urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristieA Gata ChristieGataLiveJournal / SAPO BlogsGata2020-06-15T09:31:13Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4754062020-06-15T10:03:00Desconfinando2020-06-15T09:29:33Z2020-06-15T09:31:13Z<p>Houve um momento, já quase no fim do almoço, em que, não sei bem como nem porquê, pusemo-nos a cantar os <em>Vampiros</em> do Zeca Afonso. E eu dei por mim a pensar nas saudades que tinha da minha família. Caramba. Encontrámo-nos, finalmente, no feriado do corpo de deus, depois de quase seis meses de distância - o que é imenso, até para mim que estou habituada a estar longe por dois ou três meses - e demos abraços e beijos, com moderação mas demos, porque não podíamos não o fazer. Temos estado a desconfinar, lentamente mas a desconfinar. O Pedro voltou aos treinos de parkour e continua a brincar com os vizinhos no terraço - é engraçado ver como a quarentena uniu os miúdos destes prédios, uns que já se conheciam, outros que nunca sequer tinham aparecido à janela, e agora são todos amigos. O António tem saído pelo menos uma vez por semana para estar com os amigos, jogar à bola e cirandar por aí, e até foram um dia à praia. Com mil recomendações e máscara e gel para as mãos, mas a tentar recuperar a sua adolescência interrompida. E eu também. Apesar de ainda em teletrabalho tenho feito cada vez mais trabalhos na rua e tentado estar com algumas pessoas que são importantes para mim. Ainda faltam algumas. E têm sido encontros muito breves e sempre ao ar livre. Mas, apesar de todas as mensagens e telefonemas e videochamadas, e mesmo, na maior parte dos casos, sem beijos e abraços, não há nada melhor do que estar com as nossas pessoas. Só estar. Sentirmo-nos acompanhados. E depois as conversas, os olhares, as gargalhadas, os momentos partilhados. As canções que cantamos juntos. </p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/ZUEeBhhuUos?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4752602020-06-08T15:58:00She did it again2020-06-08T15:40:28Z2020-06-08T15:40:28Z<p>Ela é Hannah Gadsby, <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/nanette-424801" target="_blank" rel="noopener">a humorista que nos deu <em>Nanette</em></a> e que agora nos dá <em>Douglas</em>. O programa é todo bom mas as lições sobre história da arte são, para mim, a parte melhor. </p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/ziIwxPCeByU?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4749672020-06-05T15:17:00A escola assim é uma pallhaçada (3)2020-06-05T14:41:05Z2020-06-05T14:42:21Z<p>A professora de matemática do meu filho que está no 6º ano dá, todas as semanas, cinco aulas de 45 minutos cada. Duas síncronas (ou seja, em videochamada) e três assíncronas (ou seja, trabalho autónomo dos miúdos em casa).</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 600px; padding: 10px 10px;" title="IMG_20200605_142654.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be018fa71/21826657_S8zUS.jpeg" alt="IMG_20200605_142654.jpg" width="600" height="450" /></p>
<p>Vocês já experimentaram assistir a uma das aulas síncronas dos vossos filhos? Eu evito. Porque é penoso. Há sempre algum miúdo que não ouviu ou que está distraído ou que não tem rede ou qualquer coisa. O meu filho, por exemplo, distrai-se com uma mosca. Às vezes, entro na sala, e ele está ali, de <em>phones</em> nos ouvidos, muito quieto, mas com o olhar perdido no horizonte. Completamente a leste. Imagino que na sala de aula também seja assim, com a diferença que aqui ou sou eu ou não há ninguém que o traga de volta à realidade. A professora, coitada, dá o seu melhor. Apresenta uns <em>powerpoint</em> ou mostra uns vídeos, lá explica a matéria, dá uns exemplos, sempre a ser interrompida, ò professora, não ouvi, ò setôra, pode repetir?, ò professora, o não sei quantos tem o microfone ligado. Se se aproveitarem 20 minutos da aula já é bom. Tempo em que estão a dar matéria nova - claro. Todas as aulas há matéria nova.</p>
<p>Depois, fazer exercícios, praticar e consolidar tem de ser nas tais aulas assíncronas. Ora bem, são miúdos de 12 anos. Estão a imaginá-los a trabalhar sozinhos, concentrados, durante 45 minutos? (45 minutos para esta disciplina mais 45 para outra e mais 45 para outra...) Não sei como são os vossos, mas o meu e outros que conheço têm muita dificuldade nisto. E o mais provável é que em vez de 45 minutos demorem uma hora e meia a fazer o que tem de ser feito (ou desistir a meio). Tem de haver um adulto por perto que diga, vá, fica sentado, vá, lê lá o exercício, vá, agora presta atenção. Portanto, mesmo que o trabalho em si seja autónomo e o miúdo faça tudo sozinho, precisa de um "capataz" - esta é uma das minhas funções neste sistema de telescola.</p>
<p>Superado este problema, vem o problema seguinte. Há matérias que são mais simples, outras mais complexas. Escolhi o exemplo da matemática porque me parece ser das mais complicadas para se estudar sozinho. Porque para eles trabalharem autonomamente têm de ler o manual e entender o que está lá escrito. Ora ler os manuais de matemática é uma tarefa árdua. Vejam só:</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 400px; padding: 10px 10px;" title="IMG_20200605_143858.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B9c184ea9/21826658_TpeeT.jpeg" alt="IMG_20200605_143858.jpg" width="400" height="533" /> </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 400px; padding: 10px 10px;" title="IMG_20200605_143954.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B41179086/21826661_m2tWQ.jpeg" alt="IMG_20200605_143954.jpg" width="400" height="533" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 533px; padding: 10px 10px;" title="IMG_20200605_144013.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd817c471/21826663_sbwgw.jpeg" alt="IMG_20200605_144013.jpg" width="533" height="400" /></p>
<p>A matéria em si não é extraordinariamente complexa. E eu nem sequer estou a dizer que os manuais são maus. Estou só a dizer que não são feitos para serem lidos autonomamente por miúdos de 12 anos. O mais provável é que os miúdos leiam isto e lhes pareça chinês e desistam. Portanto, mais uma vez, é preciso um adulto que, mesmo que não seja barra a matemática, perca uns minutos a olhar para estas páginas e a decifrar o que ali está escrito para depois explicar ao aluno. Sim, ler e "traduzir" manuais e explicar as matérias é outra das minhas funções por estes dias. </p>
<p>Matéria entendida, passamos aos exercícios. Ali está o puto a fazer contas com mais e menos, números inteiros e fracções, parêntesis curvos e retos e de valores absolutos (estes só aprendi este ano, nunca é tarde para aprender coisas novas) e depois vai ver as soluções porque tudo é feito em sistema de autocorrecção, o que também é uma coisa que resulta muito bem com os miúdos desta idade. Se calha de o exercício estar certo, óptimo. Se estiver errado... ora bem, é preciso ir ver toda a operação até encontrar o erro, que pode ser só um sinal errado, uma coisa de nada que estragou tudo. Mas a questão é: quem é que acham que faz isso? Os putos? Não, claro. São os pais. Assim como são os pais que pegam em todas as "propostas de resolução" de todos os trabalhos que todos os professores mandam e vão verificar se o trabalho dos seus filhos está certo ou errado. Eu percebo, claro, os professores não têm capacidade para corrigir individualmente aquela quantidade enorme de trabalho que pedem aos alunos (que, se fosse feito em sala de aula, seria corrigido no quadro), mas alguém tem de o fazer, ou acham mesmo que são os alunos que autocorrigem todos os seus trabalhos? Corrigir os trabalhos, chamar a atenção do puto para os erros que fez e explicar-lhe como fazer bem é também minha função neste sistema.</p>
<p>Isto digo eu do meu lugar de mãe privilegiada que (1) graças ao <em>layoff</em> (todas as coisas más têm um lado bom) tem tempo para acompanhar os trabalhos do seu filho mais novo e (2) tem estudos e capacidade para ajudar com alguma facilidade. É preciso nunca esquecer que há pais que não têm estas condições e que, só por isso, esses alunos já estão em desvantagem neste sistema.</p>
<p>Mas nem tudo são más notícias. O Pedro informou-me esta semana que já chegaram ao último capítulo do manual de matemática e que, portanto, vão conseguir dar a matéria toda. Em história e ciências também vão lançados, quase, quase nas últimas páginas. Não se preocupem. No final do ano, os relatórios dos professores vão ser maravilhosos, com todas as metas curriculares cumpridas, e os senhores do ministério podem fazer "check" nos seus objectivos.</p>
<p>Os pais, esses, vão dar em malucos. Mas isso não interessa nada.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4747552020-06-01T12:32:00A vida lá prossegue2020-06-01T11:40:37Z2020-06-01T11:40:37Z<p>"E a vida lá prossegue. Anormal, como sempre. Resta-nos que este momento traga, ao menos, alguma sobriedade, e que a pornografia material de alguns seja refreada. Quem sabe, dessa forma, possamos alcançar, como Robert Wyatt, que se o medo de perder o emprego é real e em nenhum momento pode ser subestimado, também não é menos certo que aquilo que nos faz sentir vivos, a música, a arte, o imaginar, o contemplar o horizonte, ou uma boa conversa, por difícil que seja, também não deverá ser esquecido.</p>
<p>E se não estivermos em condições de nos lembrar, é bom ter alguém ao lado que nos recorde, porque é fácil estar com os outros na estabilidade, o difícil é mantermos-mos próximos dos que numa determinada fase estão alheados, embora esse talvez seja o tempo em que mais precisam de alguém. E para o entender basta recordar as alturas em que por mais que quiséssemos também não conseguíamos vislumbrar a simples comoção de existir."</p>
<p> </p>
<p>Daquelas coisas que vale mesmo a pena ler: <a href="https://www.publico.pt/2020/05/31/opiniao/cronica/pausa-respirar-1918718" target="_blank" rel="noopener">as crónicas de Vítor Belanciano</a>, todos os domingos, no <em>Público</em>. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4744022020-05-28T15:07:00Asfixia2020-05-28T14:45:11Z2020-06-10T10:05:59Z<p>Em Minneapolis, no Minnesota, EUA, George Floyd, um homem de 46 anos, foi morto por um polícia. Parece que usou uma nota falsa para pagar uma compra numa loja, não mais de 20 dólares. Parece que resistiu à detenção policial. Podia até ser um perigoso criminoso, o que aparentemente não era. Nada disso justificaria o que aconteceu a seguir. George Floyd, um homem negro (porque há circunstâncias em que esta informação é relevante) foi morto por um polícia branco, com a cumplicidade de mais três polícias brancos. Estava desarmado, deitado no chão, no meio da rua, impossibilitado de se mexer por um polícia que lhe agarrava os braços e que com o joelho pressionava o seu pescoço. As imagens, captadas por telemóveis pelos transeuntes, mostram-no em desespero. A dizer que não podia respirar, a implorar para não o matarem. "I can't breathe", repete. As pessoas que passam na rua protestam também. Mas os polícias, esses, mantêm-se impávidos e serenos. O vídeo, que vi ontem, quase em lágrimas, é impressionante. Há um homem que morre ali mesmo à nossa frente (a versão oficial é de que George Floyd só morreu no hospital), no meio da rua, sufocado por um polícia-carniceiro, perante a impotência dos cidadãos (de nós todos).</p>
<p>É tão assustador. </p>
<p>E revoltante.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 600px; padding: 10px 10px;" title="000_1SC12H.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5e17013a/21819956_cUgEb.jpeg" alt="000_1SC12H.jpg" width="600" height="360" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">#icantbreathe</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: left;">E mais uma reflexão:</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Tenho sempre muitas dúvidas sobre a divulgação deste tipo de vídeos, tento evitá-los e só os vejo quando, por motivos profissionais, tenho mesmo de fazê-lo (<a href="https://www.dn.pt/mundo/nao-consigo-respirar-a-morte-de-george-pela-policia-esta-a-revoltar-a-america-12245078.html" target="_blank" rel="noopener">foi o caso</a>). E, no entanto, se não fossem estes vídeos nunca saberíamos como esta e outras mortes (e torturas e maus tratos e outros casos) tinham de facto acontecido. E isso também é assustador. </p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Se quiserem saber mais, leiam <a href="https://www.newyorker.com/news/daily-comment/the-death-of-george-floyd-in-context" target="_blank" rel="noopener">ESTE TEXTO</a> da <em>New Yorker</em>, que vos dará uma visão mais abrangente sobre o caso e levanta algumas questões muito pertinentes.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4741332020-05-25T09:02:00Debaixo deste céu2020-05-25T08:11:44Z2020-05-25T08:11:44Z<p class="sapomedia images" style="text-align: left;">Uma das coisas boas que aconteceu durante esta quarentena foi podermos dançar (ou só "chillar", como se diz) ao som dos <em>sets</em> do Branko. Ele festejou o desconfinamento com este momento maravilhoso, num terraço de Lisboa:</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/RitZNQrqYXI?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 600px; padding: 10px 10px;" title="98285799_2871655762952421_9039496347949989888_o.jp" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8618e224/21816895_GVDdA.jpeg" alt="98285799_2871655762952421_9039496347949989888_o.jp" width="600" height="400" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4739902020-05-23T09:29:00Os dias da quarentena2020-05-23T09:00:01Z2020-05-23T09:00:01Z<p>Um dia mais tarde, quando os netos nos perguntarem como foi, mostramos-lhes <a href="https://www.rtp.pt/noticias/pais/os-dias-da-quarentena_v1230821" target="_blank" rel="noopener">ESTA </a>reportagem da Cândida Pinto (RTP), intitulada "Os dias da quarentena" e filmada em Lisboa durante o mês de abril. Não tem tudo, claro, mas tem muita coisa e muitas pistas para percebermos o que se está a passar, longe das conferências de imprensa diárias com números de mortos e infetados, longe das curvas das estatísticas sobre doentes ou sobre desemprego ou sobre outra coisa qualquer. Porque todos os números têm sempre rostos. E pessoas. E histórias.</p>
