não é mau.

Dia 42, quinta-feira, 23 de abril
Comprámos uma máquina para cortar o cabelo dos rapazes. Tenho muita pena que eles não me deixem publicar fotos. Foi o melhor momento do dia. Um divertimento.
Estive a estudar o sistema reprodutor com o Pedro. Expliquei-lhe o ciclo menstrual e o período fértil e dei graças a deus por ele não me perguntar para que serve o clitóris. Não me interpretem mal. Sou toda a favor da educação sexual. Mas ele tem 11 anos e quando lhe tentei explicar o que era a ejaculação ficou a olhar para mim como boi a olhar para um palácio. Terminei dizendo: depois o mano explica-te.
Hoje não fomos passear mas aproveitei enquanto os rapazes estavam no terraço e fiz a minha primeira aula de ginástica online. Confirma-se que estou em péssimo estado (abdominais? quais abdominais?). A boa notícia é que só posso melhorar.
Os putos estão decididos a ficar acordados até à meia-noite por causa de um "evento" no Fortnite. Não sei se me aguento.
A meio da tarde, algures entre a aula de matemática e de inglês, o Pedro olhou para mim e:
- tu hoje não trabalhas?
- não.
- ah, por isso é que estás tão calma.
O rapaz pode não saber o que é o grande lábio mas entendeu perfeitamente que isto do layoff tem muitas coisas más, que tem, mas tem uma coisa boa.

publicado às 09:06

19
Abr20

Luxos

Não sou propriamente maníaca das limpezas, pois que não sou, mas tenho as minhas pequenas obsessões (todos as temos) e uma delas é o chão. Eu sou aquela pessoa que varre e aspira e lava o chão várias vezes, isto já em tempos normais, quanto mais agora que estamos todos em casa a migalhar e a patear. Na cozinha, então, nem se fala. Passo o dia de vassoura na mão, ou com o aspirador pequenino, ou com o aspirador grande, e depois com a esfregona e depois a seguir a zangar-me com os miúdos porque já está tudo sujo outra vez. Com o resto não sou assim tão stressada. Vamos fazendo. De vez em quando dá-me uma fúria de limpar a despensa ou os armários ou de limpar o pó aos livros todos, mas isso é mesmo só de vez em quando. Desde que estamos de quarentena, para além da manutenção, uma vez por semana fazemos uma limpeza geral, e digo fazemos porque eles já sabem que têm de arrumar o quarto e mudar os lençóis das camas e que também lhes compete limpar o pó e aspirar o resto da mansão, com excepção da cozinha que é o meu território. Também já informei os rapazes que na próxima semana os ia ensinar a lavar casas-de-banho - "que nojo, mãe, eu não lavo a sanita", dizem eles, fazendo caretas, e é aí que eu percebo que devo estar a errar completamente na educação que lhes estou a dar e que é urgente mudar isso. Que a quarentena nos sirva para alguma coisa de útil.

Isto para dizer que não, não tenho quaisquer problemas em limpar a casa, desde miúda que estou habituada a fazer tudo e, já na minha casa, vivi muito tempo sem ter ajuda. Mas sei que me vai custar bastante, quando isto tudo voltar ao "normal", ter que perder horas da minha vida a limpar em vez de ir esplanadar para algum lado ou ficar simplesmente no sofá a olhar para a televisão. Não é só o luxo de não limpar, é também aquele luxo burguês que é ter tempo livre. (isto está tudo estudado, não estou a inventar nada)

Também vou ter saudades de chegar a casa e, como por magia, estar tudo limpo e cheiroso. O dia da empregada era sempre o melhor dia da semana.

Mas a verdade é esta. Os luxos são para quem os pode ter.

publicado às 11:42

Dia 31, domingo, 12 de abril
Domingo de Páscoa - de limpezas e de estudar matemática mas também de falar com amigos e de apanhar sol e de descansar.
Hoje vimos o Yesterday. Escolha minha. Não é grande coisa mas ao menos tem a música dos Beatles.

