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As aulas do meu filho mais velho, que está no 10º ano, têm sido TODAS assim:

Os professores mandam lindas mensagens, na classroom ou no mail, a anunciar bom dia, meus queridos hoje vamos estudar *qualquer coisa*, vejam por favor o manual da página x à página y. Depois, no dia seguinte, perguntam: já leram? têm dúvidas? Resolvam agora os exercícios da página z. E há uns que mandam mais uns power point ou uns pdf. E no dia seguinte mandam uma ficha ou um questionário ou outra coisa qualquer para eles fazerem e mostrarem que estão a acompanhar. E depois concluem: muito bem, agora que já terminámos esta unidade, vamos avançar para a unidade seguinte.

Juro. 

É isto.

E com este método fantástico os miúdos já deram a guerra entre absolutistas e liberais e estão agora a dar o setembrismo e o Costa Cabral (em História), também já deram montes de coisas sobre a inflacção, em Economia, e agora estão a dar "A atividade produtiva e a formação dos rendimentos; Rendimento e valor acrescentado. A repartição funcional dos rendimentos. A remuneração do trabalho. O salário. A remuneração do capital – renda, juro e lucro. Rendimentos primários e seus destinatários." (estou a copiar o sumário de uma das aulas); em Filosofia tem sido um ver-se-te-avias  com direito, ética e política, Kant e John Stuart Mill, e agora belos textos sobre o contratualismo e o naturalismo. E por aí fora. 

Tudo coisas simples, como se vê. Tudo assim, com textos que, como devem imaginar, todos os alunos lêem com a maior das atenções e todos entendem, claro. Raramente há alunos a dizer que têm dúvidas. Imagine-se. E os professores acham isto normal. Já leram? Óptimo. Se não leram, paciência. Avançamos. Sem explicações, sem debate, sem cá conversas, que os professores servem é para dar textos e material de apoio, não sabiam? Pois, eu também não.

Quantos alunos vão efectivamente aprender alguma coisa? Três ou quatro em cada turma? Provavelmente só aqueles bons alunos que se interessam realmente pela escola e que têm objectivos definidos. Muitos deles neste momento já desistiram de acompanhar. E a grande maioria está a cumprir os mínimos, a ler os textos na diagonal, a responder mal e porcamente aos questionários, a dizer "bom dia, professora" para marcar o ponto virtual ao mesmo tempo que diz piadas no chat da turma no WhatsApp.

Se já antes era complicado, agora então é ainda mais difícil ensinar o que quer que seja. Se já antes, eu tinha dúvidas (mil dúvidas) sobre esta escola que temos, agora eu já não tenho dúvidas, tenho certezas.

Repito as palavras que escrevi no outro dia e vou repeti-las as vezes que forem necessárias:

Na escola da pandemia, o importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.

Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.

É uma palhaçada. 

publicado às 11:09


1 comentário

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Mafalda 14.05.2020

Sou estudante do secundário, vou ter exames este ano e não podia discordar mais. Compreendo a frustração de quem está desse lado, se as minhas aulas fossem assim dava em louca mas o nosso sistema educacional está a anos luz dos outros países.
Tenho tido aulas online, professores incansáveis que nos mandam material sim, mas que tiram dúvidas, tiram tempo do tempo em que não era suposto estarem sequer a dar aulas para nos educar. A situação não é a melhor mas sinto um esforço tremendo do outro lado.
Há uns dias falei com uma amiga na alemanha, lá, onde a quarentena começou há mais tempo a única forma de comunicar com alunos é email, não há videochamadas, não há telescola, não há sequer aplicações a ser utilizadas como o Zoom ou classroom.
Acho que devia sim lutar pela educação do seu filho, porque acho que é importante, e é verdade que nem toda a gente tem o privilégo de ter professores como os meus. No entanto não sinto que generalizar o problema ao ensino a Portugal seja correto.

Beijinho

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