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Aquilo que vemos depende muito mais do que somos do que do que está efectivamente à nossa frente. Em Mare of Easttown, a fabulosa série da HBO protagonizada por Kate Winslet, eu vi mães, mulheres mas sobretudo mulheres-mães. A começar por Mare, a mãe que não conseguiu salvar o seu filho; passando por Helen, que é uma avó a recuperar o tempo perdido; por Carrie, a mãe que não o consegue ser; por Lori, a mãe que quer proteger o seu filho; até mesmo por Dawn, a mãe que procura desesperadamente a sua filha. E todas elas corroídas pelo sentimento de culpa, aquele sentimento de culpa que todas as mães conhecem tão bem, como se fosse sempre nossa responsabilidade, como se estivesse sempre ao nosso alcance garantir a felicidade dos nossos filhos, como se os erros deles fossem sempre, e antes de mais, erros nossos.

Depois há o resto. Mare of Easttown tem muitas camadas. Esta é também uma história sobre homens - e sobre pais. Sobre filhos e irmãos e os laços de solidariedade que existem nas famílias. Sobre jovens à procura de um caminho. Sobre a amizade. Sobre o certo e o errado. Sobre admitirmos os nossos erros. Sobre julgar os outros. Sobre aquilo que não controlamos. Mas, para mim, é sobretudo isto. Mães. Isto e uma mulher de quarenta e tal anos, sozinha, triste, cheia de falhas mas essencialmente comprometida com uma ideia de bem. 

Devorei os sete episódios de Mare of Easttown num dia de folga, o último dia de folga antes de mais uma empreitada de trabalho. Gostava de ter tempo para, daqui a uns tempos, voltar a vê-la, reparar nos pormenores, ver o que desta vez me passou ao lado. Sim, gostei assim tanto.

PS - E, já agora, aquele era mesmo o Guy Pearce com 53 anos? 

publicado às 08:08

Então e a felicidade nas coisas pequenas? Não eras tu que conseguias sempre encontrar a felicidade em sítios escondidos? Era. Mas ultimamente não tem sido fácil. 

Felizmente hoje recebi isto no correio. O que eu gosto destas miúdas.

Neighbourhood, música nova de Minta & The Brook Trout

publicado às 14:08

"Os primeiros sintomas costumam afligir a indústria inteira, o que cria a falsa segurança de um inexorável (e colectivo) "processo" de transformação. A primeira coisa que desaparece é aquilo que custa mais (em tempo ou em dinheiro): investigações longas, reportagens no estrangeiro, despesas de viagem, etc. Depois, todos os atalhos se vão tornando mais curtos. Copy desks desaparecem. As redacções começam a encolher por ordem cronológica: veteranos aceitam rescisões amigáveis e as suas funções são redistribuídas pelas várias castas temporárias - estagiários, colaboradores, freelancers. Reuniões estratégicas começam a ser mais frequentes. A ordem das secções é reconfigurada como um baralho de cartas. Reinvenções são anunciadas. Suplementos são rebaptizados. Mudanças de tom são sugeridas: o jornal deve tornar-se mais ligeiro, mais profundo, mais especializado, mais generalista, mais local, mais global. Como um paciente terminal, o jornal começa a ser mais vulnerável a charlatães e curas milagrosas. Várias estratégias são adoptadas, na esperança de que alguma pegue (paywalls, doações voluntárias, fundações, parcerias) Quando a calamidade seguinte acontece (uma crise financeira, uma pandemia) um ou outro lay-off costuma preceder o inevitável despedimento colectivo, noticiado provavelmente não em números mas em fracções ("um quarto dos funcionários", "um terço da redacção"). Não é suficiente. As "dificuldades de tesouraria" tornam-se crónicas. As pressões produtivas aumentam em proporção inversa à disponibilidade de recursos: perto do fim, é esperado que uma dúzia de pessoas consigam fazer melhor um trabalho que antes era feito por meia centena. São precisos mais cortes. E aquilo que acontece muito devagar pode continuar a acontecer muito devagar durante muito, muito tempo."

É isto e mais, escrito de forma lúcida e exacta pelo Rogério Casanova.

publicado às 18:47

Eu nem por isso.

O que é surpreendente. Sempre fui uma pessoa muito sociável, que gosta de conversar e partilhar com os outros, que gosta de conhecer toda a gente na redação e de saber "o que se passa". Por isso, nunca imaginei que pudesse realmente gostar de trabalhar em casa. Sozinha. E, sim, ao princípio, foi difícil, claro. Novas rotinas, novos desafios. E estarmos todos fechados em casa não é bom. Miúdos com aulas virtuais, proibição de sair, de estar com as nossas pessoas, de fazer o que quer que fosse. Não, assim não. Mas. À medida que a vida vai voltando ao que era, com os putos na escola, a possibilidade de ir jantar com os amigos, de ir ali tomar um café ao fim dia, de ir ao cinema... por que não? Se tudo o resto estiver de facto "normal", não será bom poder ficar em casa?

Será assim tão necessário estar "lá" se posso fazer o mesmo "aqui"?

Já andava a pensar nisto e a rabiscar este texto nos rascunhos quando li a opinião de Tracy Moore, no Washington Post. Identifiquei-me bastante. E fiquei aliviada: afinal não sou só eu.

Está tudo em pulgas para voltar ao escritório?

"Not me. I’ve been working remotely for more than a year, and though monitoring a fifth-grader’s virtual education has certainly tested my limits, it has granted me greater sanity and family connection than in my previous life. A part of me misses in-person brainstorming and camaraderie, but a larger part wonders: At what cost?"

Vamos por partes.

É verdade que mudei de emprego e que não conheço ninguém no meu sítio novo. Por mais que simpatize com os meus colegas nas conversas que temos no whatsapp, não dá para morrer de saudades de estar com eles porque nunca estive. Isso ajuda.

E, talvez porque já estou numa idade mais avançada, já não sinto essa necessidade de ter de conhecer toda a gente e de saber tudo o que se passa. De estar no centro do furacão. Já gosto mais do silêncio do que do barulho. Tenho cada vez mais prazer em ficar calada (não é de agora, é de há muito mais tempo).

Além disso, a perspectiva de passar dias inteiros com uma máscara na cara também não é lá muito animadora, há que reconhecer.

Mas, o mais importante, é de facto o ganho de tempo e de qualidade de vida. Não perder tempo em viagens, não ter sequer que tomar banho quando começo a trabalhar às 7.00 da manhã, não ter que vestir o soutien nem calçar sapatos nem ter o botão das calças da ganga a marcar-me a barriga o dia inteiro, poder ir a corrrer apanhar a roupa se começar a chover, aproveitar a hora do almoço para ver um bocadinho daquela série, desligar o computador à meia-noite e estar deitada na cama cinco minutos depois. O que há para não gostar?

E, depois, os putos. Olhem que eu nem me posso queixar muito porque (com grande esforço meu e até com perdas para a minha carreira) nunca deixei de estar com os meus filhos. Para mim, as prioridades sempre foram claras. Por isso, não posso dizer que tenha descoberto no confinamento como é bom estar com a minha família. Eu sempre estive com a minha família, sempre acompanhei os meus filhos. Mas isto que tenho agora é outra coisa e é, de facto, o ideal para esta fase em que eles estão, porque já são crescidos e bastante autónomos. Desejo-lhes um bom dia de manhã, vejo-os a entrar e a sair, digo até logo, pergunto onde vais. Podemos fazer as refeições juntos ou não, depende dos nossos horários, mas vou sempre estando por ali para os lembrar de comerem fruta, para comentar com eles as notícias, para saber por onde eles andam sem me intrometer muito. É perfeito. Depois disto, sei que me vai custar horrores sair de manhã e só voltar à tarde e não ter esta proximidade.

Mas o trabalho não corre melhor se estivermos todos juntos?

Há momentos em que sim, em que a proximidade ajuda, não há como negá-lo. Mas também há momentos em que é absolutamente indiferente. Afinal, nós conseguimos fazer isto à distância e correu tudo bem, não foi? E há ganhos também para o trabalho. Não há intermináveis reuniões em que se perde mais tempo a dizer piadas do que a tomar decisões. Não há tantas distracções nem idas ao café nem conversas paralelas. E há pessoas felizes. As pessoas felizes trabalham sempre melhor, acredito muito nisto, embora esta não seja uma opinião acarinhada pelos empregadores de uma maneira geral.

Estou a preparar-me mentalmente para o regresso. Vai acontecer. E não é que seja o fim do mundo, que não é. Não tarda nada vou estar outra vez no ritmo do vai e vem e da confusão e vai correr tudo bem, como sempre correu. E até me vou entusiasmar e tudo, estou certa.

Mas se eu pudesse escolher...

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publicado às 09:52

10
Mai21

Nove anos

Bernardo Sassetti (1970-2012)

Haverá um ano em que deixamos de contar os anos? Talvez. Mas isso não quer dizer que esqueçamos.

Há feridas que, mesmo cicatrizadas, deixam marcas que são para sempre.

publicado às 09:42

Descobri esta semana (eu sei, sou um bocadinho ignorante), por causa de umas pesquisas que andava a fazer, que a palavra assédio é usada em contexto militar. 

Assédio: "acção que consiste em cercar militarmente uma posição inimiga, geralmente durante um período prolongado ou que se calcula dever durar muito. Sinónimo de cerco." (Priberam); "conjunto de operações que visam a conquista de uma posição inimiga" (Infopedia).

Fora do contexto militar, a palavra assédio tem mais ou menos o mesmo significado. É um cerco. Uma tentativa de domínio.

Falemos, então, do assunto do momento: o assédio sexual. Outra vez. As vezes que forem necessárias. E falemos, finalmente, do assédio sexual em Portugal.

Há mulheres que cometem assédio mas, convenhamos, na maioria dos casos o assédio é realizado por homens. Existe aqui uma forte componente cultural - não há nada na genética dos homens que os leve a ser javardos, os homens não sofrem de desejos incontroláveis nem têm ímpetos inatos que os levam a apalpar uma mulher na rua. Mas existe um caldo cultural no qual estes comportamentos têm sido apurados em lume brando ao longo de séculos. E que, como é óbvio, leva algum tempo a destruir. Estamos nesse caminho. Através da educação que damos aos rapazes e às raparigas. Através da legislação. Através dos debates que todos os dias temos no espaço público e que contribuem para mudar a forma como estes assuntos são encarados. Já conseguimos mudar muita coisa mas ainda há muito por mudar. 

E é isso que estamos a tentar a fazer quando falamos publicamente sobre o assunto.

Há diferentes comportamentos masculinos que estão errados e que demonstram uma profunda falta de respeito pelas mulheres. Mas estando todos errados não são todos iguais.

Há as situações de rua (que também podem acontecer no local de trabalho) - os piropos, os encostos no metro ou no elevador, os gajos que não param de olhar para o nosso corpo, o maluco sentado no canto do autocarro a mexer na pila, os colegas que comentam a tua aparência (são elogios, quem é não gosta? lol). É tudo horrível. As mulheres aprendem cedo a proteger-se destas situações. Mudamos para o outro lado do passeio. Baixamos os olhos. Encolhemos os ombros para esconder o decote. Ignoramos as javardices que ouvimos. Mulher séria não tem ouvidos, foi o que nos disseram desde pequeninas. Mas não deveria ser assim. Não deveríamos ter que passar por isto. Nenhuma mulher deveria sujeitar-se a ser tratada desta forma, nem deveria sentir-se desconfortável ou insegura apenas pelo facto de ter um corpo. Muita gente acha que não, mas isto já é assédio.

