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No meu perfil do Tinder (nas fases, raras, em que tenho o perfil do Tinder activo), em vez de uma auto-descrição tenho um excerto de uma canção do Chico, que está identificado como autor assim mesmo, (Chico), entre parêntesis. Vamos deixar para lá o porquê de eu não saber auto-descrever-me e vamos concentrar-nos nisto: um dia, um tal de Pedro, que até tinha bom ar e uma auto-descrição catita, mandou-me uma mensagem em que tentava meter conversa: "olá, quem é o Chico?". Fui incapaz de lhe responder. Dir-me-ão que é um pouco de soberba da minha parte. De preconceito, até. Será. Mas é o que temos. Não lhe exigiria que conhecesse a música, que até nem é das mais óbvias (se bem que pode consultar o amigo google e fazer boa figura, não é?, sempre mostra um esforço), mas não saber quem é o Chico é too much. Não consigo lidar.

Lembrei-me desta história porque estive a ver o documentário sobre Chico Buarque que está na Netflix e pensei que é incrível como mesmo sendo um documentário fraquinho, sem qualquer rasgo e até com alguns defeitozitos técnicos que me parecem inadmissíveis, até mesmo com aquelas versões absolutamente dispensáveis interpretadas por outros cantores, é impossível não nos deliciarmos a ver um documentário com o Chico. Ele é lindo, novo ou velho, a cores ou a preto e branco, e até de bigode, o que é difícil. E é um encanto ouvi-lo, contar aquelas histórias, rir-se de si mesmo, mostrar uma humildade desarmante, perceber-lhe as ideias, invejar-lhe a liberdade. Isto sem falar das canções, claro.

Esta, por exemplo, que eu já não ouvia há tanto tempo e é extraordinário como continuo a sabê-la de cor e a emocionar-me com cada palavra, como quando a ouvi pela primeira vez, era ainda uma adolescente e chorava sozinha, às escuras na sala, com os discos de vinil do meu pai.

Conclusão da história: o Chico Buarque faz-nos bem, quem o ouve é mais feliz, e até pode valer um engate, por isso, homens deste mundo, vão lá ouvir o Chico e, por favor, evitem dizer coisas como "eu também gosto muito de música, gosto do João Pedro Pais, conheces?" (true story, juro).

E ainda, só por curiosidade: aos 77 anos, Chico Buarque vai casar-se com Carol Proner, de 47. Acho lindo. E, depois, não digam que não acreditam em histórias de amor.

publicado às 20:59


1 comentário

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mitologia 02.09.2021

É, de facto, "um pouco de soberba", porque supõe que todas as pessoas sabem as mesmas coisas e as sabem da mesma forma. Seria o mesmo que criarmos uma conta no Tinder, inserirmos lá uma citação de Dante, e.g. parte do episódio de Ugolino della Gherardesca na Comédia, e depois acharmos estranho que ninguém saiba nada do tema - e, garantimos com toda a certeza do mundo, que mais gente conhece Dante Alighieri do que conhece Chico Buarque.

Se tivesse colocado na citação "Chico Buarque", é provável que as pessoas conhecessem. Que soubessem do que fala. Mas "Chico" seria o mesmo que dizermos "Alighieri", é uma menção incompleta.

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