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"Nestes tempos de mercantilização de cada recanto da nossa existência, da precarização, da desconexão com o que está à nossa volta, sentados, diante da TV, olhando também para o telemóvel e o computador, as pequenas alegrias do quotidiano, aqueles momentos de sentidos imensamente despertos, são essenciais.

Mas até isso se pode dissolver, adormecidos que estamos, sem percebermos que esses instantes não virão até nós por acaso. Temos que reconhecê-los para ficarem connosco. Coisas sem importância, mas que por vezes nos reconciliam com isto. Uma boa conversa. O primeiro gole de cerveja ao final da tarde. Ir para a cama sem despertador. Aquela sessão de dança. O beijo na filha de quatro anos. Rirmos sem sentido aparente. Tirar os sapatos depois de um dia duro. O cheiro de pão acabado de fazer. Apanhar um taxista calmo. O odor a terra molhada depois de uma tempestade de Verão. Um duche com música que apetece cantar. Uma declaração de amor de alguém que também se ama. Entrar na cama com lençóis lavados. Andar de mão dada na rua. Um verdadeiro e prolongado abraço. À janela, com tempo, vendo as vidas passar.

Pensar na sociedade como uma grande família em que não se compete pela sobrevivência e onde todos têm as necessidades básicas garantidas. Ter tempo. Resistir ao ruído permanente. Imaginar, viajando, existindo. Às vezes é apenas isso. Andamos em círculos, em círculos, em círculos, à procura, e está tudo aqui."

O Vítor Belanciano a dizer verdades na sua última crónica intitulada "Sem os outros somos menos que nada" (só o nome é lindo). Verdades óbvias mas tantas vezes esquecidas - até por mim, que ando há anos a apregoar "a felicidade nas coisas pequenas" (e já vamos no capítulo XXXVII).

A felicidade também pode ser só isto: encontrar um texto que nos faz parar e pensar. 

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publicado às 20:24


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