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"Sabermos que não temos mão na maior parte das coisas que acontecem é fundamental para o afrouxar da ansiedade." A frase é de Cláudia Lucas Chéu que, numa pequena crónica, resume muito daquilo que sinto. "Ainda hoje sofro bastante de um sentimento de querer controlar tudo, embora saiba agora o quão inútil e estúpido é este sentimento. Sei que não tenho mão em quase nada. As coisas acontecem e o que é preciso é saber lidar com elas ou não lidar de todo — por vezes fugir também é uma opção." A crónica intitula-se "Controlar o ingovernável" e é ilustrada por uma imagem do filme Lady Bird, de Greta Gerwig - uma cena que mostra a difícil relação entre filha e mãe.

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Viver é, todos os dias, tentar "controlar o ingovernável". É muito isto que sinto na vida em geral e na relação com os meus filhos em particular. Vê-los crescer tem tanto de fascinante como de assustador. O amor mistura-se com o medo. As desilusões (podia fingir que não existem mas, sim, existem, no meu caso, muitas desilusões e frustrações e sentimentos de falhanço e até vergonha e todos esses sentimentos que estamos proibidos de dizer em voz alta mas que nem por isso deixam de ser reais) misturam-se com o orgulho. A vontade de lhes orientar os passos e garantir que tudo lhes corre bem e, ao mesmo tempo, sabermos que temos de deixá-los falhar e errar e descobrirem o seu próprio caminho. 

Não podemos controlar tudo. Nem na nossa vida nem na vida dos filhos nem no mundo que nos rodeia. Aceitar isto não significa desistir dos nossos objectivos e dos nossos sonhos, não quer dizer que nos vamos sujeitar ao que acontece sem dar luta, que vamos deixar de fazer aquilo que achamos certo e que devemos e queremos fazer. Significa apenas (tentar) deixar de sofrer tanto, de nos angustiarmos e martirizarmos de culpa sempre que sentimos que as coisas fogem do nosso controlo. Aceitar as falhas e tentar aprender com os erros sem nos sentirmos a fracassar irremediavelmente.

Não é fácil, pois que não é. E eu só às vezes é que o consigo. Mas, ainda assim, continuo a tentar.

publicado às 16:24


5 comentários

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imsilva 03.09.2023

Texto magnífico, que vai ao encontro do meu ser. Não será fácil esse " não controle" sobre a nossa vida e dos nossos, esse relaxar porque não somos infalíveis, esse "não sofrimento" e não sermos culpáveis de todos os males do mundo. Mas, vale a tentativa, quem sabe...
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Maria Pinto 03.09.2023

"Não podemos controlar tudo. Nem na nossa vida nem na vida dos filhos nem no mundo que nos rodeia."
Eu sou outra a continuar a tentar...
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Fátima Bento 08.09.2023

Aprendi a duras penas que a única coisa que posso controlar é a minha reação ao que acontece, e ainda assim há situações em que até isso foge.

Como sou teimosa, continuo a acreditar. A acreditar que é possível, que conseguem/irmos se se/nos esforçarmos o suficiente - e vou escolhendo as lutas que não quero travar, e as outras, em que dou 110% de mim.

Beijinhos
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antónio damaso 08.09.2023

Comovedor depoimento.
Talvez console o velho ditado: "Deus escreve direito por linhas tortas".
A gente esforça-se por criar e educar os filhos.
Eles progridem, completam os seus estudos superiores, arranjam companheiro onde lhes apetece, saem de casa, enfim... abalam.
Os nossos cabelos ficam brancos, os nossos olhos esmorecem, os nossos ouvidos vão ficando surdos, as pernas cansam-se com mais frequência...
E os filhos, entretidos nas suas vidinhas, nem um simples telefonema ao pai.
É triste, não é?
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Guarda rios 09.09.2023

É verdade, a gente bem tenta, principalmente em relação aos filhos, mas depois se tiver que acontecer, acontece.

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