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A Gata Christie


Quinta-feira, 19.01.17

Meridional

O Miguel Seabra é uma das minhas pessoas preferidas no teatro. Conheci-o em 1998, no momento em que ele voltava aos palcos depois de um AVC, para fazer Ñaque, ou sobre piolhos e actores. Eu não sabia isso. Eu não sabia muitas coisas naquela altura. De então para cá, tenho visto, sempre que possível, os espectáculos do seu Teatro Meridional (já falei deles AQUI, AQUI, AQUI e AQUI) que este ano comemora os 25 anos. Aproveitei esse pretexto para falar um pouco com ele. Estivemos duas horas a conversar e ficou tanto por dizer, tanto. E depois ficou tanto por escrever, tanto. Um dia vou conseguir escrever um texto que diga tudo o que eu acho que deve ser dito sobre o Miguel e sobre o seu teatro de beleza rara. Por enquanto, tenho este texto. E as peças que aí estão para serem vistas.

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Fotografia de Gonçalo Villaverde/ Global Imagens

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por Gata às 21:48

Segunda-feira, 19.12.16

Tristeza e alegria na vida das girafas

Na sexta-feira fui, finalmente, ver Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, um espectáculo de Tiago Rodrigues, com um fantástico grupo de actores - Carla Galvão, Tonan Quito, Pedro Gil e Miguel Borges. O espectáculo estreou em 2011 na Culturgest, depois andou em digressão, entretanto já tinha voltado a Lisboa e eu nunca tinha conseguido vê-lo. Este mês, voltou a estar em cena, no Teatro Nacional D. Maria II, e eu lá consegui, mesmo antes de terminar a carreira. Em boa hora. É um grande espectáculo. Eu fui à confiança, porque gosto muito daquela gente toda, juntos ou em separado, mas a verdade é que já tinha ouvido grandes elogios e algumas críticas mesmo más, por isso não sabia muito bem o que esperar.

A história em linhas gerais é isto: há uma menina de oito anos que está a fazer um trabalho para a escola sobre girafas e, por isso, precisa muito de ter o discovery channel. Mas a mãe morreu há pouco e o pai ficou desempregado e por isso não tem dinheiro para pagar a televisão por cabo. Então a menina revolta-se e parte numa aventura por Lisboa com o seu urso de peluche, chamado Judy Garland, à procura de uma solução. Claro que isto dito assim não parece muito estimulante. O segredo é a forma como isto é contado. É a menina, que está habituada a encontrar todas as explicações que precisa no dicionário, falar como se fosse um dicionário. É aquele urso ser um "bocadinho" malcriado (confesso que houve ali uma altura em que o excesso de palavrões me incomodou um bocado, pareceu-me que estavam a desviar a atenção do que era importante, mas na verdade tudo encaixa, não é algo despropositado). É o pai ser actor e sonhar com Tchekhov. É o Passos Coelho a comer um croissant, descalço, no seu gabinete. É tudo junto. Nesta aventura, a menina cresce. Cresce muito.

Fazendo jus ao título que fala de tristeza e alegria, neste espectáculo ri e chorei, sim, chorei, é mesmo muito tocante. É um espectáculo que olha para a nossa sociedade, que crítica de forma muito clara estes tempos de crise em que vivemos, mas também fala de nós, daquilo que somos na nossa intimidade, da família, de pais e filhos, da infância, dos medos das crianças e do que é ser adulto.

Tenho muita pena de não ter ido vê-lo mais cedo só para vos dizer: não percam.

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por Gata às 19:46

Domingo, 18.12.16

Cornucópia (2)

Afinal, tinha ainda mais coisas para dizer sobre a Cornucópia. Estive lá ontem, na despedida, e foi bonito e emocionante. Admiro muito a serenidade e a lucidez de Luís Miguel Cintra e de Cristina Reis. É óbvio que pensaram muito nesta decisão antes de a tomarem. Não é à toa que uma companhia com 43 anos de trabalho decide que não se vai recandidatar aos apoios do Estado e, assim, declara que termina a sua actividade.

