Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Quando entrei em layoff, despedi a empregada, que vinha cá a casa fazer magia uma vez por semana. Desde então, sou eu (com alguma - pouca - ajuda dos rapazes) que trato de tudo, da roupa para passar à limpeza das casas-de-banho. Entretanto, o layoff acabou mas por causa das coisas que se sabe (e sobretudo das coisas que ainda não se sabe) continuo sem empregada. O layoff acabou e voltei a trabalhar todos os dias, em casa mas também muito na rua e num ritmo por vezes frenético. Os miúdos também estão de volta à escola. O Pedro no horário da manhã, o António no horário da tarde. Almoçam ambos em casa mas não se cruzam. Já há treinos de parkour e de futebol. Estamos naquela fase de ajustar rotinas. De nos custar acordar com o despertador. De experimentar lanches diferentes. De forrar livros e pôr etiquetas em cadernos. De descobrir que é preciso ir comprar calças e camisolas. 

Ai, setembro, setembro, todos os anos a mesma coisa. A vidinha toda a cair-me em cima, outra vez. Mil conversas para tentar enfiar algum juízo na cabeça dos putos. Exausta de discussões e de argumentações e de desilusões e de ter que pensar em tudo, sempre a pensar em tudo, a minha cabeça não pára, é o dentista, é a explicação, são as sapatilhas da ginástica que não servem e o chapéu-de-chuva que desapareceu, acabou-se o leite, é preciso comprar iogurtes, as reuniões de pais, os papéis para assinar, um filho que está na fase em que tomar banho é um martírio e outro que está na fase em que toma dois e três banhos por dia, e se calhar desligavam os telefones para irmos para a mesa e, então, já é tardíssimo, porque é que ainda não estão a dormir?

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19. 

Tirando as máscaras, umas descartáveis, outras reutilizáveis (máscaras a toda a hora de molho e penduradas na corda da roupa, mais uma coisa com que me preocupar), e o gel desinfectante que cada um de nós tem na sua mochila para usar quando fôr necessário, cá em casa estamos a tentar viver o mais normalmente possível. Estou farta da covid-19. Só de imaginar que nos podem fechar a todos em casa outra vez começo a sentir suores frios. Estou farta da covid-19 e das regras estúpidas que inventam em todo o lado, seja na escola ou nos correios, quando vamos comprar sapatos e nos obrigam a calçar uma meia de plástico ou quando queremos renovar o cartão de cidadão e o site nos informa que não, que ainda não é possível fazer agendamentos. A covid-19 como justificação para todas as incompetências e todas as burocracias e todos os abusos de autoridade. Estou tão farta que já não leio notícias e não quero saber dos números de mortos e infectados e internados, juro-vos. 

Não tenho tido muito tempo para pensar na covid-19 e ainda bem porque se uma pessoa se põe a pensar a sério nisto ainda acaba dando em maluca. 

Também não tenho tido muito tempo para mais nada. 

Mas isso é outra história.

Wake me up when september ends, dos Green Day
(com beijinhos para a Raquel)

publicado às 09:38


1 comentário

Imagem de perfil

imsilva 24.09.2020

Não há como não te entender, somos todos ratinhos ...

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor