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Michael Moore é um realizador demagógico e às vezes até desonesto, ainda assim encontro sempre algo interessante nos seus filmes-panfletos. Neste Where to invade next, que ainda não vi mas tenho andado a cuscar no youtube, gosto bastante desta cena. Faz-me ter vontade de me mudar para a Finlândia. Faz-me pensar na escola que temos por cá. E no que podemos fazer para melhorar o ensino (e a vida) dos nossos filhos. 

Nós já estamos em modo férias. E é tãããããão bom.

publicado às 15:07

16
Abr16

Des-ensinar

O meu filho, que tem 12 anos e está no 6º ano, tem um trabalho de ciências para fazer: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Leram bem: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Fiquei estupefacta, mandei-o confirmar com a professora se 10 páginas seria o mínimo ou máximo. Ele confirma que são "no mínimo" 10 páginas. Não sei o que a professora lhe disse mas o rapaz ficou tão obcecado com estas regras que nem na folha de rosto do trabalho quer pôr uma letra um bocadinho maior, porque "a setôra não deixa". Eu até acho que os miúdos aprendem muito melhor as matérias se fizerem trabalhos em vez de testes. Mesmo. Mas isto não é normal. No ciclo eu fazia fantásticos trabalhos em cartolina, com desenhos, colagens e pequenos textos, que depois colocávamos na parede da sala de aula. 10 páginas tinham alguns dos meus trabalhos universitários. A professora de ciências espera que ele produza sozinho um trabalho de 10 páginas em Arial 12 (com umas imagens lá pelo meio, vá, só para ficar mais bonito)? A professora quer que o miúdo escreva 10 páginas sobre vacinas sem ir copiar parte do texto a sites científicos com coisas que ele não tem capacidade para perceber? Não seria melhor ele fazer só 5 páginas mas com coisas que ele efectivamente compreendesse? Ah, já sei, a professora quer avaliar os pais dos alunos, é isso? A professora vai ler todos os 30 trabalhos de 10 páginas em Arial 12 destes alunos (e mais os das outras turmas) com atenção ou vai só dar uma vista de olhos para ficar com uma ideia do que eles fizeram? Tantas dúvidas, tantas dúvidas.

Fico doida com estas coisas. Só espero que ele aprenda alguma coisa com esta empreitada. Entretanto, temos o fim de semana lixado, está visto.

publicado às 11:17

Pepe Menéndez, diretor adjunto da Fundació Jesuïtes Educació, da Catalunha, em entrevista hoje ao DN, fala da revolução na educação que os jesuítas estão a realizar por lá. Para que saibamos todos que é possível. É possível mudar. É possível fazer melhor. É possível educar melhor. Todos os dias, cada vez mais, tenho a certeza que isto que estamos fazer às nossas crianças lhes está a fazer mal e vai ser muito prejudicial no seu futuro. Porque não tentar fazer diferente?

Leiam, que vale muito a pena.

"(...) A dificuldade essencial era o aborrecimento, a falta de ligação. "Isto não me interessa." A escola é uma obrigação, não é um sítio que me apaixone. Os adolescentes não têm de estar sempre a divertir-se, mas a escola estava a tornar-se uma prisão. Eu ainda fiz o serviço militar obrigatório e digo que a escola obrigatória é igual. Igual! Todos têm de ir porque os pais trabalham, porque a lei obriga, mas o direito à educação não é fechar os miúdos numa escola. É provocar as suas emoções, as suas paixões, potenciar os seus talentos tão diferentes... os talentos dos alunos são muito maiores do que o currículo. Um miúdo ou uma miúda podem pensar - "não presto". Costumo perguntar aos professores onde estão os cantores ou os cozinheiros que um dia vão ser ótimos. E alguns respondem - estão no corredor, foram expulsos.

