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O meu pai mandou-me esta foto em jeito de prenda de anos. Há 46 anos eu era assim, pequenina e tranquila ao colo da minha avó.

Agora já não sou pequenina. Mas estou tranquila. 

Este foi um fim-de-semana cheio de emoções. Um confinamento. Um despedimento. Um aniversário. E uma bela TPM. A tempestade perfeita. E, afinal, correu tudo bem. Pela primeira vez desde que me lembro não fiz nenhum bolo mas tive dois bolos deliciosos. E, de longe ou de perto, tive muitos abraços. Porque tenho amigos dos bons (os amigos salvam-me todos os dias, já o sabia, e posso sempre recorrer a um texto lamechas lido na adolescência e trazê-lo para aqui e está tudo certo). E, para terminar em grande, levei os meus filhos a ver todas as coisas maravilhosas e só o facto de termos ido e de eles terem gostado (principalmente o adolescente) foi maravilhoso. 

Nem de propósito, uma das músicas do espectáculo é esta, do Jorge Palma, que cantei em coro com o Ivo Canelas e as lágrimas a embaciarem-me os óculos. 

Acho que é mesmo a música perfeita para hoje.

"Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"

publicado às 12:51

No domingo passado, o Papa Francisco citou um poema de Vinicius de Moraes na sua encíclica "Todos Irmãos", na qual denuncia as desigualdades e o "vírus do individualismo". O Papa apela ao diálogo e à fraternidade "com atos e não apenas com palavras" e, a certa altura, recorre a uma das linhas do Samba da Bênção:  

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"

É uma frase bem bonita. E certeira. A verdade é que apesar de todos os desencontros, no fim das contas, aquilo de que nos vamos lembrar vão ser os encontros, as pessoas bonitas que conhecemos, os amigos com quem partilhámos bons e maus momentos. Quando formos velhinhos e fizermos a nossa selecção de melhores momentos, de certeza que a maioria são momentos com outros. Porque é isso que realmente importa.

O Samba da Bênção é um tema de Vinicius de Moraes e Baden Powell, gravado em1967. E, além de muito bonito, está, como tantos outros poemas de Vinicius, cheio de outras frases que vale a pena guardar para citar. Eu escolho estas:

"É melhor ser alegre que ser triste"

"A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não"

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publicado às 18:58

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Esta ilustração linda é do André Carrilho e foi publicada no DN do sábado passado (espero que ele não se importe que eu a publique aqui).

Eu sei que não sou velhinha de bengala mas já tantas vezes, ao passear pela rua, olhei para os pares de namorados aos beijos nos bancos de jardim, aquela urgência que só tem quem está perdidamente apaixonado, como se os beijos não pudessem esperar, como se tivéssemos que estar juntos, juntos, pele com pele, o máximo possível, como se nada mais à volta importasse, como se nada mais existisse, e eu, passando, olhando para eles e a pensar para mim: lembras-te como era?

Lembro-me bem.

E agora? Irá acontecer-me outra vez?

A acompanhar aquela ilustração, a Fernanda Câncio escreveu um texto muito bonito sobre isto do amor depois de uma certa idade. Ela escolheu os 60 anos. Ainda me falta um bocadinho, é verdade. Mas não consigo evitar sentir-me um pouco retratada. Um dos seus entrevistados diz, a certa altura: "Para mim o desejo está na paixão, e o amor tem sempre de resultar da paixão. Levei a vida a perceber essa coisa que vinha já de Platão e que só a partir do século XX desaparece - que não há um lado animal e racional, e que as coisas estão misturadas em nós. Que a pessoa amada é real, a pessoa que amamos por coisas tão pequeninas como um cheiro ou uma forma de andar. O que é sentir esse amor - não sei responder muito bem, não. É como se os corpos se equivalessem. É um amor de pequeninas coisas quotidianas, de vontade de anichar, de andar de mão dada, de dormir abraçada". 

Outro diz: "Nos últimos dez anos não tive nenhuma paixão. Tive sexo ocasional, tive enfatuações - que é uma palavra que vem do inglês infatuation [neste caso podendo traduzir-se por arroubo, encantamento], que não existe em português mas faz falta, porque não foram paixões." E acrescenta: "A paixão é uma coisa que ocupa muito espaço e tem um potencial de sofrimento imenso. Não sei se quero passar por isso outra vez."

Mas eu ainda acho que quero passar por isso outra vez.

Gostava muito, confesso, gostava muito de encontrar alguém com quem envelhecer. Tranquilamente. Mas feliz e acompanhada.

Quando José Saramago conheceu Pilar, ela tinha 36 anos, ele 64. Ao ver o filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, e vendo-os tão apaixonados, fiquei animada: é possível, ainda há esperança. 

