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Dei por mim sentada numa toalha na praia num daqueles fins de tarde absolutamente espectaculares, com o sol à temperatura certa a tocar-me na pele, sem vento, sem preocupações, com um livro na mão e as gargalhadas dos miúdos, felicíssimos, em brincadeiras dentro e fora da água. E pensei: tenho tanta sorte. Tenho mesmo. É que dificilmente poderia ser melhor do que isto. Claro que poderíamos estar num país exótico qualquer ou poderíamos ter dinheiro para ficar num hotel ou para ir todos os dias comer em restaurantes e não teria que cozinhar ou poderíamos não sei quê. Mas eu não fico a pensar no que poderia ser. O que faço é olhar para aquilo que temos e perceber como, dadas as condições actuais, isto é o melhor que poderíamos ter. Melhor até do que seria de esperar.
Tenho esta sorte de ter sítios-que-são-como-a-minha-casa no Alentejo e no Algarve. A minha família que nos recebe sempre com comidas boas e boa disposição. Aquele calor abrasador, 36º a meio da tarde, que me leva de volta aos longos verões da infância. Os putos já crescidos e que não dão assim tanto trabalho. E desta vez levámos o primo connosco para uns dias de praia e foi ainda melhor porque eles puderam brincar e conversar e passear e divertir-se todos, muito autónomos - o Pedro ainda tem de crescer um bocadinho mas estamos a chegar àquela fase em que eles já quase conseguem resolver os seus conflitos sem a minha interferência e querem estar lá no mundo deles, os mais velhos a ver as miúdas de biquini e a ter as suas conversas parvas, sem precisarem de mim para se entreterem. E, acreditem, eu consegui realmente descansar. Descansar a cabeça de tudo. Fiquei cinco dias sem ter uma conversa com um adulto, o que poderia ter sido um problema mas até isso acabou por ser bom.
Agora é só aguentar um bocadinho até às próximas férias.
E vejam só como eles cresceram:
Monte Clérigo, setembro de 2010
Praia da Luz, julho de 2016
(sim, a blusa que o Alex tem na foto em cima é a mesma que o António tem na foto em baixo, mas na verdade ela agora até já pertence ao Pedro. adoro estes pormenores)
Os rapazes voltaram para casa. Abraçámo-nos tanto. Lanchámos torradas enquanto víamos o filme do Ronaldo. O Pedro montou o comboio no corredor. Arrumaram as mochilas para a escola. Cortei o dedo a fazer o jantar e acabei por não fazer a sopa. Na falta das minhas avós, aprendi com as senhoras brasileiras do youtube a fazer ponto meia. O António não conseguia dormir e pôs-se ao meu lado no sofá, embrulhado numa manta, a ajudar-me a contar as malhas. E a conversarmos sobre angústias várias. Lá consegui construir um pequeno gorro de bebé. Os acabamentos estão péssimos, vou ter de fazer outro se quero oferecê-lo à bebé-amiga que aí vem. O António conseguiu dormir, finalmente. Já pus o despertador. Vai ser difícil acordar cedo amanhã. E no entanto esta sensação de que tudo está no lugar certo.
Tirámos um dia para nós. Esquecemo-nos, por momentos, que ainda faltam dois testes para cada um. Tirámos um dia para nós. Para um jogo de futebol logo pela manhã. Um almoço de hamburgueres numa esplanada. Voltar a mergulhar na magia do oceanário (gostamos de todos os animais, mas não resistimos às lontras). Sem pressas. Sem stress. Brincar junto ao rio. Deixarmo-nos guiar pelo cheiro das farturas. Andar de carrinhos de choque. Voltar para casa já de noite mas ainda a tempo de eles aproveitarem a playstation. Aterrarmos juntos no sofá. Tirámos um dia para nós.
Só os três.
Não vai haver outro dia assim em dezembro, com tudo o que isso tem de bom e de mau.
Os meus amigos, cozinhar, dançar, dar abraços, o sol, mesmo que em doses pequenas e mesmo com frio. A terapia do costume. É preciso tão pouco para ser feliz (apesar de pelo meio haver quilos de trabalhos de casa).
"Sorrisos" na piscina da praia das Maçãs. Meia Praia. Prendas. Um dia nos insufláveis. Com amigos até ao pôr do sol na praia do Barril. Bodyboard na praia da minha infância. Voar. O livro que ando a ler. O António ajuda a fazer o jantar (num dia quase perfeito). Jogos ao serão. Piscina da praia do Carvalhal na perspectiva do Pedro. Enfrentar o mar na Zambujeira. Com mais amigos nos Alteirinhos. E o resto que não ficou guardado na máquina fotográfica. Durante quase três semanas vivemos numa bolha de felicidade e água salgada. E hoje voltámos a casa.
Ficar à janela a vê-lo ir sozinho para a escola.
(no início do ano lectivo, tínhamos falado sobre isto: na primavera já vais conseguir, vais ver, disse-lhe eu. vê-los crescer é das coisas mais fantásticas do mundo)
Nunca pintei o cabelo. Houve uma altura, na faculdade, em que me apeteceu muito pintar o cabelo, queria pintá-lo de azul, de vermelho, de alguma cor assim diferente, mas nunca tive coragem. Depois passou. Nunca pintei o cabelo, mas tenho outras pequenas loucuras para pôr no curriculum. Não temos todos?
(correr do trabalho para o teatro) Sair do teatro reconfortada, com aquela sensação de que tinha participado num momento especial. Encontrar ali mesmo, por acaso, uma amiga querida, partilhar uma tosta de atum e beber um copo de vinho na Bica enquanto converso e rio com a Clara como fazíamos há 14 anos e ainda tínhamos tantas ilusões. Descer a rua para ir ter com o meu abraço. Dançar ao som dos Cure e dos Smiths e dos outros. Sorrir até me doerem as bochechas. Dormir pouco. Acordar cansada e pensar que a vida é boa. (sair de casa a correr para trabalhar)