Se isto fosse, de facto, uma jogada, como alguns acusam, não o teriam feito assim - o fim foi propositadamente "escondido" num mail enviado à comunicação social há duas semanas, onde se anunciava a récita de ontem. Mesmo quando o assunto começou a ser falado, esta semana, Cintra recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas. Só falou na sexta-feira. A despedida era sábado. O prazo para a recandidatura aos subsídios termina na próxima sexta-feira, dia 28. Se fosse uma jogada, seria muito arriscada, não acham? Eles, melhor do que ninguém, sabem que os estatutos de excepção não se cozinham em meia dúzia de dias na semana do natal. 

O que eu senti foi que tanto o Luís Miguel como a Cristina estavam tranquilos com a decisão que tomaram. Tristes mas conscientes de que terminar assim é a melhor maneira de terminar - sem fazer concessões no seu trabalho e sem se endividarem. Estão cansados, disseram-no tantas vezes ontem. O Luís Miguel está bastante debilitado. Não querem continuar nestes moldes e estão no seu direito. 

Estariam dispostos a continuar noutros moldes? Claro que se entra por ali um furacão Marcelo a propor estatutos de excepção e a perguntar "se lhes dessem mais dinheiro vocês continuariam?", até eles ficaram um pouco entusiasmados com a ideia. Quem não ficaria? As televisões a filmar e o professor a querer uma resposta concreta para poder sair dali rapidamente e com a imagem de salvador. Mas é óbvio que os problemas estruturais do teatro português não se resolvem com uma intervenção "espectacular" do Presidente da República (se fosse assim tão simples, alguém já o teria feito). E o que ficou claro, não só naquele momento como depois, em tudo o que foi dito ao longo da tarde (e noite), é que não há tempo e muito provavelmente também não há paciência nem disposição para muito mais negociações. Posso estar enganada, claro, vamos ter que esperar pelos próximos acontecimentos.

Quanto ao resto, os que lá estiveram sabem que assistiram a um momento especial. Mais um naquela casa. 

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(fui roubar esta foto ao instagram da Maria João Costa porque, para mim, é mesmo a melhor)

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por Gata às 11:59

Sábado, 17.12.16

Cornucópia

Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto alguns dos espetáculos da Cornucópia. Por ter visto "Demónios", de Lars Nóren, na primeira vez que fui ao Teatro do Bairro Alto em 1997. "O Casamento de Fígaro" com aquele grupo de atores - Rita Durão, Rita Loureiro, José Airosa e Ricardo Aibéo. "O Colar", de Sophia, que era uma preciosidade. "A Gaivota", de Tchekov. "A Tempestade", de Shakespeare, com Nuno Lopes e João Pedro Vaz. "A Varanda", de Genet. Tantos outros. Mesmo quando algum espectáculo não me enchia as medidas, saí sempre de lá mais rica. Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto Luís Miguel Cintra a representar. E por ter tido a oportunidade de conversar com ele, de o ouvir a explicar-me o teatro e a vida. A Cornucópia ajudou-me a ser uma espectadora melhor, mais atenta, mais exigente. A Cornucópia fez-me pensar. Mas também me divirtiu, deliciou-me, fez-me rir, comoveu-me. É tudo isso o bom teatro.