Admito que à medida que o tempo passa essa esperança vai perdendo fôlego. Parece cada vez mais difícil voltar a apaixonar-me e ainda mais difícil que, apaixonando-me, consiga ter uma relação feliz com alguém (porque uma coisa não leva necessariamente à outra, infelizmente). 

Ainda não desisti. Não é que ande por aí à procura, não é isso que me move, mas não desisti. E sempre que vejo uma hipótese - por muito vaga que seja - não consigo virar-lhe as costas. É assim que sou. Hei de acreditar e tentar e entregar-me e aproveitar todos os momentos bons que houver para aproveitar e depois desiludir-me, espalhar-me ao comprido e sofrer. E hei de repetir tudo de novo se acreditar que vale a pena. E acredito algumas vezes. Sim, o potencial de sofrimento é enorme. Mas...e se? 

Em Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino, o pai diz a Elio que a vida é para ser sentida, que de outra maneira não faz sentido: "Os nossos corações e os nossos corpos são-nos dados só uma vez. E antes que dês conta disso, o teu coração está gasto. Quanto ao teu corpo, chega um dia em que ninguém olha para ele, quanto mais chegar-lhe perto".

Quanto ao corpo, é o que é. Mas haverá alguma maneira de evitar que o nosso coração fique gasto?

Mistery of Love, de Sufjan Stevens

 

(uma coincidência de que só me apercebi agora: hoje é 6 de outubro.)

publicado às 11:05

03
Out20

O verão acabou

People are strange, The Doors

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publicado às 08:31

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Quando entrei em layoff, despedi a empregada, que vinha cá a casa fazer magia uma vez por semana. Desde então, sou eu (com alguma - pouca - ajuda dos rapazes) que trato de tudo, da roupa para passar à limpeza das casas-de-banho. Entretanto, o layoff acabou mas por causa das coisas que se sabe (e sobretudo das coisas que ainda não se sabe) continuo sem empregada. O layoff acabou e voltei a trabalhar todos os dias, em casa mas também muito na rua e num ritmo por vezes frenético. Os miúdos também estão de volta à escola. O Pedro no horário da manhã, o António no horário da tarde. Almoçam ambos em casa mas não se cruzam. Já há treinos de parkour e de futebol. Estamos naquela fase de ajustar rotinas. De nos custar acordar com o despertador. De experimentar lanches diferentes. De forrar livros e pôr etiquetas em cadernos. De descobrir que é preciso ir comprar calças e camisolas. 

Ai, setembro, setembro, todos os anos a mesma coisa. A vidinha toda a cair-me em cima, outra vez. Mil conversas para tentar enfiar algum juízo na cabeça dos putos. Exausta de discussões e de argumentações e de desilusões e de ter que pensar em tudo, sempre a pensar em tudo, a minha cabeça não pára, é o dentista, é a explicação, são as sapatilhas da ginástica que não servem e o chapéu-de-chuva que desapareceu, acabou-se o leite, é preciso comprar iogurtes, as reuniões de pais, os papéis para assinar, um filho que está na fase em que tomar banho é um martírio e outro que está na fase em que toma dois e três banhos por dia, e se calhar desligavam os telefones para irmos para a mesa e, então, já é tardíssimo, porque é que ainda não estão a dormir?

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Tirando as máscaras, umas descartáveis, outras reutilizáveis (máscaras a toda a hora de molho e penduradas na corda da roupa, mais uma coisa com que me preocupar), e o gel desinfectante que cada um de nós tem na sua mochila para usar quando fôr necessário, cá em casa estamos a tentar viver o mais normalmente possível. Estou farta da covid-19. Só de imaginar que nos podem fechar a todos em casa outra vez começo a sentir suores frios. Estou farta da covid-19 e das regras estúpidas que inventam em todo o lado, seja na escola ou nos correios, quando vamos comprar sapatos e nos obrigam a calçar uma meia de plástico ou quando queremos renovar o cartão de cidadão e o site nos informa que não, que ainda não é possível fazer agendamentos. A covid-19 como justificação para todas as incompetências e todas as burocracias e todos os abusos de autoridade. Estou tão farta que já não leio notícias e não quero saber dos números de mortos e infectados e internados, juro-vos. 

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19 e ainda bem porque se uma pessoa se põe a pensar a sério nisto ainda acaba dando em maluca. 

Também não tenho tido muito tempo para mais nada. 

Mas isso é outra história.

