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Foi logo na segunda-feira. O ministro da educação avisou os professores de que as escolas fechavam mas eles não estavam de férias (deus nos livre de antecipar as férias da páscoa duas semanas, os calões dos alunos e dos professores iam-se ficar a rir de nós, não podemos deixar que isso aconteça), e os professores, obedientes, desataram a mandar mails para os pais, trabalhos para os alunos, fichas disto e daquilo, indicações para irmos à escola virtual e à google classroom e até, claro, a marcar avaliações, porque o país pode estar a entrar em estado de emergência mas ai jesus se não se fazem as avaliações que, como toda a gente sabe, é o grande objectivo do ensino em Portugal.

Antes de mais, quero deixar claro: eu não sou contra o ensino à distância nem o uso das novas tecnologias no ensino. Nada disso. Se é assim que tem de ser, vamos fazê-lo.

Mas vamos fazê-lo como deve ser. Não podemos ter num dia uma escola do século XIX, com turmas de 30 meninos obedientes, sentados a ouvir o mestre e a decorar matérias para fazerem exames e, no dia seguinte, uma escola moderna, com miúdos muito autónomos em suas casas a terem aulas virtuais e a estudarem sozinhos, felizes e contentes. Não é possível. Ou melhor, será possível para meia dúzia, mas não para a grande maioria.

A escola pública à distância precisa de condições - tecnológicas, mas não só. Precisa de novos métodos de ensino e novos materiais. Precisa que as famílias percebam como é que vai acontecer e como podem colaborar. Que se estabeleçam regras, orientações, metas. E que os alunos aprendam a ser alunos de uma maneira diferente. E isto leva tempo. Exige uma orientação superior e uma uniformização, ou corremos o risco de aprofundar ainda mais as diferenças sócio-económicas que já existiam antes.

Mas vamos por partes.

Os computadores.
Não estou a ver como será possível ter um ensino à distância sem computadores. Há os tablets e os telemóveis, certo. Todos podem assistir a aulas virtuais num telemóvel. Mas para fazer pesquisas e trabalhos, para escrever é preciso um computador. Nem todas as casas têm computador e, mesmo que tenham, é preciso ter em conta que há pais que precisam do computador para teletrabalhar e há famílias com vários filhos. Podemos estabelecer horários (como eu estou a fazer) mas se isto for para continuar não vai ser fácil. E não temos impressora, por exemplo. Quantas pessoas têm impressora em casa?

O básico: comunicação e orientação.
Ora bem, há os alunos que se interessam e os que não se interessam, há os pais que acompanham geralmente a escola dos filhos e o que não sabem quando é que eles têm testes. Sempre foi assim. A obrigatoriedade de ir à escola atenua (em parte) estas diferenças. Mas se mandam os miúdos para casa e, de um dia para o outro, sem qualquer informação prévia, os professores começam a fazer exigências aleatórias, sem se perceber bem o que está a acontecer, ora mandando mails aos pais, ora falando diretamente com os alunos, oram mandando fichas, ora pedindo vídeos, como garantir que a informação chega ao seu destino, que todos sabem o que está a ser feito, que estamos todos a remar para o mesmo lado? Se nem sequer os professores da mesma escola (nem sequer os da mesma turma) estão a trabalhar em conjunto, como garantir que todas as escolas estão a fazer o mesmo? E como garantir que se chega a todos os alunos? Há pais quem nem falam português, há pais que não têm mail, há casas onde não há internet. Há miúdos que recebem o trabalho e vão fazê-lo a correr, há outros que vão pura e simplesmente ignorar os trabalhos, outros que vão fazê-los contrariados depois de um raspanete dos pais. A gente zanga-se e insiste, temos que cumprir as nossas responsabilidades, explicamos. Mas afinal estes trabalhos servem para quê?, perguntam eles, e muito bem. Alguém explica? Vai ser assim o resto do ano? Os trabalhos são obrigatórios ou só para matar o tempo? Isto conta para a nota? É óbvio que não estando acautelado o princípio de igualdade não pode contar para a nota, mas se não conta para a nota como é que se convence os alunos mais preguiçosos a trabalhar? Ajudem-nos aqui, professores, há pais que até querem colaborar mas assim fica complicado.

