Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



"Os primeiros sintomas costumam afligir a indústria inteira, o que cria a falsa segurança de um inexorável (e colectivo) "processo" de transformação. A primeira coisa que desaparece é aquilo que custa mais (em tempo ou em dinheiro): investigações longas, reportagens no estrangeiro, despesas de viagem, etc. Depois, todos os atalhos se vão tornando mais curtos. Copy desks desaparecem. As redacções começam a encolher por ordem cronológica: veteranos aceitam rescisões amigáveis e as suas funções são redistribuídas pelas várias castas temporárias - estagiários, colaboradores, freelancers. Reuniões estratégicas começam a ser mais frequentes. A ordem das secções é reconfigurada como um baralho de cartas. Reinvenções são anunciadas. Suplementos são rebaptizados. Mudanças de tom são sugeridas: o jornal deve tornar-se mais ligeiro, mais profundo, mais especializado, mais generalista, mais local, mais global. Como um paciente terminal, o jornal começa a ser mais vulnerável a charlatães e curas milagrosas. Várias estratégias são adoptadas, na esperança de que alguma pegue (paywalls, doações voluntárias, fundações, parcerias) Quando a calamidade seguinte acontece (uma crise financeira, uma pandemia) um ou outro lay-off costuma preceder o inevitável despedimento colectivo, noticiado provavelmente não em números mas em fracções ("um quarto dos funcionários", "um terço da redacção"). Não é suficiente. As "dificuldades de tesouraria" tornam-se crónicas. As pressões produtivas aumentam em proporção inversa à disponibilidade de recursos: perto do fim, é esperado que uma dúzia de pessoas consigam fazer melhor um trabalho que antes era feito por meia centena. São precisos mais cortes. E aquilo que acontece muito devagar pode continuar a acontecer muito devagar durante muito, muito tempo."

É isto e mais, escrito de forma lúcida e exacta pelo Rogério Casanova.

publicado às 18:47


2 comentários

Imagem de perfil

Anders 28.08.2021

"A internet não se limitou a criar a ilusão de que tudo isto era, ou podia ser, gratuito: também fragmentou o conteúdo em tantos nichos que nenhum consumidor precisa de financiar outros interesses que não os seus."

E qual o problema de financiar só o que lhe interessa? Me parece muito bom. Não quero caderno de fofoca, astrologia, desportes, e coluna social. Não quero pagar por isso.
Imagem de perfil

Anders 28.08.2021

É fato que a migração do valor da publicidade do impresso para o digital, e do digital genericamente para os sites de rede social, mais precisamente, implodiu a indústria jornalística. Mas eu não me importo, não acho que se perdeu muito com isso. Não sou grande fã de jornais pois não sou tão à toa para ter tempo de lê-los diariamente. Se eu precisar saber alguma coisa, consulto um jornal online ou um telejornal, e nem para isso tenho tempo.

Ao invés disto tenho optado por assinar revistas mensais ou bimestrais de temas que me interessam. Ou seja, recebo somente o assunto que me interessa, do meu nicho, sem o besteirol que não dou a mínima e pelo qual paguei à toa.

Julgue-me, por preferir revistas a jornais.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor