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Às vezes as pessoas ficam a olhar para mim, muito surpreendidas, a achar que eu devo ser tolinha por não passar a vida a queixar-me - parece que toda a gente passa a vida a queixar-se de tudo e mais alguma coisa, como é que eu posso parecer (quase) sempre feliz e dizer que está tudo bem? A verdade é que quando vivemos situações extremas percebemos como a maioria das lamentações que ouvimos à nossa volta não fazem sentido e isso, ao mesmo tempo, faz-nos ter mais consciência de como tantas vezes também nos queixamos de coisas sem importância. Aprendemos a relativizar. Eu já tinha percebido isso mas nunca tinha encontrado ninguém que o dissesse assim com esta clareza até ler este texto de Sophie Heawood, no The Guardian, onde ela explica algumas coisas sobre isto de se ser mãe sozinha: 

"(..) Living outside the nuclear narrative will create so many jarring moments with others that soon you won’t speak, only nod. You will do The Nod when the nursery sends your kid home with a Happy Father’s Day card that she’s been made to copy her name on to. You will employ The Nod when other mums say they know exactly what it’s like being a single parent because their lovely husband works abroad for up to two weeks at a time. You will employ The Nod when 20 of your friends offer to babysit – three will actually do it and the rest, when they see you at a party, will ask what you have done with the baby, to which you must always reply with these exact words: “I thought I left it at your house?”

Gradually, you will realise that you, too, have made other people do The Nod all your life. That you moaned about your mum to a friend whose mum was dead, that you complained about being skint to friends who’ll never earn what you do, that you phoned in sick with hangovers when a colleague who lives with a chronic pain condition wouldn’t dream of missing work. A lifetime of selfishness will open up before you like a seam. You will watch a friend lose her two-year-old, who dies for no reason in the night, and clutch your own child very, very tightly and thank God that she is here, and that the smell of her hair is such sweetness that even your nostrils are in love with her. She will become your levity and your gravity. You will be more than able to cope."

publicado às 23:29

10
Mai15

Três anos

A vida muda e nós mudamos com ela. Over and over and over and over.

publicado às 21:53

21
Nov14

Insónia

Sou só eu. Mesmo que haja mais alguém, ou mesmo que haja muita gente à nossa volta, para eles sou só eu. Para o bem e para o mal. Sobretudo para o mal. E isso às vezes pode ser avassalador. Ninguém deveria ser mãe/pai sozinho.

E, não, embora isso seja importante, não estou só a falar da falta de fins-de-semana só para mim.

publicado às 09:21

14
Set14

Um bom conselho

"I wouldn’t recommend being a single mother. But I would rather be single than be in conflict with someone."

Chrissie Hynde, a "miúda" dos Pretenders, hoje com 63 anos

publicado às 11:23

De três em três semanas, calha-me trabalhar ao fim-de-semana. Odeio, claro.

 

Mas.

 

Nesses fins-de-semana em que me calha trabalhar tenho que arranjar uns avós ou uns tios que fiquem com os meus filhos. E, quase sempre, os avós e os tios são simpáticos e, para facilitar, ficam com eles também à noite.

 

Isso significa que.

 

De três em três semanas, calha-me ter uma ou duas ou (raramente, muito raramente) três noites sem crianças. Em que não preciso correr do trabalho para os ir buscar. Em que posso cozinhar umas comidas com molhos e picantes. Ou posso comer uns flocos ao jantar. Ou posso ir jantar fora. Em que posso ir ao cinema ou ao teatro ou a um concerto ou estar com amigos. Em que não tenho que pensar neles e nas roupas deles e nas comidas neles e nas brincadeiras deles e nas coisas todas deles. Em que posso sair até às tantas. Ou ficar em casa sem fazer nada. Em que posso estar sozinha. Ou estar acompanhada. E isso faz com que trabalhar ao fim-de-semana não seja assim tão mau. Nada mau mesmo.

 

Hoje é sexta-feira. Hoje é um desses dias paradoxais.

publicado às 11:16

16
Jul14

A meio da vida

"Uma pessoa chega aos 40 anos e compreende que, estatisticamente, está no meio da vida, e isso tem um valor simbólico muito forte", dizia-me o Gonçalo Cadilhe no outro dia, numa conversa num terraço com vista sobre Lisboa a propósito do seu novo livro (podem ler mais aqui: cadilhe.pdf). Ele, que é um viajante e amante do surf, decidiu aproveitar o "meio da vida" para realizar a sua viagem de sonho e passou um ano a surfar em algumas das melhores ondas do mundo, enquanto tratava de pensar nas coisas boas e más da sua vida.

