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Ficámos o dia todo em casa. Todo. De pijama, os três. Agora que penso nisso, acho que nem sequer lavei os dentes. É um risco isto de se ficar em casa um dia inteiro. Quando corre mal é terrível. Quando corre bem é muito fixe. Hoje temia o pior mas afinal correu bem. Havia muito que estudar - ambos têm teste de inglês na segunda e era preciso adiantar o estudo para o teste seguinte, de história para um e de português para outro, um martírio dos grandes para os dois - foi preciso dosear os tempos de estudo com os tempos de brincadeira, de playstation, de desenhos, de lutas de wrestling. Tive que respirar fundo umas quantas vezes. Fiz um bolo, para relaxar. Tricotei um bocadinho, que também ajuda. E os miúdos colaboraram, há que admitir. Ficámos o dia todo em casa, de pijama, e acabámos o dia, entre gargalhadas, a jogar ao stop e a ver livros de répteis, antes de eles irem para cama. E foi um dia bom. Vá-se lá perceber. 

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publicado às 23:45

Acabaram os exames do 4º ano e a única coisa que me ocorre dizer é que ainda é preciso mais, muito mais, para recuperar de todos os males que se fizeram à educação (em geral, e à escola pública, em particular) nestes últimos anos em Portugal. Ainda esta semana, enquanto o meu filho mais velho decorava os nomes dos instrumentos e as técnicas de trabalhar a madeira, sem nunca ter pegado num serrote ou lixado um taco (e eu a lembrar-me das aulas de trabalhos manuais do meu tempo) e enquanto o meu filho mais novo, sete anos apenas, ainda a aprender os cinco sentidos e a ver a horas, se debatia com o conceito de recta e semi-recta e recta de suporte com As e Bs a confundirem-se na sua cabeça (e quem o pode criticar?), ainda esta semana pensava nisto, em como estragámos a escola e, pelo caminho, andamos a estragar a relação das crianças com a escola.

Acabaram os exames do 4º ano mas ainda há muito por fazer.

Sobre os exames já escrevi aqui, aqui, aqui e aqui

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publicado às 10:13

... quando se faz o último teste e de repente é como se já estivéssemos de férias.

Nunca imaginei que pudesse voltar a sentir isto aos 40 anos e sem sequer andar na escola. Ufa. Este ano já está. 

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publicado às 17:53

Como se explica a uma criança de hoje o que era um escravo? Mostrei-lhe um bocadinho do filme Amistad, de Spielberg, no youtube. A medo, que me lembrava que aquilo era forte. Os negros, nus, a serem transportados no barco, ao monte, a comerem com as mãos, a serem chicoteados, os doentes atirados ao mar para morrerem, a serem vendidos na praça pública como gado. Ele, de olhos muito abertos, pediu para ver mais. Mas ficou para outro dia. Voltámos às datas e aos reis, ao Gil Eanes e ao Vasco da Gama. Fico sempre com pena de não ter mais tempo para estudar história com ele. Porque é uma disciplina que eu adoro. E porque tenho a certeza que se as coisas fossem diferentes - se não fosse preciso decorar tantas datas, se as matérias fossem explicadas de outra maneira, com filmes, com quadros, com histórias, com mais tempo - ele acabaria por gostar um bocadinho mais. Hoje até nem correu mal. Começámos na peste negra e fomos até ao Brasil. Consegui tê-lo sentado durante três horas e meia (bom, não esteve sempre sentado, mas de pé também se consegue estudar, não é?). Leu, fez resumos das partes mais importantes, fiz-lhe perguntas. Procurámos imagens das covas do lobo, da batalha de Aljubarrota, na internet. Li-lhe o Monstrengo do Fernando Pessoa. Seguimos os passos de Magalhães no globo. A última meia hora já foi em esforço, eu a senti-lo cada vez mais desconcentrado. Não acho que esteja lá muito bem preparado para o teste mas, sinceramente, não me pareceu que valesse a pena continuar. Fomos para o treino e pronto. Hoje até nem correu mal. Expliquei-lhe o que era um escravo e como os portugueses que deram tantos mundos ao mundo também cometeram tantas atrocidades. Acho que ele percebeu. E isso já é saber mais do que muito boa gente.

