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Há 25 anos, quando estreou no Citemor o solo Os Olhos de Gulay Cabbar, Olga Roriz falava-me do envelhecimento, de como o seu corpo de bailarina estava a mudar e de que maneira isso tinha consequências na sua criação. Lembro-me dessa conversa, já tarde na noite, depois de um ensaio, num casarão em ruínas em Montemor-o-Velho. Há 25 anos, Olga Roriz era mais nova do que eu sou hoje. Há umas semanas fui vê-la em O Salvado. Outra vez sozinha em palco, ali está aquele corpo de quase 70 anos, aquela mulher inteira, que ainda dança embora já não dance como antes, exprimindo as suas preocupações, os seus devaneios, os seus pensamentos, as suas dores. O seu fantástico sentido de humor e de auto-humor. [leiam o texto da Cláudia Galhós que vale bem a pena]

Saí desse espectáculo a pensar como o tempo passa por nós e como o nosso corpo tem tantas histórias para contar, as rugas das gargalhadas, as estrias das gravidezes, as cicatrizes das operações, as marcas do sol, os quilos que ganhámos em jantares felizes e os quilos que ganhámos com os chocolates que comemos para curar as tristezas, os músculos conseguidos com sofrimento no ginásio e os músculos doloridos de carregar os bebés e as compras, os arranhões de todas as quedas que demos, até mesmo as invisíveis, está tudo ali, trazemos a nossa história connosco e não dá para fugir disto que somos, mesmo que façamos dietas e lipoaspirações, que nos mascaremos de outros, que tentemos esquecer.

Não dá para mudar o que foi, mas estamos sempre a tempo para mudar o que vai ser. Ou pelo menos, quero acreditar nisso. 

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Outras coisas de julho:

Andava há meses a segui-las no instagram mas só agora consegui, finalmente, ir a uma roda de samba do Coletivo Gira. São mulheres, são brasileiras, são feministas, são queer. Os eventos transbordam de alegria e empoderamento. Não sei sambar, mas adorei e quero voltar.

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A exposição de Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM - Centro de Arte Moderna, é muito boa. Não conhecia o trabalho desta artista brasileira mas gostei muito. É, tal como Paula Rego, uma artista que fala muito das mulheres, de forma violenta e íntima, de uma forma mais crua e mais explícita ainda do que Paula Rego. Mais em carne viva. E junta a isto uma reflexão muito interessante sobre colonialismo. Ver as obras destas duas artistas juntas faz todo o sentido. Fiz uma visita guiada e acabou por ser uma boa opção porque me levou a prestar atenção em pormenores e interpretações que de outra forma talvez me tivessem passado despercebidos.

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O mês terminou com Partes Sensíveis, um espectáulo de dança de David Marques e Nuno Pinheiro. Foi uma boa surpresa. Um espectáculo sobre a intimidade, sobre as pequenas e grandes coisas que partilhamos quando partilhamos uma casa, sobre a descoberta do outro - quando moramos com alguém é quase como se víssemos o outro através de uma lupa, descobrindo coisas que não conhecíamos, as suas características aumentadas. Estava muito muito muito calor na sala da ZDB em Marvila, mas sobrevivemos.

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Julho teve isto tudo e ainda teve uns dias de férias com momentos de cumplicidade com os miúdos, teve dias de praia e encontros bons com alguns amigos, e teve um dia muito especial em que voltei à Colónia, mas, desta vez, levei o meu pai, a minha irmã e o meu cunhado e foi tudo muito bom. Julho também teve dias de grande solidão, desalento e muitas dúvidas. Continuo à procura do equilíbrio. Não tem sido fácil. A arte ajuda, as minhas pessoas ajudam, mas não tem sido fácil. A luta continua.

publicado às 21:16

Depois de O País dos Outros, vieram Vejam Como Dançamos e, por fim, Levarei o Fogo Comigo. Ficou assim completa a trilogia de Leila Slimani. Li o segundo e o terceiro livros de seguida, sofregamente, e ao mesmo tempo desejando não acabar nunca porque sabia que me iria custar deixar aquela família e aquelas personagens, queria saber mais, o que será feito delas?, tiveram filhos? serão felizes? Ler estes livros foi como entrar num mundo diferente, como se pertencesse um pouco a esta família. É tão raro isto acontecer. Conseguir estar completamente lá.

Estes livros são inspirados na vida da autora e na sua família. Leila criou Mia e dar-lhe outro nome permite-lhe libertar-se das amarras da realidade, mas é a realidade que está na origem destes livros. Aquela é a história dos seus avós, dos seus pais, a sua história. Esta trilogia é sobre família e é sobretudo sobre as mulheres, e sobre a ideia que as mulheres têm dos homens. Mas é também sobre identidade, emigração, sentirmo-nos estrangeiros - seja uma europeia em Marrocos, seja uma marroquina na Europa. E é sobre o que levamos quando partimos e aquilo que não podemos, ou não conseguimos ou não queremos, deixar para trás.

AQUI escrevi sobre a escrita da Leila Slimani. 

Não consegui ir à sessão de apresentação, mas podem ler esta entrevista feita pela Anabela Mota Ribeiro nessa ocasião. E para conhecerem um pouco melhor a autora há também outra entrevista feita pela Isabel Lucas.

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Mulheres em Marraquexe, Marrocos, na década de 1970

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publicado às 12:49

24
Jul25

Elis & Tom

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Elis & Tom: só tinha de ser com você é uma daquelas pérolas que uma pessoa vê e apetece-lhe que não acabe nunca. Não consegui ir vê-lo ao cinema, mas vi-o agora no Filmin e estou deliciada. Aquele vídeo de Elis Regina e Tom Jobim a cantarem as Águas de Março já era um dos meus preferidos, por toda a cumplicidade que se sente entre eles, o Tom a dançar e a sorrir, a Elis mais solta do que era habitual, há ali um amor que quase conseguimos sentir na nossa pele. A canção já era incrível, mas depois de saber a história daquele encontro, tudo faz ainda mais sentido.

 

Já agora:

Ando numa fase muito light no que toca a escolhas cinematográficas (para desgraças já basta o mundo, não é?), de qualquer forma tenho visto algumas coisas bem interessantes no Filmin. Por exemplo: O Paraíso Queima, de Mika Gustafson, e O Amor Segundo Dalva, de  Emmanuelle Nicot - dois filmes sobre crianças vítimas de famílias disfuncionais, obrigadas a crescer cedo demais. Não tenho tempo para aprofundar, mas queria só deixar aqui a referência para não me esquecer deles. 

publicado às 22:49

1024 (1).jpgAlguém na CNN Portugal achou que seria boa ideia ter uma rubrica de verão onde as pessoas confessassem os seus guilty pleasures, e eu lembrei-me logo de umas três ou quatro coisas de que poderia falar. Escolhi as comédias românticas (e sei que não estou sozinha nisto). Não é bem o tipo de texto que costumo escrever no meu trabalho, mas que facilmente poderia ter escrito aqui no blog, por isso AQUI fica. Com um bocadinho de culpa, mas não muita.

publicado às 20:04

15
Jul25

Terapia

O primeiro post que aqui publiquei sobre terapia data de julho de 2008. Chama-se mesmo "Terapia" e é sobre passar a ferro. Nessa altura, eu tinha acabado de ter o meu segundo filho, a minha vida estava uma confusão e eu não tinha empregada nem tinha um minuto só para mim, mas estava muito feliz. Os momentos em que passava a ferro eram muito provavelmente dos poucos que tinha para me pensar um pouco.

Depois há outro post, com esse mesmo título, e que fala das coisas que me faziam bem em 2014: "Dançar. Sentir o sol. Os amigos. Dar abraços. Cozinhar." Que são as mesmas ainda em 2015. Nesta fase, já me tinha separado e estava sozinha com os miúdos pequenos. Foi também nesta altura que fui pela primeira a uma psiquiatra, durante algum tempo. Falei disso aqui, e fiz mais algumas breves referências, mas sem em entrar em muitos pormenores. A experiência não tinha corrido muito bem e ainda não tinha recursos para falar disso.

O primeiro post onde reflicto um pouco mais a sério sobre saúde mental é de junho de 2019. Aí, são já claras as duas interpretações que dou à palavra terapia: por um lado, o acompanhamento médico para um maior autoconhecimento e compreensão de nós mesmos, por outro, as coisas boas que temos na vida, que nos fazem felizes, que nos ajudam a levar isto. "As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar", dizia por essa altura.