Existem outras situações de assédio que são já um passo em frente, que é quando os homens tentam interagir com as mulheres e, mesmo quando elas recusam os seus avanços, eles insistem. Isto é comum acontecer na noite, em bares ou discotecas. Mas pode acontecer noutras situações sociais, em festas de amigos ou mesmo entre colegas de trabalho. Há homens que têm muita dificuldade em aceitar um não. Que insistem em chegar-se mais perto, em colocar uma mão no nosso braço, em fazer sorrisos e olhinhos e insinuações mesmo quando já demos a entender que não estamos interessadas. Porque, entendamo-nos: uma coisa é um homem estar interessado numa mulher, demonstrar de alguma forma esse interesse e ser retribuído, ela interage com ele e a coisa evolui como ambos querem - isso é aquele processo de sedução que se quer saudável e divertido; outra coisa é um homem estar interessado numa mulher, ela demonstrar que não está interessada e ele insistir, tomando atitudes cada vez mais intrusivas. Uma coisa não se confunde com a outra, acreditem.

Estas duas situações de assédio são não só bastante comuns como são geralmente desvalorizadas pelos homens que, quando confrontados, raramente admitem que estão a fazer alguma coisa errada. Afinal, são só homens a ser homens, não é? Ora agora, já não se pode dizer nada? 

E, por fim, e num patamar ainda mais grave, diria eu, existe o assédio que é realizado por homens que estão numa posição de poder em relação à mulher. Os professores em relação às alunas. Os chefes em relação a subalternas. Os ministros, diretores, presidentes, senhores doutores (e etc.) em relação a qualquer mulher que, por algum motivo, sinta que se não corresponder pode ser prejudicada - no seu emprego, na sua vida. Sou uma sortuda, nunca passei por uma situação destas. Mas sei que, nestes casos, é triste dizê-lo, as mulheres acabam algumas vezes por sujeitar-se a fazerem coisas que não querem fazer. Por medo. Quase sempre por medo de represálias. Ou porque não têm, naquele momento, as ferramentas necessárias para saberem recusar, ou porque são muito novas ou muito frágeis ou porque se sentem encurraladas ou porque sentem que não têm opção, mas sempre por terem medo. Ou, então, recusam delicadamente os avanços e enfrentam sozinhas as consequências. E continuam a sentir medo.

Nada disto é aceitável.

E, sim, é bom ver que também em Portugal as vítimas estão a perder o medo de denunciar estas situações. Bravo, corajosas. 

Mas também seria bom que todos nós tomássemos consciência da quantidade de vezes em que vimos estas coisas acontecer à nossa frente e não fizemos nada. As vezes em que não mandámos calar aquele colega inconveniente. As vezes em que avisámos alguém: "tem cuidado com o fulano" em vez de confrontarmos directamente o fulano. As vezes em que falámos entre nós e o máximo que conseguimos foi insultar o gajo pelas costas e garantir que íamos estar sempre ali para as nossas amigas.

As vezes em que pessoas com poder em empresas e instituições foram complacentes com estas situações, riram-se dos comentários sobre as estagiárias, olharam para o outro lado para não verem, encolheram os ombros e disseram "ele é assim" em vez de tomarem uma posição: admoestando os abusadores, abrindo processos disciplinares e deixando bem claro que tais comportamentos não seriam mais tolerados.

Nem todos os homens são assim, felizmente. Mas, infelizmente, basta que alguns o sejam para causar um enorme sofrimento nas suas vítimas.

A quantidades de testemunhos que li nestas últimas semanas - nas redes sociais e na imprensa - denunciando casos de assédio, e o baixo nível dos comentários, críticas e insultos lançados a essas mulheres mostram bem o quanto ainda nos falta andar.  

Vamos?

publicado às 01:04

30
Abr21

Blah

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Languishing. Aprendi esta palavra há pouco tempo e acho que descreve bem aquilo por que temos passado neste último ano. Não é que se esteja doente, mas também não se pode dizer que se está propriamente saudável. "Feeling blah", diz-se em inglês. Eu costumo dizer que estou "a sentir-me nheca" mas é igual. Está tudo explicado NESTE ARTIGO do The New York Times

"The absence of well-being. You don’t have symptoms of mental illness, but you’re not the picture of mental health either. You’re not functioning at full capacity. Languishing dulls your motivation, disrupts your ability to focus, and triples the odds that you’ll cut back on work."