<p>Todas diferentes. </p>
<p>E, no entanto, todas a falarem disto: da falta que o outro nos faz.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4737962020-05-21T11:03:00E nos palcos como será?2020-05-21T10:20:23Z2020-05-21T10:21:10Z<p>Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o<em> Rei Lear </em>e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de <em>Rua de Sentido Único</em>, que <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/tentar-falhar-superar-451884" target="_blank" rel="noopener">Mónica Calle </a>apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois espectadores de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/ontem-houve-baile-201156" target="_blank" rel="noopener">subir eu mesma ao palco para dançar</a> com gente desconhecida depois de <em>Fica no Singelo</em>, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis. </p>
<p>Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?</p>
<p>Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. <a href="https://www.dn.pt/cultura/o-teatro-em-tempos-de-covid-19-e-como-imaginar-romeu-e-julieta-sem-o-beijo-12217300.html" target="_blank" rel="noopener">AQUI </a>estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 500px; padding: 10px 10px;" title="image.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0b185209/21813848_InNQR.jpeg" alt="image.jpg" width="500" height="281" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4733302020-05-14T11:09:00A escola assim é uma palhaçada (2)2020-05-14T10:44:20Z2020-05-14T11:01:31Z<p>As aulas do meu filho mais velho, que está no 10º ano, têm sido TODAS assim:</p>
<p>Os professores mandam lindas mensagens, na <em>classroom</em> ou no <em>mail</em>, a anunciar bom dia, meus queridos hoje vamos estudar *qualquer coisa*, vejam por favor o manual da página x à página y. Depois, no dia seguinte, perguntam: já leram? têm dúvidas? Resolvam agora os exercícios da página z. E há uns que mandam mais uns <em>power point</em> ou uns <em>pdf</em>. E no dia seguinte mandam uma ficha ou um questionário ou outra coisa qualquer para eles fazerem e mostrarem que estão a acompanhar. E depois concluem: muito bem, agora que já terminámos esta unidade, vamos avançar para a unidade seguinte.</p>
<p>Juro. </p>
<p>É isto.</p>
<p>E com este método fantástico os miúdos já deram a guerra entre absolutistas e liberais e estão agora a dar o setembrismo e o Costa Cabral (em História), também já deram montes de coisas sobre a inflacção, em Economia, e agora estão a dar "A atividade produtiva e a formação dos rendimentos; Rendimento e valor acrescentado. A repartição funcional dos rendimentos. A remuneração do trabalho. O salário. A remuneração do capital – renda, juro e lucro. Rendimentos primários e seus destinatários." (estou a copiar o sumário de uma das aulas); em Filosofia tem sido um ver-se-te-avias com direito, ética e política, Kant e John Stuart Mill, e agora belos textos sobre o contratualismo e o naturalismo. E por aí fora. </p>
<p>Tudo coisas simples, como se vê. Tudo assim, com textos que, como devem imaginar, todos os alunos lêem com a maior das atenções e todos entendem, claro. Raramente há alunos a dizer que têm dúvidas. Imagine-se. E os professores acham isto normal. Já leram? Óptimo. Se não leram, paciência. Avançamos. Sem explicações, sem debate, sem cá conversas, que os professores servem é para dar textos e material de apoio, não sabiam? Pois, eu também não.</p>
<p>Quantos alunos vão efectivamente aprender alguma coisa? Três ou quatro em cada turma? Provavelmente só aqueles bons alunos que se interessam realmente pela escola e que têm objectivos definidos. Muitos deles neste momento já desistiram de acompanhar. E a grande maioria está a cumprir os mínimos, a ler os textos na diagonal, a responder mal e porcamente aos questionários, a dizer "bom dia, professora" para marcar o ponto virtual ao mesmo tempo que diz piadas no <em>chat</em> da turma no WhatsApp.</p>
<p>Se já antes era complicado, agora então é ainda mais difícil ensinar o que quer que seja. Se já antes, <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/a-escola-que-temos-resumo-da-materia-394979" target="_blank" rel="noopener">eu tinha dúvidas (mil dúvidas) sobre esta escola que temos</a>, agora eu já não tenho dúvidas, tenho certezas.</p>
<p>Repito <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/a-escola-assim-e-uma-palhacada-472479" target="_blank" rel="noopener">as palavras que escrevi no outro dia</a> e vou repeti-las as vezes que forem necessárias:</p>
<p>Na escola da pandemia, o importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.</p>
<p>Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.</p>
<p>É uma palhaçada. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4726672020-05-10T13:57:00Oito anos2020-05-10T13:17:27Z2020-05-10T13:17:27Z<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/29iiGZdO7sg?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;">Bernardo Sasseti (1970-2012)<br /><em>Noite</em> (<em>Alice</em>)</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4724792020-05-10T10:23:00A escola assim é uma palhaçada2020-05-10T09:23:45Z2020-05-12T08:36:58Z<p>Voltamos ao <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/a-tele-escola-feita-a-pressao-467264" target="_blank" rel="noopener">assunto</a>? Voltamos, pois, é necessário voltar, agora que já sabemos exactamente o que é isto e como é que funciona, temos que voltar. E denunciar todas as absurdidades que estão a acontecer. </p>
<p>Comecemos por aqui:</p>
<p>As aulas de educação física do mais novo. Começaram por ser videochamadas com aulas teóricas, o professor a mostrar <em>slides</em> sobre aptidão física e a mandar-lhes questionários para eles resolverem. Os putos rapidamente se fartaram. Na última aula, a videochamada resumiu-se a "bom dia, estás bom? hoje não há aula, vou só marcar a tua presença e podes sair". E pronto. Para quê? Com que objectivo? O que é que estamos a ensinar aos miúdos com isto? Que temos de ser obedientes e picar o ponto, mesmo que isso não sirva para coisa nenhuma?</p>
<p>As aulas de educação física do mais velho são igualmente hilariantes. A professora manda vídeos a explicar exercícios e pede aos miúdos que pratiquem e façam um vídeo. Por exemplo, as várias técnicas de manipular a bola no basquetebol, desporto que, como se sabe, eles estão proibidos de praticar. Para quê? Para os alunos praticarem exercício físico? Para se mexerem e manterem saudáveis? Não. Para provar que fizeram. Que são bem mandados e cumpridores e certinhos, que a gente não quer saber se tu sabes jogar basquete, a gente quer é que tu cumpras as ordens.</p>