A série "A felicidade nas coisas pequenas" surgiu precisamente da necessidade de lembrar a mim mesma que eu tinha (e tenho) muitos motivos para estar feliz. Mesmo quando não estou apaixonada ou mesmo quando odeio o trabalho ou os putos me fazem duvidar de tudo ou sinto que sou uma falhada, mesmo assim, há coisas boas. "A felicidade nas coisas pequenas" é também uma espécie de terapia.

A pandemia (a pandemia e o seu isolamento, a adolescência dos meus filhos, um despedimento, a doença e a morte da minha mãe, aconteceu tudo ao mesmo tempo e é a isto tudo que me refiro quando me refiro à pandemia) levou-me de volta ao consultório de um psiquiatra. Ainda tentei não perder o pé. Mas acabei por ir e foi mesmo o melhor que fiz. Não foi perfeito, nunca me consegui entregar completamente e houve temas que ficaram por abordar. Mas foi muito útil. Ajudou-me a ultrapassar algumas das minhas inseguranças e a preparar-me para uma nova fase da vida. Falei disso aqui, aqui e aqui (naquele que foi o primeiro post do largo).

Neste processo aprendi, de certa forma, a viver com os meus "altos e baixos". Criei a tag blah onde falo sobre isto porque, entretanto, também percebi que escrever sobre o que sinto, manter registos que me ajudem a entender as fases por que estou a passar e tentar organizar um discurso sobre os meus medos e tristezas, é também uma parte importante deste caminho terapêutico.

Neste momento, em que não tenho psicólogo (embora às vezes sinta que teria tanto a ganhar se conseguisse de facto dedicar-me a fazer terapia), continuo a procurar as minhas terapias quotidianas. Não tenho passado a ferro, mas continuo a achar que os momentos em que estou sozinha a fazer algum tipo de trabalho manual ou corporal (como cozinhar, tricotar, caminhar) são perfeitos para organizar as ideias. Continuo a precisar das minhas pessoas, dos abraços, das conversas, dos amigos que são casa. E a ser extremamente feliz nos momentos em que estou em paz com os meus filhos. As férias são a minha salvação periódica, embora tenha também (poucos) momentos de grande felicidade a trabalhar. Nunca mais dancei, mas tenho o yoga e o pilates. Preciso, como sempre precisei mas só há pouco tempo tive essa consciência, de desafios intelectuais. Preciso de filmes, livros, espectáculos, arte. E preciso de escrever, como parece ficar claro nisto tudo.

Esta semana, no nosso largo, deveríamos escrever sobre terapia e eu achei que ia ser fácil e depois afinal não foi porque tenho a sensação que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o tema. Ou melhor, tenho a sensação que estou sempre a falar sobre isto. Que este blog, estes textos que vou para aqui deixando, sejam sobre que tema fôr, fazem todos eles parte desta tentativa de fazer/criar sentido. Umas vezes quase consigo. Outras vezes fico frustrada. Mas sei que é tudo muito mais difícil se não tentar. Nada disto é novo, há vários psicólogos que aconselham os seus pacientes a manterem um diário ou a escreverem regularmente sobre o que sentem e o que vivem. Geralmente esses diários são privados. Este meu diário é público. Não sei se é defeito profissional ou se é só exibicionismo.

Talvez precise de fazer terapia para tentar entender esta terapia.

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Também estão em terapia:

publicado às 20:14

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Nos poucos dias de férias com os miúdos consegui ver a última temporada de The Bear. Não há muito mais que se possa dizer sobre esta série, definitivamente uma das minhas preferidas. Óptimo argumento, excelentes soluções na realização, grandes interpretações, música escolhida a dedo. Dá mesmo gosto ver uma série onde tudo é tão pensado, onde cada episódio tem uma identidade própria, não há um modelo que é preciso seguir, pelo contrário, em cada episódio procura-se a melhor forma de contar aquela parte da história. Esta quarta temporada é menos angustiante do que a terceira, menos sufocante. Continua a ser uma corrida contra o tempo, mas Carmy parece estar a avançar em alguma direcção. 

O último episódio tem um final aberto, percebia-se logo que estariam a ponderar continuar para uma quinta temporada e, entretanto, isso confirmou-se, já foi anunciado. Tenho pena. Acho mesmo que a série está bem como está, não precisava de mais. Espero que não estraguem tudo.

Entretanto, já que estava na Disney+, vi também Beth e a Vida, uma série da Amy Schumer que já tem duas temporadas. É bem fácil de ver, é uma série de comédia mas com aquele toquezinho de emoção que sempre dá para uma pessoa se comover um bocadinho. É ficção mas algumas personagens e situações são inspiradas na própria vida da actriz e argumentista (e também, ocasionalmente, realizadora). Beth é uma mulher de 40 anos, que, infeliz com a sua vida, depois da morte da mãe, decide terminar a relação, mudar de trabalho e voltar à sua casa de infância. A série conta vários episódios da vida de Beth com a irmã, os amigos, o namorado, os colegas de trabalho, tudo coisas aparentemente banais de uma vida banal, mas é mesmo dessa normalidade que eu gosto, portanto, vi os vinte episódios com grande alegria.

Já agora, aproveito para deixar aqui a referência a três séries que já vi há mais tempo mas que ainda não tinha comentado (e desde quando é que eu me tornei uma "papa-séries"? não sei, mas parece-me que não dá para desmenti-lo, está a acontecer):

We were the lucky ones (Nós tivemos sorte, também na Disney+) - acompanha uma família judia durante a Segunda Guerra Mundial. Um casal e os seus muitos filhos são separados pela guerra, enfrentam bombardeamentos, guetos, esconderijos e campos de trabalho. Não é a melhor série do mundo, mas eu adoro o tema e, portanto, vi tudo sofregamente. Ainda por cima é baseada na história de uma família real, o que é sempre um plus para quem, como eu, gosta de ir procurar as fotografias e as histórias das pessoas na internet. 

Nobody wants this (Ninguém quer isto, na Netflix) - é uma série de comédia que junta um improvável par romântico: uma agnóstica muito progressista e um rabino judeu. É divertida mas nada do outro mundo. Li críticas muito boas na altura, mas a mim pareceu-me só ok. Não fiquei fã da Kristen Bell, mas percebo que qualquer pessoa se apaixone pelo Adam Brody com a sua barba e aquele ar frágil e fofinho.

Fleishman is in trouble (Fleishman em apuros, na Disney +) - Jesse Eisenberg interpreta um médico quarentão em crise com o final do seu casamento, que se reaproxima dos amigos da faculdade ao mesmo tempo que procura aproveitar a sua nova vida de solteiro. Entretanto a mulher (interpretação de Clare Danes) desaparece e deixa-o completamente sozinho com os dois filhos. É uma série que se vê bem, com um tom de comédia mas muito certeira no retrato que faz das relações, como começam, como acabam. E tem um olhar crítico sobre a ambição e os objectivos materiais que tantas pessoas colocam para as suas vidas e que as levam a entrar numa espiral de trabalho e consumismo e aparências. O grande problema, para mim, é mesmo o Jesse Eisenberg que parece que faz sempre o mesmo papel, sempre com o mesmo tipo de interpretação (além de ter aquele ar de miúdo de 20 anos). Uma nota também para os amigos, interpretados por Lizzy Caplan (a narradora de toda a série) e Adam Brody (outra vez, mas aqui na sua versão sem barba, que não é tão interessante, convenhamos).

publicado às 18:30

12
Jul25

A vida luminosa

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A Vida Luminosa, primeira longa-metragem de ficção de João Rosas, é um filmezinho bem fofinho. Li muito boas críticas e fui aconselhada por amigos, e isso é o pior porque uma pessoa cria expectativas muito elevadas e depois acaba por sair do cinema desiludida, o que é uma injustiça. A verdade é que, apesar não o achar uma obra extraordinária, gostei bastante deste filme que tem, pelo menos, a grande qualidade de fazer um retrato da cidade de Lisboa (de uma certa Lisboa) e da juventude (de uma certa juventude). E é também para isso que serve o cinema. Existe uma familiaridade com o que nos é mostrado, aquelas ruas, aquela luz, aquelas pessoas, aquelas estações de metro, que nos dá imediatamente a sensação de estarmos em casa, de estarmos a assistir a um bocado do quotidiano da cidade. O protagonista, Nicolau, tem 24 anos e é um jovem que anda de bicicleta, toca baixo num grupo com amigos, usa camisolas às riscas, frequenta a Cinemateca e circula em cafés e bares nas redondezas da Almirante Reis. Não sei se com esta descriçao conseguem imaginar, mas, para mim, é muito claro de que jovens estamos a falar. Se há palavra que descreve bem Nicolau e os amigos é precariedade. Mas não num mau sentido. Estão a crescer sem compromissos. Ao contrário do que acontecia há 30 anos, em que os jovens eram pressionados para tomar decisões definitivas, escolher a profissão para a vida, comprar uma casa, casar, "assentar" como então se dizia, estes jovens do século XXI vivem no presente. Não têm pressa em criar raízes. Vão e vêm, são estudantes de Erasmus ou nómadas digitais, podem viver em Portugal ou noutro país qualquer, podem viver agora num sítio e no próximo mês estar noutra cidade. E está tudo bem. Nicolau não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Não tem qualquer pespectiva de carreira, mas arranja um emprego numa livraria. Depois de um ano a sofrer por uma relação que terminou, começa a interessar-se por outras pessoas. E sai de casa dos pais para morar num casa partilhada com outros jovens. Está naquele momento da vida em que tudo é possível, as portas estão todas abertas e o mais importante é experimentar e ir procurando a felicidade. Depois logo se vê. Conheço alguns jovens assim e é muito giro vê-los retratados num filme tão realista.

Não gostei particularmente da interpretação do actor Francisco Melo. Todos os outros actores são muito naturais, credíveis. Nicolau pareceu-me apático, curvado, pouco natural. Mas também pode ser, como me disse a amiga que se sentou ao meu lado no cinema, que seja assim de propósito, pois o Nicolau acumula frustrações e precisava mesmo de um abanão na sua vida.

Seja como for, acho que vale bem uma ida ao cinema. 

Se quiserem saber mais, podem ler uma entrevista ao realizador. E um texto sobre o filme.

Lembrei-me do Baan, de Leonor Teles. 

 

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publicado às 13:25

04
Jul25

Salvação

Felizmente, de vez em quando, podemos pôr a vida em pausa. Ter esse privilégio, poder sair de casa e da rotina, desligar o telefone (mais ou menos), não ver notícias, ignorar o mundo, cumprir só o minímo das obrigações. Não é preciso ir longe, não é preciso ter luxos. Só é preciso ter paz. Estes dias, mesmo com a amigdalite do Pedro, mesmo com o António a trabalhar, mesmo com a roupa para lavar e o almoço para fazer, são a minha salvação. Estes dias, e todos os outros dias de férias, são o que me permite continuar.

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Estou meia desligada esta semana. Mas no largo estamos à procura da salvação:

publicado às 10:56

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No espaço de uma semana fui ver dois espectáculos sobre isto de se querer ter ou não filhos, o que muda nas nossas vidas, se estamos mesmo dispostos a isso e que expectativas temos. Na semana passada vi Corre, Bebé, de Ary Zara e Gaya de Medeiros (na foto), e ontem fui ver Começar Tudo Outra Vez, de Raquel André e Tonan Quito. Apesar de partirem do mesmo sítio - um casal de artistas que equaciona engravidar - e de percorrerem caminhos semelhantes, os dois espectáculos são bastante diferentes na sua forma. Corre, Bebé é mais abstracto e com uma maior componente de fisicalidade. Começar Tudo Outra Vez junta os universos da Raquel e do Tonan - ela mais ligada à realidade, fazendo entrevistas para procurar histórias reais, recorrendo ao vídeo; ele trazendo a sua formação de actor e os textos clássicos, de Sófocles, Shapeare ou Tchekhov. Foram duas experiências muito distintas mas que me deixaram feliz. Este é um tema de que gosto muito e que raramente é posto em palco, e não deixa de ser curioso que surjam na mesma altura, trazendo para a luz os problemas que as novas gerações enfrentam. No caso de Ary e Gaya, duas pessoas trans, as questões ligadas à paternidade/maternidade são bastante complexas, e só poder falar disto assim já é uma vitória. Mas, na verdade, são um casal como qualquer outro, a tentar perceber se quer ou não embarcar nesta viagem. No espectáculo da Raquel e do Tonan é impossível não nos comovermos com as histórias das famílias deles (que são as histórias de muitas famílias) e é muito engraçado ver como tem mudado a nossa percepção sobre o parto, o papel do pai ou a figura da madrasta.

Existe aquela famosa frase do Tolstoi, que toda a gente cita quando fala de famílias e eu também o vou fazer, que diz que "todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". No final destes dois espectáculos, fica mais forte a convicção de que uma família para ser feliz, seja em que configuração for, tem de ser um sinónimo de amor, sempre, mais do que de sangue. 

*

Aconteceu outra coisa engraçada, que foi, em cada noite, encontrar pessoas que conheci há muito tempo e que me deram saudades daquela altura em que o meu trabalho me levava tantas vezes ao teatro e, por causa disso, decidi voltar à faculdade e fazer estudos de teatro, para ter mais ferramentas. Foi uma fase muito boa, em que conheci tanta gente, participei em conversas interessantes, li textos estimulantes. Era quase como se sentisse o meu pensamento a expandir-se, sabem? Parece que foi noutra vida. Entretanto, eu fui-me afastando desse mundo, arrastada pela vida. E de então para cá, também deixou de existir crítica de teatro, fosse na imprensa ou noutras publicações ou sites. Foi como se as redes sociais tivessem aniquilado qualquer hipótese de reflexão e não conseguíssemos ir mais além do gostei ou não gostei (que é o que eu faço aqui). Claro que há muita gente a reflectir, mas essa reflexão dificilmente chega ao público em geral - e eu hoje sou do público em geral e tenho saudades disso.

Para contrariar o que acabei de dizer:

O Tiago Bartolomeu Costa voltou a escrever sobre teatro, agora no Comunidade Cultura e Arte. O Tiago, que conheci nos tempos do blog O Melhor Anjo, está longe de ser uma pessoa consensual, mas é uma pessoa que pensa e que, com os seus textos, me dá sempre algo para pensar. É o que se quer de uma crítica, afinal. 

A minha querida professora Maria João Brilhante (uma das minhas queridas professoras e professores, não quero ser injusta), que agora já se reformou, falou-me do seu último projeto, uma investigação sobre arquivos de companhia de teatro - que está disponível AQUI. Ainda tenho que explorar isto melhor, mas, num tempo tão fugaz e em que tudo é descartável, acho mesmo importante este trabalho sobre o arquivo e a memória.

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publicado às 12:21

Há sempre alguém que diz: "Isso não é verdade, tu é que ainda não provaste uma cerveja como deve ser". Entao, dão-me a provar marcas diferentes e insistem em levar-me a um desses sítios trendy de cerveja artesanal. "Tu vais ver". Eu vou. Já experimentei cerveja portuguesa, belga, alemã e de outras nacionalidades, com marcas com nomes esquisitos, com sabor a frutos, a flores, a caramelo, mais ácida ou mais doce, com mais ou menos espuma, mais ou menos pressão. Odeios todas. O sabor repugna-me. Fico mal disposta só de bebericar. No fim do jantar ou do que seja, o copo continua quase cheio e as pessoas concluem "não gostas mesmo de cerveja, pois não?". Algumas olham para mim com pena, só lhes faltam verbalizar um "coitadinha". Coitadinha de mim que nunca vou saber o que é a alegria de beber uma cerveja gelada num dia de calor, o prazer de saborear uma imperial acompanhada de tremoços ou de caracóis, como é bom abancar numa esplanada depois de um dia de trabalho ou de praia e ter sempre um copo cheio à minha frente, porque há sempre alguém que pede mais uma rodada: "Imperiais para todos?". Sim, eu só aquela pessoa chata que levanta a mão e diz "para mim não, obrigada". Mas fiquem tranquilos e nada temam, sei que é difícil, mas alguém tem ajudar os produtores de vinho branco.

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Esta semana há "bejecas" no largo, vão lá provar:

publicado às 16:02


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