Daqui a três meses, eu também vou fazer 40 anos. E neste deitar contas à vida, que é inevitável, o que está a ser mais estranho não é tanto olhar para trás e ver aquilo que fiz ou que deixei por fazer, pois vivo bem com o meu passado, nem sequer é sentir-me a envelhecer, ver os cabelos brancos e as peles caídas, pois que também não me faz muita confusão essa parte, o que está a ser mais difícil é mesmo esta sensação de que se por um lado a vida vai a meio, por outro é como se estivesse agora a começar. Ou a começar de novo. Isso é algo com que não contava. Achei que ia chegar aos 40 com uma vida perfeitamente estabilizada e com muito mais certezas sobre o caminho a percorrer. E, afinal, a única certeza que tenho é que não podemos dar nada como adquirido e temos que estar sempre prontos para as mudanças. E, afinal, não consigo planear as próximas férias de natal, quanto mais fazer planos para quando for velhinha. E, afinal, não há um só caminho pela frente, mas vários, e ainda há muitas decisões por tomar e muitas possibilidades por acontecer.
E isso é inesperado mas não tem que ser necessariamente mau. Vamos a meio. Ainda não é o fim.

publicado às 21:51

10
Mai14

Dois anos

Costumo dizer que a vida é um pouco como uma montanha russa, com altos e baixos. Mas hoje, pensando melhor, parece-me que a vida é mais como um carrossel. Damos voltas e voltas mas, na verdade, não saimos do lugar. Ou saimos. Mas logo voltamos ao lugar onde estávamos.

publicado às 19:18

Conversar. Perguntar como foi o teu dia. Contar o meu dia. Comentar coisas sem importância. Falar da chuva. Dizer mal do governo. Criticar os chefes. Contar as novidades. Falar por falar. Dizer em voz alta o que me vai no pensamento. Posso dizê-lo às crianças mas não é a mesma coisa. E, depois, às nove e meia da noite calo-me. E assim fico.

Conversar. É das coisas que me faz mais falta.

publicado às 10:00

01
Abr14

O divórcio

Um dia, uma amiga disse-me que o pior de tudo no divórcio tinha sido a sensação de falhanço. Não a percebi, na altura. Mas percebo-a agora. O fim de um casamento não é só o fim de um casamento. É o fim de um projecto de vida. Um projecto que era para sempre. Que incluía filhos e netos, tios e primas, sobrinhos e afilhados. Que incluía férias no Algarve e sonhar com uma casa no campo. Que incluia o colchão que comprámos a pensar no modo como os nossos corpos se encaixam, o candeeiro que escolhemos juntos, o tapete de que um de nós nunca gostou. Que metia os amigos ao barulho e as festas que planeávamos fazer e as conversas que tínhamos. Que metia gargalhadas e discussões. Projectos de trabalho, lutas a travar, promoções e contrariedades. Rotinas. Idas ao supermercado. Sopas. Roupa por estender. Colos. Coisas boas e coisas más. Memórias que se acumulam. Envelhecer de mão dada. Cuidar um do outro. Um casamento não é só um papel que se assina. É uma vida que se constrói todos os dias a dois (e a mais). Por isso quando um casamento acaba não é só o casamento que acaba. É a vida tal como a conhecemos que acaba. E começa de outra maneira. Com um tapete novo. Com outro colchão. Sem aqueles primos. Sem aquela rotina. Com outros sonhos. Talvez outro amor. Por isso, mesmo quando temos a certeza que é o divórcio que queremos. Mesmo quando o afecto já se foi. Mesmo quando há rancores que nos corroem. Mesmo quando sabemos que estamos a dar o passo certo, o passo que nos vai fazer bem, o único passo a dar. Mesmo assim (ou, talvez, sobretudo aí) perguntamo-nos como foi possível acreditar tanto e, afinal, estar tão errada. Como foi possível perder tanto tempo e desperdiçar tantos sonhos. Como foi possível investir tanto, querer tanto. E não conseguir. É que não foi um mero engano, uma coisa de nada. Foi um erro do tamanho de uma vida. Um falhanço, como quando se erra um golo de baliza aberta. Estava ali tudo e no entanto.

No dia em que fui assinar o meu divórcio não tirei os óculos escuros. Chorei o tempo todo. A senhora a ler aquelas coisas todas, o nosso nome, a morada, a casa, o carro, o número do cartão de cidadão, papéis intermináveis para assinar, a senhora a perguntar se eu queria mesmo divorciar-me e não bastou eu acenar com a cabeça, tem que dizer em voz alta, disse ela, e eu disse numa voz sumida, sim, quero, como tinha feito para casar, sim, quero, são as mesmas palavras, mas desta vez eu estava de óculos escuros e a chorar. Não era um chorar de tristeza. Essa já tinha passado, há muito. Era o chorar de quem se confronta com o seu falhanço. Total. Era um chorar de vazio. De quem perdeu o chão e agora vai ter de começar de novo. Tudo de novo. Ou quase tudo.

Outra vida. A mesma vida, que é a nossa.

publicado às 15:31

19
Mar14

Desdia do pai

Gostava de ter sabido escolher melhor o pai dos meus filhos.

Não sei se algum dia me irei perdoar.

Espero que eles me (lhe) possam perdoar.

(e nem adianta virem aqui dizer que a culpa não é minha e que blá blá blá não podia ter feito nada para o evitar. eu sei isso tudo. e já andámos por aí na terapia. mas daquilo que sei àquilo que sinto vai uma distância enorme. e o que sinto é isto. falhei. e não tenho maneira de o emendar. apenas posso tentar remendá-lo.)

publicado às 09:39


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