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A professora de matemática do meu filho que está no 6º ano dá, todas as semanas, cinco aulas de 45 minutos cada. Duas síncronas (ou seja, em videochamada) e três assíncronas (ou seja, trabalho autónomo dos miúdos em casa).

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Vocês já experimentaram assistir a uma das aulas síncronas dos vossos filhos? Eu evito. Porque é penoso. Há sempre algum miúdo que não ouviu ou que está distraído ou que não tem rede ou qualquer coisa. O meu filho, por exemplo, distrai-se com uma mosca. Às vezes, entro na sala, e ele está ali, de phones nos ouvidos, muito quieto, mas com o olhar perdido no horizonte. Completamente a leste. Imagino que na sala de aula também seja assim, com a diferença que aqui ou sou eu ou não há ninguém que o traga de volta à realidade. A professora, coitada, dá o seu melhor. Apresenta uns powerpoint ou mostra uns vídeos, lá explica a matéria, dá uns exemplos, sempre a ser interrompida, ò professora, não ouvi, ò setôra, pode repetir?, ò professora, o não sei quantos tem o microfone ligado. Se se aproveitarem 20 minutos da aula já é bom. Tempo em que estão a dar matéria nova - claro. Todas as aulas há matéria nova.

Depois, fazer exercícios, praticar e consolidar tem de ser nas tais aulas assíncronas. Ora bem, são miúdos de 12 anos. Estão a imaginá-los a trabalhar sozinhos, concentrados, durante 45 minutos? (45 minutos para esta disciplina mais 45 para outra e mais 45 para outra...) Não sei como são os vossos, mas o meu e outros que conheço têm muita dificuldade nisto. E o mais provável é que em vez de 45 minutos demorem uma hora e meia a fazer o que tem de ser feito (ou desistir a meio). Tem de haver um adulto por perto que diga, vá, fica sentado, vá, lê lá o exercício, vá, agora presta atenção. Portanto, mesmo que o trabalho em si seja autónomo e o miúdo faça tudo sozinho, precisa de um "capataz" - esta é uma das minhas funções neste sistema de telescola.

Superado este problema, vem o problema seguinte. Há matérias que são mais simples, outras mais complexas. Escolhi o exemplo da matemática porque me parece ser das mais complicadas para se estudar sozinho. Porque para eles trabalharem autonomamente têm de ler o manual e entender o que está lá escrito. Ora ler os manuais de matemática é uma tarefa árdua. Vejam só:

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A matéria em si não é extraordinariamente complexa. E eu nem sequer estou a dizer que os manuais são maus. Estou só a dizer que não são feitos para serem lidos autonomamente por miúdos de 12 anos. O mais provável é que os miúdos leiam isto e lhes pareça chinês e desistam. Portanto, mais uma vez, é preciso um adulto que, mesmo que não seja barra a matemática, perca uns minutos a olhar para estas páginas e a decifrar o que ali está escrito para depois explicar ao aluno. Sim, ler e "traduzir" manuais e explicar as matérias é outra das minhas funções por estes dias. 

Matéria entendida, passamos aos exercícios. Ali está o puto a fazer contas com mais e menos, números inteiros e fracções, parêntesis curvos e retos e de valores absolutos (estes só aprendi este ano, nunca é tarde para aprender coisas novas) e depois vai ver as soluções porque tudo é feito em sistema de autocorrecção, o que também é uma coisa que resulta muito bem com os miúdos desta idade. Se calha de o exercício estar certo, óptimo. Se estiver errado... ora bem, é preciso ir ver toda a operação até encontrar o erro, que pode ser só um sinal errado, uma coisa de nada que estragou tudo. Mas a questão é: quem é que acham que faz isso? Os putos? Não, claro. São os pais. Assim como são os pais que pegam em todas as "propostas de resolução" de todos os trabalhos que todos os professores mandam e vão verificar se o trabalho dos seus filhos está certo ou errado. Eu percebo, claro, os professores não têm capacidade para corrigir individualmente aquela quantidade enorme de trabalho que pedem aos alunos (que, se fosse feito em sala de aula, seria corrigido no quadro), mas alguém tem de o fazer, ou acham mesmo que são os alunos que autocorrigem todos os seus trabalhos? Corrigir os trabalhos, chamar a atenção do puto para os erros que fez e explicar-lhe como fazer bem é também minha função neste sistema.

Isto digo eu do meu lugar de mãe privilegiada que (1) graças ao layoff (todas as coisas más têm um lado bom) tem tempo para acompanhar os trabalhos do seu filho mais novo e (2) tem estudos e capacidade para ajudar com alguma facilidade. É preciso nunca esquecer que há pais que não têm estas condições e que, só por isso, esses alunos já estão em desvantagem neste sistema.

Mas nem tudo são más notícias. O Pedro informou-me esta semana que já chegaram ao último capítulo do manual de matemática e que, portanto, vão conseguir dar a matéria toda. Em história e ciências também vão lançados, quase, quase nas últimas páginas. Não se preocupem. No final do ano, os relatórios dos professores vão ser maravilhosos, com todas as metas curriculares cumpridas, e os senhores do ministério podem fazer "check" nos seus objectivos.

Os pais, esses, vão dar em malucos. Mas isso não interessa nada.

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publicado às 15:17


2 comentários

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Maribel Maia 05.06.2020

O ensino atual (em tempo de pandemia) deixa-me aflita.... percebo que, em tão pouco tempo, não se consiga fazer melhor... mas tenho receio que assim permaneça...
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marina malheiro 06.06.2020

Os pais e os pais-professores também, que também os há.
Ainda bem que está a correr como um remendo educativo. A escola tem de ser presencial, nem que seja em semanas alternadas. Este EAD é um cansaço.
Só faltam 20 dias... ufa.
MM

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