<p>O importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.</p>
<p>Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.</p>
<p>É uma palhaçada. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4722242020-05-07T12:31:00Diário de uma náufraga (VIII e último)2020-05-07T11:32:54Z2020-05-07T11:34:02Z<p><strong>Dia 50, sexta-feira, 1 de maio</strong><br />Foi um dia bom.<br />Graças à minha vizinha Susana almocei cachupa deliciosa.<br />Fiz um bolo de iogurte para o Pedro e para os amigos do terraço. E eles brincaram até às nove da noite.<br />Consegui ficar duas horas com uma máscara na cara, conversar, rir e até cantar os parabéns a uma amiga. Mais difícil é não poder abraçar, beijar e tocar as pessoas de que gostamos. Ainda assim, é bem capaz de ter sido o melhor momento destes últimos dias.<span class="text_exposed_show"><br />E, para terminar, vimos <em>O Império do Sol</em>. Há que tempos que queria mostrar este filme aos miúdos. Quase três horas de Spielberg old school, mas resistimos os três, até o adolescente rezingão.<br />Foi um dia bom.<br />Um dia para ganhar fôlego.</span></p>
<p><strong>Dia 51, sábado, 2 de maio</strong><br />Pronto, fiquem descansados, já comprei meia dúzia de máscaras e uma pequena embalagem de gel desinfectante. Mais vale tarde do que nunca. Mas fiquem a saber que só usarei estas máscaras em último caso. Uma pessoa não deixou de usar palhinhas e sacos de plástico para agora desatar a usar máscaras descartáveis a torto e a direito. E também vos digo: se já se pode ir à manicure se calhar já era tempo de a câmara de Lisboa voltar a recolher os reciclados como deve ser, não?</p>
<p><strong>Dia 52, domingo, 3 de maio</strong><br />Domingo. O Pedro lá conseguiu terminar os trabalhos da semana. E já começou a receber novos trabalhos dos professores...<br />Limpámos a casa toda. Aproveitei o calor e lavei os cortinados da sala. O mais chato foi pôr as argolinhas todas no lugar outra vez.<br />Os rapazes estiveram umas quatro horas no terraço a brincar com os amigos. Hoje havia imensa gente nos terraços, miúdos e graúdos. Parecia mesmo uma daquelas tardes de verão.<br />Este fim de semana, o Fox Movies<span class="text_exposed_show"> está a dar os vários <em>Indiana Jones</em>. Claro que já os vimos todos várias vezes mas não conseguimos resistir. (E num dos intervalos vi, finalmente, a Mariza a cantar. God. Tudo mau. Aliás, a publicidade da quarentena é toda supostamente muito inspiradora e a puxar à lágrima, ou seja, bastante irritante.)<br />A propósito: não tenho grande paciência para os dias disto e daquilo e muito menos para o dia da mãe. Cada um tem as suas telhas e a minha é esta.</span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Os dias seguintes</strong><br />Entretanto, começou o desconfinamento.<br />Esta semana, eu já saí de casa para trabalhar, uma vez. E o António também já saiu de casa para ir ter com os amigos, uma vez. Munidos de máscaras e com gel para desinfectar as mãos, mas estamos a tentar recuperar alguma normalidade, ainda pouco normal.<br />A ver vamos.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4719242020-05-02T10:04:00Sobre os privilégios2020-05-02T09:42:04Z2020-05-02T09:50:41Z<p><a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/quarentenados-465810" target="_blank" rel="noopener">Escrevi-o no primeiro dia</a>: não estamos todos em casa. Para alguns poderem publicar no instagram fotografias dos almoços que encomendam na ubereats, felizes e contentes por estarem em casa, a beber um copo de vinho na varanda, a devorar séries na netflix, a falar com os amigos no zoom e a mandar bitaites #stayathome, há uma multidão de gente a trabalhar na agricultura, nas fábricas, na distribuição, nos mercados e supermercados, nos restaurantes, nos transportes, na recolha do lixo, nas limpezas, na segurança, na comunicação social, nos hospitais, nas farmácias, nos lares, na assistência social, na construção, na manutenção, nas funerárias, em muitos outras atividades. Não são meia dúzia, são milhares de pessoas. Que nos últimos 50 dias continuaram a fazer a sua vida normal, a acordar às 5 da manhã, a esperar meia hora por um comboio, a andar em autocarros cheios de gente, a trabalhar imenso, provavelmente com dificuldades e preocupações acrescidas e - muitos deles - a ganharem muito mal. Também continuou a haver gente a viver na rua, em barracas, em sítios sem condições. Para todas essas pessoas não houve confinamento. </p>
<p>Sim, a romantização da quarentena é um privilégio de classe. Não temos que nos martirizar por causa disso. Mas um bocadinho de consciência social não nos ficaria mal.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 476px; padding: 10px 10px;" title="93586035_10219370261460033_2126049218572320768_n.j" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba917fd14/21793958_AWruu.jpeg" alt="93586035_10219370261460033_2126049218572320768_n.j" width="476" height="720" /></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;">Ilustração de <a href="https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2948712098517219&set=pb.100001353746769.-2207520000..&type=3&theater" target="_blank" rel="noopener">Bruno Saggese</a>.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4717362020-05-01T16:38:00Depois da vida2020-05-01T16:02:44Z2020-05-02T09:56:14Z<p>Fartei-me de chorar a ver a segunda temporada de <em>After Life</em>. A <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/isto-nao-e-uma-comedia-437516" target="_blank" rel="noopener">primeira temporada já tinha sido de partir o coração</a>, mas acho que esta é ainda mais devastadora. Tony (Ricky Gervais) já não está naquele estado de desespero de não querer continuar a viver sem a mulher (bom, pelo menos na maior parte do tempo), mas também já percebeu que a tristeza não vai passar, portanto trata-se de tentar aceitar que esta é a sua nova condição. A vida continua, seja como for, ainda que nós não façamos nada para isso. As pessoas à volta de Tony podem ser um "bunch of losers" mas são elas que lhe permitem encontrar algum sentido nos dias que passam, uns a seguir aos outros, entre as saudades e a enorme solidão. </p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/g1u5uN7PlD8?