Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Todos os anos, chego a esta altura do ano com aquela sensação de que não sei se irei aguentar mais um ano disto. Que atingi o limite das minhas forças. Todos os anos é mais difícil. Todos os anos há problemas novos. E discussões. E dores de cabeça. Todos os anos me sinto a pior mãe do mundo ao longo de nove longos meses. Todos os anos suspiro de alívio quando, finalmente, isto acaba - e acaba cada vez mais tarde. Desta vez só acabou esta semana com a publicação das notas dos exames do 9º ano e a confirmação de que o rapaz lá conseguiu ser "aprovado", porque ele quando se esforça até consegue, o problema é que na maior parte do tempo não lhe apetece esforçar-se muito. Portanto, prova superada. 

Para o ano logo se vê.

Até lá, respiramos.

A vida não fica perfeita só porque já não temos que pensar na escola mas fica mais leve, com menos obrigações, com menos stress, com menos motivos para nos zangarmos. É aproveitar. É aproveitar mesmo, o máximo possível, ainda que este ano a cabeça continue cheia de milhentas outras preocupações e a respiração se faça com dificuldade. Não temos muitos motivos para sorrir nos dias que correm, mas temos este: os rapazes estão de férias. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:59

Começou assim em conversa de circunstância: o que fazes amanhã? nada e tu? eu também. eu estou sozinha. eu também. podemos encontrar-nos, se calhar.

Começou assim, por vamos tomar um café ou petiscar qualquer coisa ao fim do dia, só para ver se me esquecia daquela sexta-feira negra e de como é triste isto de estar sozinha apesar de estar feliz por uma vez (uma vez em meses) ter uma noite de sábado sem filhos. Então, enquanto fazia tempo, durante a tarde, fui ao Teatro São Luiz ouvir a Joacine Katar Moreira, que é uma mulher que me faz acreditar no mundo mesmo quando o mundo insiste em me desiludir, e quando saí de lá e olhei para o whatsapp já éramos três e o café já era jantar e se as miúdas diziam que tinham de ir para casa cedo que estavam cansadas e velhas, o rapaz apostava que a noite ia ser comprida. É claro que ele tinha razão. Entre as sete da tarde e as três da manhã, as conversas encadearam-se umas nas outras, rimo-nos como perdidos, dissemos coisas muitos sérias, abraçámo-nos, partilhámos segredos, brindámos à nossa e ao futuro e à amizade, lamentámos as tristezas do mundo em geral e do jornalismo em particular, e alegrámo-nos por nos termos encontrado naquele fim de tarde de sábado e por não termos cedido ao cansaço, à velhice e às merdinhas todas que nos moem o juízo (e os sonhos). É tão bom quando um encontro assim acontece.

Às vezes é só isto. Quando menos estamos à espera, aparece alguém que transforma uma noite de solidão num daqueles momentos que temos de fotografar e registar em palavras para que, mesmo que a vida nos afaste e o alzheimer nos ataque, a gente nunca se esqueça como foi bonito.

67242916_2700298843317811_5356548671720652800_n.jp

Com a Paula e o Ricardo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:45

"Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
 
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
 
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
 
Muita atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés."
 
O Mundo é um Moinho, de Cartola, é uma música infinitamente triste que eu nunca tinha ouvido até ao fim-de-semana passado. A minha amiga queria falar-me do perigo de "de cada amor só herdar cinismo" mas eu fiquei presa na imagem do moinho que tritura os sonhos até reduzi-los a pó. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 16:24

"Apesar dos conselhos da filha, que defendia o amor livre, para ela a intimidade era impossível com alguém que se distraísse com outras mulheres. "O que é que queres, mãe? Casar?", gozou Daniela quando soube que a mãe tinha acabado com Julián. Não, mas queria fazer amor amando, pelo prazer do corpo e a tranquilidade do espírito. Queria fazer amor com alguém que sentisse o mesmo que ela. Queria ser aceite sem ocultar nem fingir nada, conhecer o outro profundamente e aceitá-lo assim mesmo. Queria alguém com quem passar a manhã de domingo na cama a ler o jornal, a quem dar a mão no cinema, com quem pudesse rir-se de disparates e discutir ideias. Tinha ultrapassado o entusiasmo pelas aventuras fugazes."

Acabei de conhecer Lucía, 62 anos, no livro Para Lá do Inverno, de Isabel Allende, e já somos amigas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:32

10
Jul19

Sem palavras

66336083_2370272376386049_3282000354455060480_n.jp

Da página 72 kilos

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 22:37

Morreu João Gilberto. E não há muito mais a dizer. 

joao-gilberto.jpg

Está tudo aqui .

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:22

02
Jul19

Não te demores

NÃO-TE-DEMORES-1.png

Hoje ensinaram-me um provérbio chinês: "Não semeies o amor onde não possas ficar". A internet não conhece este provérbio chinês. O mais parecido que encontrei foi esta frase - que pode ter sido dita pela pintora Frida Kahlo ou pela atriz Eleanora Duse ou até por outra pessoa qualquer (isto com as citações que se espalham pela internet, assim como com os provérbios chineses, nunca se sabe): "Onde não puderes amar não te demores". No entanto, as duas frases dizem coisas muito diferentes. E acho que esta segunda faz muito mais sentido. Embora tenhamos um poder limitado para decidir quem amamos e muito menos quem nos ama, podemos perfeitamente, e por muito que nos custe, decidir onde nos queremos ou não demorar. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 23:17

Fomos ver o Toy Story 4 (em inglês e numa sessão à noite, que cá em casa já somos todos crescidos) e posso dizer-vos que é tão incrivelmente bom que a certa altura até me esqueci que estava a ver um filme de animação e em que, ainda por cima, as personagens são brinquedos. É tão bem feito a tantos níveis - a animação extraordinária, a história que nos prende, as diferentes personagens (com destaque para Forky, o garfo com dúvidas existenciais), as piadas e piscadelas de olho, o modo como retrata a infância e o modo como retrata a maturidade: afinal, os brinquedos somos nós, com as nossas paixões e os nossos dilemas de gente crescida.

Para grande vergonha dos meus filhos, ri às gargalhadas e lacrimejei um bocadinho - nada que se compare ao último Toy Story, mas sou uma chorona, nada a fazer. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:08

Um destes dias fui à livraria Ler Devagar e não resisti a comprar um livro: My Sh*t Therapist and other mental health stories, de Michelle Thomas. Nunca tinha ouvido falar desta autora mas folheei o livro e fiquei curiosa.

Nos últimos tempos, várias pessoas à minha volta têm sofrido de depressão, ansiedade, exaustão ou "apenas" tristeza. Nos últimos tempos, percebi que várias pessoas à minha volta estão a fazer psicoterapia ou tomam medicação regularmente ou têm medicação de emergência para fazer face às dificuldades da vida.

Não é fácil falar destes problemas. Às vezes as pessoas dizem aos amigos como se sentem em baixo e ouvem frases como "isso passa", "tens de te animar", "vá, esforça-te um bocadinho". Como se fosse fácil. Como se fosse só querer. Eu também costumava ser uma dessas pessoas com pouca empatia por queixas que na maior parte das vezes não me pareciam ter grande fundamento. Mas tenho vindo a aprender a ser uma amiga melhor. A estar mais mais disponível. A ouvir. Muitas vezes não sei como ajudar, a única coisa que posso fazer é mandar uma mensagem ou telefonar, conversar um bocadinho, convidar essa pessoa para ir ao cinema, levar-lhe um bolo feito por mim e esperar que isso ajude de alguma forma (sei que a mim ajudam-se sempre o carinho e o cuidado dos meus amigos).

Michelle Thomas parte da sua própria experiência para falar das muitas pessoas que hoje em dia são afectadas por várias doenças mentais (muitas pessoas mesmo). Este não é um livro de auto-ajuda, embora só o facto dela falar deste assunto sem tabus já seja uma ajuda. Num tom ligeiro e com algum sentido de humor, ela vai-nos dizendo o que lhe aconteceu, as coisas que fez que a ajudaram e as coisas que fez que não a ajudaram (por exemplo, consultar aquele sh*t therapist que lhe disse que da próxima vez que ela tivesse um ataque de pânico deveria beber uma chávena de chá).

A primeira coisa que Michelle Thomas faz questão de esclarecer é que a doença mental é uma doença como as outras. E é como tal que deve ser encarada. Se uma pessoa partir uma perna não tem vergonha de dizer aos amigos que partiu a perna e não lhe passa pela cabeça continuar a sua vida como se nada fosse, sem ir ao médico nem tratar devidamente a perna partida. Com a doença mental é exactamente a mesma coisa. Não há que ter vergonha de admitir que se está doente e temos que tratar a doença como deve ser.

Só que a nossa cabeça é um bocadinho mais complexa do que um osso. Não só uma doença mental é mais difícil de diagnosticar (ah, isto é só cansaço, dizemos, enquanto deixamos arrastar a situação) como qualquer problema no funcionamento do cérebro afecta todo o nosso corpo - física, mental e emocionalmente. A doença mental altera a maneira como as pessoas pensam, sentem e se comportam.

*

Sim, a doença mental é uma doença de verdade e uma depressão (ou uma crise de ansiedade ou um ataque de pânico) pode acontecer até mesmo à pessoa que está apaixonada e feliz e passa férias em ilhas paradisíacas.

Mas, tal como há cuidados que devemos ter com o nosso corpo e sabemos que se comermos imensos fritos e não fizermos exercício físico teremos mais hipóteses de ter uma doença cardíaca, também há coisas que fazemos ou que nos acontecem que podem influenciar a nossa saúde mental. Coisas como insistir em ter um trabalho que odiamos. Ou ter relações com pessoas tóxicas. Ou trabalhar 12 horas por dia. Ou dormir cinco horas por noite e achar que é mais do que suficiente. Ou outras coisas. Se não estivermos bem física ou emocionalmente é mais provável que a nossa mente também adoeça.

E há coisas que podemos fazer que ajudam. Neste livro, Michelle Thomas diz quais as coisas que a ajudam e que, curiosamente, não são assim tão diferentes das minhas.

Fazer terapia. Deveríamos poder fazer terapia como quem vai ao dentista ou ao ginecologista, sem estarmos doentes (digo poder porque a terapia é muito cara). Que bom seria ter alguém que nos ouvisse, que nos ajudasse a pensarmo-nos (e a conhecermo-nos o melhor possível), que nos ajudasse a ter instrumentos para vivermos melhor a nossa vidinha (por exemplo, trabalhar a nossa auto-estima e os sentimentos de culpa) e que nos desse a mão se nos visse a afundar, sem que tivéssemos sequer que pedir.

Ter relações afectivas. A família e os amigos (e um amor, se o houver) são a minha salvação sempre. Sentir que não estamos sós, que há pessoas que gostam de nós e que se preocupam connosco faz-nos sempre bem. Por outro lado, sentir que somos úteis aos outros, cuidar de e fazer alguém feliz é também uma enorme satisfação. A vida é melhor quando a podemos partilhar com pessoas de quem gostamos. Claro que é importante aprendermos a estar sozinhos e não podemos fazer com que a nossa felicidade dependa dos outros, mas também é importante que não nos sintamos sós - a solidão é um dos sentimentos mais esmagadores que tenho experimentado.

Fazer coisas que nos dão prazer. As minhas - além de estar com as pessoas de quem gosto - são: ler, escrever (este blogue é parte da minha terapia), ir ao cinema, ver um espectáculo, cozinhar, passear, esplanadar, dançar. É importante termos coisas que gostamos de fazer, que não dependem dos outros e que nos fazem sentir bem. Como me disseram uma vez, quantas mais coisas nós gostarmos de fazer mais possibilidades temos de sermos felizes.

