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27
Mar08

Teme-se o pior

3.715. Nunca mais esqueci este número. Não sei quanto mede o meu filho ou quanto pesa agora. Não me lembro quantos meses tinha quanto lhe nasceu o primeiro dente nem com que idade começou a comer sopa. Não fixei o dia em que começou a andar nem sei exactamente quais terão sido as suas primeiras palavras. Mas nunca mais esqueci este número: ele tinha exactamente 3.715 quilos quando nasceu. Nem menos um grama. Nem mais um grama. Eram 3715 gramas de gente que me doeram como toneladas e me deixaram em cicatrizante sofrimento durante um mês (poupo-vos aos pormenores).
"3.715? Ah, então já sabe o que a espera", comentou, a sorrir, o médico durante a ecografia na passada terça-feira, enquanto media os ossos do meu bebé e me apontava ali é a cara, está a ver?, e ali a boca, e eu a semi-cerrar os olhos, a tentar ver, só me lembrava daquelas imagens a três dimensões ou lá o que é em que se tem de olhar fixamente para ver maravilhas e eu nunca consegui ver nada para além das manchas coloridas, pois o meu bebé ali no ecrã a preto e branco da ecografia também é uma mancha, ali o coração e depois o braços, vê? Parece que sim, que vejo, e reparo também que naqueles quinze minutos em que estive de barriga à mostra o médico disse três vezes (três) que o meu bebé vai ser grande, para eu estar preparada, porque a dois meses do parto o bicho já pesa 2.100 quilos e está no percentil 75/90 (para os menos habituados à linguagem de mãe explique-se que a escala de crescimento vai do 0 aos 100 e que o normal, a média, é o percentil 50), pois, vai ser grande, vai, ah, mas se o outro tinha 3.715, então já sabe como é. Pois já. Sei, sim senhor. E pela primeira vez nestes meses todos comecei a questionar-me se esta coisa de ter outro filho terá sido uma grande ideia...

publicado às 11:17

Há umas que fingem dormir. Outras olham distraidamente pela janela ou enfiam a cara no jornal, ainda não te vi, não estou a olhar por isso ainda não te vi. Há pessoas que fazem um ar cansado e sofrido, quase implorando para manterem o lugar. E há até quem, subitamente, do nada, comece a falar das suas doenças, as cruzes que doem, uma perna magoada, nem imagina o que me dói. Ficamos assim uns longos minutos. Até que alguém, mais incomodado, lá faz o favor de se levantar para deixar a grávida sentar-se. Detesto andar de autocarro.

publicado às 11:11

Estava tudo combinado. No dia da amniocintese, o meu homem não foi trabalhar para me poder acompanhar ao hospital e depois ficar em casa a dar-me miminhos. E,para evitar esforços e contratempos, o puto ia ficar em casa dos avós. Estava tudo combinado menos a festa de natal. Pela primeira vez, o nosso rebento ia subir ao palco. Ainda fiz a conversa à médica, à espera de uma aprovação, mas ela nem pestanejou. O pai que leve a câmara de filmar, propôs. Assim, enquanto a família aplaudia, entusiasmada, eu fiquei deitada, no meu quarto com vista para o estádio da luz. Parece que o miúdo estava super-contente com o seu fato de sino e que passou mais tempo a acenar para a plateia do que a cantar a música de natal. Um sucesso, portanto. Quando lhe liguei, depois do jantar, para dar boa-noite, contou-me tudo. Sabes como foi? Eu tinha uma roupa feita com um saco de plástico e era um sininho, e o pai e a avó e o avô foram me ver. As palavras atingiram-me com uma violência que eu não esperava. Prometi para mim mesma: não vou deixar que isto volte a acontecer, não vou deixar que isto volte a acontecer. E, no entanto, poderei eu garantir que vou estar sempre lá, nas festas, nos jogos, nas primeiras vezes, nas vezes que forem importantes?

publicado às 14:31

Oito semanas.
Quinze milímetros.
E uma alegria imensa.

publicado às 23:02


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