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publicado às 23:02

Tenho uma criança comigo no trabalho desde as 9.30.

(se calhar tenho que começar a pensar numa solução para as férias da páscoa...)

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publicado às 16:14

5º ano, escola nova (e, pela primeira vez, pública), turma nova, horários, regulamentos, caderneta, senhas para almoço, conhecer o ATL, o ginásio, a biblioteca, novos professores, novos colegas, tudo diferente, forrar livros, preparar a mochila, organizar os lanches e as novas rotinas. Mas se perguntarmos ao António o que é que aconteceu hoje de importante, ele dirá: o seu primeiro treino de futebol. Ah! Isso sim. Isso é que são novidades.

Desde pequeno que o António adora jogar futebol (ele adora tudo o que seja desporto, ainda para mais se meter corridas e bolas) e desde pequeno que ouço as pessoas a dizerem-me que o rapaz tem jeito e que devia levar isto mais a sério. Mas nunca tinha havido oportunidade e, a bem dizer, nunca tinha havido vontade para o pôr numa escolinha. Pagar para jogar futebol? Perder o meu tempo com bola? Nããão. E, acima de tudo, queria evitar aquela pressão que existe na escolas de futebol para que os miúdos sejam logo craques - pressão dos "misteres" e dos pais, que estão ali à espera de encontrar o próximo Cristiano Ronaldo, que levam os treinos muito a sério, em vez de encararem aquilo como um divertimento, que incentivam as rasteiras e insultam os árbitros. Então fomos experimentando outros desportos, que havia mais à mão, a natação, o karaté, o ténis, e o puto fazia tudo bem, recebia elogios dos professores, mas nada o fascinava e insistia que o futebol é que era e ainda hoje, ao preencher um questionário da escola, escreveu que quando fôr grande quer ser futebolista. Eu não acho que ele vá ser futebolista mas se é para tirar teimas, pois que se tirem. E foi por isto tudo que, este ano, finalmente, aceitei experimentarmos o futebol. Foi uma coisa negociada com ele - que terá de se aplicar na escola se quiser continuar a ir aos treinos - até porque me vai exigir uma grande ginástica na nossa logística familiar (raios partam o miúdo que tem o estádio do benfica aqui ao lado mas saiu-me um sportinguista ferrenho).

De maneiras que hoje foi o primeiro treino. À experiência. Sem compromissos, nem pagamentos. Uma excitação como nunca tinha visto. Há uma semana que não falava de mais nada. De manhã foi a apresentação na escola, à tarde fomos ao campo de relva sintética onde ele esteve uma hora a dar toques na bola, no meio de uma data de putos de verde e branco, encantado da vida e já a pedir para voltar. Tenho muito medo que ele se desencante com o facto de aquilo ser uma escola a sério, não é chegar ali e jogar à bola, há muitos exercícios repetitivos e chatinhos. E tentei prepará-lo para o facto de haver meninos que jogam muito melhor (uma coisa é ele ser muito bom entre a meia dúzia de amigos, outra é um clube onde há miúdos que treinam quase desde o berço), de nem sempre conseguir fazer as coisas bem e de ter de aceitar as derrotas. Ele diz que percebe, que não se importa. Garante-me que adorou. Pelo sim, pelo não, amanhã vai voltar para mais um treino ainda antes da inscrição.

Tinha uma secreta esperança que ele não gostasse. O mano também lá esteve hoje, noutro canto do relvado, fez tudo certinho como devia e até parecia divertido mas, no final, anunciou que não queria voltar. Podia acontecer tambem ao António, não era? Dava-me tanto jeito... Por outro lado, vê-lo assim entusiamado com alguma coisa também é muito bom. E, quem sabe, talvez eu descubra que afinal até tenho vocação para dona Dolores.

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publicado às 22:38

09
Set14

O primeiro dia

Ontem foi o primeiro dia de escola do 1ºano do Pedro. A fotografia para a posteridade mostra-o com um sorriso enorme. O meu pequenino está um crescido (típico momento de mãe emocionada).