Encontrar a felicidade nas coisas pequenas. Mesmo quando tudo parece correr mal, todos os dias há coisas boas na nossa vida. Talvez se lhes dermos o devido valor, isso nos ajude a enfrentar as coisas más.

*

Eu nunca tive uma depressão nem qualquer outra doença mental mas sei que a qualquer momento posso ter um breakdown, que não sendo a mesma coisa pode ter efeitos devastadores. Isto é tudo muito frágil e a vida é complicada, é fácil sentirmo-nos assoberbados. Sei que tenho as minhas fases más. Conheço os meus sintomas. Há momentos em que nada parece fazer sentido e em que me sinto a afundar, como se não conseguisse manter-me à tona. Mas, de alguma forma, lá encontro forças para dar mais umas braçadas e, felizmente, até agora, tenho tido o discernimento para tomar as medidas necessárias sempre que me senti a perder o pé. Mas mantenho-me atenta. 

Cada cabeça é uma cabeça, por isso as respostas não são iguais para todos. Mas, por outro lado, as cabeças são todas muito mais parecidas do que imaginamos. Não estamos sozinhos nisto. Portanto, como insiste a Michelle Thomas, estejam atentos aos sinais e não tenham medo de pedir ajuda. 

A Little Help From My Friends, The Beatles

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:11

A dona Dolores tirou uma fotografia de bikini na beira da piscina. E partilhou-a nas redes sociais.

Eu admiro muito aquela mulher.  

Eu não tiro fotografias em bikini. E se na praia alguém quiser tirar fotografias eu vou a correr vestir uma roupita ou encolho-me de maneira a que não apareça muito do meu corpo. E se tirar alguma fotografia de certeza que não a partilho nas redes sociais. Aliás, se eu estiver de bikini faço os possíveis para não encontrar ninguém que seja vagamente conhecido. Porque eu - até posso disfarçar e fingir que não é nada e pôr um ar super-seguro de quem é a maior mas a verdade é que - tenho muita vergonha que as outras pessoas olhem para o meu corpo gordo despido e para as banhas e celulites todas que eu para aqui tenho. Portanto, sempre que posso, evito mostrá-lo. E eu sei que isto é errado. Sei que as pessoas são mais do que um corpo (sei que eu sou mais do que um corpo). E defendo com unhas e dentes o direito a cada um ter o corpo que tem, sem vergonhas nem tabus. E até consigo, no dia-a-dia, viver tranquilamente com o meu corpo. É só vestir uma roupa discreta e esquecer que tenho um corpo. Mas quando estou seminua é mais difícil. Uma pessoa fica consciente de todas as suas imperfeições e não há auto-estima que resista.

Mas, sabem, eu não queria ser magra. Eu só queria estar-me nas tintas para o que os outros pensam. Eu não faço dieta, eu luto contra a minha falta de confiança.

Por isso eu admiro a dona Dolores. E queria ser assim. Uma mulher que vive bem com o seu corpo. Que diz: esta sou e estou-me a cagar para vocês. Esta sou eu e sou feliz, olhem lá para mim e vejam como eu sou feliz. 

Acho mesmo triste que haja gente a gozar com ela. E que alguma dessa gente sejam mulheres e que até se digam feministas. E que alguma dessa gente sejam pessoas inteligentes e que até se digam defensoras da liberdade individual. Mas não resistem a gozar. Ah, é só uma brincadeira, dizem. Mas não é. Porque quando gozam com ela na verdade estão a dizer: "olhem o desplante desta gorda que não tem vergonha de se mostrar, não saberá ela que as gordas têm de se tapar? que só as magras e boas é que têm o direito de exibir o seu corpo de bikini?" E isso não tem graça, é só maldade e mesquinhez.

Voltamos sempre ao mesmo

E, já agora, podem ler AQUI sobre um livro extraordinário, A Gorda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:52


Mais sobre mim

foto do autor