Cada casa é diferente.
Além das habituais diferenças sócio-económicas, esta situação cria novas desigualdades. Há famílias onde só há uma criança, há famílias com três ou quatro ou mais crianças. Há famílias em que só há um adulto. Há pais que estão em casa sem trabalhar e que têm como principal tarefa nesta quarentena cuidar da sua família e da casa e da sanidade mental de todos. Já não é pouco, diria eu. Há pais que estão em tele-trabalho e que, a juntar ao anterior, ainda têm o stress de trabalhar a partir de casa. E depois há pais que continuam a trabalhar na rua, a sair todos os dias. Enquanto isso, os miúdos ficam sozinhos em casa ou estão com familiares. Conseguem imaginar o grau de ansiedade destas famílias? O caos que é a sua vida por estes dias? Mesmo que sejam miúdos atinados, mesmo que sejam pais dedicados. 

Os miúdos precisam dos pais para estudar?
Os miúdos têm idades e necessidades diferentes. Os mais pequenos precisam de acompanhamento e de ajuda, agora e depois - até mesmo no tempo da tele-escola, se bem se lembram, havia um professor que, depois de desligada a televisão, acompanhava o trabalho na sala de aula. Mas não só nem todos os pais têm disponibilidade para o fazer como nem todos têm a capacidade. Uma coisa é ensino à distância, outra é ensino doméstico. Não temos de ser todos professores dos nosso filhos (digo-o convictamente, apesar de eu até ser uma daquelas mães que ajuda os filhos a estudar quando é preciso e, se tivesse tempo, juro que seria mais presente). E os mais crescidos também precisam de ajuda, pelo menos numa primeira fase. Porque nem todos são assim tão autónomos nem tão responsáveis e porque é preciso aprender a trabalhar de maneira diferente. Mesmo. Ter método. Ter um horário. Ter um espaço de trabalho. Isto não é só juntar água e está pronto.

Os professores estão preparados?
Uns estarão, a maioria não. As aulas virtuais não podem ser iguais às aulas presenciais. Não podem ter a mesma duração nem podemos exigir que eles fiquem uma manhã inteira a olhar para o computador. E os materiais terão de ser diferentes (aconselho-vos a pegarem nos manuais dos vossos filhos e a lerem aquilo com atenção, são na sua maioria incompreensíveis). Se isto é para durar, tudo terá de ser diferente. As exigências terão de ser diferentes. Provavelmente os alunos nem conseguirão estudar tantas disciplinas nem irão cumprir as metas curriculares (e agora? será o caos e o horror e a tragédia. lol)

E o mais importante de tudo: é preciso ser razoável.
O país está parado, o mundo está parado. Estamos todos à espera de ver o que vai acontecer. Estamos a viver uma crise de saúde pública sem precedentes. Isto nunca aconteceu antes. E mais. Há famílias que estão a passar por enormes dificuldades nesta altura - e vai piorar. Pessoas que estão sem ordenado, que não sabem como vão sobreviver no próximo mês. As famílias estão fechadas em casa, sem sair à rua, os miúdos não podem brincar com os seus amigos, os pais estão a ficar deprimidos. Isto não é uma situação normal. Porque é que é assim tão importante que, nestas semanas de absoluto caos, os miúdos continuem a fazer fichas sobre verbos e a estudar as equações? 
Sou completamente a favor de ir dando alguns trabalhos aos alunos que os possam e queiram fazer. Ok, não conseguimos ir todos mas vamos tentar que o máximo de miúdos se junte a isto. Já sabemos que as elites estão mais bem preparadas para fazer face a este novo desafio mas vamos tentar que o fosso para com o resto da malta não seja ainda maior. Vamos tentar levar isto com alguma leveza, sim? Gostava que os professores se organizassem entre si e que pedissem trabalhos diferentes, talvez juntando matérias de várias disciplinas. Sejam imaginativos. Seria mais divertido para todos. Gostava que estes trabalhos servissem mais para estimular os alunos. Para os manter em contacto com a escola e com os colegas. Neste momento de tensão, isso seria uma ajuda aos pais.
E, por favor, parem de se preocupar com a avaliação. Estamos proibidos de sair de casa para ir ao café, e todos sabemos que a normalidade não vai voltar tão cedo. Acham mesmo que é agora o momento de marcar testes?

publicado às 15:21


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