Portanto, é isto. 

Os dias passam, uns a seguir aos outros, e há uns bons e outros maus, e há uns melhores e outros piores, mas na verdade é tudo muito mais ou menos a mesma coisa, como se não conseguíssemos ver a tal luz no fundo do túnel e apenas nos continuássemos a empurrar pela vida porque é o que temos de fazer e vamos lá ver no que isto vai dar.

Voltamos sempre ao mesmo. É tentar não perder o pé.

Entretanto, só para constatar que nada disto é realmente novo, criei uma tag "blah" e tentei colocá-la em todos os artigos onde já falei deste assunto, mesmo antes de saber o que era o languishing

Porque a culpa é da pandemia, claro, embora não seja só da pandemia, claro. A pandemia só veio tornar tudo mais intenso. Aprofundar a solidão dos que já estavam sozinhos. Tornar clara a tristeza dos que já se sentiam tristes. Antes, era mais fácil maquilhar a vida com o frenesim do para lá e para cá e estou tão ocupada e falo com tantas pessoas todos os dias e não tenho tempo para nada. E, de repente, só nos temos a nós e à nossa casa e à nossa situação e não há como fugir. Isto e o resto, que não se pode escrever aqui, porque há falhanços que custa admitir para nós mesmos quanto mais para o mundo.

publicado às 10:51

Parece que os Óscares são já amanhã e isto este ano não está fácil: dos oito filmes nomeados na categoria de Melhor Filme vi apenas quatro.

Dos que vi:

- Os Sete de Chicago: é um bom filme e talvez Aaron Sorkin tenha uma hipótese na categoria de Argumento Original, no entanto, para mim, não seria filme para "o" Óscar (mas temos sempre que nos lembrar que filmes como O Caso Spotlight e O Discurso do Rei foram considerados os melhores do ano, portanto, nunca se sabe).

- The Sound of Metal: gostei bastante deste filme de que se tem falado tão pouco. É a história de um músico, baterista de heavy metal, que fica surdo quase de um dia para o outro, de como ele lida com a situação e de como isso muda a sua vida. O actor Riz Ahmed, que eu honestamente não conhecia, está óptimo. Não me parece que vá ganhar mas é um filme que merece a nossa atenção.

- O Pai: já conhecia a história - o Teatro Aberto apresentou esta peça há uns anos, com João Perry no papel principal - mas nem por isso me senti menos angustiada. Vemos o filme e é inevitável não nos revermos (estamos ou iremos quase todos passar por situações semelhantes). Envelhecer é uma merda, não tenhamos dúvidas. E Florian Zeller é brilhante no modo como nos dá o ponto de vista daquele homem cada vez mais afectado pelo Alzheimer (é o primeiro filme que realiza e conseguiu logo uma nomeação), belissimamente interpretado por Anthony Hopkins, sem exageros nem maneirismos, só o olhar cada vez mais baço, a confusão e o vazio a instalarem-se nos gestos e nas palavras.

- Nomadland, Sobreviver na América: foi o único que vi numa sala de cinema e penso que isso fez toda a diferença. É a história de uma mulher que perde tudo e decide viver como uma nómada, fazendo de uma carrinha a sua casa e perseguindo empregos sazonais pelos vários cantos dos Estados Unidos. Frances McDormand aguenta o filme todo. Retrato (por vezes quase documental) do falhanço da sociedade capitalista e materialista em que vivemos, é um filme tão triste quanto belo e que me fez chorar e chorar e chorar. Talvez só a natureza nos salve. Mas eu ainda acredito que o amor e a amizade são bóias de salvação que convém ter sempre à mão. 