A mudança está em olhar para as coisas de forma diferente: o que queremos? Nós, jesuítas, dizemos: queremos alunos competentes, compassivos, conscientes, comprometidos e criativos. Que sejam capazes de construir o seu projeto de vida, é esse o centro do nosso projeto educativo. É preciso fazer coisas no colégio para que o aluno se vá construindo, e todos os conhecimentos têm de ser metidos dentro do projeto. Não é: "A minha vida é isto e os meus conhecimentos estão noutro lado." Tenho de integrá-los.

(...) Primeiro houve uma fase de pegar na tesoura e no currículo e começar a cortar. O currículo é excessivo, demasiado grande, mas não podes perder os elementos essenciais, tens de garantir que o aluno os aprende. Juntámos um grupo de professores e dissemos: têm de estabelecer prioridades nos conteúdos do currículo. Esse trabalho durou dois anos. Não foram dois meses, foram dois anos. Porque começam a priorizar e só cortam uma parte, e é preciso reduzir mais. O mais importante é garantir que os alunos aprendem os conteúdos. Precisamos de mais tempo, porque precisamos de uma metodologia muito mais construtivista.

(...) Não há provas finais. Há testes pequenos durante a avaliação, até porque os currículos dizem que tem de haver avaliação contínua. Substituímos a ideia de um exame final escrito pela apresentação e defesa de projetos. Se estive três semanas a trabalhar num projeto em que adquiri algumas competências, em que assimilei alguns conceitos, tenho de ser capaz de defendê-los quando o apresento diante de um professor. O professor faz testes, por exemplo sobre os verbos irregulares de inglês... Há testes de problemas de matemática. O que não há é um exame no fim da avaliação que determina a nota. O boletim que se baseia nas oito competências do currículo nacional - matemática, linguística, âmbito social, aprender a aprender, digital, social e cidadã, trabalho em equipa. Ao aluno, mostramos a avaliação com o símbolo da bateria do telemóvel - quanto mais cheia está a bateria, mais ele conseguiu. E depois há as notas oficiais - os professores traduzam a avaliação em notas.

(...) Porque a mudança mete medo. Sou professor e vejo que não funciona, vejo que se chateiam na aula, mas o que posso fazer diferente? Os sindicatos também têm medo. Isto não afeta as condições laborais mas leva-as ao limite, porque tens de meter muita energia e intensidade. Quando explicamos isto, há gente de outros países que nos diz: foram muito corajosos. Nós temos pequenos conflitos, mas há que liderar. Não com autoritarismo mas com sedução.

A educação é uma arma política, e creio que acontece o mesmo em Portugal, como dizia o professor Joaquim Azevedo há dias no vosso jornal. Um partido conservador muda a lei, vem o outro e muda tudo, e quando o conservador regressa, volta a mudar. Em Espanha tem sido assim, entre os socialistas e o PP. A educação é uma arma política mais no sul da Europa e não no norte. A política procura sempre resultados a curto prazo, e a educação é uma questão de longo prazo. Temos de ser generosos."

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publicado às 13:19

Ficámos o dia todo em casa. Todo. De pijama, os três. Agora que penso nisso, acho que nem sequer lavei os dentes. É um risco isto de se ficar em casa um dia inteiro. Quando corre mal é terrível. Quando corre bem é muito fixe. Hoje temia o pior mas afinal correu bem. Havia muito que estudar - ambos têm teste de inglês na segunda e era preciso adiantar o estudo para o teste seguinte, de história para um e de português para outro, um martírio dos grandes para os dois - foi preciso dosear os tempos de estudo com os tempos de brincadeira, de playstation, de desenhos, de lutas de wrestling. Tive que respirar fundo umas quantas vezes. Fiz um bolo, para relaxar. Tricotei um bocadinho, que também ajuda. E os miúdos colaboraram, há que admitir. Ficámos o dia todo em casa, de pijama, e acabámos o dia, entre gargalhadas, a jogar ao stop e a ver livros de répteis, antes de eles irem para cama. E foi um dia bom. Vá-se lá perceber. 