Wake me up when september ends, dos Green Day
(com beijinhos para a Raquel)

publicado às 09:38

01
Set20

A vida acontece

Somos uma família muito pouco instagramável. Não fomos às grutas de Benagil nem ao glamping da Nazaré nem a nenhuma das magníficas praias fluviais do nosso país. Para dizer a verdade, e com muita tristeza minha, este ano não consegui tirar uma fotografia (uma que fosse) com os meus filhos. Ainda assim, apesar de não haver fotos que o provem nem possa sequer adiantar muito mais do que isto, quero deixar aqui escrito que as nossas férias-covid foram bem boas. A vida nem sempre cabe nas redes sociais e isso não é mau.

E, no último dia, quando eu menos esperava, uma amiga acenou-me com um bilhete para o concerto dos 75 anos de Sérgio Godinho. Fomos dar-lhe os parabéns e celebrar a amizade. Fiquei rouca de tanto cantar por trás da máscara, com os olhos húmidos e a garganta seca. Não me ocorre melhor maneira de acabar o verão e de voltar ao rame-rame do que a cantar isto:

"Só há liberdade a sério
Quando houver
A paz, o pão
Habitação
Saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir"

publicado às 10:09

Estive a ver o documentário sobre a Joan Didion, na Netflix. Jornalista e escritora, Didion é a autora de O Ano do Pensamento Mágico, monólogo brutal sobre a morte e a perda que Eunice Muñoz interpretou há uns anos no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Diogo Infante. Não conhecia mais nada dela e fiquei com muita vontade de ler as suas reportagens e ensaios e livros e tudo. Pareceu-me uma mulher do caraças.

[Também me fez pensar em mim e perguntar-me porque é que escrevo, aqui e não só. Não, não me estou a comparar à Joan Didion, não me interpretem mal. Mas gostava de ser suficientemente corajosa - e talentosa, para dizer a verdade - para escrever algumas coisas que gostaria de escrever. Talvez um dia. Talvez nunca. Who knows.]

Angústias existencialistas à parte, tenho aproveitado estes dias para ver outros documentários, também na Netflix. Não tenho visto nenhuma ficção. Estou numa fase "vidas reais". Gostei destes:

Frank Sinatra: All or Nothing - visão muito soft sobre o cantor, sem grandes escândalos nem Marilyn por perto, mas, ainda assim, como eu não sabia muito sobre a vida dele, gostei bastante.

Miles Davis: Birth of the Cool - o trompetista da voz rouca teve uma vida cheia de altos e baixos, eu não conheço nada de jazz mas, mais uma vez, gostei de ficar a saber montes coisas que não sabia.

Mucho, mucho amor: The legend of Walter Mercado - não fazia ideia quem era esta pessoa, nunca tinha ouvido falar dele, mas fiquei completamente fascinada por este artista e astrólogo de Porto Rico, figura andrógina e grande estrela da televisão hispânica nos anos 70, 80 e 90. 

publicado às 15:57

Em que sonhamos com as férias e temos a sensação de que tudo é possível.

Parcels, Tieduprightnow

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publicado às 10:25

15
Jun20

Desconfinando

Houve um momento, já quase no fim do almoço, em que, não sei bem como nem porquê, pusemo-nos a cantar os Vampiros do Zeca Afonso. E eu dei por mim a pensar nas saudades que tinha da minha família. Caramba. Encontrámo-nos, finalmente, no feriado do corpo de deus, depois de quase seis meses de distância - o que é imenso, até para mim que estou habituada a estar longe por dois ou três meses  - e demos abraços e beijos, com moderação mas demos, porque não podíamos não o fazer. Temos estado a desconfinar, lentamente mas a desconfinar. O Pedro voltou aos treinos de parkour e continua a brincar com os vizinhos no terraço - é engraçado ver como a quarentena uniu os miúdos destes prédios, uns que já se conheciam, outros que nunca sequer tinham aparecido à janela, e agora são todos amigos. O António tem saído pelo menos uma vez por semana para estar com os amigos, jogar à bola e cirandar por aí, e até foram um dia à praia. Com mil recomendações e máscara e gel para as mãos, mas a tentar recuperar a sua adolescência interrompida. E eu também. Apesar de ainda em teletrabalho tenho feito cada vez mais trabalhos na rua e tentado estar com algumas pessoas que são importantes para mim. Ainda faltam algumas. E têm sido encontros muito breves e sempre ao ar livre. Mas, apesar de todas as mensagens e telefonemas e videochamadas, e mesmo, na maior parte dos casos, sem beijos e abraços, não há nada melhor do que estar com as nossas pessoas. Só estar. Sentirmo-nos acompanhados. E depois as conversas, os olhares, as gargalhadas, os momentos partilhados. As canções que cantamos juntos. 

publicado às 10:03

Uma das coisas boas que aconteceu durante esta quarentena foi podermos dançar (ou só "chillar", como se diz) ao som dos sets do Branko. Ele festejou o desconfinamento com este momento maravilhoso, num terraço de Lisboa:

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publicado às 09:02


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