Não vi:

- Judas and the Black Messiah

- Minari (mas já vi o trailer e estou muito curiosa, tem tudo para eu gostar)

- Uma Miúda Com Potencial

- Mank (está na Netflix há que tempos e está na minha lista "a ver" mas, vá-se lá entender, não me entusiasmou o suficiente... se, como alguns dizem, o David Fincher ganhar o Óscar de Melhor Realizador, prometo dar-lhe uma hipótese).

Para compensar este descalabro na categoria de Melhor Filme, tentei ver outros filmes que estão nomeados noutas categorias:

Já falei aqui de Pieces of a Woman que, com todos os defeitos, não é um mau filme.

Também falei de Lamento de uma América em Ruínas, de que não desgostei, apesar de ter tido péssimas críticas. Talvez valha um Óscar a Glenn Close, já não era sem tempo.

Aborreci-me de morte a ver Ma Rainey: a Mãe dos Blues. Parece que a Viola Davis é uma das favoritas ao Óscar de Melhor Atriz e que Chadwick Boseman também é capaz de ganhar, mas eu não gostei nada. Passou-me completamente ao lado.

Outro que me aborreceu foi Uma Noite em Miami. Homens a conversar. Apesar do tema do racismo me interessar, este filme não me prendeu. 

Resta-me dizer que estou decidida a ir muitas vezes ao cinema. Estou farta de ver filmes no computador e depois deste ano pandémico tenho ainda mais a certeza de que não há nada que se compare à experiência de ver um filme num grande ecrã, numa sala escura, com um bom sistema de som, e de nos deixarmos mergulhar numa história, sem distracções.

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Frances McDormand em Nomadland, o meu preferido

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publicado às 20:21

No fim-de-semana passado vi o E.T. com o Pedro. Ele nunca tinha visto, vá-se lá saber como. O E.T., de Spielberg, foi o primeiro filme que vi no cinema. Lembro-me que foi uma ocasião especial: não havia cinema na minha terra e fomos em família ao grande Pax Julia, em Beja. Não sei quantas vezes já vi este filme desde então.  E de todas as vezes derreto-me em lágrimas. Esta não foi excepção. Chorámos os dois, aliás. O Pedro chorou porque o E.T. foi apanhado, chorou por ele ir morrer, por achar que ele tinha morrido, por ele ter que partir. Perder alguém de quem gostamos é sempre um sofrimento enorme, mesmo que seja num filme, e o meu filho, tão grande que já não me cabe no colo, encolheu-se no sofá e zangou-se com o mundo e comigo, "não, não quero ver, porque é que não me avisaste?"

Claro que agora vamos passar umas semanas a ver filmes tontos com tiros e perseguições até que ele se esqueça disto, mas, pronto, acho que faz parte.

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publicado às 09:22

Devorei a terceira temporada de Shtisel, na Netflix. Ao princípio, confesso, estava um bocado céptica. Se calhar deveriam ter ficado por duas temporadas, se calhar já não vai ser tão bom, pensei. Mas não. Se nos primeiros episódios fiquei fascinada com aquele mundo dos judeus ortodoxos, tão diferente do nosso -  todas as regras, os preceitos religiosos,  as mil pequenas coisas, das roupas à comida, da língua às casas e aos sacos plásticos que eles carregam de um lado para o outro - desta vez, já nada me pareceu estranho. A verdade é que as pessoas, independentemente do sítio onde vivam e da religião que tenham, são todas muito parecidas. Todas anseiam pela felicidade e todas procuram o amor. Todos temos dificuldade em dizer adeus, seja a uma pessoa que morre ou a alguém que parte. Todos temos medo perante o desconhecido. Por isso é tão fácil identificarmo-nos com aquelas personagens. E sentirmo-nos tocados pela determinação de Ruchami, pela ingenuidade de Yosa'le, pela desorientação quase infantil de Akiva, pela força de Gitti (mesmo quando está errada), pela independência de Tovi, pela casmurrice de Shulem, pela insegurança de Racheli, pelas imperfeições de Lippe.

"Um caminho longo que é curto" é o título do sétimo episódio (talvez aquele de que gostei mais) e que tem como tema principal o coração - o real e o metafórico.

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publicado às 17:18


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