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publicado às 23:45

Acabaram os exames do 4º ano e a única coisa que me ocorre dizer é que ainda é preciso mais, muito mais, para recuperar de todos os males que se fizeram à educação (em geral, e à escola pública, em particular) nestes últimos anos em Portugal. Ainda esta semana, enquanto o meu filho mais velho decorava os nomes dos instrumentos e as técnicas de trabalhar a madeira, sem nunca ter pegado num serrote ou lixado um taco (e eu a lembrar-me das aulas de trabalhos manuais do meu tempo) e enquanto o meu filho mais novo, sete anos apenas, ainda a aprender os cinco sentidos e a ver a horas, se debatia com o conceito de recta e semi-recta e recta de suporte com As e Bs a confundirem-se na sua cabeça (e quem o pode criticar?), ainda esta semana pensava nisto, em como estragámos a escola e, pelo caminho, andamos a estragar a relação das crianças com a escola.

Acabaram os exames do 4º ano mas ainda há muito por fazer.

Sobre os exames já escrevi aqui, aqui, aqui e aqui

publicado às 10:13

... quando se faz o último teste e de repente é como se já estivéssemos de férias.

Nunca imaginei que pudesse voltar a sentir isto aos 40 anos e sem sequer andar na escola. Ufa. Este ano já está. 

publicado às 17:53

Como se explica a uma criança de hoje o que era um escravo? Mostrei-lhe um bocadinho do filme Amistad, de Spielberg, no youtube. A medo, que me lembrava que aquilo era forte. Os negros, nus, a serem transportados no barco, ao monte, a comerem com as mãos, a serem chicoteados, os doentes atirados ao mar para morrerem, a serem vendidos na praça pública como gado. Ele, de olhos muito abertos, pediu para ver mais. Mas ficou para outro dia. Voltámos às datas e aos reis, ao Gil Eanes e ao Vasco da Gama. Fico sempre com pena de não ter mais tempo para estudar história com ele. Porque é uma disciplina que eu adoro. E porque tenho a certeza que se as coisas fossem diferentes - se não fosse preciso decorar tantas datas, se as matérias fossem explicadas de outra maneira, com filmes, com quadros, com histórias, com mais tempo - ele acabaria por gostar um bocadinho mais. Hoje até nem correu mal. Começámos na peste negra e fomos até ao Brasil. Consegui tê-lo sentado durante três horas e meia (bom, não esteve sempre sentado, mas de pé também se consegue estudar, não é?). Leu, fez resumos das partes mais importantes, fiz-lhe perguntas. Procurámos imagens das covas do lobo, da batalha de Aljubarrota, na internet. Li-lhe o Monstrengo do Fernando Pessoa. Seguimos os passos de Magalhães no globo. A última meia hora já foi em esforço, eu a senti-lo cada vez mais desconcentrado. Não acho que esteja lá muito bem preparado para o teste mas, sinceramente, não me pareceu que valesse a pena continuar. Fomos para o treino e pronto. Hoje até nem correu mal. Expliquei-lhe o que era um escravo e como os portugueses que deram tantos mundos ao mundo também cometeram tantas atrocidades. Acho que ele percebeu. E isso já é saber mais do que muito boa gente.

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publicado às 23:02

Tenho uma criança comigo no trabalho desde as 9.30.

(se calhar tenho que começar a pensar numa solução para as férias da páscoa...)

publicado às 16:14

5º ano, escola nova (e, pela primeira vez, pública), turma nova, horários, regulamentos, caderneta, senhas para almoço, conhecer o ATL, o ginásio, a biblioteca, novos professores, novos colegas, tudo diferente, forrar livros, preparar a mochila, organizar os lanches e as novas rotinas. Mas se perguntarmos ao António o que é que aconteceu hoje de importante, ele dirá: o seu primeiro treino de futebol. Ah! Isso sim. Isso é que são novidades.