Dia 32, segunda-feira, 13 de abril
Passou um mês.
Já não estranhamos tanto os dias fechados em casa. As horas passadas ao computador. As conversas que não temos junto à máquina do café. Estar sempre de pijama. Trabalhar de pantufas. Os sapatos deixados do lado de fora da porta. Os banhos que costumávamos tomar antes de sair de casa e que agora tomamos quando voltamos da rua. As filas para entrar nas lojas. O "pode chegar-se para trás, por favor". As prateleiras vazias de esparguete e enlatados. Os cumprimentos à distância quando encontramos amigos no bairro. Os sorrisos escondidos por trás das máscaras.
Passou um mês e temos um novo vencedor do prémio de pior filme da quarentena: Solomon Kane. O Pedro já tinha visto mas quis repetir: "Tens de ver, mãe, é mesmo fixe." Só que não.
Às vezes pergunto-me o que vamos guardar nós destes tempos. E temo que não haja grandes lições de vida a tirar daqui. Nenhuma reflexão profunda. Nenhuma frase inspiradora.
Só uma série de filmes péssimos. E uns quantos quilos a mais.

Dia 33, terça-feira, 14 de abril
O António ainda tem mais uma semana de férias. O Pedro já está cheio de tarefas. Isto promete. Estou a tentar levar tudo com calma mas já deu para perceber que não vai ser fácil. Entre o meu trabalho e orientar o estudo dele, comidas e compras e a chuva que não permitiu escapadelas higiénicas, não foi um dia muito animador. Nem sequer há cinema. Hoje ficámo-nos pelos polícias do Hawai e o objectivo é começar a ir para a cama mais cedo.
Cumprindo as ordens do primeiro ministro, ao jantar começámos a falar das férias do verão. Temos imensos planos. Porque sonhar não custa nada.

Dia 34, quarta-feira, 15 de abril
Ao fim do dia saí com o Pedro. Fomos buscar a bicicleta que tinha ficado na oficina para arranjar os travões, passámos no talho para comprar hambúrgueres para o jantar e depois demos a nossa volta habitual. De repente, começou a chover torrencialmente. Abrigámo-nos na entrada de um prédio e ali ficámos um bocadinho, a conversar, e, quando a chuva amainou, voltámos para casa, todos molhados. E ele ria e pedalava por entre as pingas da chuva como se não fosse nada.
O Pedro, que tem 11 anos e teve hoje o seu segundo dia de aulas à distância, tem sido o meu grande companheiro nesta quarentena. Está-lhe a custar imenso tudo isto, a falta dos amigos, a falta do exercício, esta prisão em que vivemos. Ele gosta de saltar muros e de desafiar a gravidade, todo ele é aventura, sem limites. Mas tem se esforçado imenso. Por entender. Por aceitar. Quase que consigo vê lo a crescer todos os dias um bocadinho.
Aquele nosso passeio à chuva foi o melhor momento do dia de hoje.
(E do resto haveremos de falar depois)

Dia 35, quinta-feira, 16 de abril
Saltamos este dia, pode ser?
Esgotei as palavras por hoje.
Talvez volte amanhã (ou talvez não).

Dia 36, sexta-feira, 17 de abril
O Pedro completou todas as tarefas da escola para esta semana praticamente sem ajuda. A minha ajuda principal é organizar-lhe o horário, mantê-lo sentado e concentrado (o que não é nada fácil) e de vez em quando decifrar a linguagem dos manuais - sobretudo na matemática. Para a semana, começa o António e o grande desafio da partilha do computador.
Como hoje é sexta-feira voltámos às nossas sessões de cinema com O Atirador.
A vida segue.
Um dia de cada vez.

[Tenho estado muito triste esta semana, por motivos vários, uns públicos, outros privados. A vida não está toda no Facebook. Algumas coisas hão de vir parar aqui, mais tarde, outras nem por isso, como sempre. De qualquer forma, obrigado por todas as palavras. Quando estamos longe as palavras são os abraços possíveis.]

publicado às 09:37

16
Abr20

Ode aos amigos

Uma das coisas boas desta quarentena: os amigos.

Os que mandam mensagens, os que telefonam, os que me lêem, os que me ouvem, os que comentam, os que fazem like, os que mandam corações, os que se preocupam, os que perdoam as minhas tantas falhas, os que me aturam, os que me amam, os que eu amo, os que se lembram, os que me conhecem o suficiente para ler nas minhas entrelinhas, os que não dizem nada mas não faz mal porque nos entendemos assim mesmo e porque, algo que não sei explicar, os amigos verdadeiros gostam-se até nos silêncios e nas ausências. Os que vou ter prazer em reencontrar e abraçar. E apertar com muita força para que não voltem a ficar distantes. Aqueles com quem me vou sentar a conversar conversas inacabáveis. Os que irão dançar comigo. Aqueles com quem quero sentar-me a ver o mar.