Parece que o rapaz se portou lindamente a apresentar o trabalho das férias. O trabalho foi feito antes de irmos para a praia. Em pleno agosto corremos benfica à procura de uma cartolina verde, tinha que ser verde, e depois foi ele que escolheu as fotografias da viagem e como as queria colar. Achei que ele ia esquecer-se de tudo mas, afinal, depois de duas semanas, ainda se lembrava do Pompidou e do Arco do Triunfo e tudo e tudo (mais um típico momento de mãe emocionada).

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publicado às 20:37


Parece que o puto vai ter um telemóvel.

(a imagem é do DN de ontem)

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publicado às 13:53

- Mãe, podes assinar a minha fita de finalista?

Finalista no 4º ano com fitas e tudo, imagine-se. E eu que na faculdade não tive fitas nem bênção nem traje nem nada disso pois que nunca me interessou, assinei e até me emocionei um bocadinho. Acho que também estou a envelhecer depressa demais.

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publicado às 21:57

Sou contra os exames do 4ºano (e também do 6º, pelo menos. e provavelmente também do 9º, embora ainda não me tenha dedicado a pensar muito nisso).

Acho que os meninos devem ser avaliados. Acho que devemos ser exigentes com eles. Acho que eles devem aprender a ser responsáveis. Acho que estudar é, sim, senhor, o seu trabalho.

Mas acho que haveria mil e uma maneiras de conseguir isto tudo sem ter que sujeitá-los a esta pressão tão formal, tão oficial, tão burocrática que são os exames (já há os testes, não há? e havia aquela coisa chamada avaliação contínua, não havia?) e, acima de tudo, sem ter que perder grande parte do tempo lectivo a ensiná-los a fazer estes exames. Porque a verdade é esta. Os exames vieram limitar a liberdade dos professores no que toca a metodologias e a estratégias de ensino. Vieram limitar a criatividade dentro da sala de aula. E limitar, e muito, a liberdade e a criatividade dos nossos miúdos. Haveria outras maneiras, porventura mais divertidas e se calhar até mais eficazes de pôr estas crianças a ler e a compreender textos e a fazerem redacções e a saberem a gramática toda e a saberem dividir e multiplicar (e até fazerem contas com fracções) e a saberem as formas geométricas e os sólidos e os ângulos e os quilómetros e os litros. Claro que haveria. Mas não adianta que eles saibam isso tudo de outra maneira. O que é importante é que saibam desta forma. Não interessa que eles saibam tudo isso e muito mais, o que interessa é que saibam responder a este tipo de exames.

E essa normalização a mim irrita-me. Complica-me com os nervos. Porque é limitadora, porque é injusta, porque é uma parvoíce. Os putos têm 10 anos. A escola devia ser um sítio que lhes abre portas e não que lhes diz que só há uma maneira certa de fazer as coisas. Os putos têm 10 anos. Aprender devia ser divertido e não uma seca de fichas que é preciso fazer. Os putos têm 10 anos. Há uns que sabem mais matemática, há outros que sabem mais história, há uns que gostam de pintar, há outros que são óptimos a tocar flauta. Devíamos estar a explorar estas várias valências. Aproveitar aquilo em que eles são melhores para minorar as suas dificuldades. Descobrir estratégias, quem sabe até individuais, para que todos cheguem à meta, mesmo que de maneiras diferentes. Isto é possível. Isto não é utopia.

Não me venham com a conversa de que temos de os preparar para o futuro. Estamos a criar pequenos burocratas-não-pensantes-e-obedientes que quando vão para uma prova se preocupam com coisas como ter uma caneta preta sem bonecos. Que futuro cinzento nos espera.

 

Posto isto. Não há como escapar. Os miúdos têm que fazer os exames. Os professores têm que os preparar para os exames. No resto do tempo, resistimos como podemos. Em casa e na escola. Há que desdramatizar, para bem deles e para nosso bem. Dar-lhes espaço. Dar-lhes tempo. Não os pressionar. Relativizar. Procurar aquele difícil equilíbrio entre o garantir que eles estão à altura e o não fazer disto um bicho de sete cabeças. Ando à procura deste equilíbrio. Uns dias consigo, outros nem por isso. Mas ando à procura. Acredito mesmo nisto.

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publicado às 21:35


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