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">Não tenho visto muitas coisas mas durante a quarentena vi mais duas séries muito boas, também na Netflix:</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">- <em>Unorthodox</em>, sobre uma rapariga que sai de uma comunidade judia ultra-ortodoxa (escrevi sobre ela <a href="https://www.dn.pt/cultura/a-historia-de-esty-uma-rapariga-nao-ortodoxa-em-busca-da-liberdade-12084984.html" target="_blank" rel="noopener">AQUI</a>, se gostaram de <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/shalom-shalom-434878" target="_blank" rel="noopener">Shtisel</a> acho que vão gostar mais desta);</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">- <em>Unbelievable</em>, que nos coloca numa investigação criminal a um violador em série, mas de uma maneira bastante realista, muito longe dos CSI do costume, e que nos mostra de maneira brutal como é que algumas vítimas (mulheres) são tratadas nestes casos.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4713132020-05-01T10:45:00Diário de uma náufraga (VII)2020-05-01T09:45:14Z2020-05-10T09:32:15Z<p><strong>Dia 43, sexta-feira, 24 de abril</strong><br />Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o <em>hall</em> de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro.<br />Já faltou mais para me pôr a fazer pão.<br /><span class="text_exposed_show">De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar).<br />Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas.<br />Amanhã experimento o pilates.</span></p>
<p><strong>Dia 44, sábado, 25 de abril</strong><br />De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido.<br />À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o <em>Grândola</em> a tocar.<br />Voltei ao <span class="text_exposed_show">meu trabalho.<br />O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho.<br />O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar.<br />Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o <em>Capitães de Abril</em>. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho.<br />Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.</span></p>
<p><strong>Dia 45, domingo, 26 de abril</strong><br />De manhã acabei de ver a série <em>Unebelievable</em> na Netflix e agora à noite vimos o <em>Hotel Mumbai </em>- digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura.<br />Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana.<br />Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.</p>
<p><strong>Dia 46, segunda-feira, 27 de abril</strong><br />Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprod<span class="text_exposed_show">utor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete.<br />Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal.<br />Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.</span></p>
<p><strong>Dia 47, terça-feira, 28 de abril</strong><br />O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã.<br />E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite.<br />Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.</p>
<p><strong>Dia 48, quarta-feira, 29 de abril</strong><br />Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada.<br />E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama.<br />Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.</p>
<p><strong>Dia 49, quinta-feira, 30 de abril</strong><br />Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear.<br />Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal.<br />Ao serão vimos <em>O Impossível</em>. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.</p>
<p>Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios:</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/JE-dqW4uBEE?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><em>Blister in the Sun</em>, Violent Femmes</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4710032020-04-24T09:06:00Diário de uma náufraga (VI)2020-04-24T08:12:18Z2020-04-24T08:15:38Z<p><strong>Dias 37 e 38, sábado e domingo, 18 e 19 de abril</strong><br />Fim-de-semana com o <em>detox</em> possível. Quase sem notícias, pouco WhatsApp, menos telemóvel.<br />Tentar não pensar.<br />Limpámos a casa, comemos crepes com nutella, os putos jogaram PlayStation, eu e o Pedro fomos dar o nosso já habitual passeio. Fizemos um trabalho de história sobre como era a vida no tempo dos avós que me deu imenso gozo. O que o Pedro mais gostou foi de ver as fotografias do avô em Angola, todo armado. E ficou surpreendido quando descobriu que <span class="text_exposed_show">quando era pequeno o avô brincava na rua. Na rua? Sem adultos? O dia inteiro? Que inveja. (Por estes dias, temos todos inveja disso, na verdade.)<br />Não tenho conseguido ler nem ver séries mas hoje fechei-me na cozinha com coxas de frango no forno, sopa de agrião na bimby, no fogão um tacho com arroz e outro com feijão preto, um copo de vinho na mão e o Dino no Spotify. E enquanto o feijão apurava eu dancei. Dancei sozinha como se não houvesse amanhã.<br />E, no entanto, amanhã cá estaremos outra vez. Na luta, como diz o meu amigo Vítor.<br />Qual é a opção?</span></p>
<p><strong>Dia 39, segunda-feira, 20 de abril</strong><br />Aulas <em>online</em>, trabalhos feitos em computador, trabalhos feitos no telemóvel, internet maluca. E pelo meio a mãe também tem que trabalhar, não é?<br />Mas sobrevivemos.<br />No final, eu e o Pedro estávamos mesmo a precisar de espairecer por isso fomos fazer o nosso passeio pelo campo e depois ficámos uma boa meia hora a lavar a bicicleta que ficou toda enlameada. Melhor do que qualquer sessão de <em>mindfulness</em>, posso garantir-vos.<br />Ainda não conseguimos convencer o Ant<span class="text_exposed_show">ónio a vir passear connosco mas (Eureka!) hoje contamos com a sua atenção a ver uma espécie de velocidade furiosa.<br />E até temos bolo de chocolate.<br />Para ajudar a engolir sapos.</span></p>
<p><strong>Dia 40, terça-feira, 21 de abril</strong><br />"Procura no Google." É uma das frases que mais tenho repetido por estes dias. Não será a melhor pedagogia, concordo, mas é uma maneira de não ser tantas vezes interrompida e de, ao mesmo tempo, fazer com que ele não se habitue a ter sempre a reposta pronta dita pela mãe. Ele procura no google e está cada vez mais autónomo, já quase domina o "docs" e até descobriu sozinho como fazer trabalhos em "slides" com efeitos pirosos de letras que aparecem e desaparecem.<br />A mim dói-me o braço direito, desde o polegar até ao ombro, fruto das muitas horas a mexer no rato (e, estou em crer, também no telemóvel). A parte boa, como diz a Catarina, é que agora vamos precisar usar o braço menos 30%. Always look on the bright side of life.<br />Hoje também é o dia 1 do <em>layoff</em> mas essa é uma outra história.</p>
<p><strong>Dia 41, quarta-feira, 22 de abril</strong><br />Voltei a ter insónias.<br />Não saí de casa.<br />Não cozinhei (hoje foi dia de restos e porcarias).<br />Tive imensa dificuldade em acompanhar as conversas que decorriam no meu WhatsApp, no mail, no Facebook.<span class="text_exposed_show"><br />Tenho a sensação que o Pedro já está (outra vez) atrasado nos trabalhos.<br />Mas consegui terminar o meu trabalho para esta semana.<br />Já não é mau.</span></p>
<p><strong>Dia 42, quinta-feira, 23 de abril</strong><br />Comprámos uma máquina para cortar o cabelo dos rapazes. Tenho muita pena que eles não me deixem publicar fotos. Foi o melhor momento do dia. Um divertimento.<br />Estive a estudar o sistema reprodutor com o Pedro. Expliquei-lhe o ciclo menstrual e o período fértil e dei graças a deus por ele não me perguntar para que serve o clitóris. Não me interpretem mal. Sou toda a favor da educação sexual. Mas ele tem 11 anos e quando lhe tentei explicar o que era a ejaculaç<span class="text_exposed_show">ão ficou a olhar para mim como boi a olhar para um palácio. Terminei dizendo: depois o mano explica-te.<br />Hoje não fomos passear mas aproveitei enquanto os rapazes estavam no terraço e fiz a minha primeira aula de ginástica <em>online</em>. Confirma-se que estou em péssimo estado (abdominais? quais abdominais?). A boa notícia é que só posso melhorar.<br />Os putos estão decididos a ficar acordados até à meia-noite por causa de um "evento" no Fortnite. Não sei se me aguento.<br />A meio da tarde, algures entre a aula de matemática e de inglês, o Pedro olhou para mim e:<br />- tu hoje não trabalhas?<br />- não.<br />- ah, por isso é que estás tão calma.<br />O rapaz pode não saber o que é o grande lábio mas entendeu perfeitamente que isto do <em>layoff</em> tem muitas coisas más, que tem, mas tem uma coisa boa.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4705652020-04-19T11:42:00Luxos2020-04-19T11:27:35Z2020-05-01T09:47:11Z<p>Não sou propriamente maníaca das limpezas, pois que não sou, mas tenho as minhas pequenas obsessões (todos as temos) e uma delas é o chão. Eu sou aquela pessoa que varre e aspira e lava o chão várias vezes, isto já em tempos normais, quanto mais agora que estamos todos em casa a migalhar e a patear. Na cozinha, então, nem se fala. Passo o dia de vassoura na mão, ou com o aspirador pequenino, ou com o aspirador grande, e depois com a esfregona e depois a seguir a zangar-me com os miúdos porque já está tudo sujo outra vez. Com o resto não sou assim tão stressada. Vamos fazendo. De vez em quando dá-me uma fúria de limpar a despensa ou os armários ou de limpar o pó aos livros todos, mas isso é mesmo só de vez em quando. Desde que estamos de quarentena, para além da manutenção, uma vez por semana fazemos uma limpeza geral, e digo fazemos porque eles já sabem que têm de arrumar o quarto e mudar os lençóis das camas e que também lhes compete limpar o pó e aspirar o resto da mansão, com excepção da cozinha que é o meu território. Também já informei os rapazes que na próxima semana os ia ensinar a lavar casas-de-banho - "que nojo, mãe, eu não lavo a sanita", dizem eles, fazendo caretas, e é aí que eu percebo que devo estar a errar completamente na educação que lhes estou a dar e que é urgente mudar isso. Que a quarentena nos sirva para alguma coisa de útil.</p>
<p>Isto para dizer que não, não tenho quaisquer problemas em limpar a casa, desde miúda que estou habituada a fazer tudo e, já na minha casa, <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/4447.html" target="_blank" rel="noopener">vivi muito tempo sem ter ajuda</a>. Mas sei que me vai custar bastante, quando isto tudo voltar ao "normal", ter que perder horas da minha vida a limpar em vez de ir esplanadar para algum lado ou ficar simplesmente no sofá a olhar para a televisão. Não é só o luxo de não limpar, é também aquele luxo burguês que é ter tempo livre. (isto está tudo estudado, não estou a inventar nada)</p>
<p>Também vou ter saudades de chegar a casa e, como por magia, estar tudo limpo e cheiroso. O dia da empregada era sempre o melhor dia da semana.</p>
<p>Mas a verdade é esta. Os luxos são para quem os pode ter.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4704282020-04-18T09:37:00Diário de uma náufraga (VI)2020-04-18T08:50:20Z2020-04-18T08:50:20Z<p><strong>Dia 31, domingo, 12 de abril</strong><br />Domingo de Páscoa - de limpezas e de estudar matemática mas também de falar com amigos e de apanhar sol e de descansar.<br />Hoje vimos o <em>Yesterday</em>. Escolha minha. Não é grande coisa mas ao menos tem a música dos Beatles.</p>
<p><strong>Dia 32, segunda-feira, 13 de abril</strong><br />Passou um mês.<br />Já não estranhamos tanto os dias fechados em casa. As horas passadas ao computador. As conversas que não temos junto à máquina do café. Estar sempre de pijama. Trabalhar de pantufas. Os sapatos deixados do lado de fora da porta. Os banhos que costumávamos tomar antes de sair de casa e que agora tomamos quando voltamos da rua. As filas para entrar nas lojas. O "pode chegar-se para trás, por favor". As prateleiras vazias de esparguete e enlatado<span class="text_exposed_show">s. Os cumprimentos à distância quando encontramos amigos no bairro. Os sorrisos escondidos por trás das máscaras.<br />Passou um mês e temos um novo vencedor do prémio de pior filme da quarentena: <em>Solomon Kane.</em> O Pedro já tinha visto mas quis repetir: "Tens de ver, mãe, é mesmo fixe." Só que não.<br />Às vezes pergunto-me o que vamos guardar nós destes tempos. E temo que não haja grandes lições de vida a tirar daqui. Nenhuma reflexão profunda. Nenhuma frase inspiradora.<br />Só uma série de filmes péssimos. E uns quantos quilos a mais.</span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 33, terça-feira, 14 de abril</strong><br />O António ainda tem mais uma semana de férias. O Pedro já está cheio de tarefas. Isto promete. Estou a tentar levar tudo com calma mas já deu para perceber que não vai ser fácil. Entre o meu trabalho e orientar o estudo dele, comidas e compras e a chuva que não permitiu escapadelas higiénicas, não foi um dia muito animador. Nem sequer há cinema. Hoje ficámo-nos pelos polícias do Hawai e o objectivo é começar a ir para a cama mais cedo.<br />Cumprindo as ordens do primeiro ministro, ao jantar começámos a falar das férias do verão. Temos imensos planos. Porque sonhar não custa nada.<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 34, quarta-feira, 15 de abril</strong><br />Ao fim do dia saí com o Pedro. Fomos buscar a bicicleta que tinha ficado na oficina para arranjar os travões, passámos no talho para comprar hambúrgueres para o jantar e depois demos a nossa volta habitual. De repente, começou a chover torrencialmente. Abrigámo-nos na entrada de um prédio e ali ficámos um bocadinho, a conversar, e, quando a chuva amainou, voltámos para casa, todos molhados. E ele ria e pedalava por entre as pingas da chuva como se não fosse nada.<br />O Pedro, que tem 11 anos e teve hoje o seu segundo dia de aulas à distância, tem sido o meu grande companheiro nesta quarentena. Está-lhe a custar imenso tudo isto, a falta dos amigos, a falta do exercício, esta prisão em que vivemos. Ele gosta de saltar muros e de desafiar a gravidade, todo ele é aventura, sem limites. Mas tem se esforçado imenso. Por entender. Por aceitar. Quase que consigo vê lo a crescer todos os dias um bocadinho.<br />Aquele nosso passeio à chuva foi o melhor momento do dia de hoje.<br />(E do resto haveremos de falar depois)<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 35, quinta-feira, 16 de abril</strong><br />Saltamos este dia, pode ser?<br />Esgotei as palavras por hoje.<br />Talvez volte amanhã (ou talvez não).<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 36, sexta-feira, 17 de abril</strong><br />O Pedro completou todas as tarefas da escola para esta semana praticamente sem ajuda. A minha ajuda principal é organizar-lhe o horário, mantê-lo sentado e concentrado (o que não é nada fácil) e de vez em quando decifrar a linguagem dos manuais - sobretudo na matemática. Para a semana, começa o António e o grande desafio da partilha do computador.<br />Como hoje é sexta-feira voltámos às nossas sessões de cinema com <em>O Atirador</em>.<br />A vida segue.<br />Um dia de cada vez.<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show">[Tenho estado muito triste esta semana, por motivos vários, uns públicos, outros privados. A vida não está toda no Facebook. Algumas coisas hão de vir parar aqui, mais tarde, outras nem por isso, como sempre. De qualquer forma, obrigado por todas as palavras. Quando estamos longe as palavras são os abraços possíveis.]</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4694952020-04-16T16:31:00Ode aos amigos2020-04-16T15:35:59Z2020-04-16T15:37:17Z<p>Uma das coisas boas desta quarentena: os amigos.</p>
<p>Os que mandam mensagens, os que telefonam, os que me lêem, os que me ouvem, os que comentam, os que fazem like, os que mandam corações, os que se preocupam, os que perdoam as minhas tantas falhas, os que me aturam, os que me amam, os que eu amo, os que se lembram, os que me conhecem o suficiente para ler nas minhas entrelinhas, os que não dizem nada mas não faz mal porque nos entendemos assim mesmo e porque, algo que não sei explicar, os amigos verdadeiros gostam-se até nos silêncios e nas ausências. Os que vou ter prazer em reencontrar e abraçar. E apertar com muita força para que não voltem a ficar distantes. Aqueles com quem me vou sentar a conversar conversas inacabáveis. Os que irão dançar comigo. Aqueles com quem quero sentar-me a ver o mar.</p>
<p>Nunca poderei agradecer suficientemente aos meus amigos, todos eles, os antigos e os mais recentes, por, cada um à sua maneira, me salvarem, muitas vezes sem sequer saberem. </p>
<p>E ainda: aproveitar o vírus para descartar da minha vida, sem sentimentos de culpa, as poucas pessoas a que, por engano, chamava amigos, mas que estão longe de o ser. </p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/aygY5OqMuKE?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><em>All My Friends</em>, LCD Soundsystem</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;">("If I could see all my friends tonight")</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4701072020-04-16T11:16:00"In your living the hope of my lasting"2020-04-16T10:26:55Z2020-04-16T10:27:53Z<p>Antes de morrer, e sabendo bem o que a esperava, a médica e cientista Maria de Sousa (1939-2020) escreveu um poema em inglês. O também poeta João Luís Barreto Guimarães fez uma <a href="https://www.dn.pt/pais/mas-antes-de-morrer-quero-que-saibam-o-quanto-gosto-de-vos-o-poema-do-adeus-da-imunologista-maria-de-sousa-12077181.html" target="_blank" rel="noopener">tradução</a>, mas eu prefiro a versão original (porque odeio o pronome <em>vós</em> e todas as suas conjugações verbais, é tão mais bonita a simplicidade do <em>you</em>). Um poema sobre a morte e sobre todas as pequenas-grandes coisas que levamos desta vida (e que deixamos nesta vida). Os risos. Os momentos. As nossas pessoas. Caramba. Tão triste e tão belo.</p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 627px; padding: 10px 10px;" title="92951845_10219387804798223_2128614641192927232_n.j" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B2e18d28d/21770355_9hMtv.jpeg" alt="92951845_10219387804798223_2128614641192927232_n.j" width="627" height="720" /></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4698452020-04-12T09:37:00Mandar a tristeza embora2020-04-12T09:03:05Z2020-04-12T09:03:05Z<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/E4wYYLgHBW4?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">Ora vejam só esta maravilha: <em>Please Don't Talk About Me When I'm Gone, </em>tema de 1930 que talvez conheçam nas vozes de Ella Fitzgerald ou Dean Martin, aqui interpretado pela <a href="https://24robbers.com/" target="_blank" rel="noopener">24 Robbers Swing Band</a> e dançado por vários <em>lindy hopers </em>em confinamento por esse Portugal fora. Pura alegria. Não há depressão que resista a isto, pois não?</p>
<p>A Ana Isabel, que eu não conheço mas que costuma ler a Gata, mandou-me este vídeo porque sabe que eu gosto de dançar. O que ela não sabe é que eu acho isto mesmo fixe e ando há uns três anos a ganhar coragem para me inscrever nas aulas de <em>lindy hop</em> mas a falta de tempo e a falta de jeito para cumprir coreografias e dançar em pares tem sido mais forte. Não posso prometer que <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/o-que-vais-fazer-quando-isto-terminar-468722" target="_blank" rel="noopener">quando isto tudo terminar</a> vou aprender <em>lindy hop</em> porque não gosto de prometer coisas que provavelmente não vou cumprir, mas vou pedir à Rute, minha amiga <em>lindy hoper</em>, para não me deixar dizer que não da próxima vez que me desafiar para um bailarico.</p>
<p>Boa Páscoa.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4696252020-04-12T09:14:00Diário de uma náufraga (V)2020-04-12T08:26:57Z2020-04-18T08:37:38Z<p><strong>Dia 25, segunda-feira, 6 de abril</strong><br />Um dia sem pressas.<br />Já temos um método para limpar a casa: o António aspira, o Pedro limpa o pó e eu faço o resto. Não é muito justo mas já é qualquer coisa.<br />Fui ao Continente. Tenho feito as compras todas aqui perto de casa mas estava a precisar de um reabastacimento como deve ser. Quase me engasguei quando vi o total da conta - é impressão minha ou os supermercados estão a carregar nos preços?<br />Comprei um bocadinho de tecido 100% algodão por oito euros pa<span class="text_exposed_show">ra experimentar fazer duas máscaras. A primeira não ficou perfeita mas já percebi como se faz. Mais difícil vai ser aprender a respirar sem embaciar os óculos.<br />O filme de hoje foi <em>Collide - Em Alta Velocidade</em>. Era tão mau que nem sequer os miúdos gostaram.<br />Ainda bem que amanhã é domingo.</span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 26, terça-feira, 7 de abril</strong><br />O António divertiu-se a escortinhar o cabelo e a seguir encomendámos uma máquina da Worten. Isto promete.<br />Um passeio no "campo" com o mais novo. Foi tão bom que quase nos esquecemos do vírus.<br />Crepes com Nutella para celebrar o domingo.<br />O Pedro começou a fazer os trabalhos de ciências (e são imensos).<br />Tenho mais uma máscara quase pronta mas não tenho vontade nenhuma de a usar.</span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 27, quarta-feira, 8 de abril</strong><br />As segundas-feiras são sempre complicadas.<br />A coisa mais interessante que fiz hoje foi um empadão com os restos das carnes dos últimos dias.<br /></span><span class="text_exposed_show">E também paguei o imposto automóvel, o que me custou mais do que habitualmente uma vez que no último mês devo ter feito apenas umas três mini-viagens de carro e não me parece que o panorama vá melhorar nos próximos tempos...<br />Sobre o filme que vimos hoje: não sabia que tinham feito tantas "academias de polícia". É absolutamente incompreensível.<br />E, no entanto, como dizê-lo?, não foi um dia mau de todo.<br />A sério.<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 28, quinta-feira, 9 de abril</strong><br />Hoje um dos nossos vizinhos das traseiras caiu da varanda e morreu. Estava à procura das palavras certas para dizer isto, mas não encontro melhores do que estas. Um homem, já não muito novo, caiu. Ou atirou-se, não sei. Não sei de que prédio nem de que andar. Estava morto, estendido num dos terraços. Não tinha sapatos. Nem uma gota de sangue. Não percebo como terá caído. Custa-me imaginar que se tenha atirado. Estaria sozinho? Que desespero o atormentava? Eu e os outros vizinhos às janelas, todos a ligar para o INEM sabendo que de nada adiantaria. E, depois de confirmada a morte, o corpo tapado com uma manta dourada, brilhante, ali ficou durante três horas, guardado por um polícia. Até que finalmente tudo desapareceu. Alguém limpou o terraço. E, no entanto, quando vou à janela, não consigo parar de olhar para aquele lugar.<br />Porra de dia.<br />Porra de quarentena.<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show">[soube, entretanto, pelos vizinhos, que se tratou efectivamente de um queda voluntária]</span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 29, sexta-feira, 10 de abril</strong><br />Tinha trabalho para acabar. </span><span class="text_exposed_show">Depois limpei o forno. Fiz bolachas com chocolate. Estudei a fotossíntese com o Pedro. Fui caminhar e o Pedro levou a bicicleta. Já nos habituámos a deixar os sapatos do lado de fora da porta. Tirei o bigode. Comecei a ver a série <em>The Unorthodox</em> na Netflix enquanto os putos jogavam à bola lá em baixo. "Não era suposto não comermos carne?", perguntou o António quando viu os hambúrgueres. Estive 30 minutos ao telefone com a minha irmã. Adormeci a ver o <em>Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal</em>.<br />Há dias maus e depois há dias assim.<br />Seguimos.<br /></span></p>
<p><span class="text_exposed_show"><strong>Dia 30, sábado, 11 de abril</strong><br />Aquela sensação boa de parecer domingo mas ainda só ser sabado. <br />Acabei de ver a série. Passei a ferro. Estudei matemática com o Pedro (adivinham-se dias difíceis à nossa frente). Depois fomos os dois passear. Estive meia hora na fila para entrar no Pingo Doce. Os putos foram jogar à bola. Tirei os pelos das pernas (já faltou mais para me pôr a cortar o cabelo). Fiz folar. Estive agora mesmo a lambuzar-me com fatias fumegantes de folar com manteiga enquanto finjo que vejo <em>O Planeta dos Macacos - a revolta</em> (odeio estes filmes dos macacos, acho que vou ter pesadelos).<br />Mas o melhor do dia de hoje: entre telefonemas, mensagens, videochamadas e gente que encontrei na rua, conversei com tantas pessoas boas. Obrigado.<br /></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4691542020-04-08T15:39:00O que vais fazer quando isto terminar (2)?2020-04-08T14:51:14Z2020-04-08T14:56:41Z<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/M1F0lBnsnkE?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">Esta montagem da música <em>Uptown Funk</em>, de Mark Ronson, com imagens de gente a dançar em filmes antigos não é nova mas parece ter sido feita para o dia de hoje.</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">Tenho tantas saudades de bambolear uma noite inteira com uma grupeta de gente fixe.</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: left;">Ainda sobre a mania de dançar, podem ver <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/estamos-a-precisar-disto-2-432295" target="_blank" rel="noopener">ISTO </a>e <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/de-outra-forma-estaremos-perdidos-417719" target="_blank" rel="noopener">ISTO</a>. </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4688242020-04-07T09:59:00Os filmes da quarentena2020-04-07T09:38:47Z2020-04-07T09:38:47Z<p>Várias pessoas têm comentado a nossa "peculiar" (chamemos-lhe assim) selecção cinematográfica durante a quarentena. Na verdade, embora não pareça, isto tudo nasce de um daqueles típicos sentimentos de culpa de mãe. Como os putos passam o dia inteiro entregues à playstation e ao telemóvel, eu instituí uma regra que é: depois de jantar não há jogos para ninguém e vemos televisão juntos - o que, não sendo bom (eu sei, eu sei), sempre dá para variar um bocadinho. Esta regra é sobretudo para o Pedro, que é mais novo, e por isso é ele que escolhe os filmes, de entre os que estão disponíveis nos muitos canais que temos. É por isso que um dia sai um filme de animação e noutro uma xaropada de tiros. O António fica ali no sofá a ver cenas no telemóvel e se o filme lhe interessar acaba por se juntar a nós. E eu, que bem preferia estar a ver alguma coisa melhor, lá tenho que gramar o <em>Robocob</em> e o <em>Segurança do Shopping</em>, sem pegar no telefone (é a regra, só nos intervalos) e fazendo comentários e tal que é para fazer disto uma "actividade em família". Isto, se não adormecer pelo meio, claro.</p>
<p>Claro que eu podia escolher uns filmes melhores mas... não me apetece. A vida já está tão complicada como está. Quando aterro no sofá só quero mesmo não pensar em nada.</p>
<p>Agora a sério, os filmes têm sido péssimos mas até têm sido uns serões bem fixes.</p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:agatachristie:4687222020-04-07T09:34:00O que vais fazer quando isto terminar?2020-04-07T08:35:49Z2020-04-07T08:35:49Z<p>(<em>Spoiler alert</em>: se não viram o <a href="https://agatachristie.blogs.sapo.pt/and-the-winner-is-463298" target="_blank" rel="noopener"><em>Jojo Rabbit</em> </a>não vejam este post. E vão ver o filme que vale muito a pena)</p>
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<p>O que vais fazer quando isto terminar e puderes, finalmente, sair de casa?<br />Tanta coisa. Mas seguramente isto: dançar.</p>
<p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/BfL5V3WHhqM?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>