Nunca poderei agradecer suficientemente aos meus amigos, todos eles, os antigos e os mais recentes, por, cada um à sua maneira, me salvarem, muitas vezes sem sequer saberem. 

E ainda: aproveitar o vírus para descartar da minha vida, sem sentimentos de culpa, as poucas pessoas a que, por engano, chamava amigos, mas que estão longe de o ser. 

All My Friends, LCD Soundsystem

("If I could see all my friends tonight")

publicado às 16:31

Antes de morrer, e sabendo bem o que a esperava, a médica e cientista Maria de Sousa (1939-2020) escreveu um poema em inglês. O também poeta João Luís Barreto Guimarães fez uma tradução, mas eu prefiro a versão original (porque odeio o pronome vós e todas as suas conjugações verbais, é tão mais bonita a simplicidade do you). Um poema sobre a morte e sobre todas as pequenas-grandes coisas que levamos desta vida (e que deixamos nesta vida). Os risos. Os momentos. As nossas pessoas. Caramba. Tão triste e tão belo.

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publicado às 11:16

Ora vejam só esta maravilha: Please Don't Talk About Me When I'm Gone, tema de 1930 que talvez conheçam nas vozes de Ella Fitzgerald ou Dean Martin, aqui interpretado pela 24 Robbers Swing Band e dançado por vários lindy hopers em confinamento por esse Portugal fora. Pura alegria. Não há depressão que resista a isto, pois não?

A Ana Isabel, que eu não conheço mas que costuma ler a Gata, mandou-me este vídeo porque sabe que eu gosto de dançar. O que ela não sabe é que eu acho isto mesmo fixe e ando há uns três anos a ganhar coragem para me inscrever nas aulas de lindy hop mas a falta de tempo e a falta de jeito para cumprir coreografias e dançar em pares tem sido mais forte. Não posso prometer que quando isto tudo terminar vou aprender lindy hop porque não gosto de prometer coisas que provavelmente não vou cumprir, mas vou pedir à Rute, minha amiga lindy hoper, para não me deixar dizer que não da próxima vez que me desafiar para um bailarico.

Boa Páscoa.

publicado às 09:37

Dia 25, segunda-feira, 6 de abril
Um dia sem pressas.
Já temos um método para limpar a casa: o António aspira, o Pedro limpa o pó e eu faço o resto. Não é muito justo mas já é qualquer coisa.
Fui ao Continente. Tenho feito as compras todas aqui perto de casa mas estava a precisar de um reabastacimento como deve ser. Quase me engasguei quando vi o total da conta - é impressão minha ou os supermercados estão a carregar nos preços?
Comprei um bocadinho de tecido 100% algodão por oito euros para experimentar fazer duas máscaras. A primeira não ficou perfeita mas já percebi como se faz. Mais difícil vai ser aprender a respirar sem embaciar os óculos.
O filme de hoje foi Collide - Em Alta Velocidade. Era tão mau que nem sequer os miúdos gostaram.
Ainda bem que amanhã é domingo.

Dia 26, terça-feira, 7 de abril
O António divertiu-se a escortinhar o cabelo e a seguir encomendámos uma máquina da Worten. Isto promete.
Um passeio no "campo" com o mais novo. Foi tão bom que quase nos esquecemos do vírus.
Crepes com Nutella para celebrar o domingo.
O Pedro começou a fazer os trabalhos de ciências (e são imensos).
Tenho mais uma máscara quase pronta mas não tenho vontade nenhuma de a usar.

Dia 27, quarta-feira, 8 de abril
As segundas-feiras são sempre complicadas.
A coisa mais interessante que fiz hoje foi um empadão com os restos das carnes dos últimos dias.
E também paguei o imposto automóvel, o que me custou mais do que habitualmente uma vez que no último mês devo ter feito apenas umas três mini-viagens de carro e não me parece que o panorama vá melhorar nos próximos tempos...
Sobre o filme que vimos hoje: não sabia que tinham feito tantas "academias de polícia". É absolutamente incompreensível.
E, no entanto, como dizê-lo?, não foi um dia mau de todo.
A sério.