Desde pequeno que o António adora jogar futebol (ele adora tudo o que seja desporto, ainda para mais se meter corridas e bolas) e desde pequeno que ouço as pessoas a dizerem-me que o rapaz tem jeito e que devia levar isto mais a sério. Mas nunca tinha havido oportunidade e, a bem dizer, nunca tinha havido vontade para o pôr numa escolinha. Pagar para jogar futebol? Perder o meu tempo com bola? Nããão. E, acima de tudo, queria evitar aquela pressão que existe na escolas de futebol para que os miúdos sejam logo craques - pressão dos "misteres" e dos pais, que estão ali à espera de encontrar o próximo Cristiano Ronaldo, que levam os treinos muito a sério, em vez de encararem aquilo como um divertimento, que incentivam as rasteiras e insultam os árbitros. Então fomos experimentando outros desportos, que havia mais à mão, a natação, o karaté, o ténis, e o puto fazia tudo bem, recebia elogios dos professores, mas nada o fascinava e insistia que o futebol é que era e ainda hoje, ao preencher um questionário da escola, escreveu que quando fôr grande quer ser futebolista. Eu não acho que ele vá ser futebolista mas se é para tirar teimas, pois que se tirem. E foi por isto tudo que, este ano, finalmente, aceitei experimentarmos o futebol. Foi uma coisa negociada com ele - que terá de se aplicar na escola se quiser continuar a ir aos treinos - até porque me vai exigir uma grande ginástica na nossa logística familiar (raios partam o miúdo que tem o estádio do benfica aqui ao lado mas saiu-me um sportinguista ferrenho).

De maneiras que hoje foi o primeiro treino. À experiência. Sem compromissos, nem pagamentos. Uma excitação como nunca tinha visto. Há uma semana que não falava de mais nada. De manhã foi a apresentação na escola, à tarde fomos ao campo de relva sintética onde ele esteve uma hora a dar toques na bola, no meio de uma data de putos de verde e branco, encantado da vida e já a pedir para voltar. Tenho muito medo que ele se desencante com o facto de aquilo ser uma escola a sério, não é chegar ali e jogar à bola, há muitos exercícios repetitivos e chatinhos. E tentei prepará-lo para o facto de haver meninos que jogam muito melhor (uma coisa é ele ser muito bom entre a meia dúzia de amigos, outra é um clube onde há miúdos que treinam quase desde o berço), de nem sempre conseguir fazer as coisas bem e de ter de aceitar as derrotas. Ele diz que percebe, que não se importa. Garante-me que adorou. Pelo sim, pelo não, amanhã vai voltar para mais um treino ainda antes da inscrição.

Tinha uma secreta esperança que ele não gostasse. O mano também lá esteve hoje, noutro canto do relvado, fez tudo certinho como devia e até parecia divertido mas, no final, anunciou que não queria voltar. Podia acontecer tambem ao António, não era? Dava-me tanto jeito... Por outro lado, vê-lo assim entusiamado com alguma coisa também é muito bom. E, quem sabe, talvez eu descubra que afinal até tenho vocação para dona Dolores.

publicado às 22:38

09
Set14

O primeiro dia

Ontem foi o primeiro dia de escola do 1ºano do Pedro. A fotografia para a posteridade mostra-o com um sorriso enorme. O meu pequenino está um crescido (típico momento de mãe emocionada).

Parece que o rapaz se portou lindamente a apresentar o trabalho das férias. O trabalho foi feito antes de irmos para a praia. Em pleno agosto corremos benfica à procura de uma cartolina verde, tinha que ser verde, e depois foi ele que escolheu as fotografias da viagem e como as queria colar. Achei que ele ia esquecer-se de tudo mas, afinal, depois de duas semanas, ainda se lembrava do Pompidou e do Arco do Triunfo e tudo e tudo (mais um típico momento de mãe emocionada).

publicado às 20:37


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