É verdade que já não se faz muito teatro assim, como o deles. Com aquele cuidado em cada pormenor, com aquela beleza, com aqueles cenários maravilhosos da Cristina Reis, com aquela dedicação exclusiva. Ali acreditava-se que para se conseguir a excelência era necessário tempo - para pensar, para criar, para investigar, para ensaiar, para errar e emendar e repetir, para reflectir, para descansar. Este tempo custa dinheiro. Hoje em dia, a maioria dos atores, encenadores e outros criadores tem que se dividir por muitas actividades, têm que fazer telenovelas de manhã, varrer o chão do teatro à tarde e subir ao palco à noite para conseguirem sobreviver. As companhias têm que preencher muitos quadros em excel, cumprir muitos objectivos, fazer não sei quantas criações novas por ano e mais as digressões e mais o serviço pedagógico e preencher mais uns formulários e cumprir não sei quantos prazos e regras e requisitos. A Cornucópia assumiu que não está para isso. Já fez o que tinha a fazer, já deu provas da sua qualidade ao longo destes 43 anos. As pessoas estão mais velhas, o Luís Miguel está doente. Não se vai pôr a fazer monólogos e peças portáteis só para cumprir objectivos de secretaria. Não poderia nunca baixar a fasquia da qualidade. "Não querem assim como nós fazemos, paciência", dizia ele de há uns anos para cá. "Não me vou pôr a mendigar subsídios." Mas mesmo com todos os avisos, mesmo vendo os sinais, não queríamos acreditar que este momento fosse chegar. (teria sido possível, como alguns defendem, ter aberto um regime de excepção para que esta companhia, ou outras, não tivessem que se sujeitar às mesmas regras dos grupos mais recentes e com outros modelos de produção? gostaria de acreditar de sim. mas temo que os problemas e as polémicas e até as injustiças que essa solução iria originar iriam acabar por torná-la desastrosa)

É muito triste, como me dizia o Tiago Rodrigues, saber que os nossos filhos já não vão poder ver os espectáculos da Cornucópia. Eu própria sinto isso às vezes, mas ao contrário, penso que pena não ter visto este espetáculo que aconteceu quando eu era ainda criança. Mas é assim mesmo. O teatro é a arte do efémero. Por isso eu fico triste mas prefiro pensar que foi uma sorte e um privilégio ter estado por aqui, nesta cidade, a ver teatro, e ainda ter apanhado a Cornucópia em actividade.

(eu sou das que tendem a ver sempre o copo meio-cheio, mas sobre isso falarei amanhã que hoje já é muito tarde)

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Esta é uma imagem do primeiro espetáculo da Cornucópia, "O Misantropo" (1973)

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por Gata às 00:25

Quinta-feira, 01.12.16

Maiores

pedrosa.JPGGostei tanto de conversar com a Kim, a Helena, o António e o Carlos. São pessoas mesmo bonitas e inspiradoras e eu tenho esta sorte de os conhecer e de os ver em palco e de ainda poder escrever sobre eles. Este fim-de-semana eles e os outros elementos da Companhia Maior vão estar no CCB a fazer o seu Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, com encenação de Tónan Quito.

Sou fã da Companhia Maior, como podem ver pelo que escrevi em 2010, em 2011, em 2013, em 2014 e em 2015 (só falhei um ano, mas 2012 foi um ano de muitas falhas, vá-se lá saber o que aconteceu). Envelhecer a fazer o que mais se gosta, seja no palco ou fora dele. É o que todos queremos.

Vão, vão, que não se vão arrepender.

A foto do ensaio é do Gustavo Bom/Global Imagens.

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por Gata às 14:16

Domingo, 27.11.16

Três coisas boas (e mais uma) para começar bem a semana

1. Está em cena até 18 de dezembro, no Teatro Nacional Dona Maria II, o espetáculo As Criadas. Texto de Genet, encenação de Marco Martins, interpretação das maravilhosas Beatriz Batarda, Sara Carinhas e Luísa Cruz. Teatro de vísceras, de corpos ali tão perto de nós, de palavras cuspidas, de vidas sufocadas. Não é fácil mas nem tudo o que é bom é fácil.  

2. O Jorge Palma está a preparar uma série de concertos especiais a propósito dos 25 anos do álbum. O já era um disco fabuloso há 25 anos e, agora, quando o ouvimos, parece ainda melhor. Eu estive à conversa com o músico e até lhe pedi um autógrafo, que é uma coisa que não faço muitas vezes. 

palma.jpg3. Estou a ler O Túnel dos Pombos, que é o livro de memórias de John Le Carré. Uma preciosidade. Eu já sabia que ia gostar antes mesmo de começar e, na verdade, não devia sequer pronunciar-me sobre ele porque ainda vou a meio. Mas é tão bom. Para além do lado mais pessoal, tem muitos mas mesmo muitos pormenores engraçados sobre a Guerra Fria, mas também outras histórias mais ou menos recentes, desde o Vietname à Palestina, dos bastidores da política internacional. É como se as histórias de espiões que lemos na ficção de repente ganhassem vida. 

E mais uma: Reserva Pra Dois, uma música que junta (a linda) Mayra Andrade e Branko e que nos põe a dançar com um sorriso na cara. Eu danço com eles. 

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por Gata às 22:18

Domingo, 17.07.16

A lição

A Lição, de Ionesco, não é um texto fácil. Aquela aluna e aquele professor começam por nos provocar risos, parece que estamos perante uma sátira sobre o sistema educativo e, depois, aos poucos, o tom vai-se tornando mais negro, os sorrisos vão desaparecendo, a tragédia parece inevitável. O Teatro Meridional faz A Lição, com encenação de Miguel Seabra, que também interpreta ao lado de Sara Barros Leitão e Elsa Galvão. Tão bons, todos. Fui vê-los esta semana e foi como levar um soco no estômago. Uma palavra ainda para a Marta Carreiras, responsável pelo espaço cénico e pelos figurinos.

liçao.jpgEm cena até 31 de julho. 

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por Gata às 23:07

Quinta-feira, 14.07.16

Longe

Não estava em Lisboa no dia em que os campeões celebraram pela cidade. Não gritei pelas ruas atrás dos nossos meninos, nem sequer acompanhei os festejos. Estava a trabalhar, longe de ecrãs de televisão e da internet. Que azar. Apesar disso, gostei muito de ir a Tondela e de conhecer melhor as pessoas da Acert. Há coisas a acontecer longe da capital e nem sempre damos por elas.

tondela 4.JPGO Pequeno Grande Polegar estreou-se ontem, no jardim do Tondela, e talvez no próximo ano apareça por aí. As fotos (esta e as outras que estão no artigo) são da Maria João Gala/Global Imagens.

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por Gata às 11:33

Segunda-feira, 13.06.16

O que faz uma mãe um fim-de-semana inteiro quando não está com os filhos?

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Walking, not running. Uma peça de teatro para esquecer. Deixem o pimba em paz com a Cris no Terreiro do Paço. Um gin com música ao vivo. Um filme chinês: Regresso a Casa. Cerejas. Uma comédia romântica: Trainwreck. Mojitos com vista sobre a cidade. Um cheirinho a santos populares. Andar descalça. Comer pizza, ir à praia e dar gargalhadas com amigos bons. Caminhar um bocadinho mais. Futebol. Requeijão com doce de abóbora e um livro novo.

E ainda: não fazer nada.

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por Gata às 19:12

Quarta-feira, 11.05.16

Já valeu a pena

"Mesmo que o espectáculo não seja muito bom, já valeu a pena por ter conhecido todas estas pessoas e ter aprendido tanto com elas." Estávamos sentados no chão, nos tapetes do salão nobre do Teatro Nacional D. Maria II, a conversar depois de um ensaio. Engolimos todos em seco. Era a Madalena que dizia isto, sobre a Estação Terminal, o espectáculo que se estreia ali amanhã e no qual colaboram pessoas tão especiais quanto um jovem bailarino transexual, um travesti, um ex-recluso, actores e bailarinos, alunos de dança, cegos, sem-abrigo, um casal de artistas homossexuais que veio da Tasmania. A Madalena também é uma pessoa especial. É uma daquelas pessoas com quem vale sempre a pena conversar, que nos toca e nos faz ir mais além, mesmo quando (o que é raro) os espectáculos não são muito bons.

(nos dias em que ando mais triste com o jornalismo que andamos a fazer ou nos dias em que ando mais triste com a minha vida, penso nisto, nestas oportunidades maravilhosas que vou tendo, de conhecer pessoas assim, de ser menos ignorante e mais feliz, de viver momentos mesmo especiais.)

estaçao.JPGAs fotos (tão bonitas também) são do Reinaldo Rodrigues/Global Imagens. 

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por Gata às 22:12



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