Dia 28, quinta-feira, 9 de abril
Hoje um dos nossos vizinhos das traseiras caiu da varanda e morreu. Estava à procura das palavras certas para dizer isto, mas não encontro melhores do que estas. Um homem, já não muito novo, caiu. Ou atirou-se, não sei. Não sei de que prédio nem de que andar. Estava morto, estendido num dos terraços. Não tinha sapatos. Nem uma gota de sangue. Não percebo como terá caído. Custa-me imaginar que se tenha atirado. Estaria sozinho? Que desespero o atormentava? Eu e os outros vizinhos às janelas, todos a ligar para o INEM sabendo que de nada adiantaria. E, depois de confirmada a morte, o corpo tapado com uma manta dourada, brilhante, ali ficou durante três horas, guardado por um polícia. Até que finalmente tudo desapareceu. Alguém limpou o terraço. E, no entanto, quando vou à janela, não consigo parar de olhar para aquele lugar.
Porra de dia.
Porra de quarentena.

[soube, entretanto, pelos vizinhos, que se tratou efectivamente de um queda voluntária]

Dia 29, sexta-feira, 10 de abril
Tinha trabalho para acabar.
Depois limpei o forno. Fiz bolachas com chocolate. Estudei a fotossíntese com o Pedro. Fui caminhar e o Pedro levou a bicicleta. Já nos habituámos a deixar os sapatos do lado de fora da porta. Tirei o bigode. Comecei a ver a série The Unorthodox na Netflix enquanto os putos jogavam à bola lá em baixo. "Não era suposto não comermos carne?", perguntou o António quando viu os hambúrgueres. Estive 30 minutos ao telefone com a minha irmã. Adormeci a ver o Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.
Há dias maus e depois há dias assim.
Seguimos.

Dia 30, sábado, 11 de abril
Aquela sensação boa de parecer domingo mas ainda só ser sabado.
Acabei de ver a série. Passei a ferro. Estudei matemática com o Pedro (adivinham-se dias difíceis à nossa frente). Depois fomos os dois passear. Estive meia hora na fila para entrar no Pingo Doce. Os putos foram jogar à bola. Tirei os pelos das pernas (já faltou mais para me pôr a cortar o cabelo). Fiz folar. Estive agora mesmo a lambuzar-me com fatias fumegantes de folar com manteiga enquanto finjo que vejo O Planeta dos Macacos - a revolta (odeio estes filmes dos macacos, acho que vou ter pesadelos).
Mas o melhor do dia de hoje: entre telefonemas, mensagens, videochamadas e gente que encontrei na rua, conversei com tantas pessoas boas. Obrigado.

publicado às 09:14

Esta montagem da música Uptown Funk, de Mark Ronson, com imagens de gente a dançar em filmes antigos não é nova mas parece ter sido feita para o dia de hoje.

Tenho tantas saudades de bambolear uma noite inteira com uma grupeta de gente fixe.

Ainda sobre a mania de dançar, podem ver ISTO e ISTO

publicado às 15:39

Várias pessoas têm comentado a nossa "peculiar" (chamemos-lhe assim) selecção cinematográfica durante a quarentena. Na verdade, embora não pareça, isto tudo nasce de um daqueles típicos sentimentos de culpa de mãe. Como os putos passam o dia inteiro entregues à playstation e ao telemóvel, eu instituí uma regra que é: depois de jantar não há jogos para ninguém e vemos televisão juntos - o que, não sendo bom (eu sei, eu sei), sempre dá para variar um bocadinho. Esta regra é sobretudo para o Pedro, que é mais novo, e por isso é ele que escolhe os filmes, de entre os que estão disponíveis nos muitos canais que temos. É por isso que um dia sai um filme de animação e noutro uma xaropada de tiros. O António fica ali no sofá a ver cenas no telemóvel e se o filme lhe interessar acaba por se juntar a nós. E eu, que bem preferia estar a ver alguma coisa melhor, lá tenho que gramar o Robocob e o Segurança do Shopping, sem pegar no telefone (é a regra, só nos intervalos) e fazendo comentários e tal que é para fazer disto uma "actividade em família". Isto, se não adormecer pelo meio, claro.

Claro que eu podia escolher uns filmes melhores mas... não me apetece. A vida já está tão complicada como está. Quando aterro no sofá só quero mesmo não pensar em nada.

Agora a sério, os filmes têm sido péssimos mas até têm sido uns serões bem fixes.

publicado às 09:59


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